A AULA DO COMPOSITOR

Maria Lúcia Pascoal

O presente texto é um resumo de três livros do compositor e educador canadense Murray Schafer, os quais fazem parte da coletânea O ouvido pensante. Entre outros assuntos tratam de revisão de conceitos musicais, percepção, relações professor/aluno e ambiente sonoro, para chegar ao ponto principal: improvisação e criação de música pelos próprios participantes dos cursos.

This paper is an abstract of three publications made by Arcana Editions (Toronto: 1986), presenting Murray Schafer, a Canadian composer which has in his work a particular interest in Music Education. These three books are part of the volume The thinking ear, where he speaks about a new ear training, teacher/students relations and the sound environment. His original work triest o develop improvisation at the musical classrooms.

Murray R.Schafer, O ouvido pensante

Limpeza de Ouvidos

O compositor na Sala de Aula

O Rinoceronte

[Toronto, Arcana Editions, 1986, 342 p.](1)

Murray Schafer é um compositor preocupado com novos sons, com a paisagem nosora, com questões de acústica, com o som poluído das grandes cidades que tanto afeta os ouvidos humanos. Essas idéias o levaram à Educação Musical, com grande atuação em cursos, tanto para leigos como para estudantes de música, comunicando-se com crianças, adolescentes e professores. Sua visão bastante original e lúdica do processo da educação tem sido apresentada no seu país natal, o Canadá, e também nos EUA, em vários países da Europa, na Austrália e na América Latina.

O volume O Ouvido Pensante reúne alguns desses cursos e conferências que já haviam sido publicados separadamente, pelas editoras Berandol Musica e Universal, ambas do Canadá, de 1965 a 1970.

Já foi traduzido no Brasil e lançado pela EDUNESP em março de 1992.

Limpeza de Ouvidos

Antes de pensar em qualquer treinamento, é preciso fazer uma Limpeza de Ouvidos. Esse é o título que Murray Shafer deu a um curso experimental de musicalização, oferecido a alunos de primeiro ano (não de música) na Universidade Simon Frazer. Foi publicado na forma original, em diálogos, que são gravações das aulas.

Limpeza, no sentido de abrir os ouvidos para perceber os sons à volta, ao mesmo tempo rever e analisar conceitos e, principalmente, fazer a própria música. Na apresentação ele diz: “As habilidades de improvisação e criatividades - atrofiadas por anos sem uso - são redescobertas e os alunos aprendem de modo prático temas como dimensão e formas musicais(2).

Cada capítulo consta da apresentação de um assunto, seguido de exercícios, assim distribuídos: Ruídos, Silêncio, Som, Timbre, Amplitude, Melodia, Textura, Ritmo, A paisagem sonoro-musical. No final há a inclusão de duas transcrições: I - Charles Ives e perspectiva e II - Música para papel e madeira(3).

Os conceitos de ruído, silêncio, som, vão sendo desenvolvidos; é colocada a relatividade de consonância/dissonância através da história; os alunos são levados a analisar os sons que estão procurando ouvir. Fazem exercícios como gravar a aula e, voltando a fita, sintonizar o que não era intenção ser gravado. São levantadas discussões, partindo da pergunta: Se você não gosta de uma peça de música, ela é ruído?

Para ampliar a percepção dos sons, a turma é solicitada a fazer uma lista de tudo o que ouve, dentro e fora da sala.

Fazem composições com um som só, que deve ser expressiva, pontuada com silêncios; vão descobrindo as variações de intensidade, timbre e ainda a potencialidade acústica, condições para um som viver. Sem querer fixar conceitos a períodos históricos conhecidos, procura tratá-los compreensiva e abertamente.

Tratando da melodia, Schafer diz: "Parafraseando Paul Klee, melodia é levar o som a um passeio. Para termos uma melodia, é preciso movimentar o som em diferentes freqüências. Isto é chamado mudança de altura. Uma melodia pode ser qualquer combinação de alturas."(4)

Os alunos fazem improvisações com dois sons, depois três, quatro etc. vocal e instrumentalmente. São solicitadas a aplicar nos sons todas as variações já aprendidas, como: som/silêncio, intensidade, timbre, articulação rítmica.

Criam melodias, partindo das idéias: balançando - profundo e triste - leve, ligeiro - e outras ainda, colocando sons e versos.

Explica textura, mostrando como o contraponto é uma conversa entrevários interlocutores, cada um procurando afirmar seu ponto de vista. São feitos gráficos com os movimentos principais das linhas melódicas apresentadas.

Pede aos alunos para comentarem as diferenças de textura depois de ouvirem organum, música coral do Renascimento, Wagner, Webern.

No capítulo Ritmo, apresenta o assunto, ressaltando mais idéia de movimento do que propriamente divisão em articulações. Trabalha ritmo regular e irregular, quantitativo e qualitativo, tempo real e virtual. Ilustra no seguinte exercício: “Movimentando o braço na direção do ponteiro do relógio, descreva uma curva absolutamente regular, de uma duração arbitrária - digamos, trinta segundos - chegando ao ponto de partida em tempo. Pode ser feito?(5).

Sintetizando as aulas, propõe composições coletivas, dividindo a turma em grupos. Aprendem a atuar com regentes saídos dos próprios grupos, desenvolvem solos, tutti, alternam grupos contrastantes, praticam diferentes texturas, ritmos e desenhos melódicos. Como ponto de partida usam às vezes o próprio som, em outras partem de textos, poemas, histórias. São levados a pensar na dimensão e macro-estrutura da peça.

No Pós-Scriptum II, registra estes dois casos: "Um dia foi dada uma tarefa: trazer um som original à aula. Uma aluna trouxe uma bola de gás, encheu de ar e aí deixou esvaziar - zzz zh zheeeeeeeee e e e e e e e e e e e e e e e e ssssssssss sshshshshsh. Quando perguntei porque era original, respondeu que era por ser imprevisível. Nunca se sabe se vai para zhzh ou shsh. Um outro disse "animal" uma dúzia de vezes. Explicou que a originalidade estava no fato de que quanto mais fosse repetido, o menos se tornava parecido com o que era esperado significar. O sentido vai se perdendo e fica só um objeto sonoro"(6).

Limpeza de Ouvidos é um curso que procura fazer com que os participantes se expressem através do som, com liberdade e imaginação, ao mesmo tempo em que se familiarizam com os aspectos técnico-musicais. Nas aulas de música está sempre presente o lúdico, tantas vezes esquecido em aulas de música. No seu trabalho, Schafer desenvolve a alegria e o prazer de se comunicar com o sonoro. Um ponto importante: sem preconceitos.

O compositor na sala de aula

  • Primeiro contato
  • O que é música?
  • Música descritiva
  • Texturas de som
  • Música e conversa
  • A máscara do demônio da maldade

O volume O compositor na sala de aula é resultado de um curso realizado por M.Schafer, para estudantes de escola média, com idades entre 13 e 17 anos (exceto o último A máscara do demônio da maldade, que envolveu alunos da escola elementar).

Dois fatos são relevantes aí. Primeiro, a prática de música nas escolas (correspondentes a 1o e 2o graus, para nós) e segundo, o interesse de compositores na Educação Musical.

Sua pesquisa mostra como grupos de pessoas podem se expressar de modo interessante, musical e original sem se apoiar exclusivamente à música já escrita.

Primeiro Contato

Uma grande lista de gêneros musicais é enumerada no quadro separando segundo o gosto dos alunos. Fazem comparações entre apreciação artística e, por exemplo, fé religiosa, política ou filosofia. Como para os três últimos só se pode definir por uma opção, em arte é diferente: escolher uma manifestação não nega necessariamente uma outra. Ninguém ouve só um tipo de música e assim, quando é perguntado à turma: Qual a música que você ouve?, descobrem que pode ser também um processo acumulativo; quem ouvia um gênero, passa a ouvir outro e também o anterior. É preciso aguçar a curiosidade, ouvindo os mais diferentes gêneros possíveis. A idéia é procurar dissociar a música de pessoas ou grupos, mostrando o quanto existe de preconceito em relação ao assunto.

Schafer diz: "Uma vez alguém disse que as duas coisas mais importantes para desenvolver o gosto são: sensibilidade e inteligência. Não concordo; para mim, são curiosidade e coragem"(7).

O que é música?

Para chegar a uma definição, são escritas no quadro várias respostas. Eis algumas:

  • Música e alguma coisa que você gosta.
  • Música é som organizado com ritmo e melodia.
  • Música é som agradável ao ouvido.

Percebem que há algo errado já com a primeira definição, quando jazz. E as pessoas que não gostam dessa música? Chegam a discutir quem é "você" e o que lhe dá o direito de distinguir entre o que é ou não música para todos? A terceira definição abre discussão para o som e ruído. Ruído pode ser música? Schafer toca um tímpano, várias vezes, ritmicamente. Percute também uma lata de lixo que há no fundo da sala. Seguem discutindo a diferença entre vibrações regulares e irregulares. É proposta então uma tarefa: Vocês foram contratados por Alfred Hitchcock para fazer música de um filme de suspense. A cena: a vítima, entrando em casa; tudo escuro; o assassino que estava escondido, dá um salto em cima dela, tapando-lhe a boca(8).

E a música? Sugerem acordes. Não gostam de nenhum, até que alguém tem a idéia de cada um ouvir o que o colega está tocando e procurar tocar a nota vizinha. Tudo forte. Depois, resolvem incluir os cantores, que vão gritar, fazendo o papel da vítima. Chegam então à conclusão que esse som não é nada agradávela os ouvidos. No dia seguinte ouvem "Um Sobrevivente de Varsóvia", de Ritmo e Melodia, também não serve. Seguem discutindo som e ruído. Chegam à conclusão que a diferença pode ser a intenção de ser ouvido como som e a música, uma organização de sons. A definição e chegada no dicionário e todos concordam então, que é preciso estar muito atento às mudanças que acontecem, para atualizar as definições, deixando-as abrangentes, o máximo possível.

Música descritiva

Esse capítulo trabalha a improvisação dos alunos. Começam com Imitação da natureza. A princípio são tímidos, devido à falta de experiência, depois vão melhorando aos poucos. Schafer faz desenhos no quadro, partindo das linhas melódicas conseguidas. Como todos os instrumentos da orquestra estão representados, é possível montar músicas como: quedas d'água, neblina, pássaros voando, o vento. Fazem uma lista de sugestões: Pôr-do-sol, Murmúrio do riacho, Uma fundição de ferro, Crianças brincando, Fumaça, Vento nas folhas, Um copo d'água, Cachorro latindo, Professor bravo, entre outras.

Texturas do som

Para que todos entendam o material com que o compositor trabalha para obter diferentes texturas de som, Schafer os estimula a perceber as diferentes emoções e sua transposição em sons. Assim, ele se dirige à turma, por exemplo, se eu disser 'zangado', que espécie de som você vai usar?(9)

Fazem uma lista de contrastes:

AGUDO GRAVE

FORTE SUAVE

CURTO LONGO

RÁPIDO LENTO

Fazem sons, por exemplo, Suave agudo, Lento curto, Suave rápido.

Assim vão trabalhando o caráter musical sugerido pela idéias. Ouvem várias peças, analisam segundo o caráter e fazem comparações. Desenvolvem exercícios sem se preocupar com as notas especificamente, mas com o nível geral de alturas. Fazem um código de sinais e trabalham com um regente. É realmente um estímulo muito grande fazer a própria música, ir aos poucos acrescentando mais instrumentos, vocais, vários grupos que procuram principalmente se ouvir.

Música e conversa

Aqui a improvisação é estimulada mais como um exercício de percepção. Procurar ouvir-se e ouvir o que o outro toca, a questão mais importante na educação musical. Começa pedindo uma expressão sonora individual, como diga algo ríspido, diga alguma coisa doce. Estão muito tensos a princípio; aos poucos vão desenvolvendo como uma conversa, onde se diz eu sei, concordo com você, não concordo. Passam a tocar pequenos motivos, com duas notas.

Imitam. Começam a trabalhar texturas contrastantes, tudo o que for possível com duas notas. Vão fazendo variações, como mudar os valores, mudar as alturas, mudar as dinâmicas, inverter as alturas, inverter o ritmo. Descobrem o som e o silêncio. Fazem variações, solos e acompanhamentos. Depois de várias tentativas, tudo vai ficando mais claro e os alunos percebem que, como numa conversa, é preciso ouvir os outros, falar quando tiver algo a dizer, fazer silêncios, enfim, expressar-se.

A máscara do demônio da maldade

É uma bela experiência, feita com alunos de uma escola pública, com idades que correspondem às da nossa 5a série. Os alunos estavam sendo treinados no método Orff; Schafer reconheceu que essas crianças haviam trabalhado de modo excepcional, pois de outra forma não teriam conseguido aquele resultado. As paredes da sala estavam cobertas de desenhos, recortes, máscaras, trabalhos que os próprios alunos faziam. Chamou a atenção um poema de Bertold Brecht colocado ao lado da máscara japonesa pintada de dourado. E partindo desse ponto que desenvolvem a sua música, usando instrumentos Orff, naturalmente num clima novo; declamaram o poema, fizeram vocais, criaram novas frases, colocaram-se no lugar da máscara e comentaram: é uma pena ser máscara o tempo todo!

A medida que o tempo avançava, Schafer foi saindo devagar, deixando a turma totalmente envolvida na criação, descobrindo e aperfeiçoamento o processo. Como o compositor observa no final, "improvisação é uma pesquisa formal sem fim e é por isso que estamos errados só esperarmos sempre uma execução perfeita numa improvisação. Sua vitalidade esta na habilidade de transformar-se, nada mais”(10).

O Rinoceronte

São ensaios, reunindo reflexões tiradas de oficinas e conferências. Focalizam a música se ampliando para encontrar as outras artes. Como o próprio compositor diz, são ornamentos das máximas que coloca na introdução.

Eis algumas:

  • Não há professores. Apenas uma comunidade de aprendizes.
  • Na educação, fracassos são mais importantes que sucessos. Nada é mais triste que uma história de sucessos.
  • Não planeje uma filosofia de educação para outros. Planeje uma para você mesmo. Outros vão desejar compartiIhá-la com você(12).

Contesta principalmente os currículos de cursos que procuram com o objetivo o treinamento de virtuoses e não a expressão individual. Seu trabalho procura treinar o fazer musical criativo.

Lendo estas reflexões, chega-se a pensar: será que é mais importante o que é ensinado ou o espírito com que é comunicado?

Seu trabalho de educação musical tem concentrado em três campos:

1. Procurar descobrir o potencial criativo dos alunos,

2. Fazer com que os alunos percebam seu ambiente sonoro; tratar a paisagem sonora como uma composição musical, na qual o homem é o principal compositor; considerar criticamente porque isso não acontece;

3. Descobrir um anexo ou ponto de união, onde todas as artes possam se encontrar e desenvolver harmoniosamente(13)

Quando Schafer diz: Numa classe programada para a criação não ha professores, apenas uma comunidade de aprendizes, está se referindo aos que vivem a educação musical como crianças grandes, sensíveis, abertos a mudanças e não o que chama de rinocerontes, aqueles revestidos de uma postura de couraça, à qual nada atinge. O ensino de música é uma transmissão de técnicas, teórico, só memória? Onde fica a matéria expressiva, a comunicação, a criação, enfim?

Pensando no ensino das artes visuais da Escola Bauhaus, pergunta: "a música não poderia ser pensada como a arte que liberta a energia criativa, enquanto treina a mente na percepção e análise de suas próprias criações?”(14).

Algumas tarefas para os alunos:

  • O silêncio é eloqüente, procure encontrá-lo;
  • Descubra um som que passe por você;
  • Escreva todos os sons que ouvir.
  • Coloque um som em ambiente de profundo silêncio.

O ambiente sonoro

Schafer considera como uma segunda fase de seu trabalho de educador musical, a análise do ambiente sonoro em que vivemos.

Faz treinamento auditivo com sons dessa realidade e estimula os alunos a fazerem coleções de sons. Já houve quem fizesse a paisagem sonora da cidade de Vancouver, sons perdidos ou desaparecidos, que já fizeram parte de um outro ambiente sonoro, de uma outra época.

Procura a conscientização da paisagem sonora da vida de hoje, com o acúmulo de som, deixando o homem progressivamente mais surdo. Considera o homem no centro da composição macrocósmica do mundo; seu principal criador, com o poder de atuar sobre ela. A começar pelos músicos, os arquitetos do som.

Um ponto de encontro para as artes

O compositor parte da observação da atividade integrada desenvolvida pelas crianças quando brincam, quando arte é vida e vida é arte arte. Depois que entram na escola, as coisas se compartimentam e limitam, destruindo o sensorium. Na sua filosofia de educação, Schafer propõe, no lugar de um pouco de cada arte nos primeiros anos escolares, uma atividade que integrasse todos os sentidos, preparando a sensibilidade para a arte. Num período médio de estudos, o desenvolvimento de acuidades sensoriais específicas e, finalmente, voltar a uma configuração de todas as formas de arte, quando arte e vida sejam sinônimos.

É aí que começam suas reflexões a respeito das influências que podemos receber das filosofias orientais. Por exemplo, o relaxamento yoga como preparação à audição e criatividade; a valorização do silêncio, o sentido do tempo.

Refletindo sobre Por quê? Quem deveria? e ainda Como ensinar música? relata casos acontecidos em suas aulas e resume a sua experiência a três atividades:

1) ouvir

2) analisar

3) realizar

A percepção dos sons na paisagem sonora, o desenvolvimento da consciência crítica, a criação e expressão num sentido da música do presente.

Aí se resume principalmente o sentido de sua crença de que vai haver um enfraquecimento cada vez maior do papel do professor como figura principal da aula. Em um trabalho criativo de verdade, não há respostas conhecidas, o professor se coloca nas mãos dos alunos e juntos trabalham os problemas. Muitas vezes a aula de música se transforma em uma sessão de outro assunto. Tudo deve ser aproveitado: técnicas de psicologia social, modelos de teatro, dança, artes visuais, teoria das comunicações, eletrônica; conta uma experiência com técnica esportiva.

Numa proposta ideal de política educacional, considera a necessidade de uma educação musical geral (sensibilização e expressão) para todos e somente o aluno com altas qualidades e aptidões, deveria ser encorajado a empreender o programa extenso de treinamento necessário ao estudo, sob a orientação de um músico profissional.

Relata ainda a experiência que fez com um grupo de trabalho a convite do Conselho de Artes da cidade de Ontário, para a preparação de um programa de múltiplos meios para a educação musical. Produziram um equipamento a que deram o nome de A Caixa de Música:

Dividiram o tema em diversas áreas, cada um com materiais e idéias. As categorias foram:

1. Instrumentos e geradores de som

2. Fitas e discos

3. Partituras

4. Artigos, panfletos e folhetos

5. Cartões de idéias

6. Itens de motivação (sugerindo ligações com outras áreas)

A caixa completa constava de quase trezentos itens.

1. Ao lado de instrumentos de percussão, uma flauta japonesa e outros orientais, alguns geradores de som, como,

  • folha de papel onde se lê: 'este pedaço de papel é um instrumento musical. Quantos sons você pode produzir com ele?'
  • estetoscópio, para ouvir o coração, o estômago ou ainda paredes dos edifícios;
  • globos, para serem enchidos com açúcar, arroz, bolinhas etc.

2. Fitas e Discos

  • uma fita com sons eletrônicos aleatórios, em anel, que possa ser emendada para criar composições em fitas.
  • um LP de uma ópera chinesa;
  • um velho 78 rpm de música popular

5. Cartões de idéias

  • Com sua voz, descreva o som que pá faz:

(a) na argila

(b) no cascalho

(c) na areia

  • Improvise um solo e grave-o. Reproduza a gravação.
  • Improvise um contraponto.
  • Experimente andar em silêncio absoluto. Ouça os sons enormes que produz.
  • Encontre um objeto tri-dimensional. Cante-o enquanto se movimenta em volta dele.

Essa experiência foi feita em quatro escolas, durante vários meses. Para finalizá-la Schafer inclui uma carta de um dos professores que participou da pesquisa e conta os maravilhosos resultados que conseguiu com seus alunos, apesar de se assinar "um professor exausto"(16).

No final apresenta o esboço de um currículo para música, do qual constam como exercícios diários:

1) prática de canto gregoriano

2) contemplação

3) eurítmica

O curso é dividido em quatro anos, constando, entre outras matérias, de:

  • percepção e sensibilização (som, visão, gosto, olfato, tato, movimento, gesto, psique e soma)
  • cultura vocal (experiências com voz na poesia, canção, elocução)
  • instrumento (à escolha)
  • treinamento auditivo (percepção de estruturas)
  • psico-acústica
  • poluição sonora
  • criatividade
  • eletro-acústica
  • música eletrônica e computadorizada
  • estudo dos meios (oficinas-integração)
  • desenvolvimento de um projeto pessoal
  • desenvolvimento de um projeto social

É sempre muito difícil sintetizar idéias e experiências, mas espero sinceramente que a criatividade do trabalho de Murray Schafer possa despertar outras, contribuindo assim para que a Educação Musical ative seus dois pontos básicos: a abertura do ouvido e expressividade.

NOTAS

(1) Constam ainda dessa coletânea os volumes: A nova paisagem sonora, Quando as palavras cantam, AIém da sala de música.

(2) SCHAFER, Murray. Ear Cleaning.

(3) As duas transcrições do final deste volume foram trabalhadas com turmas graus 11, 12, 13; instrumentistas de cordas, na North York Summer Music School.

(4) Op. cit., p. 60.

(5) Op. cit., p. 66.

(6) Op. cit., p. 89.

(7) SCHAFER, Murray. The Composer in the Classroom. Toronto: Arcana, 1986, p. 7.

(8) Op. cit., p. 89.

(9) Op. cit., p. 27.

(10) Op. cit., p. 45.

(11) SCHAFER, Muray. The Rhinoceros in the Classroom. Toronto: Arcana, 1986, p. 238.

(12) Op. cit., p. 237.

(13) Op. cit., p. 243.

(14) Op. cit., p. 244.

(15) Op. cit., p. 248.

(16) Op. cit., p. 275.


Maria Lúcia Pascoal é Doutora em Artes (UNICAMP), com as especializações: “Curso Formação de Professores”, Conselho Estadual de Cultura (SP) e bolsista do DAAD no “Ferienkurse für Neue Musik”, Darmstadt/Alemanha. É uma das tradutoras de “Sons da Infância” (Ed. Novas Metas); tem publicado trabalhos em revistas especializadas, sendo afiliada ao Centre de Documentation Claude Debussy, de Paris. Atua como pesquisadora e professora na área de Estruturação Musical, nos cursos de graduação e pós-graduação do Instituto de Artes da UNICAMP.

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