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EDUCAÇÃO E CULTURA EM UM MUNDO ABERTO COMO CONTRIBUIÇÃO PARA PROMOVER A PAZ
H.J.Koellreutter
Publicado pela revista do CAP- Centro de Ativação Pessoal nº4, Tiradentes/MG 1993, pp.32-43.
"Como surgem guerras no espírito do homem, assim também devem ser criados no espírito do homem os instrumentos para a defesa da Paz"
-eis o que se lê na primeira frase do preâmbulo dos estatutos da UNESCO.
É uma verdade que deveria servir de lema a todas as atividades educacionais e culturais.
Se a guerra deve ser evitada, se a paz deve ser uma realidade, é preciso considerar os seguintes pontos como idéias fundamentais:
1- renúncia à violência
2- garantia das necessidades materiais
3- justiça social
4- co-determinação política
5- restabelecimento de uma relação harmoniosa do homem para com o meioambiente
6- entendimento entre nós e o que nos é estranho.
Hoje, como a maioria das pessoas deseja a paz, mas não sabe como transformar esse desejo em realidade, a paz se torna sobretudo uma questão de educação. Uma questão do ser humano destinado a viver em um mundo aberto, inimaginável sem a disponibilidade à cooperação e à comunicação, à renúncia, à autocrítica e à convivência com conflitos; pois estes constituem conseqüências e mecanismos de mudança em toda sociedade livre e criativa.
Paz é um estado em que os conflitos entre os homens são solucionados sem violência, isto é, sem confronto bélico.
Paz é um estado em que senso comum e liberdade não são restringidos por interesse de poder, mas sim, desenvolvidos de nova maneira. Naturalmente não me refiro à liberdade desenfreada do indivíduo burguês, egocêntrico, e sim à liberdade que surge da consciência de uma necessidade inevitável e da responsabilidade perante o todo.
Paz é portanto um estado que libera capacidades morais necessárias para a superação de problemas e crises.
Por isso, para se promover e preservara paz, é preciso administrar com inteligência o que se tem, desenvolver e cultivar as capacidades que nos foram dadas pela natureza, e principalmente, promover a solidariedade humana.
Acabo de dizer que a paz se tornou uma questão de educação do homem destinado a viver em um mundo aberto. Mundo aberto quer dizer: comunicação, superação do espaço separador, ininterrupta aceleração dos meios de transportes e comunicação, progressiva melhoria dos meios de informação, aproximação das culturas, ampliação do espaço vital, círculos de relações que se estendem de maneira rápida e incessante: isto é, cultura mundial, cultura planetária.
No entanto, é preciso compreender que o conceito cultura -em um mundo de integracão como o nosso-, não pode ser o conceito criado pela burguesia do século XIX. Orgânica e dinamicamente, a cultura acha-se associada à história da sociedade, da qual não pode ser isolada. Em um mundo de integração e interdependência, a cultura deve ser considerada como conjunto de tudo que pertence ao chamado “ambiente secundário" do homem, ou seja, tudo que o homem, ele mesmo, cria, inventa, organiza, ordena e estabelece, ou seja, tudo que não é proporcionado pela natureza.
O conceito de cultura, portanto, abrange além do complexo de costumes e valores tradicionais, espirituais e intelectuais, ou seja, música, artes visuais, literatura e cinema, etc -abrange todas as intenções e normas criadas pelo homem, individual e socialmente, até o complexo de padrões de comportamento e organização, sindicatos, instituições de previdência social, hospitais e escolas.
A cultura é uma parte indispensável e inseparável da vida social. Por cultura, entende-se hoje a totalidade dos esforços e empenhos dos homens, dos seus objetivos de vida a serem realizados dentro de um determinado ambiente natural e social. O homem fixa esses objetivos -em parte consciente, em parte inconscientemente-, para melhorar sua situação ou suas circunstâncias vitais, sendo que esse melhoramento pode ter lugar na área da ética, da estética, do material ou do social.
Em um mundo aberto a interdependência global torna-se um fato constatável, objetivo. Superação de formas sociais restritas através da ampliação da esfera da consciência, relações de vizinhança criativas, em âmbito mundial, sincretismo universal,um mundo em movimento: isto é, uma situação vital aberta.
Mas um mundo aberto também significa automação, tecnização, mecanização, nivelação, racionalização e libertação do homem da pressão de funções vitais. E, ao mesmo tempo, obrigação de atividade continuamente criativa e realização de todo tipo de esforços para manter, aperfeiçoar e controlar esse mundo criado por nós. Expansão de energia em todos os campos de ação e capacidade humana. Ativação de um número, cada vez maior, de pessoas no sentido de uma participação em relações inter-humanas cada vez mais numerosas. Alcance de uma nova liberdade da personalidade humana e da possibilidade de concretizar essa liberdade na própria formação do destino.
Esse mundo aberto implica, portanto, em um processo, individualizante e ao mesmo tempo integrador em um todo. Um processo de desenvolvimento do individual, pessoal, nacional, visando a integração em um todo supranacional: em um mundo sem vis- à-vis.
Esse mundo, contudo, ainda não é realidade. Seus sintomas, no entanto, já podem ser sentidos em todos os campos da atividade humana e nos ditam suas leis. Na ciência e na arte, na vida social e política. Um mundo que surge por que se tornou necessário. Que não pode ser impedido porque o ser humano criou as condições para sua realização com base em certas experiências vitais, nos conhecimentos delas relutantes e em determinados dilemas antropológicos. Um mundo que não pode ser evitado mesmo que tendências retrógradas tentem impedir aparentemente esse desenvolvimento. Uma função da cultura e da ordem social. Um desenvolvimento em dimensão humanitária e um objetivo comum.
Esse objetivo comum deveria ser o objetivo de tudo que fazemos na esfera da educação e da cultura. Trata-se do desenvolvimento de forças mentais, sociais e materiais, que constituem a condição básica indispensável para o surgimento de uma cultura planetária e de uma ordem social universal.
Por todo o mundo, costumes e idéias tradicionais e tradicionalista, renitentes tendências recolhidas do passado e contradições não superadas, decorrentes do choque entre o mundo velho e o novo, impedem ou dificultam um desenvolvimento no sentido de uma cultura planetária. Por toda a vida social. elementos culturais, que restaram das mais diferentes épocas de nosso desenvolvimento, ainda desempenham um papel: resquícios de pensamento mágico e mítico, na forma de superstição e religião, instinto gregário e despotismo primitivo, preconceitos e limitações no terreno da moral e da ética e do comportamento social.
E não nos esqueçamos de que, de um lado,a racionalização de tudo, a industrialização e a tecnização da humanidade, isto é, seu afastamento cada vez mais decisivo da natureza, criam problemas e conflitos que colocam em questão o valor do modo de vida e dos padrões ocidentais perante as culturas não-ocidentais. E que, de outro lado, em uma sociedade dominada por sistemas de ordem conservadoras, tradicionalistas, a irrupção de novas idéias tende levar a antagonismos que só podem ser resolvidos com amor e entendimento recíproco.
Constitui portanto tarefa comum o esforço para se compreender tradições e culturas de outro tipo, para se criar possibilidades de mútuo estímulo e enriquecimento das capacidades humanas e para se desenvolver em comum o conhecimento e o saber humanos com vistas a uma ordem planetária integradora, isto é, cooperação em uma obra comum visando a um fim comum. Uma nova consciência, a luta pela compreensão de um mundo novo, em que multiplicidade e relatividade dos valores, normas e ordens sociais se ombreiam em termos dinâmicos e criativos.
De fato, um novo mundo pressupõe uma nova consciência e, assim, um novo homem, o entendimento de uma possível transição, de uma renovação, da essência da situação hoje, caracterizada, de um lado, por um individualismo diferenciador, levado ao extremo -portanto, nacionalismo-, e, de outro lado, por um coletivismo nivelador, igualmente levado ao extremo. Trata-se da apreensão consciente de uma possível simbiose de todos os povos e da tentativa de integrarem uma nova realidade todos os fenômenos da convivência nacional e internacional.
Mas, superar essa situação não é só uma questão de regular nossas relações para com outros povos, e sim nossas relações para conosco mesmos.
Ter atividade cultural significa desenvolver. Desenvolver, no entanto, significa conscientizar a necessidade de uma transformação em um mundo aberto, compreender seus sintomas e criar condições que possibilitem a convivência de todos os povos como uma só comunidade, em proveito mútuo. Não há convivência em um mundo mecanizado, voltado para fora, de uniformidade totalitária, mas sim, em um mundo tecnológico, que aspira a vivificar e enriquecer aqueles valores humanos que levem seu surgimento à individualidade.
Trata-se não da difusão de idéias, consideradas ou sentidas como certas ou de validade exclusiva, por qualquer povo, partido ou grupo social, mas sim de uma realização em comum.
Por toda parte, determinados círculos que se empenham na adaptação de elementos nacionais à cultura universal do moderno mundo tecnológico e da organização social institucionalizada. A complementação e realização do caráter nacional através de uma idéia formadora, de orientação universal, é a garantia para a compreensão daquilo que é diferente. É a :garantia também para uma redução das tensões entre os homens, dos mal-entendidos e antagonismos, bem como um fator criativo do desenvolvimento nacional.
O "mundo único", a vida de todos os povos em uma só comunidade, pressupõe que cada povo tome consciência de cada parte de seu ser e que desenvolva as suas forças criativas no sentido de uma idéia universalista. Na verdade, uma consciência do todo só pode surgir da consciência de todas as formas de cultura, de todas as potencialidades nacionais e capacidades e humanas.Criar e desenvolver essa consciência constitui tarefa de todos os povos do mundo.
No entanto, nós do Ocidente teremos de nos esforçar sobretudo para chegarmos a uma compreensão abrangente das culturas não-ocidentais. Para chegarmos a uma compreensão de sua estrutura psicológica, intelectual, e social e, principalmente, das conseqüências e decorrências dos processos de desenvolvimento cultural e econômico naqueles países que se encontram em transição de uma cultura estática, tradicionalista, para uma cultura dinâmica e progressista.
Educação ainda atrasada e falta de informações criteriosas na relação com a nova imagem do mundo revelada pela ciência moderna, no Ocidente industrializado -refiro-me aqui principalmente à Europa e aos Estados Unidos-, constituem ainda um forte obstáculo a um desenvolvimento no sentido de uma cultura planetária: o descuido do estudo de culturas estranhas nos currículos de escola e universidade, particularmente na Europa, bem como também uma representação distorcida da realidade e interpretações ingênuas na imprensa, rádio e televisão americana e européia. Quão distantes ainda estão quase todas as escolas e universidades da Europa de oferecerem aos jovens uma decisiva ampliação do entendimento e de compreensão para horizontes cada vez maiores.
O fato é que os povos do Terceiro Mundo em geral estão muito melhor informados sobre a Europa e os Estados Unidos do que vice-versa.
Dessa situação resulta freqüentemente uma assustadora pobreza de conceitos e idéias da qual decorre a incompetência de muitos pronunciamentos de personalidades dirigentes das nações industrializadas, com relação aos problemas do Terceiro Mundo. Continuam nelas a vigorar opiniões sobre a realidade dos povos do Terceiro Mundo, sobre socialismo e as tendências de esquerda, opiniões estas que se baseiam em concepções insuficientes e preconceitos muitas vezes falsos. Se a Europa e os Estados Unidos levam realmente a sério um diálogo com o Terceiro Mundo, devem se empenhar sobretudo em compreendê-lo e em prestar informações objetivas sobre ele.
Há um abismo assustador entre a complexidade de todos os problemas, cuja solução nos impõe o surgimento de um novo mundo, e a preparação intelectual comparativamente pobre da maioria dos que são chamado a colaborarem na sua solução. Um estado de consciência relativamente estático frente a uma realidade social dinâmica.
Em parte alguma há um genuíno desejo de um encontro -que tudo dificulta. Não há o genuíno desejo de superar o fervor com que o homem moderno produz dinamismo e modificação, assim como o receio de que esse mesmo homem tem das inovações sociais, e de sua deficiente capacidade para prever as mudanças e realizá-las convenientemente.
O fato é que, em quase todo o mundo, a instrução cultural é cada vez mais acentuadamente cunhada pelos resquícios de uma cultura tradicionalista, pelo pensamento rotineiro e imobilizado, que promete segurança e pouco risco, do que por um objetivo aberto à experimentação, orientado para o futuro, para um mundo aberto e dinâmico.
Tendo em vista um mundo aberto -uma formação nova, que tanto pode levar a uma maior mistura das culturas, como a uma concentração de tradicionais valores culturais-, defrontamo-nos com a tarefa de estabelecer entre todos os membros da família humana relações mútuas plenas de amizade e boa vontade, convencendo-os de que devemos dividir entre nós não apenas o que conquistamos pela experiência da história,mas também o que criaremos mediante cooperação planejada e intercâmbio generoso em todas as esferas da vida.
Mundo aberto significa sociedade aberta. Sua coesão interna não será conseguida, como no passado, pela pressão do mais forte, e sim pela concentração em objetivos comuns e pela mobilização para empreendimentos comuns. Um programa de colaboração e intercâmbio, de que muito se fala, mas só raramente é levado à prática.
E chegado o tempo de se renunciar a títulos, hinos nacionais, bandeiras e insígnias. Teremos de aprender a esquecer que somos doutores, professores, diretores ou alemães, americanos, japoneses, indianos, brasileiros, ou qualquer outra nacionalidade, uma vez que se trata do homem. Teremos de aprender a ser sobretudo gente, "apenas" gente, e estenderemos nossa consciência nacional a uma consciência supranacional. Teremos de desenvolver sentimento de solidariedade de todas as nações, a consciência de compromisso perante uma comunidade cultural e política universal. Teremos de entender que tudo o que hoje ainda nos parece particularidade nacional, no fundo é apenas o fenômeno individual de uma só e mesma coisa: ou seja, o ser humano. No século XX somos chamados a formar esse homem livre, destituído de preconceitos, que pensa e sente em termos supranacionais, a desenvolver suas capacidades e a preparar um mundo realmente humano. Por isso, parece-me necessário elaborar um sistema educacional em cujo centro se encontre um fórum de intercâmbio de idéias supranacionais -um local de cooperação cultural, uma escola de pensamento universal na medida do homem.
Minha sugestão seria a criação de um sistema de cursos, seminários, simpósios, conferências e palestra, desenvolveriam o ensino pré-figurativo e proporcionariam aos alunos um ensino estrutural, isto é, um procedimento didático que proporciona uma aprendizagem variável, conforme as condições sociais, de tempo e lugar.
Entende-se por ensino pré-figurativo um método orientando e guiando o aluno sem obrigá-lo a sujeitar-se à tradição, no árduo caminho de arranjar-se com aquilo que ainda não existe, mas que há de, ou pode existir, ou até se receia que exista... Um sistema educacional em que não se “educa ", no sentido tradicional, mas sim, em que se conscientiza e "orienta" os alunos através do diálogo e do debate.
Parece-me necessário incluir nesse sistema um conjunto de instituições políticas e sociais, talvez difundidas sobre o Estado ou o País inteiro -cursos e seminários que expliquem e analisem comparativamente a problemática das relações entre os homens, principalmente no que concerne às culturas alienígenas. Cursos esses que, para mim, deveriam ser o centro desse sistema, um conjunto de idéias entre as quais se possa definir uma relação, uma vez que se trata de preparar o ser humano para a paz. Todos os demais cursos do sistema deveriam estar em função desse curso central interdisciplinar, por assim dizer.
Vislumbro esse sistema educacional como germe de uma universidade popular que visa o aperfeiçoamento integral de todas as faculdades humanas e, principalmente, o aperfeiçoamento do comportamento democrático cunhando a paz.
Trata-se de fato -como diz Karl Marx-.de substituir o "homem fragmentado" pelo "homem integral". Trata-se de formar um tipo de ser humano que não mais será representante de seu ofício, de sua classe, de sua profissão, religião ou mesmo de seu partido. E sim um homem de tipo novo, pronto a contribuir para a transformação cultural que se processa dinamicamente em nosso tempo. Um homem que, internamente livre e aberto, seja capaz de viver com os conflitos desencadeados por essa transformação cultural.
Totalmente oposto ao técnico perfeito, que domina tão somente o seu campo, o oposto ao especialista unilateral, que não se preocupa com qualquer problema fora de sua especialidade.
Um homem de mentalidade aberta, que renuncie à mentalidade mecânica e à segurança presunçosa, pronto a enriquecer a plenitude da vida.
Há muito que já se encontra em curso uma transformação ideológica da personalidade humana nesse sentido. Contudo os obstáculos no caminho para uma realização em âmbito planetário do homem adequado, ainda são demasiado grandes, pois a ela se opõem interesses em todas as partes do mundo. E porque as energias, que tornam possível essa transformação, não podem ser levadas a atuar apenas por meios racionais, dependendo, antes, de fatores humanos que não podem ser quantificados.
Ciência e técnica terão no futuro uma importância cada vez maior. O trabalho comum em todos os projetos de pesquisa possíveis, na área da sociologia, antropologia, das ciências naturais e das artes, deveria ser um destacado setor desse sistema educacional.
É próprio do mundo tecnológico obrigar-nos a realizar diariamente algo novo, isto é, a termos uma criatividade permanentemente criadora, a estarmos aperfeiçoando, dominando e reformando o mundo por nós criado. Por isso, esse sistema educacional idealizado por mim, deveria ter como outro pólo de sua esfera de ação, estimular, planejar e auxiliar a atividade criativa de seus alunos. Tratar-se-ia de um tipo de universidade livre em que não houvessem aulas no sentido usual, mas que se ensinassem e aprendessem através de projetos científicos ou artísticos, executados em comum por professores e estudantes.
Pois, esse sistema educacional deveria não apenas transmitir cultura, mas sim,criar cultura.
Uma instituição em que amizade e compreensão surgem como decorrência da cooperação cultural, como decorrência da realização em comum. Dando origem a ligações autênticas, contatos genuínos que despertem o sentimento de solidariedade.
Em um mundo aberto, democracia constitui o campo de força de comunicações e relações inter-humanas.
Nele se consome a atividade intelectual tecnológica e política. Democracia como conteúdo de um processo sócio-cultural. Por isso, democracia deveria ser uma evidência nesse sistema educacional.
Um mundo aberto se descortina diante de nós. Um mundo aberto que corresponde a um tipo de homem capaz de preencher uma esfera de vida mais ampla. Um mundo aberto, em que trabalho e lazer, aprendizagem e amor se fundirão para criarem uma nova forma para cada fase da vida.
Sem dúvida, tudo o que fazemos, deve assentar sobre os alicerces da tradição, pois muito do criado por nossos antepassados continua sendo viável, mas não será simplesmente talhando pedras de ruínas de nosso passado que conseguiremos o material de que necessitamos para a construção da cultura planetária em preparação.
Não menos importantes do que as antigas forças que nos impelem, são as novas formas, que despontam no inconsciente do homem e lhe prometem possibilidades nunca imaginadas, sobretudo a possibilidade de uma vida não mais entregue ao acaso e sujeita as meras necessidades.
O importante é prestar uma contribuição a um desenvolvimento em âmbito universal, visando um equilíbrio dinâmico, que não seja um fim em si, mas um meio para um maior crescimento. O que importa é a integração do nacional no supranacional, a criação de uma consciência do todo como fundamento para a construção de uma cultura planetária, de um nível de consciência adequada, a realização da totalidade humana e do homem integral, como condição básica indispensável para a sociedade que nos foi imposta pelo desenvolvimento tecnológico, um processo que foi desencadeado pela ciência e técnica modernas e envolve toda a humanidade.
Trata-se de prestar uma contribuição para a formação de uma sociedade e de uma cultura humana, que representam a condição vital para o nosso futuro e a Paz.
COMENTÁRIO
Há quase sessenta anos o Mestre Koellreutter no Brasil vem desenvolvendo suas atividades múltiplas. Mas como caracterizar que tipo de atividade desenvolve este fazedor de coisas que alterna momentos de composição e de difusão de sua obra de criação musical de ensino (no sentido mais acadêmico, com toda a carga de planejamento e disciplina no cumprimento de etapas previamente definidas) e de animação cultural (quando o processo de transmissão do conhecimento se dá ao ritmo da própria vida, principalmente quando os discípulos são levados a assumir eles mesmos responsabilidades na vida da comunidade)? Mas isto não tem muita importância na biografia de Koellreutter, que não vai gastar seu tempo na busca destas definições -mesmo que a busca de rigor conceitual seja uma das características de seu ensino e que, há sessenta anos,a maioria de suas aulas tenha começado por um sonoro "eu entendo por...", seguido de clara definição do que ele pretende dizer-, nem deve esperar que outros gastem tempo e energia nesta especulação.
Mas dá sempre vontade de buscar as relações claras ou ocultas entre as diversas manifestações do fazer de Koellreutter, particularmente as correspondências entre o criado em música e o dito em palavras -sem esquecer o demonstrado em atitudes. Curiosamente, o registro escrito destas muitas dezenas de anos de criação e menor do que muitos podem imaginar. O catálogo de obras musicais de Koellreutter não rivaliza em quantidade com o de muitos outros compositores mais jovens (pode-se dizer que eles são compositores mais profissionais, que dedicam-se mais seguidamente a criação) e a lista de seus textos teóricos -artigos e livros- é igualmente breve, não refletindo nem de longe o que o Mestre produziu como reflexão sobre a música e seu papel na vida social. Vê-se que Koellreutter foi mais oral do que todos desejaríamos ao longo do processo do de transmissão do conhecimento e de definição de seus princípios estético-musicais.
Os textos produzidos por Koellreutter -em muitos casos, destinados a conferências ou aulas mostram um característica marcada:ainda que voltados para a discussão de tema muito específico, eles tendem a abarcar universo muito amplo,revelando as preocupações do criador face a muitas questões prementes do mundo da criação, que ele sempre relaciona com a filosofia, com os problemas da ciência e da tecnologia, co a política cultural e educacional, com a problemática da comunicação (na arte e nas mídia). Em muitos de seus textos, o compositor revela sua necessidade de alargar seu universo -não lhe compete apenas opinar sobre os caminhos e a perspectiva da arte- para tornar mais eficaz sua presença no meio em que vive.
Esta busca de alargamento de horizontes aparece claramente no texto que examina o papel da educação e da cultura na promoção da paz.
Em texto conciso e incisivo, Koellreutter tenta conceituação precisa de paz e de cultura, para mostrar como a segunda pode ser caminho para a primeira.
Vale destacar que o Maestro não quer utilizar conceito de cultura imediatamente derivado do romantismo burguês. Ele quer conceito que abranja a totalidade da vida social, por considerar que a cultura é dela parte e inseparável indispensável. Mas ele quer também pensar em conceito de mundo que seja mais adaptável à realidade contemporânea, mais aberto as conquistas da ciência e da tecnologia, mundo que ele não existir ainda em sua plenitude, mas que, por ser antevisto atravésde seus sintomas, pode ser preparado.
Ao longo deste texto, Koellreutter vai entrelaçando idéias que refletem o entrelaçamento do próprio tecido da vida social. Ele valoriza o que a construção e a compreensão da cultura tem de ação grupal, atividade coletiva, que nasce de estímulos mútuos e conduz à experiência integradora. Tal atitude mostra a necessidade de superar o que ele chama de individualismo diferenciador e de coletivismo nivelador, em busca de uma nova convivência nacional (um novo sentido de nacionalismo) e internacional.
O Maestro bem sabe que a imagem que os meios de comunicação difundem está longe de mostrar a realidade, e que, ao nível culturais, a sociedade planetária está longe de ser constituída. E ele percebe bem que as dificuldades de compreensão e de assimilação situam-se mais nos países do primeiro mundo que nos povos do Terceiro Mundo. Por imposição da própria ordem mundial de hoje, os países da periferia são obrigados a saber muito sobre as metrópoles, enquanto estas têm conhecimento fragmentado e pouco claro da periferia. E ele entende que a construção da paz passa por esta elementar forma de respeito à individualidade outro: seu conhecimento. Conhecer para respeitar e para ultrapassar qualquer fronteira: . eis a maior das utopias de Koellreutter.
O mundo no qual todos serão apenas gente, convivendo dentro do que ele pretende ser uma consciência supranacional.
Mas Koellreutter não quer apenas divagar sobre este mundo possível. Ele sugere formas de preparação para nele entrarmos. A principal delas, a mais clara, é a proposta de sistema educacional que ocupa a parte final de seu artigo, sistema que poderia dar origem ao homem integral. Curiosamente, a reflexão que se iniciara tomando o conceito de cultura como pedra toque e ponto de partida para a conquista da paz conclui-se quase sugerindo o predomínio do conceito de educação, que, reformulada, conduzirá à construção de uma nova cultura planetária.
Através deste artigo, conhece-se melhor Koellreutter como pensador de questões relativas a cultura e a educação.
José Maria Neves, Musicólogo e Professor Titular da UNlRlO.
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