SEMINÁRIOS INTERNACIONAIS DE MÚSICA

H.J.Koellreutter

[Salvador/BA,1954] Exemplar datilografado (04p.)

[Magnífico Reitor]

Parece-me simbólico o fato dos Primeiros Seminários Internacionais de Música, movimento cultural que ora se inicia, partirem da cidade de Salvador, cidade famosa, em toda parte do mundo, por sua tradição e riqueza de arte popular, sua arquitetura colonial e, não por último, por sua excelente Universidade.

No dia em que VS. Excia.o Magnífico Reitor, fundador e dirigente dessa afamada instituição de ensino superior, me convidou para tomar em mãos a direção artística do movimento, compreendi que estava diante de uma personalidade, que havia compreendido os graves problemas da educação -entre estes o dramático abandono cultural do Norte- e que estava decidido a resolver os mesmos por todos os meios disponíveis. Impressionado com a vontade empreendedora de VS.Excia. e convencido da urgência de serem solucionados os problemas expostos pelo Magnífico Reitor, aceitei o honroso convite, apesar dos meus inúmeros afazeres e compromissos nacionais e internacionais, pondo à disposição da Universidade os serviços da Escola Livre de Música de São Paulo, Pró-Arte, organização que vem pugnando pelos mesmos ideais e que representa hoje, o que há de mais progressista no Brasil e, provavelmente, no continente latino-americano.

Os Seminários Internacionais de Música-Bahia e todo o nosso movimento visam uma renovação do ensino musical em nosso país, num sentido moderno e atual. Visam igualá-lo ao ensino dos grandes centros culturais da Europa e dos Estados Unidos, integrando-o no conjunto do sistema educacional, assim como nos ensinaram a cultura helênica e o "Quadrivium" medieval, que aliava à arte musical as ciências da geometria, da aritmética e da astronomia. Procuraremos, portanto, nas cinco semanas que se seguirão, colocar ao alcance do estudante o mais alto nível de cultura musical possível, eliminando a nefasta tendência ao diletantismo e ao academismo estéril e infrutífero, que ainda existe entre nós, e desenvolver o aspecto humano da arte e da educação artística, procurando assim contribuir para a solução do problema educacional em nossa terra.

"L'esprit doít l'emporter, ou e' en est fait du genre humains" ("O espírito deve predominar, ou o gênero humano desaparece") são as palavras com que o grande poeta francês Paul Valéry toma posição diante do problema de nosso tempo, em seu mais profundo aspecto: a luta das forças renovadoras do espírito contra as de um materialismo intransigente e unilateral.

Neste momento de total mutação de consciência humana, momento de crise social e espiritual, de extrema gravidade -que somente encontra algo de semelhante na situação intelectual que abalou o mundo na transição da Idade Média para a Renascença-, urge dar aos jovens os necessários fundamentos espirituais e humanos, para que possam superara crise que resultou do desenvolvimento do materialismo oitocentista, e possam construir seu mundo, o mundo de amanhã.

A superação dessa crise e dos choques que dela resultam, é, entretanto, tarefa de grande alcance.Trata-se de superar os preceitos de um mundo limitado e estreito, firmemente fundamentado nas idéias materialistas de uma filosofia racionalista e causalista, e de devolver à nossa juventude os valores espirituais que pareciam perdidos e que vêm surgindo, em nosso tempo, como um fênix das ruínas de um mundo destruído.

A nossa obrigação é educar a juventude para o mundo de amanhã, e não para o de ontem. Não adianta reformar. É, necessário construir. Desenvolver e afirmar em nós as faculdades indispensáveis para a assimilação e o domínio dos conhecimentos, que provém das últimas descobertas da ciência que revolucionaram a nossa época. Não adianta reformar o que já não existe. É preciso edificar e criar os fundamentos para uma nova era, cujos aspectos sociais e culturais serão essencialmente diversos daqueles que o mundo dos nossos pais ostentava.

É necessário compreender, que o homem não é o arquiteto do futuro, como ainda muitos pensam. Ele apenas contribui para a construção do mundo de amanhã. Não me refiro aqui a um conceito místico-religioso, mas sim apenas, àquelas forças que participam da formação do Universo, forças descobertas pelas ciências modernas, eternas testemunhas da unidade de Universo e Humanidade.

Os Seminários oferecerão o ambiente propício às exigências dessa grande tarefa: um autêntico ensino artístico, baseado nos fundamentos de uma cultura geral, num programa moderno e eficiente que respeite no aluno os seus dons naturais, desenvolva sua personalidade e o conduza à procura de estilo e expressão próprias, substituirá o ensino acadêmico, baseado em fórmulas e regras que matam a força criadora e reduzem a arte a um processo.

Os Seminários constituirão um verdadeiro laboratório artístico de alunos e mestres, em cujo recinto serão livres, inteiramente livres, a opinião, as idéias e, o que é decisivo, a crítica. Sem crítica não há evolução. E em nosso corpo docente não há um único professor, que tenha receio da crítica ou das opiniões dos seus discípulos. O professor do nosso movimento é o conselheiro, o guia e, principalmente,o amigo do aluno. Consciente da relatividade de sua cultura, está sempre disposto a aprender e a enriquecer seus conhecimentos com os que confiam a ele sua formação.

Sabemos que é necessário libertar a educação e o ensino artísticos de métodos obtusos, que ainda oprimem os nossos jovens e esmagam, neles, o que possuem de melhor. A fadiga e a monotonia de exercícios conduzem à mecanização tanto dos professores quanto dos discípulos. Não é a rotina que governará os Seminários, mas sim o espírito de pesquisa e investigação, pois é indispensável que, em todo o ensino artístico se sinta o alento da criação.

Inútil a atividade daqueles professores de música, que repetem doutoral e fastidiosamente a lição, já pronunciada no ano anterior. Não há normas, nem fórmulas, nem regras que possam salvar uma obra-de-arte, na qual não vive o poder de invenção. É necessário que o aluno compreenda a importância da personalidade e da formação do caráter para o valor da atuação artística e que na criação de novas idéias reside o valor do artista.

Estudantes dos Seminários Internacionais de Música é preciso, acima de tudo, ardor e coragem. A arte é uma missão que exige entusiasmo. Assim, os Seminários procurarão criar um ambiente de entusiasmo, de alegria, que estimule o amor pelo trabalho e pelos estudos, colocando ao alcance do estudante o mais alto nível de cultura musical possível e uma apreciável soma de conhecimentos correlatos. Mais do que nunca decidem hoje, na vida profissional do artista, a cultura e a competência intelectual.

Eis o que falta à grande maioria dos nossos jovens artistas: especializados no manejo de um determinado instrumento, esquecem-se do fato de que a virtuosidade não é finalidade, mas sim um meio. Esquecem, que é a força intelectual que em última instância, valoriza a atuação virtuosística. Enfim, numa atividade, quase esportiva, de estudos mecânicos desenvolvem sua técnica -que freqüentemente chega a um grau considerável- esquecendo-se do principal: a música. Quantos jovens rnusicistas brasileiros tiveram sua carreira de concertista barrada por faltar-lhes a necessária cultura para o desenvolvimento de sutis faculdades. Cada vez mais, exige-se do artista a superação de uma estreita e limitada especialização, em benefício de uma atividade baseada numa cultura ampla e universalista.

O universalismo da cultura -estudantes dos Seminários Internacionais de Música- eis outra finalidade que deve ser atingida pelo jovem artista através dos seus estudos. A formação de uma consciência universalista artrarvés de um humanismo integrante é um dos grandes imperativos de nossa época. A nossa era é a era da concretização do espírito. E como tal, uma era de integração. Preparar os jovens para essa fase da evolução do pensamento humano, é uma das mais importantes tarefas dos Seminários e de todo o nosso movimento.

A nova estrutura da consciência humana, em formação, revelará até o último e mais profundo dualismo de caráter nacionalista, superando o contraste de "crer" e "saber", de "fé" e "ciência”. Não somente, porque, cada vez mais se descobrem até que ponto determinadas teses científicas tiveram suas raízes em condições de fé, mas também porque antíteses dessa espécie são incompatíveis com o caráter integrante da nova estrutura da consciência humana. Sabemos hoje, que até mesmo o mundo dos números e de suas leis tem apenas valor relativo a fatos materializados do mundo concebido pelo dualismo espaço-tempo. Somente “através do crer e do saber”, e não por meio de ambos, compreender-se-á toda a diafaneidade da "esfera do ser".

O universalismo da orientação cultural,a liberdade de opiniões e de crítica e um indomável desejo de conquista, de aprender, de estudar e de investigar serão os pilares do nosso trabalho comum. Neste sentido, os Seminários Internacionais de Música, que ora se iniciam, representarão um marco na vida musical e intelectual brasileira, um verdadeiro "Fórum" da música.

Terminou o tempo de os jovens ingressarem nos Conservatórios com os melhores dons de uma personalidade independente e sincera e saírem dela submetidos à rotina, despersonalizados, mesquinhos, intolerantes, perdidos para a arte. Terminou o tempo em que os alunos, em vez de consultarem a voz da sua vocação artística, de seguirem os imperativos de suas convicções, em vez de irem até onde pudessem levar, espontaneamente, suas preferências e aptidões, até o ponto em que seriam de fato artistas -terminou o tempo de se esforçarem para abafar o clamor de sua própria natureza, a fim de escutar o de um pretenso mestre.

Envidaremos todos os esforços no sentido de criar um real ambiente artístico, um centro de estudos,que ofereça aos estudantes algo de decisivo para a sua carreira.

Eis o que se propõem os Seminários Internacionais de Música.

Estudantes, acendam a chama do ideal a fim de cumprirmos a nossa missão:contribuir para o desenvolvimento cultural do Brasil e o progresso da Humanidade.

 

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