SEMINÁRIOS INTERNACIONAIS DE MÚSICA

H.J.Koellreutter

[30 de Julho de 1954] Exemplar datilografado (03p.)

[Saudações

Encerrando os Primeiros Seminários Internacionais de Música da Universidade da Bahia, devo agradecer em primeiro lugar, aos meus colegas e colaboradores, a eficiência e notável atuação durante os trabalhos dos cursos cujo alcance cultural repercutiu em todo o país e no estrangeiro.

É com imensa satisfação que constato o êxito desta iniciativa cultural, êxito que ultrapassou todas as expectativas. É que a juventude da Bahia tomou em suas mãos a solução dos problemas de sua educação artística, reagindo categoricamente contra a mediocridade, o abandono, a inércia e a indiferença, lotando virtualmente as instalações dos Seminários. É que a juventude da Bahia, que com entusiasmo durante as últimas cinco semanas, participou dos trabalhos dos Seminários Internacionais de Música-Bahia, reclama seus direitos: não há motivo para que uma cidade como Salvador ainda careça dos meios educacionais que se encontram à disposição dos jovens nas grandes capitais brasileiras e do movimento cultural que enriquece a vida metrópoles de São Paulo e Rio de Janeiro. Tomando posição diante dos problemas educacionais, os mais graves, que exigem uma solução imediata em nosso país, a juventude baiana, mais uma vez, pôs-se na vanguarda, levando à Universidade deste Estado sua solidariedade incondicional e apoiando integralmente a extraordinária iniciativa dos. Seminários. Mais de 200 estudantes de Música freqüentaram diariamente os cursos e realizaram trabalhos que certamente não tem igual na história da educação artística do Brasil.

Tenho certeza de que os Seminários Internacionais de Música-Bahia, não apenas constituíra mum marco na vida cultural da Bahia, mas, também, contribuíram decisivamente para a solução de um dos mais sérios problemas do nosso país.

O êxito desta iniciativa, no entanto, não nos permite descansar nos louros da vitória.

Compreendemos o apelo que a juventude da Bahia e, de todo o norte, dirigiu-nos através de sua integral adesão a este grande empreendimento educacional. Compreendemos que algo de fundamental terá de ser realizado para que essa juventude disponha, futuramente, dos meios indispensáveis para a eficiência profissional na vida moderna. Compreendemos a vontade dos jovens de romper as algemas que ainda os prendem e de reagir contra os métodos obtusos de uma educação artística anacrônica e deficiente.

Compreendemos o grito de liberdade de todos esses jovens, condenados, por força das circunstâncias, à ignorância e incompetência. Sabemos por outro lado que não adianta apontar defeitos, clamar contra a inércia das autoridades e da burocracia, contra a decadência da arte. Sabemos que é preciso agir, remontar às causas e dar aos nossos jovens o que lhes assegura de direito.

O encerramento dos Seminários Internacionais de Música-Bahia, constituirá, portanto, a pedra fundamental do Setor Universitário de Música, que imediatamente iniciará suas atividades, garantindo assim aos jovens da Bahia a continuidade do trabalho ora iniciado.

Graças ao espírito realizador e à larga visão do Dr.Edgar Santos, Ministro da Educação e Cultura e do Dr.Orlando Gomes, Magnífico Reitor da Universidade da Bahia, iniciaremos a primeiro de Setembro a execução de um importante plano educacional que visa a criação de um estabelecimento de ensino musical subordinado a Universidade da Bahia, estabelecimento que não terá semelhante em todo o continente latino-americano.

Proporcionaremos aos nossos estudantes um ensino de alto nível e um centro de estudos, onde o jovem poderá alcançar uma formação artístico-musical de sólidos conhecimentos correlatos. Tenho certeza de que em menos de cinco anos a cidade de Salvador tornar-se-á a Meca para todos os jovens brasileiros que escolheram a música como profissão. Por sua tradição cultural e por sua posição geográfica central, Salvador parece predestinada a tornar-se a sede ideal de tão importante empreendimento.

Creio que chegou a hora de acabar para sempre co o trágico isolamento cultural do norte brasileiro. Criaremos um Centro de estudos musicais do qual sairão artistas e profissionais de reconhecida competência e acabaremos definitivamente com a distribuição de diplomas a alunos que não se encontram em condições de exercer sua profissão.

Um período de transição a iniciar-se a primeiro de setembro deste ano, preparará a organização definitiva do novo Setor da Universidade.

Funcionarão a partir dessa data os cursos essenciais do estudo musical ou sejam Teoria, Solfejo, História, Estética, Harmonia e Contraponto, Composição, Piano, Violino, Música de Câmara e Análise, sendo que o setor será gradativamente ampliado de acordo com o seu desenvolvimento. Reuniremos um corpo docente permanente de reconhecido e comprovado valor e prosseguiremos convidando, como docentes hóspedes, pedagogos e mestre de renome internacional.

Criaremos uma Orquestra Universitária e iniciaremos um movimento coral, organismos destinados a proporcionar aos nossos jovens o conhecimento das grandes obras primas da literatura musical.

Criaremos ambiente orientado pelo respeito à produção artístico-intelectual de todos os tempos, um centro de estudos, pesquisas e investigações, onde cada um poderá expor suas idéias livremente, quaisquer que sejam suas tendências estéticas ou filosóficas.

Desejamos que o novo Setor da Universidade da Bahia se torne um tribuna na qual possam ser discutidos todos os problemas que preocupam o artista contemporâneo.

É chegado o momento de pensar mais, de visar mais alto, de olhar mais de perto, de observar melhor. Trata-se de ser mais humilde ante as coisas grandes da arte, de aceitá-las todas sem omissão, nem desprezo, de entrar familiarmente em sua intimidade e afetuosamente em seu modo de ser.

Resolvemos assim prosseguir na nossa obra em prol do desenvolvimento cultural do Brasil.

Sejam estas palavras ao mesmo tempo um apelo para que todos os jovens continuem serrando fileiras em torno da causa comum.

Prometemos dedicar-nos de corpo e alma à solução dos problemas da educação artística entre nós e envidar todas as nossas forças em prol deste ideal. É uma promessa e um compromisso, baseados numa indomável fé nos destinos da juventude brasileira.

COMENTÁRIO

Em meados de 1954 Koellreutter instalou os Seminários Internacionais de Música - Bahia, que logo se tornariam a Escola de Música, incorporada mais tarde à Universidade Federal daquele Estado. Fato importante como o próprio Koellreutter ressalta, mas que assume uma dimensão ainda mais significativa quando integrado ao conjunto de sua obra educacional. Inúmeros são os Seminários, Cursos, Workshops, Conferências, Festivais que contaram e contam com sua atuação e participação nas mais variadas instâncias e circunstancias. Até aí, e só isso já seria o suficiente para tê-lo na conta dos grandes e importantes. Mas há algo que o diferencia e o eleva a categoria dos imprescindíveis: Koellreutter é um modificador, um transformador.

lncômodo e impertinente para os conservadores. Instigante, desafiador, causador de perplexidades e inseguranças para tantos que se permitem questionamentos. Causa de entusiasmo, de alegria pelo encontro e pela experiência do afim para os que anseiam por novos caminhos, ou pelo caminho de retorno ao homem integral: o que pensa, sente, crê, intui e cria, logo,existe.

O texto denuncia de forma clara e sensível o que já naquela época era percebido como... "problema de nosso tempo,em seu mais profundo aspecto: a luta das forças renovadoras do espírito contra as de uma materialismo intransigente e unilateral... superação dos preceitos de um mundo limitado firmemente fundamentado nas idéias materialistas de uma filosofia racionalista e causalista"... Hoje, quando vivemos o apogeu do racionalismo instrumental da dicotomia Homem/Natureza, assistindo a Cabo os possíveis sinais de falência de nossa civilização, as palavras de Koellreutter nos trazem a força, a vitalidade, o compromisso com o ideal, que permearam toda a grande marcha artística/educacional empreendida por ele. E nessa empreitada de mais de meio século, andou semeando: "fundamentos para uma nova era"... "faculdades indispensáveis para a assimilação e o domínio dos conhecimentos"... "forças descobertas pelas ciências modernas, eternas testemunhas da unidade Universo e Humanidade"... “autêntico ensino artístico”... "ambiente de entusiasmo, de alegria, que estimule o amor pelo trabalho e pelos estudos.." "era da concretização do espírito"... "superação do contraste de crer e saber, de fé e ciência"...

Talvez a colheita não se dê na proporção adequada à semeadura. Afinal, nem todos os "solos" são igualmente férteis, ou estão preparados para receber “sementes de futuro". Não importa. O que parece realmente interessar a esse Mestre Semeador, é o gesto franco e generoso do eterno plantio, que se dá em qualquer lugar e a qualquer tempo.


Virginia Helena Bernardes, Educadora Musical e Professora de Percepção Musical na Escola de Música /UFMG.

 

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