A OBRA
"ESTRELA BRILHANTE'' DE RONALDO MIRANDA
Harlei
Elbert
A
autenticidade e a emoção devem vir sempre em primeiro lugar em
qualquer proposta de criação musical. Ronaldo Miranda
Introdução
Este
trabalho foi elaborado a partir da Dissertação de Mestrado "Uma
postura Interpretativa da Obra 'Estrela Brilhante' de Ronaldo Miranda"(1).
Ao
entrarmos em contato próximo com a produção musical de Ronaldo
Miranda (1948), deparamos com a peça "Estrela
Brilhante", um dos textos pianísticos do autor que melhor retrata o
aspecto virtuosístico. Com vistas à compreensão da obra em
sua essência, procuramos identificar e caracterizar os procedimentos composicionais
empreendidos no momento de sua concepção. No decurso desse processo,
estabelecemos pontes de ligações entre "Estrela Brilhante"
e as demais peças do compositor, focalizando certos elementos que se mostram
intensamente presentes na totalidade de sua produção.
"Estrela
Brilhante", composta em l984 e dedicada ao
pianista Caio Pagano, foi escrita por encomenda do Conselho Interamericano de
Música da OEA para ser incluída num disco produzido por tal Instituição,
que impôs a condição de que a obra deveria adotar a forma
de paráfrase, baseando-se num tema folclórico que caracterizasse o
país de origem do compositor.
Ronaldo
Miranda selecionou como elemento gerador da paráfrase o ponto-de-macumba
"Estrela Brilhante", cuja melodia já recebera anteriormente uma
adaptação para coro infantil de José Vieira
Brandão. Esta melodia, geralmente cantada, apresenta um texto que faz
alusão à uma entidade mística religiosa[Ex.I]. Também
reconhecido como "Estrela-do-mar", este ponto-de-macumba é
cantado nos terreiros de candomblé e umbanda para homenagear
Iemanjá, senhora e rainha do mar, que traz na cabeça uma estrela
grande e brilhante. De um modo geral, os pontos-de-macumba recebem acompanhamentos
de Atabaques (denominados Rum, Rumpi e Lé), Adjâ, Agogô,
Aguê, Réco-Réco e Berimbau (2).
Aspectos
composicionais da obra "Estrela Brilhante"(março/abril. I 984.
Numa
visão globalizada da estrutura da peça, identificamos a
presença de um motivo que é parafraseado, gerando diversos tipos
de variações ininterruptas que se interligam formando um todo.
Eminentemente contrastantes, "Malemolente",
"Enérgico", "Lírico e um pouco rubato",
"Fluente","Com delicadeza"e "Eloquente" são
os referencias oferecidos a cada segmento da obra, intitulados dessa forma face
ao seu respectivo caráter. A paráfrase inicia-se com uma breve
idéia introdutória, na qual células temáticas
são articuladas em alturas distintas.Posteriormente, estes pequenos
incisos serão reaproveitados pelo autor perante outro tipo de tratamento
composicional. A introdução evolui com o surgimento de novos
elementos, subsidiando a entrada do tema propriamente dito. Estabelecido num
pseudo Mi menor, o tema resgata a melodia do folclore brasileiro em sua feição
original, que é mantida como padrão. Para melhor
observação da trajetória do tema, representamos graficamente
sua linha melódica, que se projeta em torno do eixo Mi4-Mi5,
através de gestos ascendentes e descendentes; inicialmente com pouca
amplitude, posteriormente num conteúdo intervalar mais amplo[Exs.II e
III].

Exemplos
II e III –Linha melódica do Tema: II -Comps.8-l5 e III
-Comps.16-26.
Após
a completa exposição do tema, um denso acorde de caráter
suspensivo gera um ambiente de expectativa, interligando-se ao novo momento da
obra [Ex.IV].

Ex. IV -Acorde de
caráter suspensivo (comp.27).
Ao
repensar o tema sob outras possibilidades,o autor incorpora múltiplos recursos
composicionais, decisivos no desenvolvimento sequencial da peça. Dada a natureza
preponderantemente rítmica e de cunho incisivo, fermentada por
progressões ascendentes e fragmentos cromáticos descendentes, o
segmento inicial das variações exibe um clima típico de
tensão, propiciando a larga e progressiva intercessão de novos
elementos que, uma vez lançados, provocam a reapresentação
de células temáticas [Ex.V]. Os elementos de
interpolação se mostram aqui estruturalmente significantes, ampliando
o segmento e conduzindo-o ao clímax.
Em
seguida, o compositor recorre ao processo de rarefação, tanto de
dinâmica, quanto de textura, trabalhando a melodia inicial num contexto
tonal maior, por movimento contrário. Trata-sede uma
variação no campo harmônico e sonoro, ressuscitando o tema
de forma tênue, com elevada dose de lirismo e sinuosidade melódica
[Ex.VI]. O discurso musical prossegue através de um segmento
rítmico contínuo. Mediante esta fluência. insere-se uma transição
virtuosística, percorrendo o teclado em sua quase totalidade. A
célula rítmica do tema é relembrada e distribuída
entre as freqüentes mudanças de compasso, um dos principais aspectos
da obra [Ex.VII].

Exemplo
V – Elementos e interpolação (comp. 37).

Exemplo
VI – Tema num contexto tonal mior e por movimento contrário (comp.
60).
O
cenário de tensão se desfaz progressivamente, cedendo lugar a um
tema ingênuo e delicado, que ressurge em meio às diferenciações
de sua versão original [Ex.VIII]. Em processo de
transição, novas progressões são idealizadas,
atingindo uma vigorosa cadência de fraseado livre, reservando ao intérprete
um momento de intensa dramaticidade. Encerrando a obra de forma persuasiva, o
autor utiliza uma série de digressões com esparsas
intervenções do tema, conduzindo a um ponto conclusivo que se
fixa, momentaneamente, pelo uso da tônica em Mi [Ex.IX]. Sublinhada
por este instante, o mais enfático de toda a paráfrase, a
tensão segue rumo ao relaxamento, apresentando uma interrupção
temporária de som. O último e brilhante desenho virtuosístico
comprova a forma efusiva com que o autor direcionou a obra. O impacto do acorde
final é indissociável da nota polarizadora que o precede,
definindo a priorização de um determinado tom, ainda que
não estabelecido dentro de um esquema tradicional[Ex.X].

Exemplo
VII - célula rítmica do tema (comp. 106).

Exemplo VIII –Tema dom
diferenciações de compasso, altura e acompanhamento (comp. 128-131).

Exemplo IX - Momentâneo
ponto conclusivo fixado através do uso da Tônica em Mi (comp. 176-111).

Exemplo X -Nota
polarizadora priorizando o tom de Mi (comp. 184).
Princípios
Fundamentais da Linguagem e da Forma
O
universo composicional de R. Miranda é muito vasto e eclético.
Para uma melhor compreensão, o próprio autor posiciona-se frente
à sua produção estabelecendo dois tipos básicos de
linguagem :
a. Em que predomina um livre atonalismo
b. Em que a linguagem situa-se num neotonalismo
No
atonalismo, R. Miranda utiliza a totalidade dos recursos da escala
cromática, desprezando as funções tonais básicas e
emancipando definitivamente a dissonância; enquanto no neotonalismo, o
autor mantém consciente a permanência de um determinado centro
tonal, mesmo que seja demonstrado indiretamente no decorrer do texto musical.
Observando o quadro demonstrativo dos dois tipos básicos de linguagem do
autor, vemos que ocorre um certo equilíbrio quanto ao uso do atonalismo
e do neotonalismo [Ex.XI].
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LINGUAGEM ATONAL
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LINGUAGEM NEOTONAL
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Prólogo, Discurso e Reflexão para piano
Toccata para piano
Concerto para piano e orquestra
Imagens para clarineta e percussão
Recitativo, Variações e Fuga para violino e
piano
Assemblage para percussão e piano
Três Momentos para violoncelo solo
Oriens III para flauta
Lúdica I para clarineta solo
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Estrela Brilhante para piano
Suíte no.3 para piano
Concertino para piano e orquestra de cordas
Fantasia para sax e piano
Peças para coro, voz e piano e de temática infantil
Coração Concreto - cantata
Suíte Tropical para banda sinfônica
Prelúdio e Fuga para quarteto de sopros
Terras de Manirema -cantata
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Exemplo
XI –Quadro demonstrativo posicionando as principais obras de Ronaldo
Miranda.
Do
ponto de vista da forma, o autor procura utilizar um determinado plano de construção,
estabelecendo em suas obras uma estrutura formal que serve de base para o
desenvolvimento de sua linguagem musical. Segundo o autor :
"Pode-se utilizar formas tradicionais em obras musicais de linguagem
contemporânea, sem prejuízo para a contemporaneidade dessas obras.(...)
As formas tradicionais são úteis aos compositores
contemporâneos, na medida em que oferecem comprovado equilíbrio em
relação ao binômio unidade/variedade, bem como na medida em
que fornecem ao ouvinte um referencial de memória. Embora a variedade
seja a tônica da linguagem contemporânea, constata-se que a
repetição continua sendo necessária, mesmo em doses
menores, para que se efetue o processo de percepção e fixação
das mensagens emitidas pelo compositor em seu discurso sonoro"(3).
A
Interação das Temáticas
Existem
obras de R. Miranda que possuem perceptíveis conotações folclóricas,
revelando diversos aspectos culturais. Em condições totalmente opostas,
outras são estruturadas a partir de temas ligados à realidade atual,
fazendo referências críticas ao cotidiano. Perante esse
fenômeno de interação de temática folclorista e
temática realista na produção do autor, procuramos
enquadrar algumas de suas principais obras [Ex.XII].
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CONOTAÇÕES FOLCLORICAS
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REALIDADE ATUAL
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Estrela Brilhante para piano Tema: ponto-de-macumba
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Coração Concreto –cantata para soprano, dois
barítonos, coro infantil, orq. de cordas, quinteto de sopros e
percussão-Tema : crise das grandes cidades (texto: Cora Ronai)
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Suíte Nordestina para coro Tema: folclore nordestino
I Morena Bonita
II Dendê Trapiá
III Bumba Chora IV Eu vou. eu vou
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Três Canções Simples para voz e piano Tema :
relacionamentosa humanos (texto: O. Codá)
I Visões
II Noite e Dia
III Cotidiano
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Prelúdio e Fuga para quarteto de sopros (flauta, oboé,
clarineta e fagote) -Tema: Folclore
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Liberdade para coro Tema : liberdade de viver (texto :
Fernando Pessoa)
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Terras de Manirema –cantata para narrador, coro, orq. de
cordas, duas flautas, piano e percussão Tema – aspecto telúrico
(texto: Orlando Codá)
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Trajetória para soprano, clarineta, piano, violoncelo e
percussão Tema: limitações dos sonhos de habitantes de
apartamentos conjugados
I O Apartamento
II Constatação
III O Vácuo
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Exemplo XII –Quadro
demonstrativo posicionando as principais obras de Ronaldo Miranda.
Por
fim, ressaltaremos a presença maciça dos elementos reincidentes que
se incorporam no decorrer da produção de R. Miranda. Apesar do
tema relacionado em"Estrela Brilhante" reportar ao folclore
brasileiro, percebemos que o autor lança mão de semelhantes materiais
e técnicas composicionais empreendidas em outras obras, seja por
ocasião dos fluentes desenhos rítmico-melódicos[Exs. XIIIa,
XIIIb, XIIIc] ou pela intercessão
contínua de fragmentos de tendência virtuosística[Exs.XIVa,
Vale
lembrar, também,que o compositor não estabelece princípios
rígidos no desenvolvimento de seu trabalho. Ele não se preocupa
em ser vanguardista, nem tampouco possui compromissos em romper com as
correntes tradicionais, embora utilize, em larga escala, materiais
contemporâneos em suas composições. O próprio autor
declara: "(...) não estou
preocupado em ser contemporâneo na minha linguagem os 365 dias do ano.
Tanto posso escrever obras com recursos atuais como posso voltar ao passado e
à tonalidade"(4).

Exemplo XIIIa - "Estrela
Brilhante" (comp. 80) –Elementos reincidentes/fluentes Desenhos rítmico-melódicos.

Exemplo
XIIIb -Fantasia para sax e piano (comp.44)-elementos reincidentes/ fluentes
desenhos rítmico-melódicos.

Exemplo XIIIc – Concertino
para piano e orquestra de cordas(comp.128)/parte do piano: elementos
reincidentes-fluentes desenhos rítmico-melódicos.

Exemplo XIVa –
Estrela Brilhante (comp.183-I 84) : Elementos reincidentes/ intercessão
de fragmentos de tendência virtuosística.

Exemplo
XIVb - Fantasia para saax e piano(comp.105,parte do piano): elementos
reincidentes/ intercessão de fragmentos de tendência
virtuosística.
NOTAS
(l) RAYMUNDO, Harlei Aparecida Elbert. "Uma Postura
Interpretativa da Obra 'Estrela Brilhante' de Ronaldo Miranda". Tese de Mestrado,
EM/UFRJ, Rio de Janeiro , 1991.
(2) ALBUQUERQUE, Maria Apparecida de. Depoimento extraído
de uma entrevista exclusiva cedida à autora da pesquisa, Rio de Janeiro
, 1991.
(3) MIRANDA, Ronaldo Coutinho de. "O Aproveitamento
das Formas Tradicionais em Linguagem Musical Contemporânea na Composição
de um Concerto para Piano e Orquestra".Tese de Mestrado, CapítuloV.
Conclusões,EM/UFRJ,Rio
de Janeiro, 1987.
(4) MIRANDA, Ronaldo Coutinho de. O Catacumba nº
2, Edição Rio Arte, R.J., 1985.
Harlei
Elbert (1964) é graduada em Piano e Composição pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde recebeu a
distinção "Summa Cum Laude".Vem atuando como compositora
e intérprete em Concertos no Brasil e no exterior. É Mestre em
Música, "Com Louvor", pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Doutoranda em História Social na Universidade de São Paulo,
sob a orientação da Dra. Laima Mesgravis, atualmente pesquisa a
obra de Camargo Guarnieri. É professora Assistente do Departamento de Composiçao
pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da ANPPOM e da ANPUH.
Pesquisadora da música brasileira,tem realizado palestras e participado de
encontros sobre a Arte e Cultura no Brasil
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