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NOS DOMÍNIOS DA MÚSICA
a propósito de "O Banquete", de Mário de Andrade
(Conclusão)
H.J.Koellreutter
Exemplar datilografado com alterações manuscritas do autor (05p.). Publicado na revista: Leitura,
07/1945.
Pouco fala Mário de Andrade sobre o ensino musical, talvez o problema mais sério que enfrenta o Brasil no terreno da música. Mário de Andrade considera o ensino musical do Brasil "não só paupérrimo, mas principalmente errado, antiquado, ignorante, que só não é nulo porque é prejudicial,por incompleto, incompetente e desnacionalizador".
Sim, a orientação do nosso mesmo ensino musical é, atrasadíssima, anacrônica, é numa palavra -deslocada do nosso tempo. Neste momento, não deve constituir problema fundamental a formação de virtuoses, malabaristas de instrumentos musicais, mas sim a formação de artistas com verdadeira cultura que possam, integrados no ritmo da época, vir a ser úteis ao povo como artistas conscientes de sua missão na sociedade. Há, neste momento, maior precisão de educar professores que virtuoses. Estes surgirão automaticamente num ambiente de cultura mais elevada.
Faltam, para muitos instrumentos professores que devem ser contratados no estrangeiro a fim de que formem especialistas e professores nacionais. A organização de cursos de iniciação musical no gênero dos cursos de Liddy Chiafarelli e Geni Marcondes e a educação rítmica, constituem fatores fundamentais para um ensino moderno e para a preparação da mocidade, do público e dos artistas do futuro.
Surge, no ensino musical propriamente dito, a necessidade de substituir o ensino do antigo baixo cifrado, que servia de fundamento para uma linguagem sonora de duzentos anos atrás, por um sistema harmônico mais amplo: a harmonia funcional. Esta, compreende todos os complexos harmônicos do sistema tonal e corresponde, não somente à produção que se baseou no baixo cifrado, mas também à criação do século passado.
O ensino de regras teóricas, doutrinárias e acadêmicas -prejudiciais à criação artística deve ser substituído por um ensino tolerante que estimule e anime a vontade criadora. Ensino este, baseado na acústica e não em antigos princípios estéticos que constantemente mudam. Como a arquitetura, também a construção musical é baseada nas ciências exalas, fornecedoras de leis, as quais garantem a homogeneidade e o equilíbrio da construção musical. Quinta e oitavas paralelas não são critério, mas sim apenas restos de um sistema de regras motivado por determinados conceitos estéticos! Somente as leis, baseadas nas ciências, na acústica, têm valor duradouro para todos os estilos e possibilitam um julgamento seguro e objetivo da obra musical.
O antigo sistema de se ensinar em separado a harmonia e o contraponto precisa ser modificado e substituído por um sistema que permita ao aluno uma profunda compreensão da arquitetura musical e da compensação do elemento melódico horizontal pelo harmônico-vertical e vice versa.
O estudo do folclore ainda é pouco explorado no ensino musical. Aproveita-se geralmente o material folclórico, ambientando-se melodias populares por processos harmônicos franceses ou alemães, mas não se penetra no fundo do melos e não se chega às fontes primitivas do verdadeiro folclore musical. Deve-se estudar e assimilar a essência destes elementos para criar algo de realmente novo e original, sem consideração a formas e convenções, se for necessário.
O estudo da estética deve tornar-se obrigatório assim como o de outras matérias complementares, mesmo o daquelas que não estejam diretamente ligadas à música como: literatura, artes plásticas, filosofia, matemática, física etc., matérias essas indispensáveis á formação do artista moderno e construtoras de um nível artístico mais alto.
Recomenda-se a realização de cursos de verão, fora da cidade, durante os quais os estudantes participantes terão oportunidade de ouvir conferências sobre pintura, literatura, filosofia, sociologia etc. estudando, ao mesmo tempo, as matérias principais de seu aprendizado musical e se associando belamente em atividades coletivas como: conjuntos instrumentais e canto orfeônico. Atividades esportivas trarão a necessária compensação para o esforço intelectual.
Deste modo, os jovens aprenderão a integrar-se com a vida social, a servir a um todo e deixarão o individualismo, tão prejudicial ao desenvolvimento cultural no Brasil.
O ante-projeto da reforma do ensino musical no Brasil promete uma mudança radical e uma orientação moderna e progressista. Será ela o acontecimento musical mais importante deste ano.
Não nos preocupemos com a imortalidade, mas sim com o estudo, o trabalho e a produção artística!
NOTICIÁRIO
A Orquestra Sinfônica de Boston sob a regência de Serge Koussevitsky executou "Tema e Variações" de Arnold Schoenberg.
A Orquestra Sinfônica da "Eastman School of Music" em Rochester realizou um Festival incluindo no programa o número "Brasileiro" com música de Camargo Guarnieri.
Foi executada na "Agrupacion de la Nueva Musica"em Buenos Aires a Sonata para flauta e clarinete do compositor brasileiro Guerra Peixe.
O compositor inglês Vaughan Williams escreveu, por encomendada da "British
Broadcasting Company", uma antífona a ser cantada para comemorar a vitória dos Aliados, intitulada "Ação de graças pela vitória", para soprano solo, coro misto, coro infantil, orquestra e órgão.
Alfredo Casella terminou a composição de uma "Missa Solene" pela Paz.
O compositor Aram Khatchaturian escreveu na Fazenda dos Compositores, na Rússia Soviética, o Hino Nacional Armênio.
A nova estação de rádio da Prefeitura do Distrito Federal, PRD 5 foi inaugurada pela Sonata para flauta e piano do jovem compositor brasileiro Claudio Santoro cuja "Música Concertante", para piano e orquestra será executada, em primeira audição pelo pianista chileno Claudio Arrau nos Estados Unidos.
Sergio Prokofiev, prêmio Stalin dêste ano, compôs um novo bailado: "Zabrushka", tendo por argumento um conto popular.
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