A IMAGEM DO MUNDO NA ESTÉTICA DE NOSSO SÉCULO

H.J.Koellreutter

Exemplar datilografado com alterações manuscritas do próprio autor(09p.)

O nosso século, o século XX, transformou radicalmente a imagem do mundo, evento este ainda não assimilado por uma grande parte da humanidade.

Os conceitos tradicionais, dualistas, as contrariedades matéria e energia, espaço e tempo, os conceitos de objetos isolados e independentes, de causa e efeito em que o efeito é previsível ou pressentido, perderam seus significado. Tivemos que aprender que aquilo que chamamos de nossa realidade (com "r" minúsculo) não é. de fato, nossa realidade. Tivemos que aprender que a nossa verdadeira Realidade (acom "R" maiúsculo) é um universo dinâmico e inseparável, em que o homem desempenha um papel importante e determinante, influenciando continuamente as propriedades desse mesmo universo e tornando-se, cada vez mais, consciente de que a verdade é inacessível ao homem.

Em 1924.o físico francês Louis de Broglie,compreendendo que a luz é, ao mesmo tempo, onda e corpúscula, isto é, energia e, ao mesmo tempo, matéria, abriu caminho à descoberta da natureza dupla das partículas do mundo microfísico e revelou uma realidade, a nossa Realidade (com "R" maiúsculo), que transcende a linguagem e o raciocínio, unificando os conceitos que, até agora,se afiguravam opostos e irreconciliáveis.

A descoberta de Broglie e a formulação pelos físicos Schrödinger e Heisenberg derrubaram uma lei, válida não somente a partir da Renascença, mas, de fato: desde os primeiros dias do pensar ocidental, representado por Sócrates e Platão. Refiro-me à lei do dualismo, ou seja, modo de pensar e raciocinar que tem por base a existência de conceitos duais ou contrários, interpretados como opostos e antagônicos, que se excluem mutuamente, assim como, por exemplo, belo e feio, bem e mal, matéria e espírito, rnente e corpo, vida e morte, imanência e transcendência.

Assim, também a música e as artes tradicionais em geral -reflexos da imagem válida do mundo na época em quê surgiram, ou melhor, produtos de nível de consciência predominante em nossa cultura até o século XX -basearam-se em conceitos opostos. Refiro-me à música e às artes dos estilos do barroco, do rococó, do classicismo e do romantismo.

Ainda hoje, mais de setenta anos depois da descoberta de Broglie, música e apreciada, analisada e estudada em termos dos modos maior e menor, contraponto e harmonia, consonância e dissonância, tempo forte e fraco, primeiro tema e segundo tema, por exemplo.

No entanto, à medida que caminhamos, cada vez mais, para a descoberta do mundo microfísico, do mundo infinitamente pequeno, em que as partículas são destrutíveis e ao mesmo tempo, indestrutíveis, em que a matéria é, igualmente contínua e descontínua, animada e inanimada em que energia e matéria não passam de aspectos diferentes de um mesmo fenômeno, todos esses conceitos clássicos, dualisticamente opostos, são ultrapassados.

Visando chegar a uma compreensão mais adequada dessa relação entre pares de conceitos clássicos, o físico dinamarquês Niels Bhor introduziu a noção da completaridade, ou seja, duas descrições complementares da mesma Realidade. Essa noção de complementaridade tornou-se parte essencial da maneira pela qual cientistas e artistas pensam hoje acerca da natureza. Niels Bohr, condecorado em reconhecimento pelas suas grandes contribuições à ciência e à vida cultural dinamarquesa, escolheu, para seu escudo de armas, a inscrição "Contraria sunt complementa", ou seja, os contrários são complementares.

Uma vez que critérios, conceitos e valores se acham reduzidos ao papel subjetivo dos elementos da linguagem que um determinado compositor ou artista utiliza em uma obra para descrever a realidade dele -estética e intelectual, naturalmente-, todas as obras de arte apresentam aspectos diferentes e, em última análise, representam uma realidade, por assim dizer "mítica", ou seja, uma forma imaginativa de pensamento, oposta à do pensamento racional. Por arte entendo uma atividade que supõe a criação de sensações, emoções e estados de espírito, em geral de caráter estético e, portanto, até um certo ponto de caráter místico;-estados de espírito mesclados com processos sensoriais conscientes que proporcionam ao ser humano o conhecimento e a vivência do mundo exterior.

O homem não pode desempenhar o papel de um observador objetivo, distanciado e relativamente passivo, porque torna-se forçosamente envolvido em tudo que cria, mas também em tudo que aprecia e julga. Deste modo, a obra-de-arte deve ser considerada como apenas aproximada, necessariamente imprecisa e até paradoxal, tornando-se parte do mundo simbólico de uma espécie de mito.

Acontece que o conteúdo de uma obra musical p.e. nunca pode ser assimilado pela simples audição, mas sim, somente através da plena participação, da participação ativa e "co-criadora" por assim dizer, do ouvinte. Acontece que o conteúdo de uma obra musical é alcançado em um estado de consciência, em que a individualidade do homem se dissolve em uma unidade indiferenciada, e em que o mundo real, o mundo dos sentidos é transcendido.

Desse modo, a obra musical, assim como toda a obra-de-arte, deveria ser considerada como manifestação do mundo simbólico de um mito. Porque, como este, não é subjetiva, nem objetiva, mas sim, onijetiva. Manifestar-se misticamente significa revelar, simbolizar o real e o irreal, o dito e o não-dito, som e silêncio. É tornar audível o que a alma sente e vive. É afirmação e depoimento. É negação e afirmação, aceitação e recusa. Eu diria: O mito.neste sentido deve ser considerado a obra-de-arte mais perfeita, mais íntegra e mais completa que o homem jamais criou. Porque transcende o dualismo e integra os opostos em um todo. Porque funde iminência e transcendência

No mito, o dito revela e valoriza o não-dito, e o não-dito revela e valoriza o dito. Na música, de fato, o que soa não é importante, quando não se levar em consideração aquilo que não soa. É o som que revela e valoriza o silêncio, e é o silêncio que revela e valoriza o som.

O que, na música moderna, se chama de silêncio, não se deve confundir com a pausa tradicional. Esta, também ausência de som, no entanto, é parte objetiva da estrutura formal, articulando e separando frases e motivos. Não é meio de expressão, feito o silêncio, o qual tem de ser vivido subjetivamente e interpretado como tal, causando expectativa e tensão.

Assim como bem e mal ,prazer e dor, vida e morte não constituem experiências absolutas que pertencem a categorias diferentes, mas, em vez disso, são simplesmente dois lados de uma mesma realidade, partes extremas de único todo, a estética da música de nosso tempo considerada também partes de um único todo. A consciência de que todos os contrários, aparentemente opostos, são partes complementares que formam um todo, devendo ser entendidas como tais, é a idéia fundamental da nova filosofia da arte.

É evidente que, nesse contexto, não se entende por silêncio apenas a ausência de som. Silêncio, na estética relativista do impreciso e paradoxal, é também índice alto de redundância, de elementos que se repetem, reverbação, simplicidade e austeridade, delineamento em lugar de definição, e, não por último,mas principaÌmente, monotonia.

Napoleão Bonaparte, respondendo a uma pergunta, porque se identifica tanto com o compositor italiano Giovanni Paisiello, cuja música era considerada, naquele tempo, por extremamente monótona, escreveu a seguinte citação: "Eu amo essa música intensamente. Ela é monótona. É verdade. Mas somente o que é monótono, comove a gente verdadeiramente" (final da citação).

Tudo que causa expectativa, serenidade, tranqüilidade, reflexão intensa,concentração, equilíbrio e estabilidade mental e emocional, é silêncio em termos de nova estética.Tudo, enfim, que desvia a atenção do ouvinte da vivência daquilo que não soa, oferecendo espaço para o espiritual se desenvolver.

A estética moderna abandona a distinção tradicional entre som e silêncio. Pois, o som não pode ser separado do espaço, aparentemente vazio, em que ele ocorre. Da mesma forma como as partículas não podem ser separadas do espaço que as circunda.

É o som -não podendo ser considerado como entidade isolada- que determina e define a estrutura do espaço do silêncio. Porque tem que ser compreendido como condensação parcial de um campo sonoro contínuo e omnipresente, presente por toda a parte. O silêncio deve ser considerado como fundo gerador de todos os sons e suas interações mútuas. O aparecimento e desaparecimento de sons, por seu lado, deve compreendido como formas de movimento desse mesmo campo e, se quiserem, de um holomovimento.

A unificação dos conceitos, aparentemente opostos, som e silêncio, na estética relativista do impreciso e paradoxal, destrói, forçosamente, a noção tradicional de signos musicais isolados.Os signos sonoros da partitura tradicional, através da produção musical dos últimos trinta anos, dissolveram-se, cada vez mais, em padrões de probabilidade. Deixam de representar "padrões" de som e de silêncio, para representaram "probabilidade de interconexões."

Uma análise fenomenológica de música, tradicional ou moderna ou popular, mostra que os signos sonoros, em última instância, sempre careciam de sentido como elementos isolados e sempre tinham que ser entendidos como interconexões ou correlações entre vários processos de percepção e julgamento. A ênfase, no entanto, na mudança de função dos signos sonoros na partitura moderna e na transformação dos mesmos em relações e relacionamentos sem dúvida, terá implicações de longo alcance na estética e arte musical como um todo; pois, representa uma reviravolta muito maior na sintaxe da linguagem musical do que a causada por dodecafonismo ou serialismo, por exemplo, princípios estes estruturais, que deixaram intactos os fundamentos estéticos da composição musical.

Esta filosofia, naturalmente, pressupõe um novo intérprete da obra musical, um novo ouvinte, um novo homem, não reduzido a fragmentos, não dividido, livre do ego,que não percebe partes, mas realiza e assimila a inteireza da existência humana, pelo espírito e intelecto, e o diáfano anterior à origem, transluzindo o todo.

Talvez tudo isso seja mito também: a unificação de conceitos duais, que até agora, se afiguravam opostos e irreconciliáveis, a unificação dos mesmos, tornando-se uma das características mais notáveis de uma nova Realidade, para cuja conscientização contribuem a estética e a arte musical de nosso tempo.

COMENTÁRIO

título: Apologia de h.j.

a) você já percebeu que seu relógio de pulso anda mais lentamente em santos do que em Campos de Jordão? se você já percebeu isso, já reparou também que seu corpo envelhece menos quando você faz uma viagem de avião para o oriente.

b) milhares de estímulos nos atingem a todo instante. fomos dotados de um cérebro que faz um recorte desses estímulos. percebemos faixas: no espectro de cores, o que não vemos é chamado de infravermelho e ultravioleta; no dos sons, o que não ouvimos, infra-som e ultra-som. em nós, habitualmente, "o manejo de um fluxo contínuo de informações pode ser simplificado separando-se informações em peças menores, mais manejáveis, e organizando-as em um sistema coerente” nosso cérebro “separa os estímulos recebidos em agregados, que são então rotulados de `objetos' e os organiza em um modo perceptual de espaço e tempo"(1). uma das missões das modalidades perceptivas que se desenvolveram em nosso cérebro "era interpor-se entre o estímulo e a resposta para permitir a evolução de outras respostas que não fossem reflexas".(2)

a') você provavelmente não percebeu nada daquilo porque, em ambos os casos, seu relógio andaria mais devagar em santos e você envelhereceria menos viajando de avião na razão de alguns bilionésimosde segundo.

c) símbolo -do grego sym e balein, lançar conjuntamente.

b') no decorrer dos séculos fomos estabelecendo bolhas discursivas que se interpõem tanto entre o estímulo e nossa percepção, como entre nossa percepção e nossa reação ao estímulo. essas bolhas são, portanto, recortes da realidade que fisiologicamente podemos perceber -realidade esta que já é um recorte de todo o espectro do possível físico. pelas minhas contas, essas bolhas discursivas já são uma representação de terceira mão do real. que real? aquele que está dentro de nossa faixa fisiologicamente perceptível. entre outras bolhas estão as grandes arquiteturas simbólicas da humanidade: a linguagem, o mito, a arte, a religião e (não espalhe...) a ciência. fica estabelecido, provisóriamente, que nos relacionamos apenas simbólica e tangencialmente com o "real" (aquele 1á ...)

c') chuang tzu -filósofo taoísta chinês do século IIIa.c.

gertrude stein - escritora e poetisa norte-americana, 1874 - 1946.

a + b) duas questões pertinentes são: saber em que medida nós nos deixamos paralisar por aquelas bolhas discursivas e até que ponto podemos transformar nossa percepção através de um reconhecimento somente intelectual de conceitos estranhos ao senso comum (eu ia dizer ordinário...) tais como os divulgados pela física moderna ou por escolas esotéricas: "a bifurcação da realidade em sujeito e objeto é o trabalho do intelecto. quando não há tal trabalho, a vida é um todo completo, sem divisão dentro dela". (3) a resposta ao impasse vai se revelar no padrão de nosso relacionamento com o desconhecido: ou criamos uma nova bolha ou, ao contrário, tentamos estourá-la. geralmente não acreditamos ser possível sair da bolha. deixamos que ela opere por nós. "o objetivo das palavras é transmitir as idéias. quando estas são apreendidas, as palavras são esquecidas”. (4) ou, dito de maneira um pouco mais dramática: "a linguagem como coisa real não e imitação nem de sons nem de cores nem de emoções; ela é uma recreação intelectual e não pode existir nenhuma dúvida sobre isso; e continuará a ser assim enquanto a humanidade existir.(5)

h.j. a coragem de se confrontar com as questões básicas que, de tão básicas, nem chegam a ser percebidas por outros. ela falado solo sob nossos pés. h.j. não receia em esaiar respostas, mesmo que provisórias, mesmo que contraditórias. h.j. tem o prazer sádico e saudável de instilar a dúvida. sua incompletude é a grandeza de sua busca. o velho ditado dos nômades norte africanos:a meta é o caminho. h.j. insiste em nos alertar que o solo que cremos tão firme sob os nossos pés nada mais é que um pântano -uma ou várias daquelas bolhas discursivas- e nossos passos nem mesmo serão dados se não estivermos profundamente imbuídos de uma necessidade de busca e liberação.

uma de suas saborosas contradições é a desvalorização dos paradigmas físicos anteriores à teoria da relatividade e uma espécie de otimismo em relação às suposições de nova física, como se estas pudessem por si mesmas transformar nossa percepção do mundo e a nossa produção artística do século XX. h.j. estabelece um neo-racionalismo que é contraposto a uma tendência de suplantação a lógica dos opostos. esta é encontrada em uma esfera mística. essa especulação, aliás, sempre foi um terreno fértil para seus detratores: os "bolhas" de plantão não cansam de falar em charlatanismo. mas,apesar e muito acima disso a plenitude de h.j.aí se revela: em um discurso afirmativo e simultaneamente instigante ao questionamento. missão cumprida para quem quer complementarizar os opostos.

notas:

(1) szamosi,géza - tempo& espaço --as dimensões gêmeas, rio de janeiro, jorge zahar editor, 1988, p.42.

(2) ibidem, p.47.

(3) suzuki, d.t. - viver através do zen, - riodejaneiro, zahar editores, 1977, p.101.

(4) merton, thomas -a via de chuang tzu, petrópolis, editora vozes,1969,p.196.

(5) gertrude stein, apud: brockman, john - einstein, gertrude stein, wittgenstein e frankenstein -reinventando o universo, são paulo, companhia dasletras,1988, p.99.


Marcos Mesquita, Compositor e Professor Convidado da Escola de Música da UFMG

 

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