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NOS DOMÍNIOS DA MÚSICA
a propósito de "O Banquete", de Mário de Andrade
(IV)
H.J.Koellreutter
Exemplar datilografado com alterações manuscritas do autor (05p.). Publicado na revista: Leitura,
06/1945.
Essencial para a educação do público é a organização dos programas. Estes são geralmente de uma indiferença cultural irremissível. A rotina, a monotonia, e, principalmente, os interesses financeiros em jogo pelo sucesso público e fácil triunfo, dominam inteiramente. Desculpam-se os virtuosos, regentes e conjuntos de câmara, afirmando que as obras de Beethoven, Chopin, etc, são as que possuem maiores valores estéticos. Mas, em verdade, não estão se preocupando muito com estes, aos quais, na maioria das vezes, desconhecem.
A preocupação dos intérpretes é de si mesmo, do seu sucesso, pois Beethoven e Chopin já são conhecidos pelo público, compreendidos e aplaudidos... Há de considerar também a... preguiça de estudar e interpretar. Porque Béla Bartók, Hindemith, Schoenberg ou Stravinsky, exigem muito mais conhecimento técnico de música e muito mais esforço. Não que um Beethoven seja mais fácil que um Schoenberg. Mas é que a linguagem sonora de um Stravinsky ou de um Schoenberg é nova e, portanto, problemática para o intérprete, educado na música dos séculos XVIII e XIX. Uma obra de concepção nova pode ser destruída, ao passo que nem um Beethoven, nem um Haydn podem ser destruídos, mesmo numa interpretação medíocre. E isso porque o público já escuta de cor.
Um programa de conteúdo exageradamente variado, composto de obras de toda espécie, as quais não têm nenhuma relação entre si, é, sem dúvida, uma prova de falta de cultura, da mesma forma como é a colocação arbitrária de determinados objetos de arte num museu.
Kakuse Okakura, no seu belo "Livro de Chá", descreve magnificamente como os chineses organizam a arquitetura anterior das suas residências, concebendo uma determinada obra de arte como ponto central, cujo efeito não deve ser prejudicado por nenhum outro objeto.
Assim, também, cada composição tem a sua vida própria, não suportando a vizinhança de obras que não pertençam ao mesmo círculo estilístico. Por isso, os programas de estilo são os mais artísticos e mais educativos. Eles encerram características comuns a determinadas criações individuais. Poderão ser organizados por estilos nacionais -com as características de um país ou de uma raça-, ou por estilos históricos -as características comuns a todas as obras de uma certa época.
Programas que demonstram uma evolução de estilo ou de expressão -assim, por exemplo, um concerto sinfônico, com uma sinfonia do "clássico" Beethoven, uma obra de Brahms, romântico de tendências classicistas, a Sinfonia em Dó do neoclassicista Stravinsky-, ou programas de obras contrastantes, bem inteligentemente selecionadas, também são de alto valor para a educação do público.
A organização cronológica, em que as peças "modernas"-geralmente não passam de Debussy e Ravel e do compositor nacional, se obrigatório-, encontram-se no fim do programa, não garantem uma realização de valor estético.
Um programa intercalando um autor contemporâneo de tendências classicistas entre obras clássicas, por exemplo, demonstra muito mais unidade artística de que a simples ordem cronológica de composições esteticamente variadas.
O programa é o cartão de visita de um artista, demonstrando sua cultura, sua atitude espiritual e estética.
A ausência de obras de compositores do continente latino-americano ou norte americano chama a atenção de quem se interessa sinceramente pela evolução cultural destes continentes.
No Brasil, a música brasileira é executada apenas por obediência à uma lei contraproducente, "patrioteira" mas sem sentido nacionalizador. Para a música norte-americana, chilena, argentina, mexicana, porém, não existe lei nenhuma, e assim os compositores destes países -em parte músicos de renome mundial-, ficarão eternamente desconhecidos.
O desinteresse pela evolução cultural do continente e do Brasil, em particular, por parte dos virtuosos e regentes, é alarmante.
Em lugar de executar a Primeira Sinfonia de um Camargo Guarnieri ou um dos grandes Choros de um Villa-Lobos, o regente pede uma peça pequena, bem curta, fácil, para que não lhe dê trabalho, a qual ele possa decorar logo e, portanto, esquecer mais depressa ainda. Sobre este problema, Mário de Andrade escreveu em "O Banquete":
"Depois de obras célebres e de longa minutagem, que tomam as duas primeiras partes do concerto, vem uma terceira parte, composta de obras menores, mas de brilho grande e sucesso garantido. E é no meio dessa brilhação da terceira parte que se imiscui, metediça e desavergonhada, uma berceuse, uma modinha, uma ciranda, um ponteio de compositor brasileiro, pecinha bem pequenininha, ordinária: meio minuto apenas de miséria tímida, só e exclusivamente sujando a pompa espertalhona do programa. Pois é em obediência a uma lei brasileira que se consegue semelhante desprestígio do Brasil. Não é que essas coisas não adiantem nada à música brasileira; e pior é que a prejudicam, a destroçam. Se incute no próprio público, com amostras clamorosas, a pobreza, a inferioridade, a feiúra das músicas e dos compositores do seu próprio país. Nasce um complexo de inferioridade justo, justificado, provado que vai prejudicar qualquer isenção futura de julgamento, mesmo de obras importantes e de grande valor. E por causa disso, esse mesmo público, quando vê no anúncio dum concerto uma obra grande brasileira, que toma toda uma parte do programa, se lembrando daquela obrinha suja, besta, infecta, que até lhe deu vergonha, no concerto passado, foge do concerto novo, convencido da porcaria que vai ouvir".
Eis a verdade pura sobre essa parte, vitalmente decisiva para a educação do público e a evolução cultural de um país.
NOTICIÁRIO:
Foi executada, em Moscou, pela primeira vez, a nova ópera de Prokofiev intitulada "Guerra e Paz" .
A Sinfonia n° 1 do compositor tcheco Bohuslav Martinú foi, pela primeira vez, executada na Europa, pela Orquestra Sinfônica, em Genebra, sob a direção de Ernest Ansermet.
O jovem compositor uruguaio Tosar Errecart, foi apresentado pelo grupo "MúsicaViva", na PRA 2, Rádio do Ministério da Educação e Saúde, como intérprete das suas próprias obras.
No primeiro e segundo concertos de uma série de recitais dedicados à criação deste continente e organizados pela Escola Nacional de Música e pelo Instituto Interamericano de Musicologia, foram estreadas obras de Rey Harris, Shepherd, Jacobo Fischer, Domingo Santa Cruz, Fençe, Everett Helm e Camargo Guarnieri.
COMENTÁRIO
O alvo da crítica de Koellreutter é, aqui, mais especificamente, o caráter rotineiro e estilisticamente indiferente dos programas de concertos, em sua maior parte organizados segundo o mero critério do aplauso garantido, do sucesso fácil, do êxito de bilheteria. Oferecendo ao público apenas o que ele já "escuta de cor", tais programas, em lugar de educá-lo, simplesmente homologam seus hábitos auditivos. Uma educação musical enrijecida e anacrônica, estruturada em função do"culto" do já consagrado, colabora para tal estado de coisas, formando executantes acríticos, acomodados e despreparados para reagir positivamente diante de linguagens inusitadas, que requerem especial esforço interpretativo e, consequentemente, abalam sua "preguiça de estudar e interpretar".
A partir desse delineamento crítico inicial, o autor defende o alto valor artístico e educativo dos programas organizados em torno de um eixo estilístico comum, que não se restrinjam apenas ao tradicional, mas incluam também as novas linguagens e, além disso,divulguem a produção musical de nosso continente, geralmente relegada a um plano secundário.
O enraizamento modernista do discurso de Koellreutter é bem evidente: o "novo", o "original", o ideal de"progresso", a crença na possibilidade de melhora do ser humano, são, para ele, valores determinantes. E, naturalmente, isso suscita questionamentos, sobretudo se considerado do estrito ponto de vista "pós-modernista", que aponta a "crise" não só das categorias acima mencionadas como também de outros conceitos implícitos na argumentação do autor: "história" como curso unitário das vicissitudes humanas (com todos os seus corolários: "progresso", "superação", "homogeneidade "de um período", continuidade estilística" e assim por diante). Em relação a essa ótica "pós-moderna", tornam-se especialmente problemáticas as teses de uma necessária organização cronológica e estilística dos programas, com fins educativos (se não existe uma historia única, não existe progresso, sendo ilusório pensar em um plano de melhora, de educação do público), e de que programas diversificados, compostos de peças estilisticamente heterogêneas, constituem, "sem dúvida, uma prova de falta de cultura". Certamente existem casos em que se pode falar de "pastiche" ou de ausência de perspectiva cultural,mas é preciso ter em conta que, nas últimas décadas, o ecletismo, o pluralismo, a falta de unidade, a incoerência, passaram a apresentar uma outra possibilidade significativa, explicando-se muitas vezes, não como indícios de uma indiferença cultural, mas de uma postura consciente de crítica "desconstrucionista" contra a autoridade do sentido, contra a existência de um telos e de um significado central e a favor de um fluxo contínuo de valores e de uma semiose ilimitada.
Entretanto, para medir o alcance e a atualidade das considerações de Koellreutter, é preciso deixar entre parênteses o plano da estrita guerra entre "modernistas" e "pós-modernistas" e verificar a pertinência de suas observações em relação ao nosso contexto, atentando especialmente à atmosfera acrítica e repetitiva que ainda vigora em nossas práticas musicais.É diante da persistência da falta de perspectiva cultural, do conformismo, da alienação no passado, que o modernismo de Koellreutter ganha força e atualidade, conservando-se as suas denúncias sempre vivas e fecundas para uma reflexão.
Sandra Neves Abdo, Filósofa e Professora da Faculdade de Filosofia e Clências Humanas/UFMG
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