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NOS DOMÍNIOS DA MÚSICA
a propósito de "O Banquete", de Mário de Andrade
(I)
H.J.Koellreutter
Exemplar datilografado com alterações manuscritas do autor (05p.). Publicado na revista: Leitura,03/1945.
Os conceitos emitidos por Mário de Andrade na série de artigos intitulada "O Banquete", e publicada na "Folha da Manhã" de São Paulo, significam um apelo e uma advertência aos artistas de nossa época e, em especial, ao músico no Brasil.
Um autêntico lutador, Mário de Andrade nunca vivia afastado da vida. Consciente da sua responsabilidade como artista, sempre era pronto a agir e nunca se recusou aos novos. Mário de Andrade,um mestre das novas gerações, punha sua fé na mocidade, que tantas vezes o decepcionou. Sempre sincero, falava com franqueza e sua obra é a obra honesta de preocupação constante das atitudes nobres e de pureza moral.
Apaixonado pela idéias e ideais, combatia, ele o mais moço dos moços, a indiferença e a mediocridade. Mas a sua ruptura como tradicionalismo e convencionalismo estéticos foi incompreendida por muitos.
Nesta hora, em que a civilização muda de rumo, em que se processa uma das maiores transformações sociais e espirituais, as palavras de Mário de Andrade apelam para os artistas pela socialização da sua arte: "Acho que o artista, mesmo que queira,.jamais deverá fazer uma arte desinteressada".
Pereceu o mundo do primado do individual e surgiu um mundo novo, o do primado social. A arte hoje, mais do que nunca, não representa o indivíduo, mas sim a comunidade e, o artista, tornando-se o "homem social", deve procurar o que lhe é direito dentro da sociedade em que vive, porque é o construtor das bases sobre as quais se processa a evolução de um povo e da humanidade.
Daí a grande responsabilidade do artista no Brasil, num país novo, cuja identidade se encontra em organização étnica, na qual não deve constituir problema fundamental a formação de virtuoses e de valores individuais.
"Arte legítima, eficaz, funcional e representativa" exige Mário de Andrade do músico brasileiro, o que vale igualmente para o artista estrangeiro radicado vivendo neste país, o qual tem a obrigação de colaborar com a cultura nacional. Um trabalho que sirva à comunidade, levantando assim o nível coletivo, originando automaticamente os valores individuais.
"O Brasil conta com alguns compositores de muito valor, mas a música brasileira vai pessimamente, por que não são os picos isolados que fazem a grandeza duma cordilheira. A Argentina, talvez o Chile (não conheço bem o Chile), mas garantidamente o México e o próprio Uruguai, não apresentam um músico da riqueza do Villa, ou do equilíbrio de Camargo Guarnieri; mas não tem dúvida que há uma música argentina, há uma música mexicana, muito mais permanentes, muito mais socialmente firmadas que a brasileira. Então, os Estados Unidos, nem se fala!... O que faz a música duma nação é um complexo de elementos: escolas, ensino, literatura, crítica, elementos de execução, orientação consciente e predeterminada de tudo; e também, exigentemente, um público. E também a impressão de músicas e as casas de execução musical... E o que o Brasil pode apresentar de útil e permanente em tudo isso? O Brasil tem, terá, uns cinco ou seis compositores comprovadamente de valor. Terá uns cinco ou seis virtuoses de piano comparáveis até aos virtuoses internacionais, mas... e o resto ?''
Com estas palavras, o grande escritor desenha a situação da música brasileira, de que tão corajosamente se bate pela arte interessada e pela transformação da personalidade do artista, cujas energias devem estar postas unicamente a serviço de uma cultura comum.
E mais: Mário de Andrade exige que o músico abandone, como ideal, a preocupação exclusiva de beleza, de prazer desnecessário e "principalmente essa intenção estúpida, pueril mesmo e desmoralizadora de criar obra-de-arte perfeitíssima e eterna". O artista moderno, adotando assim os princípios de arte-ação, chegará a ser um "trabalhador intelectual", cujo apostulado principal é servir a uma causa comum, sabendo que a sua arte é apenas a sublimação dos sentimentos e das idéias da coletividade. Sacrificando as suas supostas liberdades, as veleidades e pretensõesinhas pessoais, o artista deve colocar como cânone absoluto da sua estética o princípio de utilidade. "Toda arte brasileira de agora, que não se organizar diretamente do princípio de utilidade, mesmo a tal dos valores eternos,será vã, será diletante, será pedante e idealista".
Sem dúvida, a socialização do artista contribuirá decisivamente para a resolução de um problema que, desde o século passado, agravou-se seriamente: o afastamento do público da criação viva, e a missão entre a sociedade e o artista criador.
Desde o aparecimento do "grande homem" no sentido romântico, desde Beethoven, a música sempre mais se afasta do público, da sociedade, enquanto que na Idade Média existia uma relação estreita, profunda e de inspiração recíproca entre a produção musical daquela época e o público. Este afastamento da criação viva do público -causado pelo egocentrismo pernicioso e quase amoral, do qual sofreu grande parte da música do fim do século XIX e pelo forte atraso da educação musical-, chegou ao auge em princípios deste século e resultou numa isolação completa da música contemporânea.
Assim,o "grande homem" deve ser substituído pelo músico-artisano da idade média que trabalha com zelo e abnegação por uma causa que considera superior a sua pessoa e à sua arte. Creio, porém, que a socialização do músico, sem uma reforma do ensino musical, significaria um retrocesso, uma concessão a um público atrasado, de uma educação antiquada.
Os princípios de Rameau, baseados em conceitos estéticos passados, continuam sendo o fundamento do nosso ensino teórico musical, tendo eles recebido grandes embates à medida que progredia o romantismo, que se caracteriza por um tratamento harmônico cada vez mais livre. É a criação viva que gera a linguagem sonora de uma época e a teoria, a base do ensino, substitui apenas sua gramática. A expressão musical, porém, evoluiu; os conceitos do belo mudaram e a vontade criadora deu origem a uma nova linguagem musical; mas a gramática, e com ela o ensino, continua a linguagem do século XVIII.
Creio que somente a socialização do artista, com a reforma simultânea da educação musical, sob princípios modernos e atuais, permite uma aproximação do artista-criador com o público num alto nível artístico.A adaptação do compositor ao gosto popular, lançando mão de artifícios arcaicos ou superficiais, sem a renovação do ensino, produziria uma arte reacionária e atrasada, contrária à evolução natural da expressão musical e resultaria em retrocesso e estagnação.
A formação de uma verdadeira cultura depende, em primeiro lugar, da educação dos artistas e do público para o serviço à causa comum e às idéias da comunidade. Os sentimentos individuais e pessoais de um artista não contam, senão na medida em que tomam parte do patrimônio popular, das aspirações e dos problemas do povo. Não pode haver música sem ideologia. É esta uma verdade que se tarda a compreender.
Mas a educação da massa, num sentido moderno, é igualmente imperativa, afim de que o artista possa criar algo de novo, seguindo a lei da evolução, pois toda a arte está classificada de acordo com a teoria marxista dos valores e, segundo ela, a qualidade intrínseca de uma obra de-arte depende de sua importância no progresso revolucionário da humanidade.
COMENTÁRIO
lrresistível o comentário, ainda que soe tão lugar-comum: da "Nos Domínios Música" transpira a inquietude artística, intelectual e social de Koellreutter, marca registrada de sua presença ao longo de quase cinco décadas de Brasil. Mesmo para os que conhecem só a distância, em razão não só de contingências geográficas, mas sobretudo daquelas marcadas pela história e vivências que medeiam as gerações, não deixa de ser instigante pensar o universo de significacões possíveis em um texto produzido há quase meio século. Koellreutter na historia da música brasileira, Koellreutter fazendo esta mesma história, nós repensando a dialética passado-presente desta e de outras histórias.
"Leituras cruzadas" poderia bem ser o mote deste comentário, pois se "Nos Domínios da Música" se inter-textualiza com um dos set de crônicas de O Banquete(1), intercepta também um outro texto, que parece ser uma das pontes entre os dois citados: o manifesto do Grupo Música Viva, de quem Koellreutter era o líder, no lançado Rio de Janeiro a 1° de novembro de 1946(2). Esta palheta textual aponta para o entrelaçamento das" idéias e ideais" que em determinada conjuntura unem Koellreutter-Mário de Andrade e, escrevem um capítulo das discussões estéticas, ideológicas que interpelaram o sentido da criação musical no Brasil pós-1945. Discussões estas, é bom lembrar, advindas dos desdobres do Movimento Modernista dos anos 20, canalizadas para além dos círculos acadêmicos pelo espírito prosélito de Mário de Andrade e reinterpretadas por seus seguidores e admiradores em confrontos públicos como foi o caso da polêmica sobre o dodecafonismo envolvendo Camargo Guarnieri e Koellreutter em 1950.
Ao reproduzir e comentar excertos de O Banquete, Koellreutter reafirma os princípios ideológicos andradianos a respeito da missão do artista na sociedade, da arte interessada e social, o que leva a pensar em uma forma de sustentação das posições expressas no manifesto do Música Viva (ainda a época que deste artigo o grupo talvez já estivesse desfeito), com o aval póstumo da grande figura do intelectual paulista.
lnventariando de forma rapsódica os pontos levantados em "Nos Domínios da Música", chama atenção a questão da contraposição do social coletivo ao individualismo romântico, enquanto meta a ser adotada no campo musical no Brasil. A concepção utilitária da arte, o seu caráter funcional e coletivo na sociedade, são pontos de convergência com a proposta andradiana de "arte-ação" e arte baseada no "princípio da utilidade" (Koellreutter, p.46), expressões citadas no Manifesto de 1946 juntamente com outras idéias expostas no texto original de O Banquete (3):
"Musica Viva', adotando os princípios de arte-ação, abandona como ideal a preocupação exclusiva de beleza; pois toda a arte de nossa época não organizada diretamente sobre o princípio da utilidade será é desligada do real ".
Os ideais socialistas de ambos autores perpassam as críticas em comum ao virtuosismo musical, às deficiências e inadequações do ensino musical no país, aparecem na defesa de uma educação artística e ideológica do povo e a missão do músico de trabalhar para este objetivo.Apesar destas ressonâncias com o pensamento andradiano, a leitura de Koellreutter silencia, pelo menos neste contexto, os postulados nacionalistas na criação musical brasileira tão fortemente defendidos desde o Ensaio sobre a Música Brasileira (1928) e mais uma vez objeto de "exposição de motivos" em O Banquete. Mas isto seria tema para um outro tear da história com estes personagens.
NOTAS:
1) O Banquete, espécie de crônica alegórica e crítica das relações entre arte,sociedade e política na capital paulista dos anos 40, foi publicado em vários capítulos no jornal Folha da Manhã. As citações de Koellreutter provém da série "Vatapá - A música brasileira tal como está na composição. Como compor música brasileira" publicada entre novembro de 1944 e janeiro de 1945, pouco antes da morte de Mário de Andrade, ocorrida em fevereiro daquele ano. Um estudo e edição crítica de toda a série foi preparada por Jorge Coli e Luiz C.S. Dantas (Ver: O Banquete. São Paulo:Duas Cidades, 1977).
2) Publicado na Revista Música Viva, n° 12, 1946.
3) Ver na edição crítica (op.cit.,1977),p.128ep.130.
Maria Elizabeth Lucas, Etnomusicóloga e Professora do Instituto de Artes/Departamento de Música/UFRGS
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