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FUNDAMENTOS DE UMA ESTÉTICA MATERIALISTA DA MÚSICA
H.J.Koellreutter
[Exemplar original em italiano, Veneza l948 (26p.)] Tradução de Marco Antonio Drummond(11p.).
Nenhuma ciência está tão sujeita à influência da metafísica como a estética, e de modo particular à estética musical. Desde Platão até nossos dias, se considera a arte uma espécie de religião, e ainda hoje se tem a música de concertos como "arte divina","infinito astral"e "gênio sobrenatural" e outras coisas do gênero. Uma grande parte dos assim chamados musicólogos, estão de acordo em afirmar que a música é um mistério, que é uma coisa essencialmente da existência íntima dos indivíduos. Afirmam que o compositor está fora de seu tempo e do espaço, além do limite das forças que atuam sobre os outros homens.
Assim escreve o musicólogo Gilman.'"O estranho poder da música de Debussy, provém da vida invisível da alma, do sonho dentro do sonho".
Também alguns compositores demonstram em seus pensamentos a influência de tal doutrina. Stravinsky,em sua autobiografia "Crônica de minha vida". escreve:
"A música é feita, com o único fim de estabelecer uma ordem nas coisas... Obtida esta ordem..., é esta que produz em nós uma única emoção que anula o que há de comum em nossa sensação ordinária, e também não corresponde às impressões de nossa vida cotidiana".
Ouçam, por exemplo, o incrível comentário do famoso musicólogo e regente norte americano Walter Damrosch:"O fato de, tanto Schubert que sempre.foi pobre, quanto Mendelssohn que era rico, terem escrito ambos uma bela música, é uma prova de que os gênios são muito pouco dependentes de sua condição material de existência".
Tais observações ainda podem ser lidas geralmente nas sessões de arte dos nossos jornais. Ainda ontem, li em uma "História da Música" a seguinte frase:"A música é uma brisa que passa, uma suave ondulação dos ares"..., e mais a frente: "A música tem a reminiscência mais divina do ser humano". Estes conceitos idealistas encontram sua máxima expressão no conceito absoluto do "Belo Ideal",protótipo imutável e divino das coisas, e do qual se procede uma arte errada e longe da realidade.
Senhoras e senhores,a arte é uma coisa real. É um resultado natural do organismo humano e constitui-se uma forma de atividade mental,que emana da necessidade do homem de exprimir-se, de comunicar-se. A arte é um meio legítimo de expressão e de comunicação, fato este que deve ser bem intenso em seu significado mais profundo e em suas conseqüências.
Desejo explicar-me melhor: Cada arte exprime e descreve qualquer coisa. Bem entendido, que cada arte tem um modo seu de expressão. A música, utilizando a infinita multiplicidade dos sons, exprime idéias puramente musicais, mas, não obstante, tais idéias surgem da mesma fonte, fonte esta que atinge as outras artes. e com estas se envolve e se desenvolve.
O homem como todos os seres viventes, possui desde a sua origem dois meios de expressão para manifestar a dor e a alegria: O grito e o gesto. Desenvolve-se assim, desde o início a faculdade de produzir som e forma, condições materiais e elementares para todas as artes.
E desta faculdade (de produzir som e forma) que provêm as linguagens, quer seja a falada ou a escrita. Estas linguagens, todavia, em virtude da evolução social, se separaram para satisfazer em melhor à necessidade desta progressiva transformação. A atividade intelectual necessária ao uso de todos os instrumentos ágeis e fáceis de manejar, criou para seu uso,um complexo de signos particulares falados e escritos, mais ou menos convencionais, a palavra que constituíram e o alfabeto. As impressões da vida sensível, encontraram sua expressão em categorias de signos, onde a convenção ocupa menor importância, e que tem como principal característica a descoberta das sensações, dos sentimentos para a produção, das imagens e dos sons e que, agiram para os mesmos, tanto diretamente quanto possível, os seus sensos.
Está nisto o verdadeiro caráter da arte.
Devido ao progresso e às maiores análises intelectuais, se liberou espontaneamente e evidente a linguagem falada e escrita dos temas primitivos, com os quais, no início se confundem a música, a poesia de um lado e do outro, a escultura, a pintura e a arquitetura.
Formaram-se grupos que se distinguem naturalmente:
1º -Pela natureza dos meios de expressão, que se relaciona à vista e ao ouvido.
2º -Pela diferença em sua forma primitiva, isto é, a linguagem falada e a linguagem escrita.
3°- Pela diversidade das exigências intelectuais, às quais especificamente corresponderam -o movimento e a estática-, expressão da qual é o ritmo e a proporção.Enfim, pela variedade de suas relações com a idéia de tempo -sucessão e simultaneidade.
Repito: Como meio de expressão originado da linguagem falada e escrita, a arte exprime e descreve alguma coisa.
A arte, todavia, não só exprime o pensamento de uma época, de uma sociedade ou de uma classe social, mas, também, sintetiza os sentimentos e pensamentos que se traduzem em forma artística, através de sons, gestos e outros meios.
Socializando os sentimentos, a arte torna-se um meio de comunicação de grande eficiência, (predestinada às difusões de ideais ideológicos).
Me explico melhor: o público de uma obra musical que exprime uma determinada disposição de ânimo estará predisposto coletivamente a sentir-se dominado por um sentimento comum. O Sentimento e a idéia do artista se reproduzem no público,
o transformam e o influenciam. E eis que temos um estado psíquico que está socializado.
Se entende agora bem de que se consiste a arte.Uma sistematização de sentimentos e pensamentos traduzidos na linguagem da forma plástica ou sonora. A função diretriz da arte consiste no socializar, transmitir e disseminar estes sentimentos (e pensamentos) na sociedade.
Este conceito conduz o artista a uma grande responsabilidade: Ao emprego utilitário deste meio de expressão, deste veículo de idéias, deste meio de comunicação e de socialização que se chama arte.
A obra de arte deve ser útil e servir a algum interesse da humanidade, no sentido de testemunhar e denunciar os problemas da época, provocando no homem a sua consciência e a sua compreensão e contribuir assim para a evolução da vida social, dependendo isto da importância de uma obra de arte para o progresso revolucionário da humanidade. É esta a concepção utilitária da arte. Todas as artes são classificadas de acordo com a teoria marxista dos valores, dependendo este da importância de uma obra de arte para o progresso revolucionário da humanidade.
Por isto, o artista que não afina à sua obra o significado que lhe é devido em relação ao desenvolvimento social e à sua superestrutura, será um elemento inútil, e, como tal, nocivo à humanidade. Deste modo, o artista serve aos interesses da sociedade e da arte, assim como qualquer outra superestrutura, torna-se um reflexo da produção material, ficando como esta, sujeita às leis da evolução. Se entende por superestrutura ao conjunto de instituições políticas, sociais, artísticas, religiosas, etc, que em uma sociedade corresponde às relações de produções, às quais constituem-se a sua base econômica, isto é, a estruturada natureza material.
Bem, Senhoras e Senhores, me pergunto agora: Em que consiste esta lei da evolução?
A evolução consiste em um constante processo de transformação e de renovação, no qual nada é definitivo, onde sempre qualquer coisa nasce e se desenvolve, e qualquer coisa se decompõe e desaparece. Também a música está sujeita a esta lei. Recordo a decadência da polifonia e o nascimento da harmonia nos anos seiscentos; a decadência da tonalidade e o surgimento da atonalidade no início deste século.
Esta transformação da linguagem sonora, se processa em função do desenvolvimento econômico-social. Por maior que seja a importância da idéia, o valor mais importante consiste na evolução social correspondente às condições de vida, à base econômica, às forças produtivas e às relações de produção.
Recordo que a transição do sistema feudal ao burguês no Renascimento italiano, deveu-se ao desenvolvimento das relações capitalistas comerciais, o Rococó, sua base social era a oligarquia financeira, e o nascimento do Romantismo deveu-se ao desenvolvimento da burguesia.
A evolução das forças produtivas, das condições materiais de existência são as fontes decisivas de todas as mudanças quê se efetuam na sociedade. Como sabemos as forças produtivas de uma sociedade não se encontram num estado estático. Mudam-se, progridem, e, até mesmo, em certos momentos entram em contradições comas relações de produção existentes.
Inicia agora o período de transformação de todas as relações sociais de todas as superestruturas ideológicas, às quais as artes pertencem naturalmente, e tem iniciado o período de adaptação às condições modificadas da existência social.
Eis em que consiste o processo de evolução da expressão artística.
Vejamos mais detalhadamente quatro dos mais importantes elementos da estética musical propriamente dita:
1º -O elemento formal que corresponde à simetria e assimetria das artes plásticas.
2º -O estilo, isto é, o método de unir as diversas formas, o princípio da construção.
3 º -O conteúdo da obra de arte.
4º -A técnica musical, incluindo o contraponto e a harmonia, como uma estrutura da superestrutura.
Na música como em todas as artes, a forma tem uma grande importância. Sem forma não existe arte. O tema, o motivo, a tonalidade, o ritmo, a rima, etc, são os elementos que compõem a forma musical.
A arte autêntica se distingue pelo fato de que a formada obra corresponde ao conteúdo nela representado.Por meio dos elementos da forma artística, o artista reflete a realidade, descreve os fatos mais importantes para o homem.
Se a forma artística tem tal importância, ela tem em proporção direta aos seus vínculos com o conteúdo, com a riqueza do conteúdo nela expresso. A conversão da forma artística em uma espécie de auto suficiência, independente do conteúdo, conduz ao formalismo. Os interesses da forma, neste caso, transportam o conteúdo ao último plano. Mas, os verdadeiros artistas, subordinam a forma às idéias. A forma, por isto, é um meio para exprimir um conteúdo notável. Para os acadêmicos, a forma é autônoma e o conteúdo está a ela subordinado.
Não é verdade, que a arte, na qual a forma torna-se autônoma, transcende à essência da arte autêntica. Degenera em profissionalismo indiferente, em um absurdo jogo de ritmos e sons. O fundamento de uma arte autêntica está no fato de que a forma e o conteúdo se correspondem mutuamente.
O fato de que o conteúdo determina a forma, de que a forma exprime determinado conteúdo, demonstra que a correspondência só pode existir entre um conteúdo definido e uma forma definida. Nem todas as formas podem ter um conteúdo determinado, assim como nem cada conteúdo pode ter como base uma forma determinada. E, considerando que o conteúdo dos fenômenos muda-se constantemente, o conteúdo dos objetos em desenvolvimento deve, por conseqüência, entrar em contradição com a velha forma.
Esta contradição é a fonte mais importante do desenvolvimento da expressão artística. A contradição não existe entre o conteúdo e a forma em geral, mas entre um novo conteúdo e uma velha forma. No processo de desenvolvimento, o conteúdo muda-se, absorve novos elementos e se transforma, em última análise, em novo conteúdo. Além disso, a forma continua como a primeira, isto é, a velha. A forma vem depois do conteúdo, dado que a própria necessidade de nova forma só nasce quando o conteúdo que já está mudado, ou esta para mudar, mostra a necessidade de uma mudança da forma. A nova forma exprime, correspondentemente, um novo conteúdo e cria novamente a possibilidade de seu desenvolvimento, constitui-se uma organização interna do conteúdo em progresso e o desenvolvimento continua a efetuar-se tênue até que surja de novo um conflito,e assim sucessivamente.
Quando, ao fim do século XVIII, nasce a forma de sonata, esta surge em conseqüência da contradição existente entre o conteúdo novo, originado do espírito do Rococó, e a velha forma originária do Barroco.
Chamamos Classicismo a época na qual existe perfeita correspondência, entre forma e conteúdo. Através de Beethoven, Wagner e Debussy, o conteúdo se transforma novamente em fins do século passado e ao princípio deste, entrando em contradição com a velha forma. Esta contradição permanece ainda hoje. E assim podemos hoje observar a transformação das velhas formas e da nova correspondência entre a forma e o conteúdo surgirá um novo classicismo.
Os elementos formais -entre estes, principalmente o ritmo e o material temático-, estão ligados à vida social.É interessante, por exemplo, observar como o ritmo se desenvolve sob a influência direta do trabalho material. Assim, todas as canções de trabalho surgem da mesma base, como se pode verificar nas canções dos barqueiros do Volga e em muitas outras canções de colheita e de trabalho do folclore de todos os povos.
O ritmo é, com raras exceções, um instrumento de organização do trabalho. Por outro lado, os elementos formais tornam-se mais complexos em virtude da estrutura vital mais complicada, porque, a vida, de complexidade crescente, altera a natureza psico-filosófica do homem. O ouvido "inculto" do selvagem é condicionado à evolução social, tanto quanto o "refinado" ouvido dos habitantes das grandes cidades civilizadas com sua movimentação nervosa e tremendamente sensível.
Também o estilo está condicionado ao curso da vida social. Entendo por estilo a encarnação da psicologia que domina a expressão dos sentimentos, das idéias, do estado de espírito e das crenças que "flutuam no ar" em uma determinada sociedade.
A música do canto gregoriano, isto é, o estilo românico não apresenta as mesmas características de uma canção popular italiana. Tais produções, frutos de diferentes ambientes sociais e outros hábitos, devem ser diferentes. Os hinos religiosos e canções populares ou marciais, não podem ser compostos nem constituídos do mesmo modo, uma vez que suas formas exprimem diferentes sentimentos e pensamentos. Esta diferença resulta das diversas situações da sociedade de classes, estando ela condicionada ao desenvolvimento econômico, isto é, ao estado das forças produtivas.
O conteúdo, impossível de isolar-se da forma, é, sem dúvida determinado pelo ambiente social. É evidente que a obra de arte só sobreviverá se exprimir aquilo que apaixona os homens, de um modo ou de outro em um determinado momento. A obra de arte que não reflete o interesse geral da sociedade ou de suas diversas classes, é fora das realidade, absurda e vã.
Com respeito à técnica e construção musical -incluindo o contraponto e a harmonia-, estes estão naturalmente ligados a todos os fatores que acabo de citar, e por isto, estão subordinados ao movimento das forças produtivas.
É claro que o fato de não possuir o piano e o violino, impediu ao povo em estado primitivo tocar tais instrumentos e compor para eles. A música só iniciou o seu prodigioso desenvolvimento com a invenção destes instrumentos modernos e com a emancipação da música instrumental nos séc. XVI e XVII.
Por outro lado, os princípios sobre os quais repousa a construção musical, isto é, a parte arquitetônica da arte sonora, encontram sua aplicação na ciência que estuda os fenômenos acústicos e na matemática. É claro que mesmo a parte técnica da arte musical se desenvolve com novas pesquisas científicas.
O poder da música que se exerce principalmente através da concordância dos ritmos e dos sons com os nervos auditivos colocados em vibração, tem também relação com as outras artes, e a ciência começa a clarear tal singular analogia.
Assim, para a relação numérica da qual se constitui o som, e que podemos determinar com precisão,a música pode ser considerada a arquitetura dos sons, como a arquitetura pode ser considerada a música das dimensões. De ambos os lados é indispensável a equivalência de proporções e harmonia.
Por meio da analogia das vibrações sonoras e luminosas se explica a semelhança das sensações resultantes dos sons e das cores.
O choque provocado pelas dissonâncias, que se anulam por intermitência, provocam tensões sobre os nervos auditivos, do mesmo modo e na mesma proporção que a oscilação de uma lâmpada irritam a vista forçando os nervos óticos a uma sucessão muito brusca de mudanças de luz e sombras.
As cores e os sons muito estridentes cansam todavia, mas por outra razão: pela continuidade de uma exagerada tensão, por uma sensação muito viva. Usando-se instrumentos que produzem um só som básico com um mínimo de sons harmônicos não se obtém um resultado diferente de uma música triste e depressiva.
Pelo contrário, a música produz o colorido quando as cordas vibram livremente e portanto emitem um som básico acompanhado de um grande número de sons harmônicos. Isto, enquanto as múltiplas fibras do aparelho auditivo estiverem conjugadas às numerosas sensações simultâneas e concordantes.
Por outro lado. se a música se limitasse a subir e descer sempre com graduações imperceptíveis, a escala das vibrações sonoras provocaria logo uma sensação de tédio, de sonolência, de aborrecimento. A continuidade de um movimento sem variedade, tem exatamente o mesmo sentido e o mesmo valor artístico para a música, que um prolongamento indefinido de uma linha reta na pintura, ou de uma parede sempre nua na arquitetura.
A uniformidade e a monotonia estão em contradição direta e absoluta com a impressão artística, que tem por caráter essencial a variação de movimentos, a exaltação da atividade cerebral, ou em outros termos -a super-excitação da vida,
O resultado disto, é que, a música conseqüência de movimentos e de sons, tem por dever principal, variar frases e movimentos como a dança varia os movimentos e atitudes do corpo.
Podemos, portanto, dizer que a música é a dança dos sons. Esta comparação que continua a ser verdadeira, era evidente quando imperava o estilo da fuga. O tema que se repetia em diversas alturas, com as vozes que sucediam mesclando-se e separando-se, as frases que se precipitavam sobre as outras, avançando e retrocedendo em ordem, ligando e desligando gradualmente, sem esforço, sugeriam a idéia de grupos que se aproximavam, se cruzavam e se estreitavam.
Os sons são para o musicista matéria rude, como as pedras o são para o arquiteto e as cores para os pintores. A melodia que resulta apenas da sucessão de sons, dispõe deste material segundo uma espécie de desenho, que, logo posto à simples audição, vem determinado do espírito. Os acordes, isto é, os grupos de sons simultâneos, que constituem-se um elemento harmônico, proporcionam uma sensação análoga àquelas das cores de um quadro.
Já vimos como os principais elementos e a estética musical estão ligados ao desenvolvimento econômico e social. Examinaremos agora a evolução da expressão musical em função deste mesmo desenvolvimento econômico e social, pelos fatos concretos da história da música.
Findo o séc. XVI, prevalece o princípio da comunidade; malgrado as restrições feudais, que, não obstante, tanto uma quanto outra eram formas de organização.O indivíduo era relegado de modo absoluto, absorvido pela família, pela igreja, corporações, confrarias, e pelo estado. A esta organização, corresponde exatamente o canto coral, que gozava de grande prestígio. Apesar disto, o indivíduo lutava para abrir o seu caminho.
Entendo por indivíduo, a personalidade burguesa. Nesta época, nasce no domínio da música o canto solista e drama musical, tendo seu maior representante Cláudio Monteverdi. O novo estilo chamado representativo, estilo das obras teatrais, das óperas, dos dramas, praticamente se constitui uma transição para o recitativo, canto e diálogo, melodia e ritmo, tudo subordinado à fiel transmissão e representação das palavras do texto literário.
Acho sempre muito interessante examinar sob o ponto de vista econômico-social a obra dos dois maiores expoentes do estilo Barroco: Bach e Haendel.
Comparemos,por exemplo, o final da "Paixão segundo São Mateus" de Bach, composta em 1729 com o final de "O Messias" de Haendel, escrito em 1741 . A obra de Bach, termina comum lento-andante em pianíssimo, comum a música de intensa angústia e resignação.
A composição de Haendel, termina com dois movimentos ligados entre si, começando com um largo, que se desenvolve até um andante, mais afirmativo, concluindo com um triunfal Allegro, em fortíssimo, com trompetes e tímpanos, em um espírito de alegria e satisfação ilimitada.
A qualidade introspectiva da maior parte da obra de Bach, mesmo contendo a insistência das retumbâncias pungentes e conseqüentes da história bíblica, era uma natural reação contra uma vida particular-mente provinciana, em uma atrasada cidade da Alemanha, longe dos principais centros, dos acontecimentos do seu tempo. São estes os fatores econômico-sociais que favoreceram o complexo e fechado cromatismo, assim como a complicada especulação contrapontística, tão característica em grande parte da obra de Bach. Na "Paixão Segundo São Mateus", Bach sintetiza duzentos anos de sofrimentos e desejos insatisfeitos de trabalhadores camponeses da Alemanha do Sul, os quais se converteram à fé protestante para livrarem-se dasdificuldades da vida.
A música de Haendel, mais fácil,. mais imediata e mais exterior que a de Bach, evita quase sempre as complicações contrapontísticas e cromáticas, baseando-se no contraponto harmônico relativamente simples, o caráter direto daquele que incita a uma vida de energia e ação.
Observem, senhoras e senhores, a obra de Bach, que reflete vários grupos sociais com os quais o mestre teve contato. A "Cantata Campestre",a "Cantata do Café", assim como a sólida e robusta estrutura das Invenções, peças didáticas e instrumentais, e movimentos da dança nas quais se reflete a vida honesta e laboriosas dos trabalhadores e pequenos burgueses, ou as "Grandes Tocatas" e os "Concertos de Brandemburgo", refletem a vida plena de fausto da aristocracia.
É interessante que mesmo antes da Revolução Frarncesa, predominava o estilo Rococó, com Rameau, Couperine Karl Phillip Emrnarnuel Bach, estilo que tinha como base social a era do domínio da aristocracia feudal e da oligarquia financeira. Os encargos de coletor do tesouro eram vendidos; as operações financeiras eram duvidosas; e as especulações se verificavam na Bolsa. Política comercial e colonial.Hegemonia política da nobreza, a qual necessitava de dinheiro e vendia os seus títulos, que os ricos burgueses compravam. Tal era o ambiente das coisas nas chamadas "esferas superiores".
Este ambiente determinou os costumes peculiares à este "período galante". A vida era dominada pelo amor, não como uma paixão poderosa, mas sob uma forma de galanteria, que constituía o comércio dos nobres. A arte Rococó, com as suas curvas delicadas erótica, e absolutamente é um reflexo perfeito desta característica da psicologia social.
E observemos, Senhoras e Senhores: nos nossos tempos, a multiplicidade de correntes estéticas é uma conseqüência da tendência "arte pela arte", que se revela por um individualismo extremo, típico da decadência burguesa. Esta arte exprime com particular agudeza, uma situação na qual o mecanismo capitalista se deteriora com maior velocidade e onde o processo de desintegração classista,de transformação dos burgueses intelectuais em resíduos humanos, indivíduos empurrados para fora de suas classes pela pressão dos grandes acontecimentos, se verifica rapidamente. Este estado de desespero se exterioriza por um reforço do individualismo e do misticismo.
Senhoras e Senhores: sinto os defensores de uma estética idealística perguntarem: Em que lugar fica o gênio,em relação à personalidade individual em uma estética, que explica uma obra de arte como resultante natural do desenvolvimento sócio-econômico baseado nos princípios científicos?
A isto respondo: Os gênios, a personalidade, os talentos juntam-se sempre em qualquer parte onde existam condições favoráveis ao seu desenvolvimento. Isto significa que cada talento que tenha efetivamente se manifestado, isto é, cada talento convertido em força social é fruto das relações sociais. Os homens de talento só podem fazer variar o aspecto individual, e não a orientação geral dos acontecimentos.
Se causas mecânicas ou fisiológicas estranhas ao curso geral do desenvolvimento sócio político e intelectual da Alemanha, tivessem provocado a morte de Schumann, Brahms ou Wagner na sua infância, a música alemã seria menos perfeita, mas a orientação geral de seu desenvolvimento, na época do romantismo, teria sido a mesma. Não teria sido Schumann, Brahms nem Wagner que criaram esta orientação, tão pouco Beethoven ou Schubert. Estes foram tão somente os melhores representantes das tendências da época.
É verdade que em torno de uma personalidade, se constitui geralmente toda uma escola e seus discípulos são forte e freqüentemente influenciados pelo mestre; por isto, o vazio que deixaram com sua prematura morte Schumann, Brahms e Wagner na música alemã da época do romantismo, exerceram uma grande influência sob muitas particularidades, favorecidas pela história da futura música na Alemanha. Mas esta história não segue mudada em seus fundamentos, uma vez que ela não é produto, em virtude de certas causas gerais, de uma mudança fundamental no curso geral do desenvolvimento intelectual da Alemanha.
Sabemos que as diferenças quantitativas se transformam finalmente em qualitativas. Istoé sempre verdade. Se aplica também na história da arte. Uma determinada corrente pode não atingir nenhuma manifestação notável, se as condições e circunstâncias favoráveis fizerem desaparecer, uma após outra, as personalidades que a representaram.
Mas a morte prematura dos homens não interfere na manifestação artística desta corrente, a menos que esta corrente não tenha suficiente profundidade para revelar novos talentos e novas personalidades. A profundidade de qualquer corrente artística é determinada pela importância que ela tem para a classe social que representa, e para o estado social desta mesma classe, ainda que tudo dependa em última análise do curso do desenvolvimento social e das correlações de forças sociais.
Em tal modo as particularidades individuais das personalidades eminentes determinam o aspecto individual dos acontecimentos históricos e o elemento causal estreita sempre uma certa parte no curso destes que, a orientação destes é determinada em última análise, pelas coisas chamadas causas gerais, isto é, determinada de fato pelo desenvolvimento das forças produtivas e mútuas entre os homens.
Um homem é grande, não porque a suas particularidades individuais imprime uma fisionomia individual aos grandes acontecimentos históricos, mas porque é dotado de um talento, isto é, de particularidades que o tornam mais capaz de servir às grandes necessidades sociais de uma época, necessidades estas que surgem pela influência de causas gerais e particulares.
O grande é um iniciador, porque enxerga mais longe do que os outros, porque deseja mais fortemente que os outros. Eles não podem parar ou modificar o curso natural das coisas, mas a sua atividade constitui-se de uma expressão constante e livre deste curso, necessário e inconsciente. Nisto consiste toda a sua importância e toda a sua força.
Nenhum grande homem pode impor à sociedade, relações que não correspondam mais ao estado das forças produtivas, ou que ainda não chegaram à correspondência deste. As relações sociais têm a sua própria lógica; e, quando os homens se encontrarem em determinadas relações,estes necessariamente sentirão,pensarão e agirão de um certo modo e não de um modo diverso. Seria inútil que uma personalidade eminente se empenhasse em lutar contra esta lógica, pois a marcha natural das coisas, ou seja, a própria lógica das relações sociais, reduziria e anularia os seus esforços.
A história, senhoras e senhores, não é feita de personalidades, mas de conjuntos sociais,que é o seu único agente. E a ciência substitui as explicações fantásticas da metafísica e da mitologia antiga e moderna,com o estudo direto das coisas, dos fatos e dos seres. Depois de ter percorrido longos séculos, buscando nas atividades, nas idéias, ou entidades mitológicas, a solução dos enigmas e da moral se unem diretamente à natureza do homem.
O homem torna-se por ele mesmo um eterno objeto de observação. E este é o maior acontecimento do séc. XIX, porque eles deram à ciência uma nova direção, orientando suas investigações neste sentido.
O artista de nossa época assistirá à completa mudança de sua posição social, assim como a transformação de cada forma social da música. Eu me refiro às formas sociais tais como o concerto e o teatro.
E por isto também a sua própria obra será transformada em sua essência. A revolução atingirá também profundamente o campo das artes com muito mais força do que podemos imaginar.
O compositor do movimento popular e da sociedade coletiva utilizará toda a ciência e toda a técnica que herdou do passado, não para escrever uma música de luxo para uma minoria, mas uma música que deve ser de todos e em torno de todos. Esta música poderá exprimir a realidade e a intensidade do sofrimento, da opressão, da luta, da esperança, da alegria e da decisão do povo. Poderá inspirar a coragem e o fogo que permitirão remover as causas de tais sofrimentos.
Esta estética assemelha-se muito à nobre moralidade do músico trabalhador da Idade Média, que trabalhava com zelo e abnegação por uma causa, que considerava superior à sua pessoa e à sua arte. A idéia é a mesma. Só que, enquanto o musicista medieval procurava a "Glória de Deus"e o "Servir à Igreja", nós buscaremos a "Glória do Homem" e o "Servir à Humanidade".
COMENTÁRIO
Deixemos que Koellreutter nos fale de suas concepções de estética e, por extensão e enfim, de suas concepções de música como representação social, como portadora de verdades que lhe são externas mas que a informam e justificam.
Mas neste texto a voz de Koellreutter é a de quase cinqüenta anos atrás. E o que o denota o rigoroso dogmatismo que vai engessando frase a frase o fluxo das idéias. Quantos eventos, nestes cinqüenta anos, foram desdizendo estas idéias, enfraquecendo-as às vezes aos poucos ou invalidando-as de um só golpe. Tudo o que se passou entre o então e o hoje faz supor uma distância bem maior do que a mera cronologia, pois poucas das inabaláveis verdades e poucos dos sólidos absurdos deste a texto permaneceram sólidos e inabaláveis diante de um percurso sonoro que se foi fazendo imprevisível.
Mesmo sendo assim esta voz de Koellreutter, o polemista incurável,há queouví-la. Mesmo na superação das idéias, Koellreutter permanece instigante e revelador como sempre. Aqui, a secura do dogmatismo de suas palavras é tal e qual aquela que forjou Schenker e que também moldou Schoenberg. Mas existe mais do que a tradição austro-germânica a alimentá-las -uma aragem tropical também as envolve. Pois não é que o dogmatismo de Koellreutter ("o artista que não afina à sua obra o significado que lhe é devido em relação ao desenvolvimento social e a sua superestrutura, será um elemento inútil,e,como tal, nocivo a humanidade") o aproxima daquele outro polemista a quem por todos os direitos ele devia em estar oposição, Mário de Andrade ("todo artista brasileiro que fizer arte internacional ou estrangeira é um inútil, um nulo")?
Este texto de Koellreutter deve ser lido atentamente, identificando as idéias que se foram extinguindo e que assim se foram mumificando. E identificando também, aqui e ali, as idéias que, num momento de vislumbre, adiantaram conceitos que um dia ainda viriam a adquirir relevância. Pois é mérito do autor ter previsto a posição futura e central e da interdisciplinaridade e da cientifização como potentes meios para explicar a música e para esquadrinhar e ampliar o pensamento sonoro.
E na frágil convivência o entre dogma e a voz oracular que este texto acaba falando tanto de cinqüenta anos atrás quanto, inevitavelmente, do nosso tempo. Mas não foi isto o que Koellreutter fez sempre? Dia a dia, não foi assim que o pensador Koellreutter soube metamorfosear o seu pensamento para afiná-lo com a contemporaneidade? E aqui, mesmo ecoando outra época e envolvido por uma moldura intelectual datada, Koellreutter nos diz que, mesmo quando engessado pela inflexibilidade ideologica, ele sempre soube tudo o que se haveria de passar com a matéria sonora.
Celso Loureiro Chaves, Compositor e Professor do Instituto de de Artes-Departamento Música/UFRGS.
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