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MÚSICA E MUSICALIDADE, PERCURSOS
EM SUAS FRONTEIRAS
Carlos Kater
O presente texto visa contextualizar
as proposições de Percursos numa problemática
contemporânea do desenvolvimento da expressão sonoro-musical.
O objetivo desta peça é oferecer-se como oportunidade
de participação ativa, de forma a revitalizar o trabalho
de formação musical - entendida no sentido amplo da
produção de conhecimentos -, integrando as finalidades
artística (centrada no produto) e lúdica (centrada no
processo), ainda fundamentalmente dissociadas pelas
pedagogias musicais predominantes.
Breve histórico: da multiplicidade
de discursos
Vemos florescer na produção musical do ocidente,
em especial a partir da década de 50, uma ampla gama
de tendências composicionais. Paralelamente aos desdobramentos
do serialismo e formas caracterizadas por grande rigor
estrutural - representantes da “música linguagem” -,
encontramos outras vertentes criativas, nas quais o
discurso musical estrito não possui o mesmo valor nem
significado.
A consciência de profundas modificações no
mundo - decorrente da ampliação dos horizontes, onde
exerceram papel fundamental as importantes conquistas
no domínio das ciências e das tecnologias em geral e
o reconhecimento de existência de outras sociedades
e culturas -, estimulou, senão impôs, formas ideológicas
mais contemporâneas.
Como várias vezes antes na história, teve-se
em vista recuperar a coerência necessária da criação
frente à sua própria época, e isto só pôde efetivamente
se estabelecer mediante o descompromisso com as fórmulas
seguras, das quais o uso contínuo desgastara o sentido
e a nova realidade sabotara o vigor.
O que desde lá entrou em pauta aboliu o discurso
lógico-tonal(1), um da agenciando do material
rítmico e/ou melódico, lastreado por uma longa história
e possuidor assim de um valor estável, de uma idéia
reelaborada à qual servia de porta-voz.
A questão primeira foi a de libertar a música,
por assim dizer, redescobrindo-a na atualidade dos novos
sentidos, algo muito próximo de sua reinvenção. Esta
liberdade conferida aos sons - integrando ou não alguns
dos materiais pré-existentes a toda sorte de “ruídos”
e “silêncios” -, constitui-se no reflexo direto da maneira
de conceber a música, onde a forma única, particular,
sob a qual se enuncia a expressão assume a função de
verdadeiro tema.
Por conseqüência, ao metiê tradicional da composição
normalizada - do ato criativo premeditado e definido
em seus detalhes -, intervieram as virtudes de uma interpretação
mais espontânea, calcada em características como o lúdico,
o extemporâneo, o anti-teleológico, a atuação amplamente
criativa dos participantes, enfim.
Substituindo-se os procedimentos inventivos
impregnados por um passado ainda presente, por outros,
mais remotos de um lado, anunciadores do futuro de outro,
instauraram-se como princípios básicos no terreno estético
a busca, pesquisa e experimentação de recursos especificamente
expressivos, mais pertinentes com os novos conceitos
de música.
A indeterminação, o aleatório, a improvisação
são alguns dos reflexos dessas atuais concepções do
mundo, da arte, da música, que, num primeiro momento,
permeiam - em importância crescente - as produções de
tais tendências.
Algumas delas situam-se em “categorias” ao
projetarem suas fronteiras em tipos diversos considerados
externos ao domínio da arte musical, como entendida
até então.
Outras, ao transcenderem a situação convencional
do músico e de sua própria atividade, recriam espetacularmente
a dimensão teatral do fato musical. Reconsideram o gesto,
a função social e o papel amplo representado voluntariamente
ou não pelo músico, propondo problemáticas originais
entre intérprete e sua ação diante do instrumento, da
partitura, do público, de si próprio.
Mesmo a condição de ouvinte não escapará dessa
moderna e inquieta intenção de redinamizar o universo
afeto ao musical, agora em processo contínuo de definição.
Dele será solicitada uma postura mais ativa e, algumas
vezes, quase tão participante quanto a cumplicidade
necessária entre criador e intérprete.
Com tudo isso - e muito mais - teve-se em vista
recuperar a música em sua essência, naquilo que em seu
momento se considerava vital e característico, despojando-a
da tradicional malha retórica que, embora de diversas
e particulares formas, ainda a encobria pesadamente
até fins da primeira metade deste século.
Ocorreu assim uma verdadeira revolução de valores,
que reconsiderou prioridades buscando um equilíbrio
mais contemporâneo. Equilíbrio entre um fazer cujo grau
de complexidade, rigor e determinação tornara-se extremo
a todos os níveis(2) e outro, igualmente
legítimo, porém privilegiando, com maior liberdade,
à conquista de diferentes dimensões do universo sensível,
da musicalidade e suas expressões, capaz talvez de esclarecer
algumas questões recentemente formuladas, como “quem
somos”, “o que fazemos”, “para onde vamos”.
Das proposições de Percursos
É, a meu ver, nessa tendência relativamente
recente - onde determinadas formas de reflexão aplicadas
à música se vêm contempladas - que podemos verificar
as contribuições de maior interesse, do ponto de vista
pedagógico, oferecidas por Percursos (partitura-roteiro
apresentada adiante).
Em seu conjunto temos propostas, idéias de
procedimentos, favorecedoras da expressão musical e
não propriamente “obras”. Em lugar dos sulcos de desenvolvimento
já estabelecidos nestas, se oferecem aqui caminhos possíveis
a serem enriquecidos, “energisados” com intenções próprias
à cada participante. A peça se torna assim momento oportuno,
Iugar propício para se vivenciar sensações de caráter
artístico e em particular o sentimento do musical.
Coloca-se então como maneira de experimentar
e criar, num processo tanto interior quanto exterior,
sua expressão através dessa forma. Isto, juntamente
com outros fatores e manifestações que se associam,
incorpora-se no conceito do que considero musicalidade,
uma das metas da presente proposta.
Objetivo paralelo, a experienciação oferece-se
como oportunidade e condição necessária para a produção
de conhecimentos, propiciando o deslocamento de polo
do “fazer”, em primeira instância, ao “ser” musical.
Este deslocamento na verdade - reitero, caracterizado
pelo assentamento das informações ao processarem-se
em conhecimentos propriamente - é que se coloca como
fundamento para a formação em música(3).
A apresentação da partitura se dá sob forma
de roteiro, maneira esta de evitar as limitações habituais
impostas pelos códigos musicais. Assim como ela, um
dos materiais a ser utilizado em Percursos -
nas partes indicadas por “vozes” - é de natureza verbal,
ao menos em sua forma aparente, veicular. Essa forma
de linguagem aparece então como meio de desenvolver
processos expressivos e de comunicação mais centrados
no indivíduo desprovido em princípio de técnicas artísticas
específicas.
Embora entretanto a linguagem verbal possa
adquirir em alguns momentos valor temático - Aleas
I, III e V, em especial -, será na realidade, e mais
propriamente, sua análise e produtos resultantes quem
exercerão tal papel.
Assim, os motivos verbais representados não
deverão se cindir à fala na sua exclusiva função referencial,
mas sim remeter a fatos de discurso, no sentido amplo
do termo, como procedimentos de postura, da própria
fala, da invenção, interpretação, tanto de si, do outro,
do mundo, da arte, do som...
Tomada dessa maneira, a música não é vivenciada
somente enquanto expressão - num sentido muito particular
da musicalidade -, de algo que, internalizado de forma
e condição particulares, aflora pelos poros, por força
de uma razão freqüentemente exterior e, muitas vezes,
pouco conhecida; mas vivenciada também enquanto instrumento
de busca, reflexão e criação - no sentido inclusive
da inteligência musical -, conferindo ao ser uma dimensão
mais total, contemporânea e necessária.
Daí decorre, por conseqüência, a necessidade
de substituir-se os materiais convencionais por outros,
que assim resultam manipulados de maneira autêntica
e inusitada.
O redimensionamento desses elementos, do código,
das formas de notação, expressão e apreensão, gerado
pela vivência ativa durante a montagem da peça, se coloca
reciprocamente como oportunidade de redimensionar a
concepção que cada indivíduo tem não só da música, mas
de si e do universo; em realidade, de seu sistema de
relações.
Instala-se ainda como tentativa de possibilitar
que cada participante experimente novas naturezas de
troca consigo mesmo, simultaneamente à revisão e ampliação
de suas interações com o social e as normas estabelecidas
em sua esfera.
Aí é onde o código e os sub-códigos utilizados
poderão se ver atualizados e enriquecidos. Os signos,
por meio da incorporação de novos significados, não
só denotados mas fundamentalmente dos vários níveis
de conotação, se expandirão.
Estas constelações sígnicas, por assim dizer,
de intensa e recente formação, deverão em princípio
inter-relacionar-se com outras, de mesma e de diversas
ordens no interior do próprio indivíduo, ao passo que
um processo análogo intensificará as relações inter-individuais,
em razão dos prováveis pontos de contato e penetração
dessas “constelações”.
Como resultado teremos uma revitalização de
todo o universo sígnico e imagético, em sua expressão
ampla e, notadamente, acústica.
Eis aí o porquê do termo “energisar” o processo
inter-trocas indivíduo/indivíduos, que se desenvolverá
potencialmente em Percursos.
A linguagem verbal, nas características de
norma individual, é uma das formas mais significativas,
segundo a qual representamos, antes a nós próprios,
os diversos personagens do mundo “real”. Ao mesmo tempo,
é sob suas formas e funções - suporte onipotente, recurso
integrador, veículo afetivo, elemento indumentário...
- que tentamos contar ao mundo a história de nossa existência
interior e pessoal.
Valendo-se então desses e de outros aspectos
da linguagem, é que buscaremos transcender. Buscaremos
transformar os fatos de comunicação simples - já plenamente
codificados e assim esvaziados de seu poder de significação
maior -, em cadeias de discurso, reluzentes de articulações
mecânicas e sonoras, em vertentes de profundo leito,
ambíguas e auto-reflexivas, portadoras das células que
constituem os infinitos personagens do teatro de nossa
“irrealidade” cotidiana.
Da organização entre elas resultarão estruturas,
matéria e produtos originais, mais próximos em caráter
e essência do universo musical, como o consideramos
hoje.
Ao atravessar a fronteira da poesia, cada participante
terá a oportunidade de se encaminhar a diferentes domínios,
entre os quais figura aquele que poderíamos nomear “teatro
sonoro”.
Percursos
Percursos é uma proposta de natureza
didático-artística, originada de uma pesquisa intitulada
“A invenção em processo: estratégias de desenvolvimento
da expressão sonoro-musical”(4).
De caráter acentuadamente performático, visa
o desenvolvimento interpretativo no interior da prática
em grupo, sejam seus participantes adolescentes ou adultos,
profissionais ou amadores(5).
Compõe-se de cinco estudos, articuláveis entre
si e caracterizados pelos temas seguintes:
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Alea I
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Silêncio
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Alea II
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Tempo
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Alea III
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Espaço
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Alea IV
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Expressão
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Alea V
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Identificação
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Como muitas das propostas aleatórias e de improvisação
dirigida, esses cinco estudos possuem múltiplas versões
de realização, seja no que se refere às possibilidades
de combinação entre si - justaposição simples, intercalação
e/ou sobreposição parcial -, seja pelas determinações
materiais, instrumentais e de caráter no interior de
cada um deles.
Álea probabilidade, Aléa percurso,
passagem. A introdução e as trajetórias possíveis dos
participantes na dimensão interpretativa do universo
sonoro-musical são ilustradas metaforicamente: do silêncio
à sua própria identidade, de um estado de negação ou
desestimulação de construção de seus valores autênticos
- característica dos processos estagnados de dominação
- à busca, pesquisa, exercício da liberdade, pré-requisitos
fundamentais a uma consciência ativa.
ALEA I - Silêncio (vozes
e instrumentos)
1. Os intérpretes concentram-se de maneira
profunda(6).
Avaliação do silêncio.
2. Livremente iniciam suas atuações de forma
tal que o silêncio continue ainda agindo sobre cada
um, permanecendo como ponto de referência.
Ligeira hesitação.
3. Eles observam atentamente o universo sonoro
resultante, levando ainda em consideração o seu próprio
silêncio.
Imitação-afirmação.
4. Confrontam seu silêncio à produção sonora.
Confrontam-se em relação ao todo.
Hesitação.
5. Aguçam uma latente contradição, permitindo
que uma antiga força crie um momento novo. Preparação
de uma síntese.
Oposição-negação.
6. Respeitam, entretanto, as diversas produções
individuais.
Hesitação-negação.
7. Encaminham-se à posse completa do silêncio,
integrando-se progressivamente aos infinitos sons que
constituem este universo sonoro.
Negação absoluta.
8. A peça termina somente quando houver sido
atingida a distância máxima entre este universo sonoro
e a situação inicial.
ALEA II - Tempo (Instrumentos
ou Vozes)
1. Os intérpretes concentram-se: avaliação
do tempo(6).
2. O intérprete que primeiro tiver completado
o estágio de avaliação do tempo - chamado, desde aqui,
de solo 1 - inicia realizando uma seqüência própria
de pulsos, tradução concreta de sua consciência de um
tempo métrico, quase automatizado.
3. A partir da entrada de solo 1, cada
intérprete realiza, a seu tempo, uma seqüência própria
de pulsos, mantendo-a regular e independente.
4. Uma vez que todos estejam atuando, começam
então, sempre livremente, a interferir no pulso inicial
do solo 1. Procuram seja negá-lo seja transformá-lo,
valendo-se para isso de movimentos necessários de seu
próprio pulso - acelerandos e retardandos, em especial,
mas também variações de intensidade, etc. -, sempre
de forma discreta e evitando rupturas nítidas.
5. Quando solo 1 sentir uma hesitação
no seu pulso característico, silencia-se. Com sua parada,
os demais intérpretes fixam seu movimento naquele preciso
instante, transformando-o num novo pulso.
6. Após alguns instantes, realizam, de maneira
independente, um decrescendo até a extinção total de
todos os pulsos.
7. Silêncio.
8. Solo 1 realiza seu pulso inicial
com ligeira variação.
9. Silêncio.
10. Solo 2 - determinado previamente
- realiza o pulso inicial de solo 1 com outra
variação.
11. Em seguida e simultaneamente, solo 3
executa o último pulso de solo 1.
12. Após alguns instantes, vem se acrescentar
aos solos 2 e 3, o solo 4 procurando
realizar a resultante dos pulsos desses dois solistas.
13. Quando solo 4 cumprir sua função,
silêncio súbito.
Nova e breve concentração.
14. Simultaneamente os intérpretes exprimem
seqüências de pulsos regulares e independentes. As intensidades
deverão estar compreendidas entre piano e pianíssimo.
15. Solo 4 gera, a partir da resultante
executada anteriormente, uma seqüência rítmica, de curta
duração, que se repete obstinadamente.
16. A partir da entrada de solo 4, cada
intérprete inicia livremente a transformação de seu
pulso num curto ostinato rítmico.
17. Após este estágio, param de tocar súbito,
deixando porém ressoar a última nota emitida. Imediatamente
solo 1 intervém sobre esta malha sonora ressoante,
com a última variante de seu pulso inicial, em pianissíssimo.
18. Em seguida, um a um, os intérpretes expressam
seus próprios padrões rítmicos ostinatos, procurando
adequar os andamentos, de forma contínua e progressiva,
ao pulso de solo 1 (em passagem gradual para
piano). No entanto, ao se fazer isto, os ataques
dos diversos padrões rítmico-ostinatos coincidentes
com o pulso de solo 1 deverão ser subtraídos.
19. Tendo cada intérprete adaptado seu padrão
ao pulso de solo 1, eles imprimem agora uma intensidade
e uma realização diferente para cada uma das notas,
ou grupo de notas, que o compõe.
20. A peça termina quando os intérpretes perceberem
que a totalidade dos padrões rítmico-ostinatos tiver
se tornado regularmente repetitiva, tendo-se criado
assim um movimento geral “macro-ostinato”.
ALEA III - Espaço (Vozes)
1. Os intérpretes concentram-se o tempo necessário
para conceberem uma imagem acústica própria do espaço
sonoro-musical(6).
2. Exprimem simultaneamente suas concepções.
3. Lenta e continuamente encaminham-se a uma
freqüência central já existente (convencionada ou não),
que se mantém fixa.
4. No momento em que a freqüência central for
alcançada por todos, o grupo se divide em dois (divisi
a 2). O primeiro mantém esta freqüência; o segundo realiza
discreta e livremente um movimento de caráter melódico,
que gravita em torno da freqüência central e na região
imediatamente superior.
5. Corte súbito do segundo divisi. Individualmente
e com sutil ataque, seus integrantes retornam à freqüência
central. De maneira independente, lenta e contínua ocupamos
espaços próximos à freqüência central, transformando-a
num feixe sonoro, numa espécie de micro-cluster.
6. Uma vez estabilizado, esse feixe oscila
e amplia-se limitadamente pelo espaço sonoro-musical.
De seu interior desenvolve-se, em menor intensidade,
um foco de murmúrios, com rápido movimento interno.
7. Tendo definido seus limites no espaço, este
feixe sonoro se transfigura, pelo deslocamento das freqüências
que o integram, num fluxo de falas, que passando a curtas
frases resulta finalmente num pontilismo irregular.
8. Ao término deste movimento, encaminham-se,
em acelerando, para o domínio total do espaço sonoro,
sempre com maior densidade.
9. Segue-se um recorte desse espaço pela imobilização
das freqüências extremas, que muito sutilmente passam
da emissão vocal com a boca normalmente aberta para
a emissão com boca fechada (boca chiusa). Por
sua vez, as freqüências interiores comprimem-se formando
um novo feixe central. Os dois movimentos processam-se
conjuntamente.
10. Neste momento, o feixe central incorpora
um foco de murmúrios, com fragmentação interna independente,
enquanto passa de forma lenta da emissão normal para
a emissão com boca fechada, conservando a mesma intensidade.
11. Inicia-se, a partir daqui, um movimento
de decrescendo(7) que deve durar o maior
tempo possível, concluindo assim esta peça como um último
suspiro.
ALEA IV - Expressão(8)
(Vozes e Instrumentos)

ALEA V - Identificação
(Vozes)
Cada um dos participantes compõe uma “melodia”
própria e autêntica, como decorrência de um trabalho
prévio sobre a entidade melodia (sua função,
características, potencialidades). Deve ser suficiente
aqui a análise acompanhada da escuta atenta de obras
de diversos períodos históricos, do cantochão ao contemporâneo(9).
As melodias a serem elaboradas deverão resultar
da articulação de três fases distintas(10).
Fase 1: “Sem substância”
Esta fase é interpretada no registro superagudo
e divide-se em duas partes: “realmente sem substância”,
que é estática do ponto de vista musical, e “em caminho
da identidade”, que é oscilante e anunciativa da
fase seguinte. Não existe ruptura entre elas.
Fase 2: “Identidade”
Fase totalmente dinâmica, representa o momento
de expressão sonoro-musical original, através da melodia
criada. Momento verdadeiro de valorização da intenção
de cada intérprete expressa por meio de uma virtuosidade
poética, de sua musicalidade. É essencialmente em função
desta fase da melodia que cada participante se torna
reconhecível e identificável em meio ao grupo. A melodia
possui aqui um contorno geral descendente, encaminhando-se
do registro superagudo ao registro médio, seja por planos
seja por continuidade.
Fase 3: “Final”
Assim como a primeira fase, esta também se
subdivide em duas partes: “aproximação do fim”,
que é oscilante do ponto de vista musical e representa
a conclusão da fase anterior, e “final propriamente
dito”, que é estática, possuindo a nota mais grave
de toda a melodia. Sem ruptura, as duas partes ocorrem
no registro grave.
Deve-se observar a sucessão orgânica das diversas
fases da melodia, sem que esta jamais apresente interrupção
atípica em seu fluxo.
Mesmo tendo sido concebidas e codificadas previamente,
as várias melodias estão em constante re-criação, adequando-se
em cada enunciação ou apresentação às condições específicas
do ambiente, à situação emocional dos intérpretes. Todas
elas devem ocorrer simultaneamente, iniciando-se, ao
mesmo tempo, para após desenvolverem-se de forma independente,
embora possamos também considerar a realização sincrônica,
quando as diversas fases de todas as melodias seriam
iniciadas e finalizadas ao mesmo tempo.
À guisa de conclusão
Muito embora Percursos comporte montagem
nas óticas estritamente musical - valorizando o produto,
o resultado artístico final -, ou didática - centramento
na vivência e no processo de trabalho -, é justamente
na confluência equilibrada dessas óticas entretanto
que encontraremos a pertinência dessa estratégia sensibilizadora
e criativa de formação musical.
Ao oferecer-se como meio original para a abordagem
de questões musicais de diversas naturezas - como aquelas
relativas ao código, percepção, criação, interpretação,
forma, textura, planos sonoros - possibilita experienciar
e desenvolver problemáticas que constituem a base mesma
de uma expressão individual-coletiva, livre, consciente,
inventiva.
Percursos teve sua estréia na
“XVII Bienal Internacional de Artes” de São Paulo (1983),
por um grupo vocal-instrumental composto por 10 pessoas,
entre profissionais e amadores, regido por Abel Rocha.
Outra versão, para coro e percussão, foi apresentada
por um grupo de aproximadamente 30 vozes, integrado
por estudantes do Instituto de Artes da UNESP e pelo
PIAP - grupo de percussão dessa mesma escola (12 instrumentistas)
-, sob a regência de Samuel Kerr e de John Boudler (SESC-Pompéia,
São Paulo, 1984). Remontada em 1986, sob a regência
de J.Boudler, com o PIAP e integrantes do Coral da Secretaria
de Estado e Cultura de São Paulo e depois com integrantes
do “Coral Júlia Pardini” - respectivamente em apresentações
no Teatro de Cultura Artística (São Paulo) e Auditório
do Palácio das Artes (Belo Horizonte) -, foi a música
que encerrou o programa de “Dã-dá Corpo”, espetáculo
de dança dirigido por Klauss Viana.
NOTAS
(1) Lembremos apenas de passagem que já a Sagração
da Primavera, de I.Stravinsky, ao propor agenciamentos
tipo mosaico - recorrendo à justaposição, intercalação
e sobreposição, em lugar de desenvolvimentos “clássicos”
-, e empregando materiais, em especial, rítmicos de
uso pouco freqüente - embora totalmente previstos pelo
código -, provoca grande escândalo em Paris já em 1913.
(2) A acomodação pelo peso de uma tradição
poderosa, de perfil estático e permanente, acabou por
levar as obras a comunicarem ela, antes de si. Tradição
que se redizia e ao extremo acabou por redizer-se...
para si.
(3) Numa ótica determinada, poder-se-ia considerar
que produções de natureza semelhante a de Percursos
visam a dessacralização da música. O que se propõe no
entanto é justamente contrário. Na ótica exposta nesse
parágrafo, poderíamos dizer que trata-se aqui mais especificamente
de sua re-sacralização.
(4) Realizada na UNESP, essa pesquisa integra,
entre outras: “A Manifestação” (apresentada em Paris,
1980, e Cubatão, 1984); “Em torno de Villa-Lobos” (MASP
e Centro Cultural São Paulo, 1986); “Tríptico”, etc.
Ver, por exemplo: “Contribuição às formas de expressão
sonoro-musicais”, in: Anais do II Encontro Nacional
de Pesquisa em Música, BH, Imprensa Universitária,
1987, pp. 207-214 e “Em torno de Villa-Lobos...”, in:
Anais do III Encontro Nacional de Pesquisa em Música,
BH, Imprensa Universitária, 1989, pp. 165-171.
(5) A escrita sob forma de roteiro oferece
aqui uma dupla vantagem: por um lado torna a proposta
acessível a participantes sem domínio de códigos especificamente
musicais, por outro possibilita maior liberdade na escolha
e elaboração de materiais a serem empregados, em razão
do baixo índice de determinação na origem.
(6) Durante os trabalhos de preparação, cultivar
primeiramente a prática do relaxamento e após a da concentração
e observação. Depois de sessões assim dirigidas, estimular
a recuperação de imagens sonoro-musicais armazenadas
na memória.
(7) Este movimento, embora realizado por todos
os participantes, não deve resultar num tutti.
Alguns intérpretes podem começar a decrescer, enquanto
outros se mantêm; assim, num movimento irregular entre
manter e decrescer, poder-se-á obter (em respiração
de fole) um lento e gradativo decrescendo.
(8) Esta peça não apresenta nenhuma limitação
quanto à sua realização. Pode ser interpretada por um
ou vários solistas, por um instrumento ou voz e complexos
instrumentais e/ou vocais, etc. Pode ser gravada e manipulada
posteriormente em estúdio ou ainda trabalhada eletronicamente
durante sua execução. A partitura comportando signos
de estímulo e leituras multi-direcionais, o orientador
do trabalho e/ou os intérpretes farão, individualmente
ou em conjunto, as opções para sua própria montagem.
(9) Entre músicas de G.Machaut, J.Obrecht,
G.Dufay e tantos mais, ouvir e analisar, por exemplo:
“Alle, psallite-Alleluya” (in: Historical Anthology
of Music, vol.I), pela amplificação melódica de
cada uma de suas exposições e revesamentos de partes
(“Stimmtausch”); “O King”, de L.Berio, pelo processo
de progressão e colorização melódica; “Atmosphères”,
de G. Ligeti e “A Ronne”, de L.Berio, pelas inovadoras
concepções de materiais vocais com valor melódico-temático.
(10) O que se propõe a seguir, originou-se
de um texto de A.Seeger, “Porque os índios Suyá cantam
para as suas irmãs?”, in: Arte e Sociedade: ensaios
de sociologia da arte, (Org. G.Velho), RJ, Zahar,
1977, pp. 39-63, onde é estudado o canto desses índios
brasileiros.
Carlos Kater é compositor e musicólogo,
com doutorado pela Universidade de Paris IV - Sorbonne.
Desenvolve trabalhos de pesquisa, coordenando o CePPeM
(Centro Paulista de Pesquisas Musicais)/“Atravez” e
o NAPq (Núcleo de Apoio à Pesquisa) da Escola de Música
da Universidade Federal de Minas Gerais, onde também
é professor de Análise Musical, Metodologia da Música
e Musicologia Histórica Brasileira nos cursos de Pós-Graduação.
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