|
ENCONTRO COM BERENICE MENEGALE
Entrevista realizada para Cadernos de Estudo por Carlos Kater (B.Horizonte, 02/01/1992)
CE - Qual é, a seu ver o papel que a música desempenhou na sociedade brasileira até os anos 80?
BM - Na sociedade brasileira, falando amplamente, a música popular desempenhou sempre um papel muito importante, diversificado e regionalizado, o que no Brasil assume importância especial, tendo em vista as dimensões do país. Por exemplo, a música popular carioca: ela sempre teve uma presença identificadora importantíssima. Mas o processo de massificação tem enfraquecido no país todo a consciência dessa importância da cultura regional, em favor de uma “média” pasteurizada. Aquela presença identificadora da cultura regional - e portanto da música - desempenha um papel de resistência, mais que uma função transformadora da sociedade. Porém, no plano individual, a música pode significar uma grande possibilidade de transformação, de abertura. É a arte que mais mobiliza as pessoas, de qualquer idade, classe social, profissão. As pessoas se aproximam da música com grande alegria e essa é talvez a grande força transformadora da música a nível individual.
A função social está talvez mais relacionada às atividades musicais desempenhadas por grupos. A música de conjunto, cujo exemplo mais característico é a banda de música, sempre teve um importante papel nas cidades especialmente do interior, embora isto esteja muito enfraquecido nos últimos tempos.
Também as manifestações de música popular, quando as pessoas se reúnem e fazem música. Estas são talvez as manifestações musicais que realmente têm um papel social, que mobilizam e socializam as pessoas. Aí estão as multidões que se reúnem - fenômeno da segunda metade do nosso século - para ouvir e acompanhar com todo o corpo, em delírio, as bandas de rock e principalmente as grandes estrelas da mídia.
CE - Você acha que a música chamada “erudita”, ou a música praticada na área dita “culta”, teria desempenhado alguma função efetiva na nossa sociedade?
BM - Acho que é preciso ressaltar que essa música subsiste graças a um trabalho de resistência. A importância desta música está relacionada àquela importância que tem a arte e a criação para cada indivíduo, ou seja, a possibilidade de cada um se manifestar com toda a riqueza de sua personalidade. A arte é uma dimensão da vida - aí eu já associo a música às outras manifestações, aí há menos diferença de papel entre a música e as outras artes. Aí vem a questão da criação: a pessoa que tem a possibilidade de participar de um processo de criação artística está realmente se aproximando de encontrar sua dimensão total como ser humano. Nessa direção existe um trabalho de resistência para fazer face ao empobrecimento dos últimos anos e à falta de oportunidades. A arte continua a ser encarada na educação como um adorno e não como uma dimensão da educação. Tenho a impressão de que, por mais que haja pessoas empenhadas e que acreditem na importância da arte na formação de cada ser humano, a resistência contrária é muito grande, porque o que o sistema todo impõe é uma educação que não considera isto ou, quando considera, o faz com um sentido de ornamento.
CE - A quem e a que você acha que serviu a educação musical durante a década de 80, isto é, nesse passado mais recente?
BM - Não sei. O que você considera educação musical, é a educação dada nas escolas?
CE - Não necessariamente. Refiro-me aqui mais especificamente àquilo que é ensinado e praticado nos conservatórios e realizado em instituições formais de maior porte, como as escolas de música de nossas universidades.
BM - Tenho observado que a Educação Musical, há alguns anos atrás, antes das nossas crises econômicas mais recentes, digamos, até os anos 70, aproximadamente, dificilmente era encarada pelas famílias como caminho para profissionalização. A idéia de se levar alguém a estudar música com vistas a uma profissão era considerada uma coisa difícil: meu filho fará música, mas fará engenharia também para que possa sobreviver... A partir dessas últimas crises econômicas, começou a haver uma certa igualdade de condições entre as profissões, porque se é muito difícil se profissionalizar em música, também há dificuldade em se arranjar emprego como engenheiro. Muitos jovens que querem fazer música já encontram menos resistência. Não sei se é um ganho, talvez seja igualar por baixo. Aqui no nosso meio, houve um aumento muito grande, na década de 80, de jovens se dedicando ao estudo de instrumento de orquestra, por exemplo - o que é aparentemente contraditório pois as condições da nossa orquestra sinfônica, aqui em Belo Horizonte, são precárias. Em BH, não havia até muito recentemente possibilidade de um jovem estudar um instrumento de orquestra e hoje há muita gente estudando. Quer dizer, havendo estímulo há quem queira estudar. Veja a experiência que nós tivemos na Fundação de Educação Artística. A FEA, na década de 60, era procurada por dois tipos de alunos: crianças levadas pelos pais a fim de serem iniciadas em música e adultos que já possuíam uma base musical. Essa situação mudou nos anos 70, quando passamos a ter um número muito maior de jovens e adultos desejosos de se iniciarem na música. Não era mais a criança levada pelos pais, mas aquele aluno que, por razões próprias, deseja estudar música. Isso é uma tendência mundial hoje. Já tive oportunidade de conversar com professores de conservatórios europeus, onde inclusive foi necessária uma mudança na estrutura dos cursos (e conseqüentemente com adequações de metodologia) para atender a essa nova demanda.
CE - Você acha que a educação artística e em particular a educação musical pode ter ou vir a ter um papel determinante no desenvolvimento de nossa sociedade?
BM - Acredito piamente nisto, porque as pessoas é que se desenvolvem. As perspectivas que se abrem pelo fato de terem na sua formação humana essa dimensão da vida é extraordinária! Não creio que cheguemos a isso pela educação escolar. Todo o processo educativo teria que ser contaminado pela arte. Infelizmente nossa sociedade não está preparada para isto. Precisaríamos ter um nível de administração pública que desenvolvesse uma política cultural, isto é, que enxergasse as pessoas em todas as suas dimensões, o que é algo extremamente remoto nos dias de hoje, uma vez que estamos num processo de empobrecimento violento, em que as necessidades básicas da pessoa humana não têm sido atendidas. Por isto, têm sido sistematicamente deixadas “para depois”, a democratização das oportunidades, por exemplo, de aproximação das artes e da criação artística, embora, pessoalmente, eu acredite que o contrário seria mais correto. Ainda ontem ouvi um comentário sobre a França, onde, quando há crise, o governo investe mais na cultura. Infelizmente não atingimos ainda o estágio de desenvolvimento sócio-cultural que nos permita algo semelhante. Mas, com tudo isso, acredito piamente que a sociedade seria muito melhor se as pessoas tivessem a possibilidade de ter na sua vida uma educação pela arte, não com a “arte no fim do expediente”, mas a arte impregnando a educação. Na Prefeitura de Belo Horizonte estamos oferecendo bolsas para alfabetização musical através de um processo de inscrições descentralizadas nas Administrações Regionais, num esforço de desconcentrar as oportunidades.
CE - Você falou numa “contaminação” da educação pela arte. Quais seriam, a seu ver, os meios possíveis de propiciar esse contágio?
BM - Em primeiro lugar, acho que temos de partir de algum ponto. Acredito que a maneira mais prática e inteligente é começar pelas pessoas que vão ser educadores. Não dar a elas apenas métodos de ensino de educação artística ou musical. Elas têm que ser contaminadas; têm que ter na sua formação pessoal a oportunidade de vivenciar efetivamente a música e a arte em geral e não apenas saber algumas coisas, como por exemplo dar uma aula de flauta doce ou de rítmica. Enquanto a pessoa não sentir que a arte é uma coisa importante na sua vida, na sua formação pessoal, ela não tem como acreditar nisso e portanto não poderá transmitir. Se o fizesse, estaria transmitindo uma coisa alheia a ela. Quando falo isto não estou me referindo apenas aos professores de educação artística, mas sim aos educadores em geral, pois é aí que há a possibilidade dessa “contaminação”, uma vez que eles é quem ficam muito mais tempo com a criança. O professor de educação artística tem em geral um contato muito menor.
CE - Nós temos um número razoavelmente grande de instituições que trabalham a questão musical, sejam conservatórios ou escolas de música. Sabemos que existe uma quantidade expressiva de pessoas que direta e indiretamente atuam profissional ou amadoristicamente com a música. Qual seria a sua expectativa de desempenho desse conjunto de pessoas enquanto classe ou grupo?
BM - Vou me referir a Minas Gerais, porque é onde conheço melhor a situação e sobre a qual posso dizer alguma coisa. Esses conservatórios estão distribuídos nas cidades do interior e, em geral, estão mal distribuídos, devido a ausência de um planejamento prévio. Sua criação dependeu de fatores diversos. Algumas regiões têm um número grande dessas escolas e outras não têm nenhum. O Triângulo mineiro, por exemplo, possui três conservatórios estaduais, enquanto que existem outras regiões do estado sem nenhum. Creio que esses conservatórios deveriam desempenhar um papel adequado à região onde se localizam, ao invés de possuírem uma orientação única. Da maneira como funcionam hoje, eles têm até menos do que isso porque estão inseridos na política educacional do 1o e 2o graus. Acabam assim por se organizar como se fossem uma complementação das escolas de 1o e 2o graus. Acho que esses conservatórios deveriam ser centros de formação musical, nos quais se espelhasse a cultura da região, tendo, por conseqüência, um projeto próprio. Por exemplo, São João del Rei é uma cidade de grande tradição em orquestras. O conservatório de São João del Rei, que é grande, poderia ser um centro de formação de instrumentistas, herdando esta tradição que é vivida na cidade de tal forma que a cidade, em vez de estar sempre exportando estudantes, seria um centro formador e “exportador” de instrumentistas e poderia manter em funcionamento suas orquestras, sempre ameaçadas pelo êxodo dos mais jovens. Por sua vez, Diamantina é uma cidade com grande tradição de canto, especialmente de serestas. O conservatório local poderia se diferenciar para atender a essa vocação da cidade. Seria ótimo que os conservatórios tivessem um projeto próprio e fossem centros de formação musical da sua região, além de funcionarem como centros de resistência da cultura regional.
CE - O trabalho artístico implica em interpretação e interpretação, numa dada medida, significa expressão mais estruturada e depurada da criatividade. De forma geral, a integração de expressão e criação confere qualidades humanas bastante particulares à comunidade. Você acha que as pessoas que lidam com arte, especialmente com música, enquanto classe profissional ou grupo de indivíduos, teriam alguma atuação possível nesta sociedade em que vivemos, num momento de transformação tão importante como esse, quando se fala tanto em ecologia, ambientalismo, novos tipos de consciência, de postura, numa reconsideração de valores enfim?
Você teria alguma expectativa de participação ou de desempenho por parte dessas pessoas, sejam estudantes, profissionais, professores, uma vez que são tão numerosos em nosso país?
BM - Eu acho que as pessoas que exercem uma atividade artística, seja na criação, seja na interpretação, têm chance de ter uma vida mais plena e portanto de enxergar perspectivas melhores e de contribuir para isso. Acredito que os músicos que, por circunstâncias existenciais, puderam ter uma formação pessoal sólida, bem estruturada e que desempenham plenamente sua profissão e valorizam aspectos mais profundos da existência, podem ter ampla participação nas modificações da sociedade.
CE - Qual é a sua opinião sobre a universidade brasileira e a música nela praticada? Haveria aí algum índice de transformação?
BM - Genericamente falando, minha impressão é que houve mudanças e mudanças para melhor. Por exemplo, no fim dos anos 60, início dos 20, nos Festivais de Inverno de Ouro Preto, tínhamos contato com estudantes do Brasil inteiro e, naquela ocasião, o nível de desinformação era imenso, porque as escolas de música das universidades brasileiras viviam ainda, de forma geral, no século XIX. O número de professores e alunos de composição era muitíssimo pequeno. A imensa maioria dos alunos estudava um instrumento e sua formação se limitava quase que exclusivamente a ele, mesmo assim com um repertório restrito aos séculos XVIII e XIX. Além disso, não havia nenhuma interação entre esses alunos e os alunos de composição. Com isso, a música contemporânea não tinha vez, porque a música vive dos intérpretes e, na ocasião, eles não estavam disponíveis. Da década de 70 para cá, houve uma série de acontecimentos no país que modificaram esse quadro. Eu sei que essa situação não era característica do Brasil, era uma característica da música praticamente em todo o mundo ocidental. Hoje há muito mais cursos e estudantes de composição e há também um número de eventos de música contemporânea muito maior; há compositores produzindo e tendo onde mostrar suas obras e um número muito maior de intérpretes de música contemporânea. A mudança não surgiu dentro das universidades, surgiu nesses movimentos de compositores de música contemporânea e foi, pelo menos em parte, absorvida pela universidade, o que, sem dúvida, foi positivo.
CE - Você vê presença da tradição musical ou da herança cultural brasileira no cotidiano das escolas urbanas? Isto em si tem algum significado ou importância?
BM - Acho que tudo isso depende da formação dos professores, embora seja difícil generalizar a respeito. Quando a escola cantava, havia mais essa presença. Hoje, a pessoa encarregada desta educação musical é uma pessoa que tem uma formação musical limitada, é uma pessoa que estudou apenas piano por exemplo e que não tem necessariamente nenhum contato com a cultura brasileira. Ela corre o risco de ter recursos muito pobres para trabalhar com as crianças. Certamente há também um importante número de educadores musicais que pesquisam e que levam para suas aulas estas tradições. Mas há vários complicadores presentes. Em uma cidade como Belo Horizonte, com uma população “de fora” muito grande, o que as crianças têm como tradição? Seus pais vêm de outras regiões do estado e, ao chegarem à cidade, suas tradições são sepultadas e, a menos que existisse um enorme trabalho de resgate destas tradições, elas ficarão quase completamente esquecidas.
CE - Pelo que falou, aqui em Belo Horizonte, pelo menos, você não nota a presença destas tradições...
BM - Acho difícil assegurar isso, porque eu não tenho contato com as escolas a esse ponto. Como projetos pontuais, certamente há um esforço. Mas não chega seguramente a mudar a situação geral.
CE - Você acha que seria importante a presença de elementos de nosso patrimônio cultural dentro do processo educativo?
BM - Creio que sim porque isso talvez conseguisse ligar mais, pela música, as crianças com suas famílias e com núcleos culturais, o que poderia fazer parte de um processo de trazer a música mais para a vida das crianças. A música não seria uma mera disciplina da escola.
CE - Qual seria então o papel da música, na escola pública?
BM - Acho que a atividade musical na escola tem esse lado da socialização que é muito importante: cantar junto, fazer música junto, etc. Hoje se canta muito pouco; as crianças têm dificuldade para cantar em conjunto. Além desse aspecto, a música é extremamente educativa, servindo inclusive como apoio, como coadjuvante. Para muitas outras disciplinas da escola (o que, aliás, pode ser muito bem aproveitado). Mas o que é mais importante é a música como arte. As crianças podem, progressivamente ser iniciadas no “ouvir música”, mas isso deve ser inteligentemente feito. Para tanto, o educador deveria ter sido anteriormente bem formado, contagiado pela música, porque se o educador não gostar de música, ele jamais fará com que seus alunos gostem. Ouvir música, gostar e ter prazer de ouvir música é de grande importância na escola. E, além de tudo, há a possibilidade de lidar com a música como linguagem, trabalhando até mesmo a criação musical, mesmo que de uma maneira elementar, mas de forma a poder iniciar a criança na linguagem da música. Porém, o mais importante de tudo seria fazer com que as crianças gostassem de música; este seria, a meu ver, o começo de todo e qualquer trabalho no sentido de inserir as crianças na dimensão cultural.
CE - Qual a relação que existe entre o governo atual e a escola pública? Existe, na sua opinião, algum interesse específico em relação à qualidade de vida, por um lado promovendo o ser humano, por outro melhor qualificando a sociedade?
BM - Eu acho que os grandes projetos do governo em relação à educação não têm tido nenhuma conotação de qualidade. Os projetos são feitos no sentido de mais salas de aulas, mais escolas, sempre no sentido do “número”. Projetos de alfabetização, desde o tempo do Mobral, espelham a ausência de preocupação com a qualidade. A qualidade tem que vir desde a formação do professor. Eu acho inclusive que sempre foi uma falácia esta questão da educação artística porque é impossível uma boa educação artística se, na formação do educador, ela não é tratada com seriedade. Falo do educador e não do arte-educador! E isto não mudou ou mesmo até piorou. Há escolas que têm projetos de desenvolvimento de formação mais integral da criança porém, do ponto de vista geral, acredito que não exista esta preocupação.
Gostaria, no entanto de mencionar algo que diz respeito ao projeto de democratização da escola, que se implantou na rede municipal de ensino, em Belo Horizonte e agora também na rede estadual. Democratização que começa pela eleição direta dos diretores de escola. Isso é uma mudança muito importante porque a direção da escola deixa de ser fruto do clientelismo político. Na rede municipal existe o “projeto da escola”, onde cada qual tem autonomia para propor projetos, que depois são apoiados pela Secretaria de Educação. Isto é uma chance para aquelas pessoas que têm uma proposta na área de educação musical, porque essas propostas podem mudar a consideração que se tem da Educação Musical nas escolas. Há também um lado da qualidade que está sendo atendida na rede municipal de ensino de BH, que é a criação do “Centro de Aperfeiçoamento do Profissional de Ensino”. Este centro, criado em 91, rompe um pouco com a visão da quantidade, procurando recuperar os profissionais que estão aí.
CE - Enquanto uma administradora pública, você nota alguma intenção do governo ou das instituições em geral no sentido de desenvolver programas de educação pela ou para a arte?
BM - Não tenho visto. Acho que existem apenas casos isolados, algumas pessoas isoladas, educadores excepcionais no ensino público, que têm uma formação nesse sentido e que possuem uma grande vontade de fazer trabalhos nesse sentido. Mas como prioridade ou meta governamental, não vejo.
CE - Diante da falta de interesse por parte do governo e da limitação de atuação das instituições de grande porte, como secretarias, universidades e mesmo de conservatórios e escolas menores, seria de quem o atributo pela modificação do quadro atual? De pessoas isoladas - espécie de geração espontânea, aflorando aqui e acolá, buscando conferir uma nova dinâmica e vitalidade a todo o processo de educação musical...?
BM - Eu acho que essas pessoas é que acabam garantindo uma certa continuidade e, no momento em que houver um projeto amplo, são essas pessoas que irão ter alguma coisa para propor. Isoladamente não há muitas perspectivas do que fazer. A falência da educação do Brasil é tão grande que eu acho que a única maneira de recuperar isso é trabalhando naqueles níveis que podem ser multiplicadores. E é aqui que eu volto àquela questão anterior. E justamente pelas pessoas que vão ser educadores que se deve começar. Seria ideal que pudéssemos fazer tudo ao mesmo tempo, trabalhar com os educadores e com as crianças, mas isso não é possível. Acho que poderíamos fazer também uma reciclagem com os atuais educadores, cuja formação musical foi muito deficiente, ao mesmo tempo em que investimos mais nos futuros educadores. Tenho até um certo otimismo quanto a isso porque encontramos as vezes muitas dessas pessoas “isoladas” a que nos referimos e há até mesmo escolas que têm mais de uma delas, pessoas que conseguem aliás fazer um trabalho muito interessante.
A força da arte e da música especialmente é muito grande e nós temos vivido, aqui em Belo Horizonte, algumas experiências que demonstram isso com facilidade. No curso de alfabetização musical, o ano passado havia 100 vagas, que foram todas preenchidas e essas pessoas já fizeram um semestre de musicalização com freqüência total, comprovando uma ansiedade pela aproximação com a música. Tudo o que se faz na periferia, com entrada franca, próximo às pessoas (ou seja, aquilo que não exija deslocamento e ingresso), é muito bem recebido. As pessoas demonstram muita alegria e querem mais. Isso não só comprova que a música é necessária como também que as pessoas estão disponíveis. Se for feito um trabalho equivalente com os futuros educadores o resultado será certamente muito bom.
CE - Qual é, a seu ver, a idéia dominante de música e de educação, num país tão característico e múltiplo como o Brasil?
BM - A idéia dominante de educação no Brasil, visível principalmente na mídia, é a de que se tem que dar instrução - alfabetizar - e levar as crianças à escola. E, uma vez mais, a questão do “número”. A idéia predominante é a da quantidade e essa escola deve comprovar um desempenho pautado em dados exteriores à pessoa. Uma ilustração muito clara disso é a quantidade de crianças que entram para a 1a série do 1o grau e que não saem desta série. São crianças condenadas à frustração e ao sentimento de incapacidade. Essa é a idéia dominante desde pelo menos a década de 60. Trinta anos depois a situação é ainda muito semelhante. Eu sei que há uma visão crítica e modificações a esse respeito mas, no geral não se pensa na qualidade da educação. Muitas crianças bem dotadas intelectualmente estão virtualmente atrofiadas pela presença de metas que são exteriores à sua vida. A falta de perspectiva que a escola oferece é, a meu ver, muito grave.
Quanto à música, as pessoas estão muito condicionadas aos meios de comunicação e são dirigidas por essa música massificada que interessa à mídia. As elites brasileiras são bastante primárias no conhecimento, na informação pelo gosto, no que diz respeito à música. E comum termos contato com professores universitários que têm um bom conhecimento de literatura por exemplo, mas que não conhecem nada de música, ou só conhecem a música imposta pela mídia. Isto é uma limitação muito grande.
CE - Considerando sempre o Brasil múltiplo, dos grandes centros urbanos e das particularidades regionais, qual seria a sua própria idéia de música e de educação?
BM - A maior riqueza do Brasil está justamente naquilo que ele tem de diferente do primeiro mundo. É aí que ele deveria encontrar as suas forças. Isso não é incompatível com a criação musical que não depende do regionalismo, a daquele compositor que faz música de concerto, que está procurando sua linguagem própria e não tem nenhum apego a aspectos regionais. O artista tem condições de, ao mesmo tempo em que faz seu trabalho de criação, ter a compreensão desse outro lado do Brasil, regional, de grande diversidade e autenticidade. Os revolucionários da Semana de 22 revelaram para o Brasil o barroco do século XVIII, o que mostra a capacidade do artista de ter uma visão global das coisas, da história, do tempo.
Acho que a cultura e a arte precisam deixar de ser encaradas como um segmento que se coloca - ou se nomeia - em último lugar, depois de educação e saúde. A cultura e a arte deveriam sair de qualquer lista, porque elas não são etapas, nem segmentos, nem aspectos, mas sim dimensões. Assim como se fala em política de educação, política de saúde, não se pode falar em política de cultura. Acho que a política é que teria que ser cultural e a arte teria que estar alimentando tudo isso. Infelizmente temos que trocar em miúdos essas coisas; não adianta pensar assim. Temos é que trabalhar onde sentimos que nossa ação pode ser mais transformadora. Os futuros educadores têm que ter essa chance.
CE - No que se refere especificamente à educação musical, tal como verificada no panorama brasileiro atual, quais são suas virtudes, limitações e potencialidades?
BM - As limitações são aquelas impostas pelos currículos, pela segmentação (a educação artística é uma partícula do currículo!) e pela falta de chance de formação artística dos educadores. As virtudes são o talento pessoal daqueles que acreditam na educação musical e que fazem as coisas acontecer - mobilizando as crianças nas escolas - e que pesquisam.
Potencialidades são as da própria música, por tudo aquilo que ela tem de mobilizador e a musicalidade que está latente no povo, que faz com que as pessoas vibrem com a música quando têm uma oportunidade de aproximação e que, no momento em que for estimulada, virá à tona. Também, por outro lado, a potencialidade que há naqueles núcleos que existem nas universidades, escolas, associações de educadores e que formam um movimento e procuram sempre um maior esclarecimento.
CE - O que você achaque a educação musical poderia propiciar para o Brasil nesta última década do século?
BM - Dando-me a liberdade de entrar na utopia, acho que o brasileiro perdeu muitas de suas características: solidariedade, compreensão, tolerância, sentimento de proteção em relação às crianças e aos velhos. A violência está em toda parte, na rua, nas escolas, nas relações entre pais e filhos, entre as crianças. Falta solidariedade em todos os níveis. Eu acho que a prática da música toca muito as pessoas, gera alegria e contribui para as pessoas se tornarem mais integradas com a sua própria personalidade e individualidade. A música é uma forma das pessoas se expressarem, se valorizarem e se tornarem mais ricas e maduras. As pessoas passam a ter o que buscarem sua vida, o que traz perspectivas maiores. Isso pode devolver às pessoas uma vida mais solidária, mais rica, mais humana.
Berenice Régnier Menegale, intérprete, professora e administradora, é natural de Belo Horizonte. Graduou-se em Piano no Conservatório Nacional de Paris (França) e possui, entre diversos cursos de aperfeiçoamento no Brasil e na Europa, pós-graduação pela Akademie Für Musik and Darstellende Kunst, de Viena (Áustria), onde obteve também, com nota máxima, o diploma de “Maturidade Artística”. Deu inúmeros concertos em nosso país e no exterior, dedicando-se sempre fundamentalmente à música contemporânea. Fundadora e diretora executiva da FEA - Fundação de Educação Artística (1963-1989), professora da Escola de Música/UFMG, coordenadora de diversos projetos culturais na área de música junto à Secretaria de Estado da Cultura, bem como da parte musical do Festival de Inverno de Minas Gerais (1969-1986), ela é, desde 1989, Secretária Municipal de Cultura.
voltar
|