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DO GESTO AO MUSICAL: UMA NOVA PEDAGOGIA
Bernadete Zagonel
Curto esboço de uma trajetória
A pedagogia musical sofreu duas transformações importantes neste século: a primeira quanto aos métodos de ensino empregados e a segunda quanto à concepção musical, ou seja, aos conteúdos desenvolvidos.
A partir dos anos 20, os chamados métodos ativos introduzem no mundo europeu uma nova maneira de ensinar a música baseada na ação e na prática. Assim, alguns músicos como o suíço Jacques Dalcroze, o húngaro Kodally, o francês Martenot, o alemão Orff e o belga Willems, para citar apenas os mais conhecidos, apresentam métodos que consideram a criança em seu todo, possuidora de comportamentos e características próprias.
Estas propostas, apesar de terem sido desenvolvidas separada e independentemente, apresentam diversos pontos comuns, tais como:
- predominância da prática em relação à teoria;
- percepção da criança como um ser dotado de personalidade original e não como um mini-adulto;
- direito de todos ao aprendizado musical e não somente de alguns privilegiados mais dotados;
- concepção mais abrangente do ensino da música, tendo por objetivo o desenvolvimento do ser humano em sua totalidade e a sensibilização a uma arte, e não somente um treinamento técnico que leve ao domínio de um instrumento: nascimento de uma proposta de educação musical;
- utilização do corpo e do movimento para concretização de experiências musicais;
- estímulo à criação;
- ênfase à audição e não à escrita e à leitura.
Fica aí evidente o surgimento de uma nova pedagogia musical, mais participativa e, conseqüentemente, mostra a experiência, mais eficaz. No entanto todos esses métodos se restringem ainda ao sistema tonal.
A partir do final dos anos 60 surgem na Europa as primeiras mudanças quanto aos conteúdos propostos, em função de uma estética musical diferente. A música toma novos caminhos e a educação musical não podia continuar ainda ligada somente aos princípios da produção musical do século XIX.
Segundo Delalande(1), há anos a música se liberou não somente do sistema tonal, mas também das notas e do papel de música. Numa espécie de retorno às fontes, os músicos contemporâneos negligenciaram a herança de convenções da música escrita para encontrar o poder primitivo dos sons ou o prazer do jogo. A música volta à infância. E por isso que se tornou possível conceber efetivamente a música como uma disciplina de “despertar”, na qual o fim não é o de aprender música mas desenvolver aptidões musicais e isto centrando a atividade na criança, na invenção e no jogo. Vários músicos tentam experiências neste novo campo, propondo não somente uma mudança de linguagem, mas uma mudança de atitude. O estímulo à criação passa a ser constante, tendo como matéria-prima o som em toda a sua diversidade e plenitude, e não somente enquanto “nota” de altura definida. Dentro dessas investigações desenvolveu-se na França, entre outras, uma pedagogia baseada no gesto.
Gesto, jogo e música
Se observarmos um indivíduo contando uma história, notamos que ele emprega gestos para se expressar, na tentativa de melhorar a compreensão de seu discurso. Na verdade ele recorre à imagem e à sua expressão gestual para aumentar a eficácia da comunicação. Percebemos também que esses gestos são, com freqüência, acompanhados de sons, que surgem espontaneamente. Ou a pessoa reproduz simplesmente o som do objeto ou situação em questão (por exemplo, o de uma trombada), ou ela “inventa” um som que esteja de acordo com o movimento, a fim de ilustrá-lo, de representá-lo sonoramente. Provavelmente também neste caso usa o som para facilitar ao interlocutor a boa compreensão do relato, ou para reforçar a sua expressão. Ou ainda, essa atitude é uma simples expressão espontânea e natural do indivíduo, integrante do discurso oral.
No caso da criança, isso se torna ainda mais proeminente. Basta vê-la brincar, imitando gestual e sonoramente os objetos e as situações que ocorrem em sua imaginação. Esta maneira de se comportar parece fazer parte dela; é assim que ela se expressa.
A partir dessas observações começa-se a supor que o gesto faz realmente apelo ao som: há uma associação próxima e direta entre gesto físico e som. Indo mais adiante nestas reflexões, chega-se ao gesto como um meio de gerar o som e alcança-se o musical. Alguns pedagogos, músicos e pesquisadores franceses se dedicam a um trabalho musical utilizando o gesto e levando em consideração a estética da música contemporânea.
Guy Reibel, compositor, responsável pela classe de música eletroacústicado Conservatório Nacional Superior de Paris, e também regente de coro, desenvolveu toda uma série de jogos e exercícios a serem feitos com grupos de adultos cantores. Durante anos se empenha em tal prática com os integrantes de um coral, chegando à sua sistematização.
A partir dessas experiências conclui que pelo gesto, a assimilação das noções musicais se faz mais fácil e profundamente, uma vez que consiste em uma manifestação vivida. Todo fenômeno, afirma, para ser assimilado pelo espírito e se transformar no suporte abstrato (sinal) de uma realidade (concreta) deve ser vivido primeiramente pelo gesto, que permite acompanhar fisicamente o seu desenvolvimento(2). O gesto é parte da experiência sonora. Nasce de um impulso mental, é sempre inédito e pessoal e leva ao desenvolvimento do jogo criador.
Para Reibel, uma transformação se produz em relação aos comportamentos de todos os nossos contemporâneos tanto quanto ao “fazer” quanto ao “ouvir”. Uma nova consciência do som, do fenômeno sonoro em geral, não o som que escutamos de maneira abstrata e cultural, como simples suporte de uma música, mas aquele vivido em si mesmo, como uma matéria e uma forma, nas suas relações profundas com o corpo, o gesto, e nos seus efeitos múltiplos(3). Propõe então um ensino que apela para a audição e a invenção, pois é o fazer e o ouvir que é fecundo, diz.
Claire Renard, por sua vez, dedica-se prioritariamente à investigação com crianças. Desenvolveu igualmente toda uma série de dispositivos de jogos onde se parte do gesto da criança para chegar ao som, ao musical e à grafia. Defende a relação entre o gesto humano e o som. O gesto é o intermediário entre o pensamento musical e o som produzido. Traduz o que o autor quer transmitir e quando é musical, é porque está ajustado à emoção e às intenções do autor. A própria qualidade do som depende do gesto. Assim, a criança aprende mais facilmente o sentido musical e as características que o compõem (timbre, duração, ataque, etc.) pelo gesto, conclui.
Ao observarmos as crianças, continua, compreendemos a importância do gesto e do movimento na produção sonora. Podemos dizer que elas ouvem o movimento contido no som. Portanto esta é uma dimensão esquecida na iniciação musical tradicional, onde se ensina parte por parte, em vez do sentido de urna frase ou de um movimento, que é na realidade o sentido da música em si. Seria preciso então desenvolver estas aptidões a priori, a partir daquilo que é fundamental em música, isto é, o seu sentido musical; e aos poucos tirar daí cada elemento e analisá-los em função de um contexto(4).
Esta atividade entre o som e o gesto se faz por meio do jogo musical. O jogo está na origem da música, e se concretiza pela ação. Pertencendo ao mesmo tempo à música e à pedagogia, o jogo é o meio ideal a ser utilizado na prática musical com crianças. Favorece o desenvolvimento da análise e da percepção e exige uma audição de si mesmo e dos outros.
O jogo musical existe desde que uma seqüência de trabalho permita a liberação, a partir de elementos sonoros concretos e orgânicos, de critérios de semelhanças e de variações, logo, de representar mentalmente o fenômeno. Seria então composição, uma vez que se trata de dominar e organizar no tempo todos os elementos constitutivos da música. O jogo musical pode ser chamado de composição instantânea(5).
A pedagogia
A aquisição e a reflexão das pesquisas citadas, aliadas à minha experiência própria, me levaram a organizar uma série de jogos, numa seqüência gradativa, em que se parte do gesto para se chegar ao som, à grafia e à partitura, adicionando-se aí o elemento espacial. Aos poucos, o indivíduo vai igualmente absorvendo os elementos da estética da música do século XX e os manipulando, seja na criação ou na interpretação. A audição de repertório contemporâneo para ilustrar e complementar a prática é essencial.
Segue-se aqui a exposição destas idéias.
1. Os sons que vêm do gesto
Os olhos ouvem, o corpo soa. Um movimento corporal pode se transformar em som de maneira natural e espontânea. Um gesto feito no espaço pela mão é como um lápis escrevendo no ar.
Juntamente com esse gesto no espaço, feito com a mão, com os braços ou o corpo todo, a produção de sons vocais que lhe sejam correspondentes surge de maneira intuitiva. É possível, a partir daí, se estabelecer a relação entre o tipo de movimento corporal como movimento sonoro (forte-fraco, lento-rápido, agudo-grave, contínuo-descontínuo, etc.): um gesto amplo e mais abrupto sugere um som mais forte, enquanto um gesto tímido e pequeno um mais fraco.
O uso da voz é fundamental para expressar as idéias musicais. Num primeiro momento, é a voz posta em liberdade, inventando e imitando sons e ruídos da natureza ou de instrumentos. É o gesto que sugere a emissão vocal: um gesto contínuo tem como correspondente contínua, uma linha sonora assim como um gesto interrompido tem uma linha sonora descontínua.
Num segundo momento, desenvolve-se um trabalho com as palavras, fonemas e letras procurando a expressão e a diversidade, mais do que o significado semântico do texto. Desmembrar, distorcer, cortar letras e palavras são ótimos exercícios de criação e expressão. Com muita liberdade e toda a possibilidade de invenção, estabelecem-se várias formas de notação, baseadas em diferentes critérios.
2. Do gesto e da audição à notação
É possível ver nos gestos sonoros um desenho no espaço. Transportados para o papel, estes desenhos se transformam em grafismos. Todo tipo de som é passível de representação escrita, mas este ato é facilitado quando se parte do gesto, pois ele por si só delineia a grafia. Da mesma maneira, uma seqüência gestual, uma vez organizada e colocada no papel, pode se transformar em partitura. Assim, leva-se o aluno, de certa forma, à composição.
Outro caminho para se chegar à partitura é pela audição. É possível se escrever uma partitura gráfica a partir da percepção auditiva de peças: enquanto se ouve, escreve-se. Símbolos são então criados para representar a música. E desta partitura pode-se voltar à interpretação, que será sempre diversificada, livre e criativa.
3. Os sons do espaço
O espaço tem um papel importante nesta proposta. A integração dos três elementos som-gesto-espaço é amplamente trabalhada.
Uma vez praticado e interiorizado o trabalho com gestos, que tem no próprio corpo o gerador em potencial do som, parte-se para uma descoberta mais direcionada do espaço. Nos contornos dos objetos, das paredes, teto, colunas, chão, existem linhas, pontos, ondulações e tortuosidades que podem se transformar em sons, apontados e guiados pela mão.
Da mesma forma, diferentes espaços, vazios ou não, grandes ou pequenos, envoltos de diferentes materiais, causam alterações de sons isolados ou de massas sonoras, por meio de deslocamentos corporais. Caminha-se daí para a descoberta de diferentes formas de reverberação, de manutenção e de mais transformações sonoras.
4. Sons e matérias
Os sons se transformam em formas e estas em sons: é a representação formal do som. Ele é concrctizado, agora não em desenhos, mas em formas esculpidas. Recortando papéis ou modelando massinhas, criam-se inúmeras “formas” sonoras.
Da mesma maneira, materiais e texturas geram diferentes sons: uma superfície rugosa sugere um som granuloso, assim como uma textura lisa leva ao som também de aparência perceptiva lisa.
Todo objeto é potencialmente sonoro, passível de transformação em som; basta “ouvi-lo”.
5. Fazendo histórias no espaço
O espaço é o cenário, os sons o conteúdo. Objetos, movimentos e sons se fundem criando o texto, soltando a imaginação. O conto sonoro ganha vida e movimento; objetos, personagens e atores se deslocam em conformidade com os sons.
6. Repertório contemporâneo
A ilustração dos jogos pela audição de peças contemporâneas é fundamental para a compreensão do seu sentido. Com isso, estabelece-se a relação do material lúdico proposto com a produção musical de hoje. É a fundamentação e a comprovação do trabalho.
Da mesma maneira, a audição desse tipo de repertório colabora para ampliar horizontes e transformar conceitos e concepções musicais.
O contato direto e vivenciado com certos elementos da música contemporânea, durante os jogos, conduz à sua familiarização. Assim, a introdução de repertório contemporâneo se faz de maneira simples e natural. A reação contrária, mostra a experiência, é, se não eliminada, ao menos diminuída, e a aceitação e compreensão dos novos códigos se evidenciam.
Resumindo
Trata-se de uma pedagogia musical que utiliza o gesto como gerador de som, por meio da prática de jogos e da criação. Um movimento corporal pode se transformar em som de maneira natural e espontânea. Do gesto chega-se também à grafia e desta, à organização da partitura e à composição. Considera os elementos da estética musical contemporânea.
Uma das mais recentes tendências do ensino da música atualmente, não é uma pedagogia restritiva. Ao contrário, pretende abrir tanto quanto possível os horizontes o músico, do educador e do aluno. Tão pouco é eliminativa: a proposta não é de abandonar o ensino tradicional de notas e ritmos, mas de integrar-se a ele (já tão conhecido e testado).
Adapta-se perfeitamente à realidade brasileira pois não necessita de material sofisticado, mas do próprio corpo, de pequenos objetos sonoros e das potencialidades do indivíduo. Dando asas à imaginação e à criação, corpo, movimento, som e audição são estimulados e liberados.
NOTAS
(1) DELALANDE, F. Trois idés cles pour une pédagogie d'éveil, Pédagogie musicale d'éveil, Cahiers Recherche/Musique, v.1, Paris: INA/GRM, 1979 (5a ed.), pp. 17-18.
(2) REIBEL, Guy. Jeux musicaux. Paris: Salabert, 1984, p. 19.
(3) REIBEL, G. Op.cit., p. 17.
(4) Entrevista concedida por Claire Renard, Paris, 19 de outubro de 1989.
(5) RENARD, Claire. Le geste musical. Paris: Hachette/V. de Velde, 1982, pp. 95-100.
Bernadete Zagonel, pesquisadora e educadora musical, é Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná. Em Paris, concluiu Especialização em Música e Musicologia do Século XX (IRCAM e École de Hautes Études) e em Musicologia (Sorbonne). Professora de música na UFPr e na Fundação Escola de Música e Belas Artes do Paraná, em Curitiba, prepara atualmente tese de doutorado pela Sorbonne sobre “Novas Metodologias para o Ensino da Música”. É co-autora do livro Musicalizando Crianças (Ática, 1989) e co-organizadora de Introdução à estética e à composição da música contemporânea segundo Koellreutter (Movimento, 1985). Em breve será editado o livro O que é o gesto musical (Ed. Brasiliense).
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