O PROGRAMA RADIOFÔNICO “MÚSICA VIVA”

Carlos Kater

O movimento Música Vivo foi criado no Rio de Janeiro, em 1938/39, por H. J. Koellreutter - ex-aluno de H. Scherchen, recém-chegado ao país - com a participação de vários músicos brasileiros. Embora tais participações teriam se modificado sensivelmente, em número e intensidade, ao longo das diferentes fases de existência do movimento, não se pode deixar de destacar os nomes de Egydio de Castro e Silva e Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, por exemplo.

A importância das contribuições do movimento Música Viva para a instalação da segunda fase da modernidade musical brasileira é fundamental e decisiva. No entanto, o conhecimento formal que, de maneira corrente, ainda hoje temos de suas realizações é consideravelmente limitado.

Num primeiro momento demarcado pela Semana de Arte Moderna de 22, estamos frente a um característico empenho de recuperar nas artes a personalidade nacional (se não mesmo inventá-la). A música brasileira terá a seu favor personalidades expressivas como um Mário de Andrade, principal líder e estimulador (o "Papa do Modernismo"), Villa-Lobos criador autêntico, fértil e original (particularização musical da matriz héroi nacional), Camargo Guarnieri potencial de um futuro próximo à altura de largo conjunto de esperanças, entre outros.

Com a formação da Música Viva estabelece-se gradualmente uma nova concepção e função social da música. Ela pretende associar se agora mais diretamente à atualidade das conquistas vibrantes na Europa, verificadas no campo das artes, da música, das ciências exatas e humanas.

Há necessidade de arejamento e nova dinâmica cultural após praticamente 20 anos de fincada a bandeira modernista. Os sôpros da renovação chegam à realidade por meio das atividades do Música Viva que nos 12 anos de existência, abrangem uma larga gama de naturezas.

Tais atividades compreenderam séries de audições, concertos e recitais, publicação de boletins e partituras, realização de cursos, conferências e emissões radiofônicas. No seu conjunto todas as atividades subordinaram-se a uma intenção marcadamente didático-pedagógica, predominante aliás na própria trajetória individual desenvolvida por Koellreutter desde suas primeiras iniciativas, seja na Europa ao participar da criação do Cercle de Musique Contemporaine seja em nosso país ao fundar a Escola Livre de Música de São Paulo, os Festivais de Música de Teresópolis, os Seminários de Música da Bahia, entre outras realizações mais.

A difusão de criações musicais, especialmente das contemporâneas, tanto internacionais quanto brasileiras, constituíram-se num recurso básico para atingir a meta fundamental de um autêntico movimento de renovação: a criação e a instalação da modernidade musical no Brasil e conseqüente revitalização cultural do ambiente, relativamente constrangido, da época. São porém, desde um primeiro instante, as apresentações musicais que se colocam como suporte básico de divulgação, ao mesmo tempo em que propiciam recuperar as condições - e mesmo uma das principais finalidades - de um fazer musical, cujo circuito (compositor, obra, intérprete, publico) se encontrava na época desatualizado e fracamente articulado.

"Divulgar o compositor e sua obra, principalmente a contemporânea" diferencia o Música Viva das sociedades musicais de seu tempo, que, como afirmou o líder do movimento, apenas "realçavam o virtuose e o concerto"(1).

As transmissões radiofônicas

A série radiofônica dos programas "Música Viva" é entre as diversas iniciativas do movimento aquela que por si só já bastaria para ilustrar a originalidade e o vigor da ampla proposta educativa do movimento.

Transmitida pela PRA-2, Rádio Ministério da Educação e Saúde, do Rio de Janeiro - e com prefixos alternados, emprestados do "Concerto para Piano e Orquestra" de Schoenberg e do "Concerto Brademburguês nº 1" de J. S. Bach - ela teve início a 13/maio/1944, extendendo-se ao menos até 1952, conforme pudemos assegurar(2).

Em sua emissão inaugural executaram-se exclusivamente obras brasileiras de compositores contemporâneos: “Invenção de Guerra Peixe”, “Dois Improvisos” de Guarnieri, "Sonata para violoncelo e piano" de Santoro e "Choros nº 2" de Villa-Lobos(3). Em seu segundo programa era já oferecido o texto integral de uma das mais representativas obras expressionistas, "Pierrot Lunaire", de A. Schoenberg.

Foram então irradiados semanalmente, de forma alternada, programas com música ao vivo e gravações, contando os primeiros com a participação de membros do Música Viva e de diversos artistas convidados, intérpretes que, em sua maioria, desde aqui solidificaram sua experiência, projetando-se no ambiente musical da época(4).

Egydio de Castro e Silva, Cláudio Santoro, Guerra Peixe, Mirella Vita, Koellreutter, Aldo Parisot, João Breitinger, Edino Krieger, Oriano de Almeida, Esteban Eitler, Jaioleno dos Santos, Marcos Nissenson, Santino Parpinelli, Loris Monteiro, Gení Marcondes, Eunice Katunda, Lidia e Heitor Alimonda estão entre os principais intérpretes que participaram das atividades do movimento e dos programas radiofônicos, como poderemos ver mais adiante.

Muito embora Música Viva fosse um movimento musical de ponta, e assim diretamente conectado com a criação contemporânea, de fato não apenas a modernidade mas várias outras épocas se viram representadas e comentadas em seu programa. Foi criada, por exemplo, em 24 de Agosto de 1946 a série especialmente dedicada à "Música Antiga"; em Setembro do mesmo ano, uma outra extensa, intitulada "E a música esteve sempre presente".

“...um novo ciclo de transmissões dedicado às músicas do passado, às obras que representando as correntes estéticas imperativas do seu tempo, modelaram a fisionomia da sua época ou abriram novos caminhos, novas perspectivas para o futuro(5).

Como parte de uma estratégia de formação musical ampla, outros ciclos também foram produzidos, entre os quais vale destacar: “Antologia de Estilos Musicais” (versando sobre o Gótico, Renascença e Barroco). Entretanto, mais claramente desde 1949, transparece vívida a importância atribuída à produção musical do século XX e à contemporaneidade, nas séries "Obras primas de nossa época", "Obras primas da música contemporânea", "Música de nosso tempo", "Música Contemporânea ao alcance de todos" (ver: Quadro II).

Levaram-se ao ar também "audições especiais", dedicadas a compositores específicos, como Ernst Krenek, Manuel de Falla, Prokofiev, Bartok, Hindemith, Villa-Lobos, Esteban Eitler, Stravinsky, compositores do grupo "Renovación" (de Buenos Aires), Santoro, Guerra Peixe, Edino Krieger e Roberto Schnonenberg, entre outros, como se poderá ver mais adiante (Quadro III).

As estréias mundiais, nacionais ou regionais - característica já do movimento - cobriram então vasta gama, incidindo sobre produções ocidentais desde a Idade Média até a contemporaneidade e, evidentemente, às obras do próprio grupo de compositores. Isto pode ser observado não só pelo balanço oferecido no boletim Música Viva nº 12(6), mas também por um outro de 1945 não publicado(7), pela correspondência do grupo e, em especial, pelo estudo dos roteiros do programa radiofônico (Quadro IV).

Permeados por forte cunho didático, muitos dos programas radiofônicos fizeram recurso a formas particulares de apresentação. Chama-nos a atenção os programas nos quais, de maneira interativa, eram atendidos os pedidos de audição de obras específicas e também respondidas as questões formuladas por carta pelos ouvintes(8).

A simulação de diálogo entre Mestre e Discípulo, por exemplo, aparece em vários programas. Num deles, o estudo dos princípios básicos da composição dodecafônica, com ilustrações diretas realizadas ao piano, é particularmente digno de nota(9). De forma análoga, encontramos no roteiro de 26/11/1949, da serie "A música contemporânea ao alcance de todos" (sua 11a audição), o diálogo entre Professor e Ouvinte no qual, com ilustrações musicais, ao abordar tendências da música contemporânea são focalizados vários tópicos de atualidade e pouco difundidos na época, como o atonalismo, o politonalismo, etc. Após a audição da "Suite francesa", de Darius Milhaud, dá-se o seguinte diálogo:

Professor - Ao lado do atonalismo surgem diversas outras tendências na música contemporânea. O tema da "Chacona" para piano Op. 13 de E. Krenek faz ver forças construtivas que procuram um contato com o passado.

Ouvinte - Em que sentido, professor?

Professor - No sentido de empregar elementos que caracterizam a música clássica. A própria forma de "chacona" já é uma forma tipicamente tradicional. Escute um trecho da "Chacona" de Krenek: de uma tônica dividida nasce uma cadência cujas substâncias parecem complicadas e indefiníveis. Mas, sem dúvida, encontra-se nessa cadência uma grande força construtiva e funções que sustêm a tensão harmônica, nutrindo de uma energia nada comum as relações entre os sons e buscando criar grandes arcos tensivos, verdadeiros tetos sonoros:

- exemplo nº 1 -

Professor - Outra tendência que se faz presente na música de nosso tempo é o politonalismo.

Ouvinte - O politonalismo?

Professor - Sim. Uma das tendências mais importantes da música contemporânea. Trata-se de dois elementos contrastantes: de um contraponto de sons e não de linhas. Duas cadências se desenvolvem simultaneamente, independentes uma da outra.

Ouvinte - Interessante. Disso devem resultar choques e dissonâncias que exigem toda uma nova legislação do quadro sonoro?

Professor - Sem dúvida.

/.../

Tais procedimentos ilustram o empenho didático-pedagógico do Música Viva que, ao explorar um meio de comunicação de ponta (como era a rádio nesse período), busca tornar sempre mais acessível e compreensível, a um vasto público, características estéticas e criativas - seja do ponto de vista técnico ou estilístico - da produção artística mais recente.

Gení Marcondes é a única a figurar de maneira regular nos anúncios de conferências e cursos, relativos à educação musical (infantil, em particular(10). Ela foi a responsável por uma série de transmissões intitulada “Apreciação Musical”, onde sob forma dialogal, agora entre ela (“Dona Gení”) e uma ou mais crianças, eram estudados temas centrais da música (formas, estruturas, estilos e compositores de diferentes períodos históricos)(11). De maneira também dialogal, porém entre personagens livremente criados, levou-se ao ar uma série didática complementar dedicada ao público infanto-juvenil intitulada “O Mundo em (da) Música”, onde vários temas foram tratados de maneira coloquial, entre eles os “Novos instrumentos” (10o Capítulo), programa versando sobre a história do violino, seus principais fabricantes, intérpretes, etc.

Talvez o estímulo original que tenha suscitado a criação destas emissões remonte à transmissão de 19/Maio/1945, da série Música Viva, que veiculou o programa sub-intitulado “Música para Crianças”, com obras de Prokofiev, Guerra Peixe e Camargo Guarnieri (com Edy Campos de Oliveira ao piano), evidenciando-se assim o empenho geral do movimento em contribuir para a formação musical técnica e cultural, de um público de todas as idades.

Com esse mesmo empenho também, alguns programas chegaram a fornecer um Noticiário, no qual eram oferecidas variadas informações. Eis, por exemplo, o do dia 30/Março/1946:

  • O compositor francês Darius Milhaud realizou em Washington uma conferência sobre música brasileira.
  • O grande violinista Bronislav Hubermann incluiu no seu repertório "Encantamento" para violino e piano de Camargo Guarnieri.
  • Sob a direção de Dr. Hermann Scherchen serão estreiadas, em Zuerich na Suíça, a Sinfonia de Câmera de Guerra Peixe e as Variações 1945 de Claudio Santoro.
  • Faleceu na Inglaterra o compositor austríaco Anton von Webern, um dos discípulos principais de Arnold Schoenberg(12).

Visando um enriquecimento cultural sempre mais amplo e original, alguns programas chegaram ainda a veicular palestras ao vivo sobre assuntos significativos e de grande atualidade na época. Entre os vários estudiosos que passaram pelos estúdios da PRA-2 encontramos: o musicólogo Francisco Curt Lange comentando sobre a música brasileira e a Música Viva(13); o pianista Egydio de Castro e Silva enfocando a produção musical do compositor contemporâneo Manuel de Falla (falecido em 14/11/1946), em programa exclusivamente a ele dedicado (30/11/1946); e o crítico musical Roberto Lyra Filho realizando a conferência “Bach-Stravinsky”, ilustrada com a apresentação da "Sinfonia dos Psalmos" , de I. Stravinsky e trecho da “Paixão segundo São Matheus” , de J.S. Bach (27/04/1946).

A verve contestadora diante de uma situação cultural de tendência estanque transparece notadamente na abertura e encerramento dos programas. O momento político nacional e internacional é efervescente e os membros do grupo Música Viva assumem posições cada vez mais claras, denunciando o excessivo apego ao passado. Com base nesse quadro é possível compreender o fato de a maioria das vinhetas, ao longo do período 1946-50, tornarem-se por vezes autênticos manifestos estético-políticos.

Efetivamente trechos de diferentes proporções dos textos revolucionários históricos do movimento - especialmente os Manifestos 1944, 45 e 46 - aparecem veiculados em inúmeros roteiros radiofônicos(14).

Um exemplo nítido nos é oferecido no programa levado ao ar no Sábado, dia 16 de Fevereiro de 1946, que se abre com a reivindicação de um futuro presente (nova era, mundo novo, arte do futuro) ao mesmo tempo em que repugna, com sua maneira já típica, o academicismo reinante (já tão atacado pelos primeiros modernistas).

“`Música Viva'. Grupo de vanguarda. Movimento musical que combate pelo advento de uma nova era, em que não haja lugar para preconceitos e receitas acadêmico-doutrinárias. A música contemporânea é ainda quase totalmente desconhecida no Brasil. Com excepção de uma reduzida minoria de pessoas que lhe têm dedicado alguma atenção - umas por curiosidade, outras por verdadeiro interesse artístico, outras talvez por mero esnobismo - a generalidade do público que frequenta os concertos poucas ocasiões tem de tomar contato com as autênticas expressões da música do nosso tempo e de formar sobre ela um juízo mais ou menos seguro. Nos concertos sinfônicos e nas sociedades culturais que chamam os mais célebres virtuoses do teclado ou do arco, a música contemporânea, geralmente, parece não gozar de muito bom crédito. Só excepcionalmente nos é dado ouvir uma ou outra peça de Debussy ou Ravel e ficamo-nos por aí. Debussy e Ravel, entretanto, não são positivamente toda a música moderna - não são mesmo a musica moderna, se por música moderna entendermos as correntes contemporâneas. Mas quem ousa tocar Stravinsky, Bela Bartok, Hindemith, Prokofiev, Schoenberg, Milhaud, Martinú ou Walton, para só nos referirmos a alguns dos mais notáveis representantes da música moderna, pertencentes a gerações diferentes, mas ainda todos eles vivos e artisticamente ativos? Uma cultura, qualquer espécie de cultura, é incompleta, viciada, unilateral, se só olha para o passado e recusa o presente; uma cultura é incompleta, viciada, unilateral, se recusa aquilo que o presente tem ou possa ter de vivo, de criador, de fecundo, se não acompanha o presente no seu caminho de descoberta e de conquista para o futuro. A música de hoje, a música do nosso tempo é uma das realidades vivas do presente. É diferente da do passado? Sim, necessariamente; tão necessariamente como a literatura, como a pintura, como a ciência, como o pensar, como tudo na vida contemporânea é diferente - e, todavia, solidário - com todas essas mesmas coisas do passado. É melhor, é pior do que a música antiga? É o que é, o que o complexo psicológico-social contemporâneo permite que ela seja. Nunca música alguma, ou pintura ou literatura alguma foram se não aquilo que o seu momento histórico permitiu que elas fossem, ou aquilo que os seus criadores - expressões desse mesmo momento histórico - tiveram poder e condições de realizar.

[GONGO]

"Música Viva" dedica a sua irradiação de hoje a dois representantes da música soviética contemporânea: Dimitri Shostakovitch e Sergio Prokofiev.”

E ao final das audições do “Concerto para piano, pistão e cordas” (1933) e da "Sinfonia Clássica" (1917):

“Termina aqui mais um programa 'Música Viva'. Divulgando por meio de concertos, irradiações, conferências e publicações, a criação musical contemporânea de todas as tendências e correntes estéticas, 'Música Viva' mostra que também em nossa época existe música, expressão do tempo e de um novo estado de inteligência. A revolução espiritual, que o mundo atualmente atravessa, não deixa de influenciar a produção artística contemporânea. Essa transformação radical, que se faz notar também na arte sonora, é a causa da incompreensão momentânea em frente à música nova. Idéias, porém, são mais fortes do que preconceitos! Por isso, o grupo 'Música Viva' lutará pelas idéias de um mundo novo, crendo na força criadora do espírito humano e na arte do futuro”(15).

Neste final estampa-se parte essencial do conteúdo do “Manifesto 1944” - os quatro últimos de seus seis parágrafos, praticamente sem alterações. Reitera-se assim a posição combativa e revolucionária do grupo, que, evoluindo pelos manifestos dos anos seguintes, terá seu ponto de culminância em 1948, com a divulgação do "Apêlo", resultante do II Congresso de Compositores e Críticos Musicais, em Praga, no boletim Música Viva nº 16 (Agosto/1948). Contendo ainda os significativos textos: Música e Sociedade: "Arte Funcional - a propósito de 'O Banquete', de Mário de Andrade", de H. J. Koellreutter, a continuação do "O Banquete" (Parte III), "Reflexões sobre a música de nosso tempo", de Juan Carlos Paz, "Aspectos da Música Popular - Introdução ao Samba", de Guerra Peixe, este nº 16 foi o derradeiro boletim publicado pelo grupo.

O processo de transformação da situação política se espelha, de maneira particular, também no interior do grupo de compositores, em dada medida, o carro-chefe do movimento. Verificamos de 1946 a 1950 as posições políticas de Cláudio Santoro, Guerra Peixe e Eunice Katunda radicalizarem-se, o pêso das decisões do Partido Comunista curvando a expressão própria de muitos artistas e intelectuais, afora a constituição da "Sociedade Internacional de Compositores e Críticos Progressistas", entre muitos outros fatores de significado político-social.

Nesse sentido, o que nos parece mais significativo nesse último número da revista (e que passa geralmente desapercebido pelo tom ligeiro e pouco espaço que nela ocupa) é justamente a "Resolução" do Música Viva de organizar-se em sociedade, transformando-se naquele momento na "Seção Brasileira da Federação Internacional de Compositores e Musicólogos Progressistas". Com isto é que se marca um importante ciclo na vida do movimento carioca - constituindo-se o encerramento da série de publicações numa conseqüência apenas. Ele se caracteriza pela dissolução do grupo de compositores (desidentificação ideológica e estética dos ex-discípulos Santoro, Guerra Peixe e Katunda frente aos postulados de Koellreutter) e pela grande intensificação das atividades em São Paulo. A “Carta Aberta” (Dez/1950) de Guarnieri, nessa ótica, não se apresentaria enquanto documento de função reflexiva e debatedora em relação a questões e problemáticas estéticas, como se pretendeu. Antes, impôs-se como instrumento de polêmica (o próprio autor jamais se colocou à mesa de discussão) gerando um combate cuja finalidade seria a de minar o avanço de Koellreutter e do movimento Música Viva nos espaços do território paulistano até então considerados seus ou sob sua tutela.

Apesar das profundas transformações pelas quais passou a Música Viva ao longo do período refeente aos roteiros estudados (46-50), é curioso notar que as "aberturas" ou "vinhetas" textuais dos programas tenham se mantido praticamente idênticas, evidenciando assim o cisma interno do grupo, imobilizador da dinâmica que dele se esperaria refletir externamente.

Os roteiros radiofônicos

Foram recuperados aproximadamente 90 roteiros radiofônicos, tendo sido estudados aqui apenas os mais completos. Eles distribuem-se da seguinte maneira: 39 de 1946, 20 de 1947, 04 de 1948, 22 de 1949 e 05 de 1950.

Cumpre observar que até esse momento não foi possível identificar de maneira segura os roteiros que foram efetivamente transmitidos, assim como seus respectivos conteúdos. Apesar disso, as muitas intervenções manuscritas em textos datilografados, ora complementando ora substituindo informações, provavelmente às vésperas da irradiação, demonstram um uso marcado pelas necessidades da realidade.

Apresento abaixo 4 quadros nos quais estão dispostos os conteúdos básicos tratados no presente texto:

I - Referência musical de cada um dos roteiros, em disposição cronológica, mencionando a natureza do programa (música interpretada em estudio (Est) ou apresentação de gravações (Grv).

II - As principais séries apresentadas

III - Relação de autores e respectivas obras apresentados (em ordem alfabética)

IV - Relação do autor, número de suas peças executadas, indicação de estréias, formação/meio expressivo, nacionalidade do compositor e dos intérpretes

Quadro I - Conteúdo musical dos programas recuperados.

(disposição cronológica)

1946: (39 roteiros)

12/01 - Est: Dedicado a A. Lissowsky e Ana Maria Porto

19/01 - Grv: Dedicado a lgor Stravinsky

26/01 - Est: Dedicado a Celia Zadumbide, Edino Krieger, Minita Mantero e C. Santoro

09/02 - Est?: Dedicado a Paul Hindemith

16/02 - Grv: Dedicado a D. Shostakovitch e S. Prokofieff

23/02 - Grv: Honegger e Stravinsky

02/03 - Grv: Dedicado a F. Curt Lange (obras de Santoro e Villa-Lobos)

09/03 - Grv: Dedicado a E. Bloch, H.J. Koellreutter e S. Prokofieff

06/03 - Est: Dedicado a W. Riegger, Marion e Ruth Crawford, Guerra Peixe e S. Prokofieff 23/03 - Grv: A. Schoenberg

30/03 - Est: Dedicado a B. Martinú e Paul Hindemith

06/04 - Grv: Hindemith e Barber

13/04 - Est: C. Santoro G. Cassadó, C. Guarnieri e H.J. Koellreutter

20/04 - Grv: D. Milhaud

27/04 - Grv: Palestra de Roberto Lyra Filho sobre "Bach-Stravinsky"

04/05 - Est: Dedicado a Santoro, Carlos Chaves, Guarnieri e Guerra Peixe

11/05 - Grv: B. Martinú e I. Stravinsky

18/05 - Est: Dedicado aos jovens compositores da União Soviética e da Polônia

25/05 - Est: "Evolução do Lied francês" (Fauré, Debussy, Ravel e Milhaud)

02/06*- Grv: A. Copland e P. Hindemith

08/06 - Est: Dedicado a B. Bartok, I.C. Paz, Minita F. Mantero e P. Hindemith

15/06 - Grv: Dedicado a I. Stravinsky

21/06*- Grv: Dedicado a Luiz Cosme

29/06 - Est: Dedicado a Max Brand, Cornelio Hauer e H.J. Koellreutter

06/07 - Grv: Dedicado a Ernst Krenek e Samuel Barber

13/07 - Est/Grv: Dedicado a Minita Fried Mantero

27/07? - Est: W. Riegger, R. Crawford e S. Prokofieff

10/08 - Est: Dedicado a Jacques Ibert, Arthur Pereira e Albert Roussel

24/08 - Est: Dedicado a T. Albinoni e J.A. Hasse - série “Música Antiga”

31/08 - Grv: Dedicado a I. Stravinsky e A. Honegger

07/09 - Grv: Dedicado a Claudio Santoro

21/09 - Est: Dedicado a P. Hindemith, A. Schoenberg e Jean Françaix

05/10 - Est: Dedicado a Henry Purcell - serie "Música Antiga"

09/11 - Est: Dedicado a H. Villa-Lobos e Camargo Guarnieri

16/11 - Est: Dedicado a I. Stravinsky e H. Alimonda

30/11 - Est?: Dedicado a Manuel de Falla

07/12 - Est: Dedicado a Esteban Eitler (membro do grupo argentino “Nueva Música”)

14/12 - Est: Dedicado a P. Hindemith, H.J. Koellreutter e H. Villa-Lobos

21/12 - Grv: Dedicado a A. Schoenberg

1947: (20 roteiros)

04/01 - Grv: Dedicado a I. Stravinsky

11/01 - Est: Dedicado a Carlos Chaves

11/01 Anexo - Est: Dedicado a Santoro, Guerra Peixe e H. Alimonda

25/01 - Est: Dedicada a Pe. Manuel Rodrigues Coelho - série “Música Antiga”

15/02 - Grv?: ?

21/02*- Est: H. Villa-Lobos - “Série Contemporânea”(SC)

08/03 - Grv: Dedicado a Virgil Thomson

15/03 - Est: Dedicado a Juan Carlos Paz

29/03 - Est: Dedicado a C. Guerra Peixe - SC

05/04?- Grv: "Antologia de Todos os Estilos Musicais" (4a audição: Gótico)

12/04 - Est: Dedicado a Arthur Honegger e Radamés Gnattali - SC

26/04 - Est: Dedicado a Miriam Sandbank - SC

03/05 - Est: Karel Hába, Roy Harris e Alexandre Jemnitz - SC

17/05 - Est: Dedicado a Alban Berg, Juan Carlos Paz e Eunice Katunda - SC

31/05 - Est: Dedicado a “Agrupación Nueva Música” (Paz, Devoto, Eitler)

26/07 - Grv: Dedicado ao Nacionalismo na Música Brasileira (Palestra de V. Mariz)

02/08 - Est: H. Weiss e A. Copland - “Antologia das Tendências da Música Contemporânea” (ATMC)

(09/08 - "Antologia dos Estilos Musicais" (AEM), 2a audição: Romantismo)

16/08 - Grv: AEM Impressionismo (Ravel e Debussy)

30/08 - Est: ATMC: Guerra Peixe, Santoro, Katunda, Krieger e Koellreutter

29/11 - Est?: Dedicado a Guerra Peixe

1948: (04 roteiros)

03/04 - Grv: ATMC - W. Turner Walton

17/04 - Grv: ATMC - Marc Blitzstein

30/05 - Est: ATMC - R. Strauss, M. Reger, A. Roussel, T. Huber-Anderach e M. Ravel

26/06 - Est/Grv: ATMC - E. Krieger e R. Schnonenberg

1949: (22 roteiros)

25/03*- Est?: “Obras Primas de nossa Época” (OPNE): S. Prokofieff

09/04 - Grv: OPNE (5a audição da série): Alban Berg

04/06 - Est: Dedicado ao Pós-Impressionismo francês (Sionam, Honegger, Ibert, Milhaud)

18/06 - Est: Dedicado a Schueler, Perceval, Eitler (Agrupación Nueva Música) e J. Ficher (Renovación)

02/07 - Grv: OPNE (12a audição) - Igor Stravinsky

09/07 - Grv/Est: ATMC - Camargo Guarnieri e Arthur Bosmans

28/07*- Grv: OPNE - Bohuslav Martinú

13/08 - Grv: OPNE (final da série) - Alban Berg

20/08 - Grv: "A música contemporânea ao alcance de todos" (MCAT) (1a audição) - A. Schoenberg

03/09 - Grv: MCAT - lgor Stravinsky

10/09 - Grv: MCAT (4a audição) - A. Schoenberg

17/09 - Grv: MCAT (5a) - R. Wagner e C. Debussy

24/09 - Grv: MCAT (6a) - Richard Strauss

01/10 - Grv: MCAT (7a) - Maurice Ravel

08/10 - Est: Dedicado às novas obras para piano (Berg, Togni, Guerra Peixe, Katunda, etc. )

15/10 - Grv: MCAT (8a) - Igor Stravinsky

22/10 - Grv: MCAT (9a) - Arnold Schoenberg

26/11 - Grv: MCAT (11a) - Politonalismo (Milhaud)

28/11 - Est/Grv: "Música de nosso Tempo" (MNT) (Início da série)

03/12? - Grv: MCAT (12a) - Sistema Microtonal (A. Hába, J. Peska, K. Reiner)

09/12*- Grv: MCAT (13a) - Neo-Modalismo (I. Stravinslry)

13/12*- Grv: MNT? - Serge Prokofieff

1950: (06 roteiros de programas)

07/01 - Grv: MCAT (14a) - Evolução rítmica na música contemporânea (Stravinsky)

16/01 - Grv?: MNT - E. Toch

10/06 - Grv: Dedicado a Ernst Bloch

20/07 - Grv: MNT - Alban Berg

21/10 - Est: Dedicado à nova geração de compositores norte-americanos (H. Stevens, P. Pisk, R. Goldman)

* As datas indicadas com asterisco são duvidosas pois, muito embora, em alguns casos, figurando explicitamente nos roteiros, elas referem-se a outros dias diferentes de Sábado. Diante da freqüência com que tal fato ocorre, é de se supor ter havido transmissões em dias diversos, extraordinariamente e não, apesar de não possuirmos comprovações até o momento.

Quadro II - Principais séries transmitidas.

Séries

Início

Término

“Música antiga”

24/08/1946

(25/01/1947)(16)

“Música contemporânea”

(15/06/1946)

(29/11/1947)

“Antologia de todos os estilos musicais”

(01/02/1947)

(23/08/1947)

“Obras primas de nossa época”

(05/03/1949)

13/08/1949

“Música contemporânea ao alcance de todos”

20/08/1949

(07/01/1950)

“Música moderna do alcance de todos"

?

(28/10/1950)

“Música de nosso tempo”

28/11/1949

(20/07/1950)

(Esta última série apenas foi transmitida pela rádio Roquete Pinto)

 

 

Quadro III - Relação dos autores, obras apresentadas e intérpretes respectivos(17).

Albinoni, Tomaso
"Sonata para violino e baixo contínuo" - Santino Parpinelli e Heitor Alimonda

Alexandrow, A. (compositor sovietico)
"Estudo nº 2" (piano) - Felicia Blumental

Alimonda, Heitor
"Improvisações Tristes" (piano) - Heitor Alimonda
"Sonatina 1945" (piano) - Heitor Alimonda
"Três Improvisos" (piano) - Heitor Alimonda
(estréia: 11/01/1947; audições posteriores)

Bach, J.S.
Trecho da "Paixão segundo São Matheus"

Barber, Samuel
"Ensaio para Orquestra" (ou "Ensaio Sinfônico")

Bartók, Bela
"Canção Popular" (piano) - Ana Maria Porto
"Danças Rumenas" (violino e piano) - Ulrich Dannemann e Gení Marcondes

Bauer, Marion
Duo para oboé e clarinete” - João Breitinger e Jaioleno dos Santos

Berg, Alban
"Sonata Opus l" (piano) - Eunice Katunda
(estréia brasileira: 17/05/1947; audições posteriores)
Fragmentos da ópera “Wozzek” - Carlota Boerner e Orquestra Sinfiônica de Los Angeles, sob reg. de Werner Janssen
"Concerto para Violino e Orquestra" - Louis Krasner e Orquestra de Cleveland, sob reg. De Arturo Rodzikski (3 vezes)

Blitzstein, Marc
"The Airborne" (Sinfonia) - Orq. Sinfônica de New York, reg. de L. Bernstein (grav.)
(1a audição brasileira?: 17/04/1948)

Bloch, Ernest
"Suite para Viola e Piano" - William Primrose e Fritz Kitzinger
"Sonata para Viola e Piano" - William Primrose e Fritz Kitzinger

Bosmans, Arthur
"Sonatina lusitana" (piano) - Otto Jordan
"Suite das Cores" (piano) - Otto Jordan

Brand, Max
"Peça para Flauta e Piano" (dodecafônica) - H. J. Koellreutter e Gení Marcondes
(1a audição: 29/06/1946; com audições posteriores)

Cassadó, Gaspar
"Suite para Violoncelo solo" - Aldo Parisot

Chaves, Carlos
"Sonatina 1924" (piano) - Gení Marcondes
"Prelúdios" (piano) - Heitor Alimonda
(1a audição: 11/01/1947)

Coelho, Pe. Manuel Rodrigues
"Dois Tentos" (instrumento de tecla) - Eunice Katunda (estréia brasileira: 25/01/1947)
"Três Tentos" (instrumento de tecla) - Eunice Katunda (idem)

Copland, Aaron
"Música para Teatro" - regência de Howard Hanson (gravação)
"Sonata" (piano) - Helen L. Weiss

Cosme, Luiz
"Quarteto de Cordas" (1933) - Quarteto Mariuccia Jacovino
(22/06/1946: programa dedicado a L. Cosme)

Crawford, Ruth
"Suite" (flauta) - H.J. Koellreutter (2 vezes)

Debussy, Claude
"L'Après midi d'un faune"
Fragmentos de "O Mártir de São Sebastião"
"Green" (canto e piano) - Lais Walace e Zelinda Martins
"Colloque Sentimental" (canto e piano) - Lais Walace e Zelinda Martins
"Fantoche"(canto e piano) - Lais Walace e Zelinda Martins

Devoto, Daniel
"Diferenças del Primer Tono" - Esteban Eitler

Deshevov, Vladimir (compositor soviético)
"The Rails" (piano) - Felicia Blumental

Des Près, Josquin
"Et incarnatus est"

Eitler, Esteban
"Epígrafes" (canto vocalizado e piano) - Gizela Blank e Gení Marcondes
"Añoranzas" (piano) - Gení Marcondes
"Sonata 1944" (flauta e piano) - H.J. Koellreutter e Gení Marcondes
"Sonata 1942" (flauta e piano) - Esteban Eitler e Otto Jordan

Falla, Manuel de
(Programa de 30/11/1946 - dedicado integralmente a ele - está incompleto, não possuindo indicação de obras.)

Fauré, Gabriel
"Spleen" (canto e piano) - Lais Walace e Zelinda Martins
"Notre Amour" (canto e piano) - Lais Walace e Zelinda Martins
"Le Parfum Imperessable"(canto e piano) - Lais Walace e Zelinda Martins
"Fleur Jetel" (canto e piano) - Lais Walace e Zelinda Martins

Ficher, Jacobe
"Dança Argentina em Estilo de Vidalita" (flauta e piano) - Esteban Eitler e Otto Jordan
"Dança Argentina em Estilo de Zampa" (flauta e piano) - Esteban Eitler e Otto Jordan

Françaix, Jean
"Scherzo 1932" (piano) - Heitor Alimonda

Gnattali, Radamés
"Flor da Noite" (violino e piano) - Leônidas Autuori e Heitor Alimonda

Goldman, Richard F.
"Dois monocromas" (flauta) - Esteban Eitler
"Icy Pastorale" (flauta e piano) - Esteban Eitler e Gení Marcondes
"Aperitivo" (flauta e piano) - Esteban Eitler e Gení Marcondes

Guarnieri, M. Camargo
"Sonatina para Piano" - Eunice Katunda
"Abertura Concertante"
"Encantamento" (violino e piano) - Santino Parpinelli e Gení Marcondes (2 vezes)

Hába, Alois
"Sonata para dois Violinos"
"Fantasia para Violino Solo", Opus 9 - Josef Peska
"Suite Opus 11b, para pianos de quarto de tom" - Karel Reiner

Hába, Karel
"Sonata Opus 13" (flauta e piano) - Esteban Eitler e Dario Sorin

Harris, Roy
"Little Suite" (piano) - Dario Sorin

Hasse, João Adolfo
"Sonata em Sol Maior" (violino e baixo contínuo) - Santino Parpinelli e Heitor Alimonda

Hauer, Cornélio
"Sonatina 1946" (piano) - Gení Marcondes
(1a audição: 29/06/1946; com audições posteriores)

Hindemith, Paul
"Prelúdio e Fuga" - Heitor Alimonda
"Die Junge Magd", Op. 23 (canto e piano) - Magdalena Nicol e Eunice Katunda
"Ludus Tonalis" (piano) - Eunice Katunda
(1a audição brasileira 09/02/1946; audições posteriores)
"Sonata 1939" (violino e piano) - Ulrich Dannemann e Gení Marcondes
"Sinfonia em Mi bemol Maior"
"Metamorphose" - regência de George Szell
(1a audição na América do Sul: 02/06/1946)

Honneger, Arthur
"Pacífico 231"
"Primeira Sonata" (violino e piano) - Leônidas Autuori e Heitor Alimonda
"A Dançada Cabra" (flauta) - Esteban Eitler
"Rei David"

Huber-Anderach, Theodor
"A Flauta Misteriosa" (canto, flauta e piano) - Hilde Sinnek, Koellreutter e Gení Marcondes
(1a audição: 30/05/1948)

Ibert, Jacques
"Jogos" (Sonatina para flauta e piano) - H.J. Koellreutter e Gení Marcondes

Jemnitz, Alexandre
"Sonata para Flauta e Piano" Op. 28 - Esteban Eitler e Dario Sorin

Kabalewski, Dimitri
"Sonatina nº 1", Opus 13 (piano) - Felicia Blumental

Katunda, Eunice
"Sonatina 1946" (piano) - Eunice Katunda
"Cantos a Morte" (piano) - Eunice Katunda

Kassern, Tadeu Z. (compositor polonês)
"Sonatina para Piano" - Felicia Blumental

Koellreutter, Hans-Joachim
"Música 1941" (piano) - Eunice Katunda
"Sonata 1939" (flauta e piano) - H.J. Koellreutter e Gení Marcondes
(1a audição: 29/06/1946; audições posteriores)
"Cinco Noturnos" (canto e piano) - Magdalena Nicol e Heitor Alimonda
"Peça e Variações 1947" (piano) - Eunice Katunda
"Duo 1943" (violoncelo e piano) - Aldo Parisot e Gení Marcondes
(1a audição, 13/04/1946) (Apresentação de peça em 30/08/1947, sem possibilidade de identificação.)

Korngold
"Hornpipe" (piano) - Ana Maria Porto

Krenek, Ernst
"Variações" (orquestra)

Krieger, Edino
"Dois Epigramas" (1947) (piano) - Eunice Katunda
(1a audição: 30/08/1947)
"Peça para piano" - Gení Marcondes (2x)
"Sonatina" (flauta e piano) - H.J. Koellreutter e Gení Marcondes
"Miniaturas" (flauta e piano) - H.J. Koellreutter e Heitor Alimonda
(26/06/1948: programa dedicado a Krieger e Schnonenberg)

Labunski, Feliks R.
"Quatro Bagatelas" (piano) - Felicia Blumental

Lapshinsky, G. (compositor soviético)
"Dois Prelúdios" (piano) - Felicia Blumental

Lissowsky, Alexandre
"Ismalia" (canção) - Inah Lindenberg e Ana Maria Porto
"Eloquência" (canção) - Inah Lindenberg e Ana Maria Porto
"Cantilena" (canção) - Inah Lindenberg e Ana Maria Porto
"Madrigal" (canção) - Inah Lindenberg e Ana Maria Porto

Mantero, Minita Fried
"Peça e Variações 1945" (piano) (dodecafônica) - Gení Marcondes (3 vezes)
"Oito Corais" (oboé, clarinete, fagote) - João Breitinger, Jaioleno dos Santos e Rocha Lages

Martinú, Bohuslav
"Sonata para Violino e Piano" (1928) - Ulrich Dannemann e Gení Marcondes
"Segunda Sinfonia"
"Primeira Sinfonia" (1a audição na América do Sul: 11/05/1946)

Milhaud, Darius
"Sonatina" (flauta e piano) - Esteban Eitler e Otto Jordan
"Suite Francesa"
"Mazurka" (piano) - Ana Maria Porto
"Suite Provençale"
"Chant Asiatique" (canto e piano) - Lais Walace e Zelinda Martins
"Chant de Nourisse" (canto e piano) - Lais Walace e Zelinda Martins

Paz, Juan Carlos
"Sonatina Opus 25" (piano) - Gení Marcondes
(1a audição: 08/06/1946; com audições posteriores)
"Segunda Composição em 12 Sons" (flauta e piano) - H.J. Koellreutter e Gení Marcondes
(Outra audição com E. Eitler e D. Sorin)
"Dez Peças sobre uma Série de 12 Sons" (piano) - Eunice Katunda

Peixe, Cesar Guerra
"Dez Bagatelas"(piano) - Heitor Alimonda
(1a audição: 11/01/1947, com audições posteriores)
"Duo para Flauta e Violino" - H.J. Koellreutter e Henrique Niehremberg
"Trio de Cordas" - A. Zladepolsky (vl), H. Niehremberg (vla) e Mario Camerini (vlc)
"Peça para dois minutos" (piano) - Eunice Katunda
"Sonatina" (1944) (flauta e clarineta) - H.J. Koellreutter e Jaioleno dos Santos
"Música 1945" (piano) - Eunice Katunda
(1a audição: 30/08/1947)
"Dueto 1946" (violino e viola) - Santino Parpinelli e Ulrich Dannemann
(1a audição: 04/05/1946)
(O programa de 29/11/1947 é inteiramente a ele dedicado; não se pode identificar as obras executadas.)

Perceval, Julio
"Canto de Alegria" (flauta e piano) - Esteban Eitler e Otto Jordan

Pereira, Arthur
"Peças monotonais sobre temas brasileiros" (piano) - Gení Marcondes

Pisk, Paul A.
"Introdução e Rondó" (flauta e piano) - Esteban Eitler e Gení Marcondes

Porto, Ana Maria
"Três poemas de Leonidas Porto" (canto e piano) - Inah Lindenberg e Ana Maria Porto
"Coral e Dansa" (piano) - Ana Maria Porto
"Prelúdio" (flauta e piano) - H.J. Koellreutter e Ana Maria Porto

Prokofiev, Serge
"Quarteto de Cordas" - Stuyvesant String Quartet
"Três Peças", Opus 59 (piano) - Gení Marcondes (2 vezes)
"Sonata Opus 94" (violino e piano) - Jose Szigeti e Leonid Hambre
"Lieutenant Kije", Suite Opus 60
"Sinfonia Clássica"

Purcell, Henry
"Sonata a três, em Sol Menor" - H.J. Koellreutter (fl), E. Krieger (vl) e E. Katunda (contínuo)
"Sonata a três, em Sib Maior" - H.J. Koellreutter (fl), E. Krieger (vl) e E. Katunda (contínuo)
(Programa de 05/10/1946 dedicado ao compositor)

Ravel, Maurice
"Ma mère I'oie"
"Quarteto de Cordas, em Fá Maior"
"Nicolette" (canto e piano) - Lais Walace e Zelinda Martins
"Mahandove" (canto e piano) - Lais Walace e Zelinda Martins
"A Flauta Encantada" - Hilde Sinnek (canto), Koellreutter (flauta) e Gení Marcondes (piano)

Reger, Max
"Cantiga de Ninar" - Hilde Sinnek (canto), Koellreutter (flauta) e Gení Marcondes (piano)

Riegger, Wallingford
"Cânone" - H.J. Koellreutter (flauta) e Jaioleno dos Santos (clarinete) (2 vezes)

Roussel, Alber
"Tocadores de flauta", Op. 27 - H.J. Koellreutter e Gení Marcondes
"Dois Poemas de Ronsard" - Hilde Sinnek (canto) e H.J. Koellreutter (flauta)
(1a audição brasileira: 30/05/1948)

Sandbank, Miriam
"Sonatina" (piano) - Miriam Sandbank
"Música 1947" (violino e piano) - Jean Sandbank e Miriam Sandbank

Santoro, Cláudio
"Impressões de uma usina de aço"
"Quarteto de Cordas 1942"
"Seis Peças para Piano" - Heitor Alimonda
"Introdução e Allegro" (flauta e piano) - H.J. Koellreutter e Gení Marcondes
"Sonatina a Três" (flauta, viola e cello)
"Sonata 1940" (violino e piano) - Santino Parpinelli e Gení Marcondes
(1a audição: 13/04/1946; audições posteriores) (Apresentação de peça em 30/08/1947 sem possibilidade de identificação.)

Schnorrenberg, Roberto
"Música de Câmera" (violoncelo, flauta, clarineta e violino) - Nydia..., H.J. Koellreutter, Jaioleno dos Santos e Santino Parpinelli
(1a audição: 26/06/1948; programa dedicado a Schnorrenberg e Krieger)

Schoenberg, Arnold
"Seis Peças para Piano", Opus 19 - Heitor Alimonda
(2a audição, com Jesus Maria Sanromá)
"Pierrot Lunaire" (2 vezes)
"Concerto para Piano e Orquestra", Op. 42
(estréia sul-americana: 23/03/46; audições após)
"Noite Transfigurada", Opus 4
"Canção sobre Stefan George", Opus 15
Fragmento de "Quarteto em Fá# Menor", Opus 2
"Opus 11" (piano) Fragmento da "Suite Histórica"  

Schueler, Eric
"Canción Pastoril" (flauta e piano) - Esteban Eitler e Otto Jordan

Scott, Cyril
"Uma balada à luz de uma vela" (piano) - Ana Maria Porto

Sekles
"Pequeno Shimmy" (piano) - Ana Maria Porto

Shostakovitch, Dimitri
"Concerto para Piano, Pistão e Cordas" (1933)
"Seis Prelúdios" (piano) - Felicia Blumental
"Três Danças Fantásticas" (piano) - Felicia Blumental

Sionam, Robert
"Três Peças" (flauta) - Esteban Eitler

Stevens, Halsey
"Sonatina para Flauta e Piano" - Esteban Eitler e Gení Marcondes

Strauss, Richard
"Sinfonia Doméstica"
"Manhã" (canto, flauta e piano) - Hilde Sinnek, H.J. Koellreutter e Gení Marcondes

Stravinsky, Igor
"Apolo Musagete" - Orquestra de Cordas de Boyd Neil (4 vezes)
"Concerto para piano e instrumentos de sopro"
"Sonata para Piano"- Heitor Alimonda
"Consagração da Primavera" (2vezes)
"O Canto do Rouxinol"
"Pantomina e Apoteose"
"História do Soldado"
"Petrouchka" (Suite) e outras obras (programa a ele dedicado, em 19/01/1946)
"Sinfonia dos Psalmos" (2vezes)

Toch, Ernesto
"Dansa de Ruth" (piano) - Ana Maria Porto

Togni, Camillo
"Três Prelúdios" (piano) - Eunice Katunda

Tomson, Virgil
"Sinfonia sobre a melodia de um hino"

Villa-Lobos, Heitor
"Ciclo Brasileiro" (piano) - Eunice Katunda (2vezes)
"Duas Canções" (canto e piano) - Magdalena Nicol e Eunice Katunda
"Choro Bis" - Oscar Borgeth e Iberê Gomes Grosso

Wagner, Richard
"Parsifal", prelúdio do 3o Ato

Walton, William Turner (Inglaterra, 1902)
"Festim de Baltazar" (oratório para barítono solo, coral misto e orquestra)
(1a audição brasileira?: 03/04/1948)

Weiss, Helen L.
"Quatro Esquisses" (piano) - Helen L. Weiss
(1a audição brasileira?: 02/08/1947)
"Prelúdio e Allegro" (piano) - Helen L. Weiss (idem)

Zadumbide, Célia (compositora equatoriana)
"Música para Flauta e Piano" (1945) - H.J. Koelkeutter e Gení Marcondes
(1a audição brasileira?: 26/01/1946)

Quadro IV - Relação de autores, quantidade de obras apresentadas, estréias, meio expressivo, nacionalidade do autor e intérpretes.

Autor

No peças

Estréia

Meio ExP.(18)

Nac. Comp.

Nac. Interpr.

Albinoni, T.

01

-

D

E

B

Alexandrow, A.

01

(1)

S

E

B

Alimonda, H.

03

01

3S

B

3B

Bach, J.S.

01

-

O

E

Grv

Barber, S.

01

-

O

E

Grv

Bartók, Bela

02

-

S;D

E

2B

Bauer, M.

01

(1)

D

E

B

Berg, A.

03

01

S;2O

E

1B;2Grv

Blitzsten, M.

01

01

O

E

Grv

Bloch, E.

02

-

2D

E

2E

Bosmans, A.

02

-

2S

B (E)

2L

Brand, M.

01

(1)

D

E (B)

B

Cassadó, G.

01

(1)

S

L

B

Chaves, C.

02

01

2S

L

2B

Coelho, Pe.M.R.

'05'

'05'

5S

E

5B

Copland, A.

02

-

1S; 1O

E

1E; 1Grv

Cosme, L.

01

-

Q

B

Grv

Crawford, R.

01

(1)

S

E

B

Debussy, C.

05

-

3D; 2O

E

3B; 2Grv

Devoto, D.

01

(1)

S

L

L

Deshevov, V.

01

-

S

E

B

Des Près, J.

01

-

C

E

Grv

Eitler, E.

04

-

1S; 3D

L

38; 1L

Falla, M. de

?

?

?

E

?

Fauré, G.

04

-

4D

E

48

Ficher, J.

02

-

2D

L

2L

Françaix, J.

01

-

S

E

B

Gnattali, R.

01

-

D

B

B

Goldman, R.F.

03

-

1S;2D

E

1L;2B+L

Guarnieri, M.C.

03

-

1S; 1D; 1O

B

3B

Hába, A.

03

(02)

2S; 1D

E

3E

Hába, K.

01

(01)

D

E

L

Harris, R.

01

-

S

E

L

Hasse, J.A.

01

-

D

E

B

Hauer, C.

01

01

S

B

B

Hindemith, P.

06

02

2S; 2D; 20

E

4B; 2Grv

Honneger, A.

04

-

1S; 1D; 20

E

1B; 1L; 2Grv

Huber-Anderach, T.

01

01

T

E

B

Ibert, J.

01

-

D

E

B

Jemnitz, A.

01

-

D

E

L

Kabalewski, D.

01

-

S

E

B

Katunda, E.

02

(01)

2S

B

2B

Kassern, T.Z.

01

-

S

E

B

Koellreutter, H.J.

06

02

2S; 3D

B

6B

Korngold

01

-

S

E

B

Krenek, E.

01

-

O

E

Grv

Krieger, E.

04

01

2S; 2D

B

4B

Labunski, F.R.

01

-

S

E

B

Lapshinsky, G.

01

-

S

E

B

Lissowsky, A.

04

-

4D

B

4B

Mantero, M.F.

02

-

1S; 1T

B

2B

Martinu, B.

03

01

1D; 2O

E

1B; 2Grv

Milhaud, D.

06

-

1S; 3D; 2?

E

3B; 1L; 2Grv?

Paz, J.C.

03

01

2S; 1D

L

3B (1L)

Peixe, C.G.

07 (+)

03

3S; 3D; 1T

B

7B

(Programa 29/11/1947 inteiramente dedicado a ele; porém não se pode saber as obras executadas)

Perceval, J.

01

-

D

L

L

Pereira, A.

01

-

S

B

B

Pisk, P.A.

01

-

D

E

L/B

Porto, A.M.

03

-

1S; 2D

B

3B

Prokofiev, S.

05

-

1S; 1D; 1Q; 2O

E

2B; 3Grv

Purcell, H.

02

-

2T

E

2B

(Programa dedicado ao compositor, 05/10/1946)

Ravel, M.

05

-

2D; 1T; 1Q; 1O

E

3B; 2Grv

Reger, M.

01

-

T

E

B

Riegger, W.

01

-

D

E

B

Roussel, A.

02

01

2D

E

2B

Sandbank, M.

02

-

1S; 1D

B

2B

Santoro, C.

06 (+)

01

Q

B

B

Schnorrenberg, R.

01 (+)

01

Q

B

B

(26/06/1948: programa dedicado a Schnorrenberg e Krieger)

Schoenberg, A.

08

01

2S

E

2B; 6Grv

Schueler, E.

01

-

D

L

L

Scott, C.

01

-

S

E

B

Sekles

01

-

S

E

B

Shostakovitch, D.

03

-

2S; 1O

E

2B; 1Grv

Sionam, R.

01

(1)

S

E

L

Stevens, H.

01

-

D

E

B+L

Strauss, R.

02

-

1T; 1O

E

1B; 1Grv

Stravinsky, I.

09

-

1S

E

1B; 8Grv

(19/01/1946: programa a ele dedicado)

Toch, E.

01

-

S

L?

B

Togni, C.

01

-

S

L?

B

Tomson, V.

01

-

O

E

Grv

Villa-Lobos, H.

03

-

1S; 2D

B

3B

Wagner, R.

01

-

O

E

Grv

Walton, W.T.

01

01

O

E

Grv

Weiss, H.L.

02

02

2S

E

2E

Zadumbide, C.

01

01

D

L

B

 

Totais

Autores

No de peças

Estréias

Meio Exp.

Nac. Comp.

Nac. Interpr.

85

199 +

40

67 S

19 B

128 B

 

 

 

65 D

55 E

44 Grv

 

 

 

09 T

11 L

08 E

 

 

 

05 Q

 

18 L

 

 

 

25 O

 

 

Conclusões

I. Sobre os compositores e suas obras

Dos 85 autores representados 12,9% são "Latinoamericanos", 64,7% "Estrangeiros" (europeus, americanos) e 22,4% "Brasileiros". A representação de obras se dá na proporção:

1. Brasileiros = 53 obras (19)

5,6% H. Alimonda

5,6% C. Guarnieri

5,6% H. Villa-Lobos

7,5% E. Krieger

7,5% A. Lissowsky

11,3% H.J. Koellreutter

11,3% + C. Santoro

13,2% + C. Guerra Peixe

2. Estrangeiros = 118 obras

2,5% A. Berg

2,5% A. Hába

3,4% G. Faure

3,4% A. Honneger

4,2% Pe. M.R. Coelho

4,2% C. Debussy

4,2% S. Prokofiev

4,2% M. Ravel

5,1% P. Hindemith

5,1% D. Milhaud

6,7% A. Schoenberg

7,6% I. Stravinsky

3. Latinoamericanos = 28 obras

10,7% J.C. Paz

14,2% E. Eitler

A presença de compositores Brasileiros, em meio aos Estrangeiros e Latinoamericanos, embora representada por apenas 22,4% de Autores e 26,6% de Obras, indica:

1. a intenção de divulgação da produção nacional no contexto mais amplo da contemporaneidade internacional (Dado da Cultura);

Devemos acrescentara os compositores já mencionados Arthur Pereira, Luiz Cosme, Radamés Gnatalli, etc.;

2. o estímulo aos compositores emergentes (Dado Pedagógico) Podemos relembrar alguns dos discípulos de Koellreutter, afora os já consagrados Santoro, Guerra Peixe, E. Krieger e E. Katunda: Minita F. Mantero, C. Hauer, A. Lissowsky, R. Schnorrenberg, etc.

II. Das Estréias

Das 199 obras apresentadas 20,1% consistiram em estréias brasileiras, latinoamericanas ou, mais raramente, mundiais (caso das obras dos alunos de Koellreutter), atestando assim o nível buscado pelo movimento em sua empresa contemporânea de atualização e integração cultural.

III. Da natureza das músicas

Obras interpretadas ao vivo 136 (aprxm.) = 75,5%

Gravações 44 (aprxm.) = 24,4%

Estes índices demonstram o estímulo e a dinamização da prática de interpretação musical. Isto se reflete igualmente nos meios expressivos empregados pelas diferentes obras, cabendo às formações de porte mais reduzido os índices mais elevados:

Solos 67 = 39,2%

Duos 65 = 38,0%

Trios 09 = 5,3%

Quartetos 05 = 2,9%

(Orquestra 25 = 14,6%)

Estes números podem atestar o estímulo prioritário dado à prática - ao lado da criação musical - como elemento de formação e desenvolvimento da competência expressiva, dinamizadora da vida musical, pedagogia ampla favorecedora da cultura.

IV. Dos intérpretes

O objetivo pedagógico no sentido amplo, refletido nas metas de atualização e renovação cultural mostra-se também em muito reforçado pela incidência de intérpretes Brasileiros na execução seja de obras nacionais ou estrangeiras.

Intérpretes Brasileiros 128 = 83,1%

Intérpretes Latinoamericanos 18 = 11,7%

Intérpretes Estrangeiros 08 = 5,2%

Encontram-se entre os intérpretes mais atuantes (com maior número de obras executadas):

Gení Marcondes (B) 31 peças

H.J. Koellreutter (B) 21 peças

Eunice Katunda (B) 20 peças

Heitor Alimonda (B) 17 peças

Esteban Eitler (L) 16 peças

Com base em apenas esses dados que seja, podemos então considerar a fundamental participação - neste caso enquanto intérpretes - das pianistas Gení Marcondes e Eunice Katunda no âmbito do movimento Música Viva. Parece-me oportuno lembrar ainda que, assim como a quase totalidade dos discípulos de Koellreutter, elas também criaram música, tendo Eunice Katunda produzido, entre composições e arranjos, na ordem de 80 títulos(20).

Ao nos depararmos com esses 50 anos que marcam o início da existência da atividade radiofônica do Música Viva no Rio de Janeiro e ao mesmo tempo o surgimento da ala paulista do ativo movimento, parece-me mais do que oportuno e necessário refletirmos sobre alguns pontos. É injustificada que a atuação dessas duas musicistas, em particular, permaneça tão pouco considerada pelos estudiosos do assunto. Por outro lado, ao evidenciarmos, que seja rapidamente, a importância dessas intérpretes - e também de outros, bem como de compositores formados ao longo da trajetória pedagógica de Koellreutter e atuantes no bojo do movimento, seja R. Schnorrenberg, C. Hauer, A. Lissowiski, M. Mantero, etc. - constatamos igualmente com a mesma força o profundo descaso ao qual estão relegados aqueles que, no seu tempo e à sua própria maneira, constribuiram para, a existência de um momento significativo da cultura.

Ao não se consignar conscientemente o valor e o sentido dessas contribuições tendemos a atribuir a Koellreutter a responsabilidade quase única por tais realizações. Ora, um "movimento" cultural não é obra de uma só pessoa, por mais dinâmica que seja ela. Um intenso movimento pode ser criado, animado, orientado por um empreendedor nato, como aliás o foi Música Viva por Koellreutter. Mas ele é sempre resultado de um conjunto de ações de vários indivíduos coligados em prol de ao menos uma causa ou ideal próximo, afinado, comum. O que assim nomeamos - movimento - recobre justamente uma transformação dinâmica constatável na realidade social, identificada através das realizações e comportamentos de um grupo de pessoas.

Encararmos por esse viés a realidade possibilita aguçar o interesse pelos fatores, causas e agentes que, em particular em nosso país, geraram cultura e história, mantendo assim uma visão mais extensa, rica, justa e lúcida dos fatos.

Que transcorrido esse meio século possamos - ao largo de qualquer comemoração meramente formal e cronológica - ao menos compreender o sentido subjacente às realizações desse grupo amplo de indivíduos, quase geração, que acreditou verdadeira e sinceramente no princípio:

... idéias são mais fortes que preconceitos ...

... música é vida, música é movimento ...

NOTAS

(1) Ver: boletim Música Viva, nº 7/8, 1941, p. 1. É oportuno aqui sugerir a releitura de "O Banquete", de Mário de Andrade, que esclarece, numa farta e poética discussão, aspectos relativos a essa e outras problemáticas correlatas, notadamente através das falas dos personagens Janjão e Siomara Ponga, dignos porta-vozes da situação respectiva do compositor e do virtuose da época.

(2) Cumpre notar aqui o deslise da Enciclopédia da Música Brasileira... (SP: Art Editora Ltda., 1977), ao comentar no verbete sobre Koellreutter: "Criador do movimento Música Viva em 1939, produziu até 1944 o programa do mesmo nome na Rádio M.E.C., do Rio de Janeiro..." (p. 396). Quanto ao final das transmissões, 1952 é a última data que pudemos localizar onde foram feitas menções à existência do programa seja por ex-integrantes do grupo seja pela imprensa escrita (cf. Correio do Manhã, RJ: 06/01/1952), muito embora o último roteiro por mim localizado seja referente ao ano de 1950. Todas as informações relativas às emissões radiofônicas veiculadas aqui apóiam-se em documentação específica, constituída por 90 roteiros de programa, referentes ao período 1946-50. Este material foi por mim localizado, reunido e classificado entre 1989 e 91, e, ao que consta, jamais consultado e estudado anteriormente por nenhum outro musicólogo.

(3) Cf. Diretrizes (RJ: 1944), p. 5 e Cartão-Programa utilizado como convite para o evento.

(4) A intercalação de programas ao vivo e de música gravada é fonte freqüente de confusões no que se refere à periodicidade das emissões, nas raras menções a elas feita pela bibliografia existente. Pelo que se pode concluir dos roteiros estudados a alternância de programas de estúdio e gravações não é sempre rigorosamente mantida.

(5) Cf. boletim Música Viva, nº 12 (RJ: Jan/1947), p. "45" e diversos roteiros de programas de 1946 e 47.

(6) Ao fazer um balanço das atividades, no período compreendido entre Janeiro e Junho de 1946, o grupo menciona que foram apresentadas (sendo 50 ao vivo no estúdio e 18 com 68 músicas gravações), das quais 27 corresponderam a estréias brasileiras(discriminando os compositores interpretados e a quantidade respectiva de obras); cf. boletim acima mencionado, p. “44”.

(7) Numa relação, elaborada pelo grupo Música Viva, de autores com obras apresentadas, referente ao período Janeiro a Outubro de 1945, deduz-se ao final: total de 84 obras interpretadas, das quais 34 gravações - 50 em estúdio e 53 delas em primeira audição (pela ausência dos títulos musicais, não é possível distinguir estréias nacionais de mundiais). Exceção feita ao compositor B. Bartok, que teve seu Microcosmos executado (e analisado) integralmente, os compositores mais representados foram. Villa-Lobos (com 8 peças); D. Shostakovich, T. Errecart, S. Prokofiev e C. Santoro (cada qual com 4 obras); S. Bate, A. Copland, P. Hindemith, H.J. Koellreutter, C. Guerra Peixe, W. Schuman e I. Stravinsky (com 3); os demais compositores da listagem (cujo total perfaz 43) possuem uma ou duas obras. Já envolvidos na celeuma estética que cinco anos mais tarde viria a se deflagrar com tanta virulência, consta em primeiro lugar das Observações que figura ao fim do documento: do total de obras apresentadas 21 eram apenas atonais.

(8) Cf. Roteiro do Programa de 07/12/1946, por exemplo.

(9) Falta neste roteiro a primeira página, e a data de transmissão.

(10) Gení Marcondes - pianista e pedagoga - embora participante ativa do movimento, como veremos a seguir, é praticamente ignorada pela bibliografia existente, excessão feita a Música Contemporânea Brasileira (SP: Ricordi, 1981), de José Maria Neves.

(11) Não nos foi possível saber se tratava de uma série no interior do programa Música Viva ou de um programa autônomo.

(12) Roteiro do programa de 30/03/1946, p. 3; seu conteúdo é idêntico ao do dia 06/04/1946, p. 4.

(13) Esse musicólogo uruguaio tem várias participações registradas na documentação. Numa relação datilografada das irradiações do ano de 1945 Dr. Francisco Curt Lange é responsável pela conferência "Alguns aspectos da música na América contemporânea do Sul", realizada em duas partes, dia 28/abril e 19/maio. Já o programa de 02/03/1946 é a ele inteiramente dedicado, contendo, além da habitual apresentação de obras (na ocasião Santoro e Villa-Lobos) e das palavras de Roberto Lira Filho - em nome do grupo Música Viva - e de Ramon Pires Coelho (“ministro plenipotenciário encarregado dos negócios da Embaixada do Uruguay”) uma palestra do homenageado.

(14) Em 1991 pude recuperar um Manifesto 1945; é o mais extenso dos documentos de mesma natureza e não teve, conforme tudo indica até o momento, divulgação impressa na época. Para uma breve e parcial apresentação de seu conteúdo, ver: KATER, C. “Aspectos Educacionais do Movimento Música Viva”, in: Revista da ABEM (Associação Brasileira de Educação Musical), nº 1, Ano 1 S.L.: ABEM, Maio/1992, pp. 22-34.

(15) Roteiro do programa Música Viva, de 16/02/1946, p. 4.

(16) As datas entre parênteses referem-se àquelas extremas, primeira ou última, da respectiva série do roteiro encontrado; por conseqüência apenas aquelas sem parênteses correspondem às datas certas de início ou final da série referida.

(17) Relação baseada apenas nas informações dos roteiros completos, sem levar em consideração os anúncios de apresentação musical em programa(s) futuro(s). Entre parênteses figuram, em alguns casos, as indicações de estréia, conforme anúncio no roteiro; em outros, número de vezes em que a peça foi apresentada (dois ou mais prograrnas).

(18) Solo (S), Duo (D), Trio (T), etc. e Orquestra (O).

(19) Todas as porcentagens a seguir referem-se ao total indicado. Figuram aqui apenas os compositores que tiveram no mínimo 3 obras interpretadas.

(20) Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Eunice, entrevistá-la longamente, classificar, organizar e microfilmar o acervo de seus documentos (compreendendo basicamente as correspondências enviadas/recebidas,os programas de concerto, seus textos escritos e obras compostas). Parte desse estudo figura no trabalho que escrevi, intitulado "Eunice Katunda: informações biográficas e catálogo de obras" (SP: CePPeM, 1987).


Carlos Kater, compositor e musicólogo, é Doutor em Musicologia e História da Música pela Universidade de Paris IV - Sorbonne, coordenador do NAPq - Núcleo de Apoio à Pesquisa da Escola de Música/UFMG (desde 1989), fundador e editor das revistas CE:AM, CE:EM (ambas editadas pela "Atravez") e MúsicAHojE (NAPq/EM/UFMG). Ativo pesquisador (bolsista do CNPq), é Professor Titular concursado pela EM/UFMG - com a tese "H.J. KoellreutIer e a Música Viva: movimentos em direção à modernidade". Nessa instituição dirige o "Laboratório de Música Colonial Brasileira" e orienta trabalhos de pós-graduação em Análise e Musicologia Brasileira.

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