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DA PERCEPÇÃO À CONCEPÇÃO: UMA ABORDAGEM DA EDUCAÇÃO MUSICAL
Victor Flusser
Tradução de C.Kater
Et dans la nuit, la lourde terre tombe des étoiles dans la solitude. Nous tombons tous. Et pourtant il existe Quelqu'un qui tient cette chute avec une infinie douceur dans ses mains.
Rilke
No âmbito de uma reunião internacional sobre o ambiente sonoro e a ecologia acústica, eu gostaria de refletir a respeito das relações entre cultura e natureza, na ótica da formação musical de crianças.
Inicialmente a musica, como todo ato cultural, é uma luta contra a utopia e uma (patética) afirmação do homem contra o seu destino. A música, assim como a cultura, é então radicalmente anti-natural. Ela se alimenta da natureza “natural” e da natureza “artificial-cultural” que nos cerca. O ambiente sonoro composto de cantos de pássaros e do escorrer da chuva sobre as folhas de cerejeiras no meu quintal é para mim da mesma natureza que os ruídos dos automóveis ou da muzak(1) ou ainda o conjunto das músicas da historia da música (posso ter preferência de um ou de outro ambiente, porém isto não tem nenhuma importância). Esses três ambientes sonoros dirigem-se à entropia (segunda lei da termodinâmica) e é por esta razão que o grito do homem-artista é tão patético, pois perdido já de antemão.
Uma conferência sobre o ambiente sonoro é assim uma dupla conferência: ecológica (sobre os pássaros e a chuva e os automóveis e a muzak), iniciativa que inclui seu desespero, consciente que está da queda do mundo na negra entropia; ou não-ecológica, cultural (a arte à partir do e no ambiente) e nesse caso também, iniciativa desesperada porque consciente da aposta de antemão perdida na luta contra o destino entrópico.
Estas afirmações são a expressão de um ponto de vista histórico ("ocidental"). Seria diferente caso a abordagem fosse cíclica ("oriental"). A cultura, antes de ser informação do objeto (entropia negativa), é formação do sujeito. O olhar substitui em parte o pincel, a escuta, o lápis do compositor. Ao invés de querer afogar a natureza na cultura (e em seguida se afogar nos resíduos culturais-meta-natureza), este pensamento, ao contrário, visa mais a submergir a cultura na natureza e assim dissolvê-la "naturalmente".
Minha posição se situa inteiramente nesse processo deseperado do homem ocidental; e isto não por falta de interesse ou mesmo desprezo pela outra abordagem mas pela impossibilidade de mudar meus instrumentos de apreensão do mundo - a lógica, minhas orelhas, minha crença, estúpida! - no progresso e ainda pelo meu medo do negro escuro.
O espaço musical é um espaço não-natural, pois é o espaço de silêncio que o compositor mobilia com sons, conjurando assim nosso destino. O espaço musical é também um espaço não-natural, pois é tempo no tempo e regras nas regras. Extra-ordinária, a música nos arranca do cotidiano, do ordinário e nos afasta de nós mesmos. Eis nossa única aspiração e desejo, pois somos desesperados.
Dar às crianças os meios de acesso à arte, a este temporário esquecimento de si, é lhes oferecer a chave de sua felicidade. A educação musical, como toda educação, no fundo, não deveria ser outra coisa que: uma escola do extra-ordinário, uma escoIa da paixão.
Fazer música, inventar música; é então informar, pôr em forma elementos de nosso ambiente (natural, artificial ou cultural). E para poder pôr em forma é necessário conhecer tais elementos. Conhecer, por exemplo, o som das ondas sobre as pedras, o som de aviões à turbina, a música da Ars Nova. E o conhecimento implica numa tríplice abordagem: observação, análise e criação. Deve-se olhar para ver, tocar para acariciar, perceber para escutar; e deve-se ver para pintar, acariciar para amar, escutar para compor. Conduzir assim uma criança para a música é acompanhá-la e guiá-la no caminho que tem seu ponto de partida na percepção (o som/música como índice), para a escuta (a música como signo) e atinge a concepção (a música como símbolo), caminho que parte da abertura dos ouvidos à aberturado pensamento e alcança a abertura do desejo. Porém, esse caminho não é linear e à cada passo, percepção, escuta e concepção estão intimamente imbricados.
Antes de terminar, gostaria de retornar rapidamente à atitude "cíclica" e ao pensamento "linear", relativamente ao ambiente sonoro.
Escutar o barulho de uma cascata, sentado sobre uma pedra, inteiramente concentrado nas variações e na complexidade incrível desse som pode ser, para alguns, assimilável à uma experiência "artística". Segundo o que considero, ela é a meu ver uma experiência pessoal. Não é, em realidade, a cascata que escuto mas eu mesmo através da cascata. Claude Levi-Strauss fala desse fenômeno de escuta de si mesmo na escutado mito. É, talvez, a diferença entre mito e história: o cíclico e o linear. A melodia tocada por uma flauta na floresta durante o levantar do sol, escutada quando estamos deitados na relva duma clareira pode se constituir numa experiência artística (artificial) ou numa experiência pessoal (natural). Artística (artificial), a experiência o será se a flauta e os outros sons (digamos o canto dos pássaros) formarem um todo ordenado por um compositor (o aleatório do canto dos pássaros como elemento da obra) e nesse caso, o ambiente natural transmuta-se num ambiente cultural, e a floresta e a clareira serão simplesmente uma decoração (seguramente magnífica) e o canto dos pássaros (seguramente único) podendo tão bem serem tocados por um flautim ou por apitos. A experiência será pessoal (natural) se a melodia da flauta fizer “existir” para mim o canto dos pássaros e me permitir assim uma fusão com a floresta. É a isto que Hegel faz referência na sua “Estética”, ao falar do templo grego no pico de uma colina. Antes de ser um objeto de cultura e encarado como tal, o templo está lá para fazer existir o sol que o ilumina no final do dia. Conforme seja nossa abordagem, histórica ou mítica, o templo ou a flauta torna-se um texto ou então a chave de acesso à seu contexto.
Conduzir as crianças numa ou noutra dessas direções é sempre conduzi-las à felicidade, pois as emoções dace à cultura ou face à natureza não são talvez de mesma ordem mas são igualmente comoventes.
NOTA
(1) Muzak era o nome de uma firma americana responsável pela produção de "músicas de fundo", utilizadas em aeroportos e locais do gênero, e que acabou por se tornar na França sinônimo desse tipo de música funcional (n.t.).
Victor Flusser, educador musical e compositor, formou-se em Composição e Regência pela Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo (ECA/USP). É Doutor em Sociologia da Música pela Universidadede Aix-en-Provence (França), com a tese “Considerações preliminares sobre a Animação Musical”. Diretor do CFMI - Centre de Formation de Musiciens Intervenants à l'École, de Selestat/França, desenvolve intensa atividade como pedagogo e compositor de peças musicais para crianças e adolescentes.
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