NOS DOMÍNIOS DA MÚSICA

a propósito de "O Banquete", de Mário de Andrade

(II)

H.J.Koellreutter

Exemplar datilografado com alterações manuscritas do autor (05p.).
Publicado na revista: Leitura, 04/1945.

"O Brasil está em frente do seu futuro. O estado das artes musicais, plásticas, arquitetônicas mesmo (o mesmo, como linguagem, as literárias) no Brasil, não é primitivista, por Primitivismo escola de arte, ou primitivismo diletante de blasés europeus... Os artistas brasileiros são primitivos: mas são 'necessariamente' primitivos, como filhos duma nacionalidade que se afirma e de um tempo que está apenas principiando. Neste sentido é que toda a arte americana é primitiva, mesmo a dos Estados Unidos".

Com estas palavras Mário de Andrade, em O Banquete, refere-se, não só à situação da música brasileira, mas também à situação espiritual de toda a nossa geração.

O verdadeiro artista brasileiro é primitivo sim, mas não só ele. Toda verdadeira arte de nossa época será primitiva por ser um princípio, a expressão de uma nova sociedade.

Em fins do século XIX (1889 é o ano da composição de Don Juan de Ricardo Strauss e da Primeira Sinfonia de Mahler), o romantismo chega ao seu termo, este movimento de expansão destinado a esgotar-se. Tristão e Isolda é a sua máxima expressão. A expressão psicológica causa uma última sub-utilização dos elementos musicais: da melodia, do ritmo, da forma e a harmonia chega à conseqüente dissolução das suas funções tonais pelo cromatismo.

Domina na criação dos últimos decênios do século XIX a tendência para o monumental dos meios sonoros. Esgotados os recursos expressivos da linguagem tradicional, o músico se refugia no "grandioso" e no "sobre-humano" sucumbindo sob o peso das formas "cíclicas".

Ainda em 1908, Mahler escreve a sua Oitava Sinfonia, que se enquadra, em seus três últimos movimentos, nos moldes do oratório -exigindo grandes massas de executantes-, é denominada Sinfonia dos Mil.

Richard Strauss procura novos meios de expressão na técnica virtuosística de orquestração, levando ao apogeu o tipo de poema sinfônico lisztiano. Salomé e Electra são caracterizadas pela excessiva acumulação de dissonâncias românticas e pelas proporções gigantescas dos meios sonoros.

Mesmo as primeiras obras de Arnold Schoenberg, o grande revolucionário, cuja obra construirá o ponto de partida para o novo estilo, encontram-se ainda dentro do espírito novecentista: O sexteto de cordas Noite Transfigurada (1899), o poema sinfônico Pelleas et Mélisande (1905), o Primeiro Quarteto de Cordas em Mi Menor (1907) e os Gürre-lieder (1911). Nestes últimos, cuja partitura contém trechos compostos a 48 vozes, Schoenberg dilata a expressão musical ao non plus ultra e chega a uma super-polifonia empregando um melodismo de intervalos excessivos, cromatismo e enarmonia refinados, um narrador, cinco solistas,três coros masculinos a 4 vozes, um coro misto a 8 vozes e uma orquestra monumental.

O compositor do fim do século passado trabalha com um uso excessivo de material, empregando elementos demasiadamente conhecidos, gastos e até vulgarizados, como o demonstra uma grande parte das obras de Gustav Mahler, por exemplo. O artista se esqueceu, que a maior arte consiste num máximo de expressão por um mínimo de meios.

Forças dissolventes e um turbilhão de idéias confusas chegam ao seu ponto mais crítico, entrando assim definitivamente em decomposição o romantismo e, com ele, toda uma grande tradição artística. As duas grandes guerras mundiais marcam uma época de transição e de transformação. Encontramo-nos novamente num princípio, no limiar de uma nova época da História e de uma nova cultura. Enquanto a cultura européia se acha em franca decadência e os expoentes mais representativos do velho continente são obrigados a viver no exílio, a cultura americana está principiando, atingindo personalidade e coerência.

A arte desta época, na madrugada de uma nova cultura é caracterizada por um fenômeno universal de renovação de valores e meios artísticos, um novo primitivismo.

Já em princípios deste século -no Sacre du printemps com suas sonoridades descarnadas e seus ritmos elementares, em Wozzek e Pierrot Lunaire- ansiando crescer e expandir-se dentro de uma nova organrzação formal, irrompem forças elementares que anunciam uma era primitivista.

Em 1918 Stravinsky escreve a História do Soldado,onde a orientação estética é típica da nova concepção. A "orquestra" consiste de um clarinete, de um fagote, um pistão, um trombone, um violino, um contrabaixo e percussão. Dez anos depois da criação da Sinfonia dos Mil, a estrutura musical da História do Soldado apresenta um máximo de concentração, e a música se compõe de uma série de pequenas peças individuais, organizadas em forma de suíte. Acabaram-se as formas gigantescas: A primeira audição da História do Soldado de Stravinsky, a 28 de setembro de 1918, sob a direção de Ansermet, em Lausanne, pode ser considerada um símbolo para o novo ideal criador.

O primitivismo na arte aparece assim como conseqüência lógica na evolução da expressão musical, e só ele pode ser construtivo e constituir a base de uma nova cultura. O artista de nossa época só contribuirá para a renovação tendo a coragem de ser simples e primitivo.

E realmente, a arte dos novos, dos pioneiros do novo estilo, alheia a preconceitos e doutrinas -esta música que não pretende ser outra coisa senão música, a expressão dos pensamentos de uma nova sociedade-, é primitiva na sua elementar simplicidade. Chamam as suas obras simplesmente "Música","Peça"e exteriorizam já assim sua atitude espiritual. Não têm a obsessão do belo. Pretendem ser unicamente sinceros, verdadeiros. A eles pertence o futuro e são eles que construirão o novo mundo.

COMENTÁRIO

Nada é mais simples: somosPrimitivos!

Numa época em que, na arte, buscava-se saídas para as questões da e conflitos cultura romântica, as feiras internacionais na Europa colocavam em evidência a diversidade cultural da humanidade. Pelos olhos de músicos de formação européia pôde-se apreciar, mais de perto, a simplicidade que a opulência melódica, harmônica e orquestral do romantismo parecia ignorar.

A arte primitivista do início do século XX é freqüentemente exemplificada pela recorrência das linhas angulosas e sucintas das máscaras africanas nas telas e cerâmica de Picasso, pelas cores chapadas e simplificação de planos nas telas taitianas de Paul Gauguin, nos ritmos tribais de uma Rússia imaginária na Sagração da Primavera de Stravinsky.

Apesar da orquestração monumental, Stravinsky aponta,na Sagração da Primavera, para uma nova direção na música: a emancipação do ritmo enquanto objeto sonoro autônomo. Esse aspecto em Stravinsky se desdobrou, dentro da associação primitivo= primeiro, aqui apresentada por Koellreutter, em novos principiares. Alguns exemplos são a valorização dos instrumentos de percussão na paleta orquestral de Varése e, mais tarde, a ampliação do conceito de som musical na música concreta. Nos dois casos, buscou-se uma valorização rítmico-timbrística em detrimento da decantada abordagem melódico-harmônica.

A genialidade de Stravinsky, já dentro da economia claudicante do entre-Guerras voltou, a simplificar a música com os sete instrumentos e peças curtas da Historia do Soldado, onde reduz a orquestra em número, mas não em recursos expressivos. A simplicidade primitiva na Historia do Soldado também coloca lado a lado ritmos populares antigos - a valsa e marcha européias -e novos- o ragtime e o tango das Américas.

"O Brasil está em frente do seu futuro (...)" pois "O verdadeiro artista brasileiro e primitivo (...)". Koellreutter, revisitando Mário de Andrade, exorciza a sensação de que, por sermos primitivos, somos atrasados. Não, podemos ser primeiros, ao dizer que, numa época quando se pergunta sobre o futuro da música brasileira, que os caminhos podem ser muitos, mas sua essência estará sempre na simplicidade.


Fausto Borém de Oliveira, Contrabaixista e Professor da Escola de Música/UFMG

 

voltar

 

 

Atravez | Grupo de Musicantes | Publicações | Início

 

 

São Paulo/SP - atravez@atravez.org.br