NOS DOMÍNIOS DA MÚSICA

a propósito de "O Banquete", de Mário de Andrade

(III)

H.J.Koellreutter

Exemplar datilografado com alterações manuscritas do autor (05p.).
Publicado na revista: Leitura, 05/1945.

Dentro desse primitivismo natural do Brasil em face do seu futuro, a música brasileira -no conceito de Mário de Andrade-, tem de ser brasileira. Um nacional de vontade e de procura. Nacional que digere o folclore, e um nacional que digere as tendências e pesquisas universais, por que o Brasil é atual e não uma entidade fixada no tempo, e "por se tratar sempre de arte erudita que, por definição, acolhe o internacional" .

Mário de Andrade refere-se ao nacionalismo substancial, que não constitui um fim, mas apenas um estágio. Em seguida, o grande escritor brasileiro denuncia a deficiência da nossa crítica musical, a qual considera totalmente vesga: "pedante, ensimesmado, partidária, incapaz de assumir qualquer orientação normativa: gratuita, incapaz de qualquer compreensão pragmática do seu papel educativo e da sua função nacional".

O crítico que apenas elogia ou critica, perdeu, em nossa época, o direito de existência. O crítico musical moderno -intermediário entre o artista e o público-, tem uma missão muito mais alta, uma das mais importantes na vida cultural de um povo, uma função social: a de julgar e de orientar as relações entre o homem e a música, entre música e sociedade, dedicando-se inteiramente ao efeito vital da obra, precisa, ao mesmo tempo, mobilizar todas as forças espirituais ativas para poder compreender e julgar forma, conteúdo e valor da composição e também da interpretação. A crítica da ópera exige ainda experiências e conhecimentos dos especiais problemas musicais em relação ao teatro, ao canto e à arte de apresentação, de problemas acústicos e óticos.

Conceitos superficiais e diletantes, como sempre aparecem na imprensa, desorientam o público e constituem um sério perigo para o desenvolvimento cultural de um país. Assim lemos sobre as magníficas sinfonias de Brahms a seguinte frase: "As suas sinfonias são de mau germanísmo megalomaníaco e vazio". Ou sobre uma obra-prima da música contemporânea de um dos maiores compositores da atualidade, frases que denunciam a má vontade do crítico em face da música contemporânea e afastam o público brasileiro da criação nova: "Nenhum acorde tonal, mas, sim coisas que parecem meros agregados harmônicos; nenhum desenho sobre o velho e repusante tear da melodia quadrada e orgânica; nenhuma repetição dos períodos anteriores; nenhum desenvolvimento, no sentido tradicional. Cada compasso encerra uma novidade... decepcionante. O ouvido não encontra pontos de apoio e referência. Terminada a execução, o espírito, fatigado pela incessante renovação do esforço de atenção, recusa-se a recompor a arquitetônica geral da peça ".

E confundindo o atonalismo com a técnica dos 12 sons, técnica de composição criada por Schoenberg, o crítico lança a confusão entre o público que pede esclarecimento e explicação dos múltiplos problemas da música moderna e da nova linguagem sonora. O cronista continua escrevendo sobre a obra não escrita na técnica dos l2 sons e cujo autor nunca aderiu à técnica Schoenberguiana. "A técnica dos 12 sons está ainda, parece-me, no período da conquista do 'material'; a música atonal no seu período técnico, e dentro de preocupação que se diria, como em arquitetura moderna, funcional. O que é evidente é a intenção cuidadosa, minuciosa de não chegar a nenhuma consonância, e sobretudo (salvo no caso de inevitáveis probabilidades...), a qualquer aproximação do sistema harmônico. E a época do ortodoxismo a todo custo; a época heróica. Pena é que, visualmente, aquilo tudo seja tão parecido com música tonal... O ouvido, porém, afirma que música não é arte cerebrina, mas som".

"Este pianista não é escravo de nenhum 'estilo'. Não esperem das suas interpretações a obediência passiva a essa praxe infecciosa que se denomina o estilo de Beethoven -e que deturpa Beethoven, tornando-o massudo e soporífero-, que infantiliza Mozart fazendo-o arquiteto de ninharias sensboronas", lê-se numa crítica sobre um célebre pianista, crítica que não hesita em negar os eternos fundamentos da estética e da interpretação.

Um crítico pretendendo provar que a Sinfonia Pastoral de Beethoven não deve ser considerada descritiva, argumentou que o compositor, se já estava surdo, não podia imitar o gorjeio dos pássaros no segundo tempo da sinfonia.

 

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