|
MÚSICA REPAROS E REFLEXÕES
H.J.Koellreutter
Exemplar datilografado com ligeiras alterações do
próprio autor (04p.). [Provavelmente escrito para os Diários Associados, São Paulo c.1944-451
A educação musical continua a ser, no Brasil, o mais sério problema do terreno da música. Apesar do trabalho incansável e eficiente de Villa-Lobos, os pais e educadores desconhecem ainda o inestimável valo reducacional e socializante das disciplinas musicais, como a música de conjunto e o canto orfeônico.
A mocidade brasileira ainda não aprendeu a fazer música, música verdadeira, cantando e tocando espontaneamente, sem pretensão alguma ou ambição qualquer.
Há ainda muito "brailowskianismo" por aí. Adoração sem crítica de um virtuosismo que não é justificável em nossa época,. As conseqüências desastrosas dessa situação são evidentes e impedem um desenvolvimento sadio e atual da vida musical no Brasil.
É por isso que as atividades educacionais deviam estar num plano superior às atividades artístico-musicais. É por isso que os Concertos para a Juventude da Orquestra Sinfônica Brasileira, iniciativa promissora, são de suma importância, de grande responsabilidade.
Assistia vários desses concertos. Mas nunca me satisfez a sua organização sob o ponto de vista pedagógico.
Os programas são apenas repetições de programas dominicais anteriores com insignificantes modificações. Ora, tal iniciativa exige um plano educacional pré-estabelecido e bem pensado, de real valor artístico. Plano este, que deve transparecer nos programas especialmente organizados para os jovens ouvintes. Só a preocupação de apresentar peças "fáceis de serem compreendidas" -como a já insuportável "Humores que"de Dvorak-, significa desceraobanal.
Não. A juventude precisa de música viva, música autêntica, música de valor estético, percorrida por um grande sopro de liberdade!
Os comentários "musicológicos" extraídos da literatura mundial sobre música são inteiramente contra producentes. Só comentários vivos, que falem diretamente ao coração e ao espírito dos jovens e que não careçam de um verdadeiro senso de humor, completarão o heróico trabalho do maestro José Siqueira. E que os programas juvenis da Orquestra Sinfônica Brasileira visem em primeiro lugar o desenvolvimento de um espírito coletivo, tão necessário à construção de uma obra! A ativação daquela mocidade que substituirá futuramente o público atual, para o qual os concertos não passam de acontecimento mundano.
Seria preferível, portanto, a escolha de programas cuja organização obedecesse à evolução dos estilos e da expressão musical, de determinados gêneros ou formas musicais. Programas com a participação ativa dos jovens ouvintes, os quais contribuiriam cantando, tocando ou batendo ritmos, perguntando ou discutindo, para que fosse estabelecido um contato mais estreito entre o autor da obra, o intérprete e o público.
Seria interessante uma reorganização completa dos Concertos da Juventude nesse sentido e aconselhável a realização mais freqüente de concursos entre os ouvintes. E -last not least- não apresentar apenas os jovens solistas, mas também os jovens compositores que, amanhã, representarão a música brasileira.
Assistimos, este mês, à primeira audição de boas obras da música brasileira contemporânea: a Orquestra Sinfônica Brasileira estreou composições sinfônicas premiadas num concurso realizado por ela; o Quadro Sinfônico, de Elza Cameu, e Impressões de uma Usina de Aço, de Cláudio Santoro, cujo sucesso -a obra foi bisada-provou, mais uma vez, que o público precisa de programa, de descrição ou, pelo menos, de associação para compreender o conteúdo de uma linguagem musical nova como a desse jovem compositor brasileiro.
A Cultura Artística -que milagre!-realizou um Festival Villa-Lobos e também a Sociedade Música de Câmara - talvez a Sociedade com os melhores programas no Rio- apresentou o Choro n° 7 e o Quarteto de Cordas n°7, do mesmo autor.
Na sociedade do Quarteto ouvimos o Quarteto de Cordas de Luiz Cosme, obra cujo conteúdo não encerra, certamente, problemas musicais de importância para a evolução da expressão ou da forma de quarteto, nem levanta novas questões estéticas de um interesse direto para a música brasileira. Não o fez, pelo menos, com a acuidade com que tais problemas e tais questões se podem formular a respeito das obras de Villa-Lobos e Cláudio Santoro. O trabalho de Luiz Cosme, porém, é, indubitavelmente, de uma grande musicalidade revelada no lirismo da sua linha melódica e na alacridade dos seus ritmos.
Na Associação Brasileira da Imprensa, o crítico e jornalista gaúcho Paulo Antônio falou sobre o folclore sul-rio-grandense. Traçou um quadro interessante dos fatores étnicos da música de sua terra. Da ausência do elemento africano-tão importante para a formação da música popular brasileira- resulta um folclore menos pitoresco, menos expressivo do que existe em outras regiões do Brasil. Na documenrtaria musical sul-rio-grandense não há, segundo Paulo Antônio, os característicos de música negra.
O musicólogo Luiz Heitor, catedrático da cadeira de folclore na Escola Nacional de Música, no entanto, ainda este ano, esteve no Rio Grande do Sul, onde colheu, na zona da Serra, material afro-brasileiro.
Realmente o folclore brasileiro constitui ainda, um vasto campo de pesquisa e exploração -não para os compositores em busca de inspiração-, mas sim para a verdadeira musicologia.
"A música do Rio Grande do Sul, não nos, oferece, por enquanto, sinais de emancipação", afirma o crítico gaúcho. "Essa arte musical não possui os seus clássicos, como ocorre na literatura com o escritor Simões Lopes Neto. De um tempo a esta parte, as veleidades regionalistas ficaram abafadas pela ânsia da unificação brasileira. Ora, o cultivo da estética regional viria apenas reforçar e ordenar as linhas dispersas desse grandioso produto histórico-social que é o Rio Grande, cuja fatalidade geográfica situa entre o Prata e o Brasil. Quanto à colonização rio-grandense, essa dependeu mais do paulista do que do português. O paulista, com um núcleo civilizador extenso e forte, percorria as plagas rio-grandenses, muito antes que a metrópole se abalançasse a conhecer essa zona de acesso difícil, hostil e disputada, e a influência do espanhol, que incursionou periodicamente, processou-se por infiltrações". Paulo Antônio dissertou com segurança e convicção sobre o palpitante tema, expondo pontos de vista pessoais baseados em profundos conhecimentos da matéria musicológica.
Finalmente, foi apresentada também no Rio, uma sinfonia do compositor soviético Dmitri Shostakovitch. A Primeira. É a obra de um compositor extremamente dotado, a qual, todavia, não corresponde à imensa propaganda que se fez desse compositor. É o trabalho de um músico que não somente tencionava demonstrar sua perfeita formação técnica (sobretudo em matéria de orquestração), senão que também era capaz de escrever uma melodia lírica larga e graciosa. Chama atenção a elegante simplicidade dos desenvolvimentos e a vivacidade dos ritmos. Mas há nela algo de velho, essencialmente conservador, acadêmico.
Essa sinfonia não revela, ainda, nenhuma personalidade, nenhuma descoberta verdadeira, seja de ordem musical, seja de ordem técnica. Cada tema, cada desenvolvimento rítmico, cada recurso técnico, cada harmonia, se bem que encantadora e de formosa escrita, recorda outra obra musical. Lembra Tchaikovsky e Wagner, Mussorgsky e Prokofieff, Scriabin e Stravinsky. Não se trata de plágio, sem dúvida. A atmosfera geral da obra é, eclética e impessoal.
A primeira Sinfonia de Shostakovitch não é a obra que se espera de um compositor da União Soviética, que tantos magníficos artistas criadores tem produzido na literatura, no teatro, no cinema e mesmo na música. Não representa, de maneira nenhuma, o espírito progressista e renovador do grande Estado Socialista.
COMENTÁRIO
Koellreutter quer, e parece ser incansável quanto a isto, que se reflita sempre sobre a educação musical que se faz num Brasil disposto a discutir sua modernidade artística. Este texto, contudo, mesmo trazendo uma série de boas e criativas sugestões para o educador musical vivivicar seu trabalho aponta, cuidadosamente, para o que ele chamou de Reparo.
Chama a atenção de Koellreutter o momento de humanidade da criação e execução musical onde a arte faceia ao mesmo tempo que sobrepõe o momento histórico, mantendo assim seu fascínio permanente e seu papel do processo de humanização social.
Para ele a música é uma linguagem cuja gênese está no fazer humano e não em um gesto divino. Ela pode, portanto, ser um instrumento de educação geral através da qual o jovem moderno se despertaria para a atividade musical libertadora, bem como para a interdependência entre sentimento e racionalidade, tecnologia e estética.
É este o reparo necessário do qual nos fala Koellreutter, sobretudo quando critica a preocupação, ainda comum entre nós, de se formar intérpretes virtuosos que muito provavelmente se apresentarão em concertos com programas que se repetem em torno de compositores e peças confortavelmente consagrados.
As categorias tradicionais da formação do músico, segundo Koellreutter, pouco incorporaram aos critérios artísticos e estéticos as transformações sociais, políticas e econômicas das sociedades e, no caso da sociedade brasileira, se tornando assim anacrônicas.
Ensinar música, portanto, é uma tarefa que extrapola os limites das escolas e conservatórios, dos programas de ensino, da metodologia e da didática, exigindo do educador a superação de conhecimentos herdados em favor da atualização permanente. Esta educação musical necessária da qual nos fala Koellreutter depende de uma vida musical que se faz enriquecer cotidianamente pelo trabalho não apenas do professor, mas do compositor, musicólogo, crítico e produtor cultural.
É nesta música viva, "percorrida por um grande sopro de liberdade", que se encontram as melhores possibilidades de se formar o músico capaz de inserir no mundo cultural de maneira globalizante e integradora.
Esta posição do autor fica clara diante da crítica que faz, neste texto, da primeira Sinfonia de Shostakovich, onde observa a permanência de algo velho e conservador em torno da técnica competente e da melodia graciosa. Koellreutter não poderia esperar que, de um contexto historico e político de transformações sociais como as vividas pela União Soviética, partisse de um dos seus mais alardeados compositores uma peça ancorada em princípios acadêmicos.
A capacidade de reflexão e de criação que representasse a renovação presente no entorno faria daquele e de qualquer outro artista um agente ativo da descoberta das suas manifestações musicais pelos demais.
Com este raciocínio Koellreutter se antecipa em colocar entre nós a questão do ser cultural local e do ser no mundo. O que ele quer é nos manter em estado de Reflexão.
Astréia Soares, Socióloga, Professora da FUMEC e Faculdades Integradas Newton Paiva (BH).
voltar
|