TIPOGRAMA, UM JOGO RITIMICO

Rafael Anderson

As brincadeiras e os jogos são reconhecidamente importantes como referenciais eficientes para diversos aspectos do desenvolvimento de uma pessoa, por fazerem parte da natureza biológica e por serem fontes de prazer.

No processo de aquisição de conhecimento, os jogos levam a resultados bastante abrangentes, uma vez que atuam quer do ponto de vista psico-fisiológico, quer no comportamento social, para o estabelecimento e a superação de fronteiras internas, importantes na formação da personalidade. É sabido que o jogo é um recurso didático efetivo, podendo provocar - mediante um alto grau de motivação - o desenvolvimento de tipos específicos de habilidades, estabelecidos conforme objetivos traçados, didáticos ou não.

Para trabalhar, portanto, estruturas rítmicas simples e complexas, internalizando o pulso temporal corporalmente e globalizando assim a idéia da divisão rítmica de uma forma lúdica, é que surgiu a idéia do tipograma(1). Trata-se de um jogo didático que consiste basicamente em percursos traçados no chão, os quais devem ser corretamente cumpridos a fim de que se alcance o resultado desejado.

O jogo foi idealizado em 1979, a partir de observações de como as crianças brincam em pisos que apresentam uma decoração qualquer, como é o caso dos ladrilhos, ou dos assoalhos formados por tacos de cores diferentes. A criança está em constante relacionamento corporal com o espaço e isso lhe é prazeroso. E é interessante ressaltar que o jogo foi programado inicialmente para crianças, tendo, contudo, se mostrado eficiente também com adultos.

Construção e utilização do tipograma

Para se montar um tipograma, faz-se no chão um retângulo de 4m x 0,40m com giz ou fita adesiva. Sobre as linhas que formam os lados de maior extensão do retângulo, traçam-se então alternadamente segmentos de linhas de 15 a 20cm como mostra a Figura I, a seguir.

Figura I.

Esses segmentos perpendiculares marcam os lugares que deverão ser pisados durante o jogo. Os passos devem ser dados na parte interna das linhas laterais. A distância mínima entre os segmentos de um mesmo lado não deve ser inferior a 15cm; e deve-se observar que, entre um passo de um lado e o próximo do outro, não se exceda a distância de 80cm(2).

Desde que se respeitem os limites de distância já estipulados, a fixação dos segmentos, de um e de outro lado, oferece uma grande variedade de combinações. Certamente, a escolha de uma combinação mais padronizada apresenta maior facilidade de locomoção dentro do tipograma, do mesmo modo que a diversificação vai proporcionando percursos mais difíceis. O jogo, então, pode servir a diferentes propósitos, assumindo vários níveis de dificuldade conforme a maneira como ele é construído e a sua aplicação.

O objetivo do jogo é se deslocar, com soltura corporal, da extremidade X à extremidade Y do tipograma (ou vice-versa), alternando os passos no pé direito pisando sempre nos segmentos da linha lateral direita e o pé esquerdo nos segmentos da linha lateral esquerda.

O exemplo mais simples de construção e utilização do tipograma é fixar os segmentos conforme a Figura II.

Figura II.

Para se deslocar de X a Y, ou vice-cersa, a criança andará como o faz naturalmente, ou seja, um passo à frente do outro, não oferecendo o percurso maiores dificuldades. A essa modalidade mais padronizada chamamos de Passo A.

Na Figura III, os passos 3 e 7 são dados lado a lado com o pé de apoio, e não à sua frente, como seria natural, o que provoca uma parada do movimento. Isto representa, portanto, uma maior dificuldade de execução do que no exemplo anterior. Chamamos de B esse tipo de passo. Os demais passos deste tipograma são do tipo A.

Figura III.

A Figura IV, apresentada a seguir, ilustra uma terceira modalidade de passo, a qual denominamos C.

Os passos 4 e 9 são dados para trás do pé de apoio, provocando o deslocamento do corpo também para trás, ou seja, no sentido contrário ao do movimento. Isto implica numa dificuldade de execução ainda maior. Os outros passos, entretanto, são do tipo A.

Figura IV.

Combinando esses três tipos de passos, chegamos a uma variedade de estruturas básicas que são pontos de partida para um trabalho didático com o tipograma.

A primeira etapa do jogo, portanto, consiste em realizar esses percursos básicos corretamente. Esta é a fase de assimilação do movimento. É fundamental, pois, que se observe atentamente a atuação da criança no tipograma, já que nesta etapa são trabalhados fatores importantes, tais como a soltura corporal, a auto-confiança, a concentração, a coordenação motora, a maneira como se encara o erro, etc. Com crianças mais novas, por exemplo, esta forma básica de utilização do tipograma é especialmente interessante para se trabalhar a lateralidade corporal.

Uma maneira de aumentarmos o nível de dificuldade de um tipograma básico, e ao mesmo tempo criarmos novos propósitos de aplicação, é através da marcação do tempo em que se completa o percurso.

Após registrarmos o tempo gasto por uma criança para vencer um determinado percurso corretamente, pedimos a ela que tente melhorar seu desempenho, realizando a tarefa num tempo inferior ao gasto na primeira vez. O simples fato de marcarmos um tempo altera bastante as condições de realização do jogo, por incluir novas variáveis, como, por exemplo, aspectos emocionais tais como insegurança, medo ou ansiedade, que podem gerar um desequilíbrio corporal, uma maneira diferente de pisar no chão, etc. Portanto, deve-se estar atento às sutilezas das reações comportamentais durante o jogo, tendo-as também como ponto de observação importante.

O objetivo didático de se marcar o tempo está no fato de que, à medida em que tenta vencer o desafio de quebrar seu recorde, a criança vai se familiarizando com a seqüência, e assim ganhando velocidade. Seus passos se tornam mais uniformes, o que vem caracterizar uma pulsação.

Certos tipogramas são montados de forma e provocar diferenças no deslocamento do corpo, fazendo com que alguns passos sejam dados com mais força no chão que outros, o que, com a velocidade, faz surgir estruturas rítmicas, conforme mostra a Figura V. Outras vezes, podemos induzir o aparecimento dessas estruturas, pré-determinando os lugares que deverão ser pisados com mais força.

Figura V.

Seqüências rítmicas podem ser também assimiladas corporalmente, seja executando-se um dado ritmo com os pés sobre a estrutura do tipograma, seja mantendo-se a pulsação nos pés e fazendo-se o ritmo com palmas. Ao invés de conseguirmos uma pulsação através da velocidade na execução, podemos usar alternativamente o metrônomo para impor um andamento corporal desejado.

Para se tornar mais complexo o tipograma, determinamos funções também para as mãos e a voz. Colocamos ao longo do tipograma cores variadas ou quaisquer outros símbolos que representem uma palma, uma batida num instrumento de percussão ou a emissão de um som vocal, como ilustramos na Figura VI.

Figura VI.

Podemos construir o tipograma com esses elementos de maneira aleatória, ou de forma a caracterizar uma célula rítmica, o contratempo, uma fórmula de compasso, síncopes, etc. Para isso, é necessário haver a marcação do tempo para quebra de recordes.

O contratempo, por exemplo, começa a ser trabalhado por diferenciação. Contrói-se, primeiramente, o tipograma de forma que a criança bata palmas simultaneamente com certas batidas do pé no chão. Depois, pede-se a ela que bata as palmas fora da marcação dos pés. A quebra de recordes, e conseqüente aumento de velocidade da pulsação, se encarregará, na maior parte das vezes, de configurar o contratempo.

Há ainda a possibilidade de se incluir símbolos para outros parâmetros como intensidade, freqüência ou timbre. Como alternativa, podemos variar também o desenho básico do jogo, criando tipogramas circulares, na forma de oito, oval, etc.

Operacionalidade

A validade do tipograma no processo de educação musical reside sobretudo no fato de se poder transferir a experiência adquirida na fruição do jogo para o aprendizado da leitura rítmica tradicional.

Uma boa forma de se fazer isso é transcrever a configuração de um ritmo revelada no tipograma, mediante a utilização do sistema de barras verticais - muito usado no ensino do ritmo - por ser facilmente associado com o pulso temporal. Essas barras verticais, aliadas às características do tipograma, são interessantes para se exercitar aspectos seriais e holísticos da percepção temporal, fundamentais para um bom aproveitamento da prática musical.

O tipograma é, pois, um jogo simples, que apresenta, entretanto, muitas possibilidades de utilização. Os resultados que ele oferece como recurso didático dependem porém da concepção do trabalho de educação musical em que ele está inserido. Um ambiente com liberdade para se desenvolver a criatividade e a auto-expressão, em que sejam transmitidos à criança segurança e despreendimento com relação ao erro, certamente lhe proporcionará mais autoconfiança e conseqüente soltura corporal. Isto lhe possibilitará ainda um maior aproveitamento do trabalho rítmico através do tipograma.

Deve-se ressaltar, sobretudo, que, além de proporcionar um aprendizado lúdico, o tipograma abre a possibilidade de uma participação criativa da criança em todas as etapas do jogo.

Além de realizar os modelos que lhe são sugeridos, deve ser dada a ela a oportunidade de criar e montar um tipograma, combinando os elementos à sua maneira, experimentando e elaborando as suas invenções, desenvolvendo assim, o seu senso crítico.

É fundamental, portanto, que se observem atentamente todas as sutilezas do desempenho de uma criança durante as diversas etapas do trabalho, cabendo ao educador associar as valiosas informações que a criança oferece através de suas atitudes criativas ao conjunto das necessidades didáticas.

NOTAS

(1) O tipograma foi objeto de uma comunicação no “II Congresso Brasileiro de Psicomotricidade”, em Belo Horizonte, julho de 1984.

(2) Os valores das medidas apresentadas, não são rígidos. Chegou-se a eles após análise de mais de 400 medidas com crianças de 4 a 10 anos de idade.


Rafael Anderson Guimarães Santos estudou flauta e violão no Conservatório Estadual Lorenzo Fernandez, em Montes Claros/MG, onde começou a lecionar música para crianças. Em Belo Horizonte, foi professor de iniciação infantil e em laboratórios de criatividade para adultos na Escola Educ, Música de Minas Escola Livre e Fundação de Educação Artística. Atuou também como flautista de música popular em diversos shows e discos de artistas mineiros. Fundou, em 1988, o Centro Artístico Tangram para o Desenvolvimento da Criatividade em Belo Horizonte, onde exerce os cargos de Diretor e professor de Iniciação Infantil e Flauta.

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