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1º CURSO INTERNACIONAL DE FÉRIAS
H.J.Koellreutter
Palavras pronunciadas por ocasião da Inauguração do I Curso Internacional de Férias Pró-Arte, em Teresópolis/RJ (03/01-15/02/1950) Exemplar datilografado (02p.)
Significa para mim uma imensa satisfação poder presenciar a inauguração deste curso, o qual, sem dúvida constituirá um marco nos anais da música e do ensino no Brasil.
A idéia de um curso de férias com finalidade de compensar o ensino acadêmico que reduza arte a um processo, não é, nova.Já em 1945, tentei organizar um curso de verão numa fazenda perto de São Paulo. Circunstâncias, porém, que escapam à minha esfera de influência, impediram a realização da iniciativa.
Lecionando nos cursos de férias em Veneza, Milão e em Frankfurt, no ano passado, assumi um compromisso comigo mesmo: o de tomar semelhante iniciativa no Brasil, ato que me parecia decisivo para a educação da mocidade de nosso país.
Graças à visão larga, ao inesgotável espírito de realizador e à extraordinária capacidade de trabalho do Sr.Theodoro Heuberger, e graças à compreensão do Prefeito desta cidade. Sr.José de Carvalho Janotti, foi possível a realização deste curso, que, daqui para diante, terá lugar anualmente e constituirá um fato de suma importância na vida artística do Brasil.
Orientará o nosso trabalho,durante estas seis semanas, o lema TRABALHO E RECREAÇÃO, DISCIPLINA E LIBERDADE.
Envidaremos nossos melhores esforços no sentido de criar um real ambiente artístico que permita ao estudante conseguir um máximo num mínimo espaço de tempo. Orienta-nos o princípio de economia, princípio diretriz em nosso tempo, não somente na vida econômica,e na política, mas também na vida das artes e das ciências.
TRABALHO E RECREAÇÃO, DISCIPLINA E LIBERDADE
Ao lado de um ambiente de trabalho intenso e disciplinado, sadio e realista, Encontrar-se-á o da liberdade absoluta e do necessário recreio, ambiente de camaradagem e de mútua compreensão entre professores e alunos.
É claro que neste ambiente idealizado por mim, será fundamental a máxima tolerância nos debates que abrangerão todas as idéias artísticas e filosóficas, que preocupam o artista contemporâneo.
Não existe entre nós o professor-bicho papão, o horror daqueles alunos que são obrigados a estudar uma determinada matéria para receber um diploma ou porque a assim chamada boa educação o exige. Não existe entre nós os professores, teóricos secos que fornecem música em formas reduzidas a uns poucos baixos cifrados ou fórmulas acadêmicas. Estabelecemos um ambiente de estudo em que sempre existe um alento de criação e o professor, nenhum semi-deus sabe-tudo, alheio a todos os problemas, é o guia do aluno, o amigo, o conselheiro, que o conduz entre a Cila de adoração incondicional e estúpida de tudo que pertence ao passado, e a Caribdis de admiração sem crítica de tudo que é atual e novo.
É chegado o momento de pensar mais, de visar mais alto, de olhar mais deperto, de observar melhor. Trata-se de ser humilde ante as coisas grandes da arte, de acolhê-las todas, sem omissão, nem desprezo, de entrar familiarmente em sua intimidade, e, afetuosamente, em seu modo de ser.
Assim Teresópolis, futuramente, será um verdadeiro laboratório de arte no qual,da estreita colaboração entre alunos e no estresse resultarão -assim o espero-, benefícios inestimáveis para a vida cultural do nosso país.
Neste sentido espero que todos os participantes, alunos e docentes, aproveitem bem a estadia aqui, tomando contato entre si e recebendo novos estímulos e novas sugestões para os seus futuros trabalhos.
Declaro inaugurado o "I Curso Internacional de Férias" no Brasil.
Comentário
O texto reproduz as palavras de Koellreutter na abertura do 1º Curso Internacional de Ferias -Pró Arte, em Teresópolis, em Janeiro de 1950
Koellreutter se mostra aí o realizador, o educador, o homem decidido a contribuir para o desenvolvimento do ambiente cultural. Pretende que o 1º Curso seja "um marco nos anais da música e do ensino no Brasil", "ato decisivo para a educação da mocidade de nosso país". Essa perspectiva iria realmente concretizar-se, já que, a partir dopioneirismo e da longa vida dos Cursos de Teresópolis, foram surgindo outros em Curitiba, Ouro Preto (os dos Festivais de Inverno), Brasília, Campos do Jordão, Londrina, Juiz de Fora...
"...compensar o ensino acadêmico que reduz a um processo..." Esse ideal foi sempre um desafio e, certamente, nem em Teresópolis nem nos outros cursos de férias foi alcançado sempre na mesma medida, pois é forte a tentação e a facilidade de simplesmente reproduzir-se a, rotina em ritmo intenso (o que apenas reforça a rotina), quando à frente da organização não está um pensamento tão comprometido com a pedagogia questionadora quanto o de Koellreutter.
Tolerância, liberdade, camaradagem colaboração. Koellreutter insiste em caracterizar o ambiente, idealizado por ele, por atitudes que favorecem o debate, a mútua compreensão entre professores, e estudantes, permitindo "um ambiente de estudo em que sempre existe um alento de criação”. Aí está o requisito essencial daquilo que ele já antevê como verdadeiro laboratório de arte".
O anti-academicismo e a visão não conciliatória mas abrangente (não a adoração incondicional e estúpida que pertence ao passado " nem a "admiração sem crítica de tudo que é atual e novo”) dos fatos musicais e estéticos, expressos de forma ligeira mas clara nessas palavras introdutórias de 1950, irão mais tarde fundamentar a criação dos seminários, oficinas de música, laboratórios, enfim de todas as iniciativas experimentais de um ensino livre e informal de música que floresceram no país nas décadas de 60 e 70.
Berenice Menegale, Pianista, Secretária da Cultura de Minas Gerais e Professora da Escola de Música/UFMG.
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