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UMA SONATA DE CAMARGO
GUARNIERI
Mário de Andrade (1935)
Pesquisa, ilustração e notas de
Paulo Castagna e Mário
Ficarelli
Introdução
Em 28 de outubro de 1931,
Camargo Guarnieri terminava sua
Sonata, a primeira de uma série
de três Sonatas para violoncelo e
piano(1), dedicando-a a
Iberê Gomes Grosso. Com apenas 24
anos, professor do Conservatório
Dramático e Musical de São Paulo desde
1927, Guarnieri já se destacava por
composições importantes, como a
Dança Brasileira, para piano,
Losango Cáqui, para canto e
piano, a Canção Senaneja e a
Sonatina para piano, todas de
1928, além de O impossível
carinho, para canto e piano (1930)
e o Choro no 3, para
flauta, oboé, clarineta, fagote e
trompa (1931).
A estréia da Sonata,
contudo, ocorreu somente em 27 de maio
de 1935, no Teatro Municipal de São
Paulo, com Calixto Corazza ao
violoncelo e o compositor ao piano.
Nesse histórico evento, o primeiro
concerto de obras de Camargo
Guarnieri, patrocinado pela Sala de
Arte de São Paulo, a maioria das peças
foi executada em primeira
audição(2). Mas a
Sonata, que abriu o espetáculo,
era esperada com particular
interesse.
Mário de Andrade que, desde
1928, vinha incentivando a produção do
músico paulista, escrevendo sobre ele
no Diário
Nacional(3), publicou
uma análise da Sonata em 24 de
abril de 1935, nesse mesmo
jornal(4), anunciando sua
estréia. A veiculação desse tipo de
texto em jornal, tratando, ainda, de
obra inédita, já demonstra, por si, a
importância que Mário de Andrade
atribuiu à Sonata.
O mesmo artigo foi reproduzido
no Programa do concerto de 27 de
maio(5) e, em seguida,
reimpresso na Revista Brasileira de
Música, de Junho de
1935(6), com modificações
no texto e exemplos musicais pelo
ensaísta. Mário de Andrade utilizou,
para a análise, não somente a
partitura, mas ainda informações
tomadas do próprio
compositor(7).
São freqüentes as análises
musicais de Mário de Andrade em textos
jornalísticos. Esta, porém, se destaca
pela profusão em detalhes e,
sobretudo, pela clareza e
objetividade, uma vez que foi
dirigida, simultaneamente, ao público
de concertos e aos profissionais da
área musical(8).
A Sonata chegou a ser
gravada em duas ocasiões(9)
mas, apesar de sua importância, a
partitura permanecia, até hoje,
inédita.
Passados já 62 anos dessa
composição, apresentamos o 1º
movimento da Sonata no
1(10) precedida da
análise de Mário de Andrade, como
homenagem ao centenário de nascimento
do musicólogo brasileiro e também como
homenagem póstuma a Camargo Guarnieri,
falecido neste ano.
O texto de Uma Sonata de
Camargo Guarnieri foi
estabelecido, segundo a versão
publicada na Revista Brasileira de
Música, atualizada a ortografia
com base nas normas vigentes. As notas
que acompanham o artigo visam, além de
indicar as diferenças entre as fontes
consultadas, complementar o trabalho
de Mário de Andrade com informações de
cunho analítico, histórico e
bibliográfico, muitas das quais
extraídas de textos jornalísticos da
época, atualizados de acordo com os
mesmos critérios.
Uma Sonata de Camargo
Guarnieri
A Sala de Arte(11),
em S.Paulo, que apenas inicia a sua
atividade artística,
adquiriu(12) desde logo
grande benemerência, promovendo um
concerto de obras de Camargo
Guarnieri(13).
É a primeira ocasião que oferecemos ao
compositor paulista, para apresentar
um conjunto de obras importantes.
Dentre estas,
está(14) uma
Sonata para violoncelo e piano,
executada pelo excelente violoncelista
Calixto Corazza, com o autor ao
teclado, e que me parece uma das obras
mais significativas da música
brasileira contemporânea.
É iniciada por um tema
“tristonho” [Ex. I], exposto no grave
pelo violoncelo e repetido à quinta
pelo piano, no agudo, sobre um
movimento linear ascendente e
cromático, mais grave. Surge assim
imediatamente o
processo(15) conceptivo
mais característico talvez da criação
de Camargo Guarnieri, a linearidade,
que o tornou o mais hábil dos nossos
polifonistas atuais.
Exemplo I.
Esta Sonata para dois
instrumentos, se diria mesmo um
Trio(16), de tal forma ela
é essencialmente polifônica e linear,
as duas mãos pianísticas ajuntando
cada qual sua linha à do celo. Esta
concepção polifônica é perfeitamente
contemporânea, e mais ou menos o
resultado atual a que levou tantos
compositores, à dissolução do conceito
harmônico por excelência, isto é, a
marcha dos acordes por meio da
dissonância preparada e resolvida. Mas
são raros os compositores atuais que
levaram o seu polifonismo a uma
sistematização tão audaciosa como a de
Camargo Guarnieri. Está claro que
mesmo nesta Sonata, ele emprega
acordes se aproveitando da
constituição do piano, mas os seus
acordes nunca são propriamente
harmônicos. Nesta Sonata, os
acordes são realmente séries paralelas
de undécimas, idênticas às tão
sistematicamente usadas por Casella e
às vezes por Villa-Lobos, derradeira
conseqüência daqueles paralelismos
acordais de Debussy. Acho mesmo que
não se deverá chamar de undécimas a
esses agrupamentos de sons, de tal
forma a composição por terças que é
própria dos acordes da harmonia está
desvirtuada pela escolha dos sons. São
agrupamentos compostos por
superposição de quartas, e se
aparentam mais ao “órgano” medieval ou
a uma polifonia do Éste africano,
valentemente levada às suas últimas
conseqüências polifônicas [Ex.
II].
Exemplo II.
Os desenvolvimentos conduzem a
um ambiente sonoro mais tonalmente
fixo, um verdadeiro Mi menor. Sobre
esta base tonal o piano entoa o
segundo tema, mas em Mi maior, fixando
o bitematismo do primeiro tempo [Ex.
III](18).
Exemplo III.
O violoncelo ecoa o tema, e os
desenvolvimentos e combinações dos
dois temas nos levam de novo a uma
queda em Mi maior(19).
Inicia-se, então, um episódio
inspiradíssimo em que o solo do piano
voluptuosamente coreográfico, mais
sensual que alegre, mais trágico que
feliz, arranca num violento delírio de
forças dançarinas, colhidas todas dos
arabescos e ritmos do maxixe
instrumental [Ex.
IV](20).
Exemplo IV.
O violoncelo entra na dança,
repetindo a linha do piano, e todo
esse ardor vai se dissolvendo aos
poucos no grave do teclado enquanto a
outra voz pianística mais aguda
reinicia no tom inicial, o primeiro
tema. É realmente só agora que se fixa
o tom de Lá menor, em que a Sonata se
baseia, as três linhas dando
decisoriamente a tríade tonal. Mas na
realidade, toda esta sujeição ao plano
clássico da sonata é um mero capricho
virtuosístico, um respeito às leis do
passado, de um compositor que está
escrevendo admiravelmente bem. Camargo
Guarnieri, apesar de sua idade, já
está em plena madureza de espírito,
sabe o que quer. Se a própria novidade
de certas concepções dele faz certas
obras suas nos soarem estranhamente,
isso não autoriza nenhum leviano a
afirmar que ele escreva mal. Aliás já
não se falou isto mesmo de Debussy, de
Wagner, de Beethoven?... Mas, como ia
falando, a sujeição ao plano tonal
clássico é, por assim dizer, mera
garridice de hábil compositor. O
pensamento harmônico(21) de
Camargo Guarnieri, tanto nesta
Sonata como na maioria das
obras dele, é fundamentalmente
cromático, ou como se diz atualmente,
atonal.
E com a reexposição dos dois temas,
permitindo ainda novas habilidades
polifônicas do melhor quilate que a
carência de espaço não me permite
especificar, o trecho se acalma
e morre de novo tristonhamente, com
uma última exposição do primeiro tema,
no celo, no registro
inicial(22).
O segundo tempo está baseado num
motivo melódico, que se inspira nas
linhas da nossa modinha popular [Ex.
V].
Exemplo V.
Este motivo, seccionado às vezes
nos dois arabescos que o compõem,
exerce neste tempo uma verdadeira
função de motivo condutor wagneriano,
comentando o canto do violoncelo, e às
vezes se intercalando nele. E em toda
a peça, o grave do piano executa um
baixo melódico, de função sempre
polifônica mas acompanhante, inspirado
nos “bordonejos”(23) do
violão nacional. Expostos os elementos
pianísticos, o celo abre
apaixonadamente a voz, num canto de
esplêndida maleabilidade linear, que
sobe angustiado a um Lá agudo para
tombar de novo numa exaustão quase
calma, duma queixosa
melancolia(24). E emudece.
Então, o piano, a modo dum intermédio
livre, canta sozinho e se anima,
desenvolvendo os seus motivos se anima
ainda mais num canto oitavado até uma
ruptura brusca, de veemente efeito
dramático. Tudo emudece num instante
de silêncio negro. E novamente no
grave, as vozes iniciais do piano
retomam o movimento, e o canto do celo
se reproduz outra vez, apenas variado
para cadenciar em Mi, que é o tom
básico deste segundo
tempo(25).
O terceiro tempo, enfim, está
concebido em caráter de dança, como é
frequentíssimo nas músicas
nacionalistas de qualquer país, quando
concebidas em tempos seriados. A linha
é notabilíssima pela sua compridez,
com que o artista soube desenvolver
com uma lógica rara, as melodias tão
curtas da dança nacional [Ex.
VI](26).
Exemplo VI.
As melodias de Camargo Guarnieri
se caracterizam mesmo pela compridez.
A inspiração melódica de Villa-Lobos,
por exemplo, na sua fase moderna, é
curta. Se caracteriza muito mais no
motivo ou quando muito na frase de
poucos compassos. Nesse ponto de
vista, Camargo Guarnieri está em
relação ao grande compositor como
Mozart estava para Haydn, ou Beethoven
para Mozart: um passo na frente, como
elasticidade melódica.
O autor caracterizou a sua
melodia chamando-lhe “selvagem”. Será
selvagem, sim, pela aspereza, pelo
caráter psicológico, mas sem nada
ainda que evoque os “selvagens” da
América. É um batuque frenético, de
legítimo caráter negro. Mas talvez
impressionado pelo qualificativo que
dera à sua melodia, Camargo Guarnieri
teve uma das suas mais curiosas
invenções nesta Sonata. É
quando, à aparição do segundo tema o
grave do piano muda o obstinado em que
vinha desde o princípio do tempo, num
novo obstinado de caráter
ameríndio(27). Este
obstinado passa em seguida para o
celo, enquanto o grave do piano retoma
o outro obstinado inicial, e o segundo
tema vem na parte mais aguda do
teclado, em terças caipiras.
Assim, se o segundo tema, se
diria ainda um batuque rural, e se o
obstinado do piano, se inspira na
técnica instrumental, dos choros
mulatos e urbanos, o celo ajunta a
esse amálgama o seu obstinado
legitimamente ameríndio de quatro
séculos, repisando o pequeno movimento
melódico do canto da arara canindé,
registrado por Léry(28). É
um episódio que, além da sua magnífica
beleza sonora, ficou de uma simbologia
veemente, fundindo, numa só polifonia,
o choro alvi-mulato da cidade, o
batuque negro do campo e a praia
ameríndia! E tudo numa cariciosa
suavidade... [Ex. VII].
Exemplo
VII(29).
Figura I - Melo dia tupinambá,
recolhida por Jean de Léry em
1557(30).
Imediatamente depois se
anima(31) e o piano reentoa
o segundo tema em acordes compostos
por superposição de quartas, numa
aspereza de grande
amargor(32). É o clímax do
frenesi, de uma violência feroz, mais
outro episódio esplêndido. E agora no
desenvolvimento e combinação dos dois
temas, o tempo continuará áspero e
amargo até a exasperação
final(33). E estamos
classicamente em Lá maior...
Se trata de uma obra fortíssima,
extrema-mente bem arquitetada, severa,
mesmo na sua
construção(34). Temas de
invenção feliz, e desenvolvimentos
todos lógicos, admiravelmente bem
inventados, provando que no Brasil há
pelo menos um compositor que sabe
desenvolver. Apesar de alguns momentos
brilhantes, esta Sonata se
define em tom sombrio. Há nela um
sopro escaldante de asperidade fosca,
trágica às vezes. Permanece
frequentemente nos registros graves
dos dois instrumentos, e essa
permanência é justificada logicamente
por expressão de dor, um mal indizível
mas de força irrefragável, que nem o
episódio maxixeiro do primeiro tempo
consegue desmentir; é uma sonata em
roxo. E o segundo tempo, então, com a
sua grande beleza, a sua nobre e
dolorosa força expressiva, é uma das
páginas mais elevadas do compositor
paulista, um dos cantos mais
impressionantes da música
contemporânea.
NOTAS
(1) Seguiram-se a essa, a
Sonata no 2 (1955) e
a Sonata no 3
(1972). Somente a última foi editada,
em 1986, pela FUNARTE.
(2) O concerto foi anunciado no
jornal O Estado de São Paulo,
em artigos intitulados “Camargo
Guarnieri”, nos dias 17 de maio (ano
61, no 20.116, p. 3), 19 de
maio (idem, no 20.118, p.
3) e 24 de maio (idem, no
20.122, p. 4). Com o mesmo título,
esse jornal publicou uma crítica
anônima, no dia seguinte ao do
concerto (idem, no 20.125,
28 mai. 1935, p. 4), de onde
transcrevemos este fragmento: “O seu
valor técnico ou musical, não foi
ontem desmentido. Ao contrário,
reafirmou-se o juízo que se fazia do
jovem musicista e ainda se constatou
que não é ele apenas um `musicista
brasileiro' no sentido vulgar da
expressão, isto é, um harmonizador ou
estilizador de melodias brasileiras;
dos perfumes que na melódica nacional
colhe, sem cuidados e caprichos, mas
deles extraindo toda a sua vitalidade,
cria a mais fina essência e lhe dá o
caráter inconfundível de sua
procedência. E assim, surge a música
brasileira civilizada; com um forte
cunho estético, impõe-se à atenção, ao
acolhimento, ao respeito da arte
musical.”
(3) Foram estes os artigos de
Mário de Andrade sobre Guarnieri, no
Diário Nacional, São Paulo, anteriores
a 1935: “Mozart Guarnieri” (ano 1,
no 255, 08 mai. 1928, p.
2); “M.Camargo Guarnieri” (ano 2,
no 316, 18 jul. 1928, p.
7); “M.Camargo Guarnieri - Trovas de
Amor” (ano 2, no 430, 27
nov. 1928, p. 7); “Sonatina” (ano 2,
no 548, 17 abr. 1929, p.
6).
(4) ANDRADE, Mário de. Uma
Sonata de Camargo Guarnieri. Diário de
S.Paulo, São Paulo, ano 7,
no 2.178, 24 abr. 1935, p.
6. Existe um original no Arquivo Mário
de Andrade - IEB/USP, Recortes, pasta
35, p. 11. Esse texto foi reimpresso
em ANDRADE, Mário de. Música e
Jornalismo: Diário de São Paulo;
pesquisa, estabelecimento de texto,
introd. E notas de Paulo Castagna. São
Paulo, Hucitec/EDUSP, 1993, p.
292-296.
(5) Idem. Uma Sonata de Camargo
Guarnieri. In: Primeiro concerto de
obras do compositor paulista Camargo
Guarnieri. Programado concerto de 27
de maio de 1935, Teatro Municipal de
São Paulo, p. 4-5 (Programas Musicais
Brasileiros, no 473,
Arquivo Mário de Andrade -
IEB/USP).
(6) Idem. Uma sonata de Camargo
Guarnieri. Revista Brasileira de
Música, Rio de Janeiro, vol. 2,
no 2, p. 131-135, jun.
1935.
(7) O IEB preserva o manuscrito
de Mário de Andrade intitulado
“CAMARGO GUARNIERI / Notas tomadas em
meados de 1935 / ditadas pelo autor”,
onde se lê: “SONATA - Não se tem
lembrança de uma Sonata brasileira. Na
de C.G. trata-se de uma síntese dos
elementos não só melódicos como e
principalmente rítmicos nacionais, com
especialidade dos elementos paulistas.
Em geral, em Sonata como essa, o piano
começa. Aqui é o violoncelo que inicia
e conclui e aqui também o violoncelo
canta em todos os registros: no 1º
mais no grave; no 2º quase todo em
`capo-tasto', quando se ouve uma linha
de caráter modinheiro; no 3º em todos,
contrastes rítmicos, o piano em terças
à moda paulista e o violoncelo em
pizzicato num baixo obstinado. No 2º
tempo: a-b-a, o acompanhamento de a,
feito pelo piano, é desenvolvido em b
pelo piano solo. O senso tonal,
completamente impreciso, cunho pessoal
dessa última fase do autor”.
(8) O pensamento de Mário de
Andrade sobre “Análise Musical” foi
deixado no artigo de mesmo no medo
Diário de S.Paulo, de 25 de abril de
1934 (ano 6, no 1.360, p.
7), de onde extraímos estes
fragmentos: “Já é tempo da música e
dos músicos brasileiros ultrapassarem
aquela idílica condição colonial em
que vivemos musicalmente até os nossos
dias. Entre nós reina em música o mais
deficiente amadorismo, mesmo entre os
profissionais. Entre nós, o que se
requer pra ser chamado de `músico', de
`compositor', de `virtuose' e até de
`musicólogo', é apenas uma certazinha
habilidade na conformação duma
cadência ou na execução aqui de algum
barulho de Lizt. (...) Felizmente a
linguagem musical, em que falaram e
falam tantos artistas sublimes é uma
mensagem mais complexa e profunda, que
temos de decifrar na íntegra pra que
ela se revele tanto a nós mesmos como
aos ouvintes, em toda a sua riqueza
incomparável de mistério e
significação”.
(9) Conhecemos uma gravação
desta Sonata com Antônio Guerra
Vicente e Belkiss Carneiro de
Mendonça, no LP da Editora
Universidade de Brasília, P/81-1110,
1981, e outra com Antonio del Claro e
Laís de Souza Brasil, no LP da
FUNARTE/Pró- Memus, MMB 88.059,
1988.
(10) Utilizamos uma cópia
manuscrita de J. Carboni, de abril de
1950, cedida pelo compositor ao prof.
Mário Ficarelli, para o ensaio
“Sonatas e Sonatinas a duo”, escrito
em colaboração com Paulo Castagna,
para o livro Camargo Guarnieri:
vida e obra. Rio de Janeiro,
IBAC/São Paulo, EDUSP, 1992 (no
prelo).
(11) No Diário de S.Paulo
está: “A Sala de Arte”; na Revista
Brasileira de Música: “A Semana de
Arte”.
(12) No Diário de
S.Paulo: “vai adquirir desde
logo”.
(13) No Diário de
S.Paulo: “grande benemerência,
como concerto de obras de Camargo
Guarnieri, que está promovendo para o
fim deste mês”. Após a publicação do
artigo de Mário de Andrade nesse
jornal, o concerto foi transferido
para o mês seguinte.
(14) No Diário de
S.Paulo: “Dentre estas, estará uma
Sonata”.
(15) No Diário de
S.Paulo: “o caráter
conceptivo”.
(16) No Diário de
S.Paulo: “Esta Sonata se diria
mesmo um Trio”.
(17) Na Revista Brasileira de
Musica, o Sol grave vinha sem o
bemol, que acrescentamos. Esse acorde
percorre a parte do piano em todo o
desenvolvimento do terceiro
movimento.
(18) Mário de Andrade afirma,
logo adiante, que existe aqui uma
“sujeição ao plano clássico da
sonata”. Uma análise cuidadosa, no
entanto, demonstra que o primeiro
movimento está construído segundo a
forma Rondó-Sonata, com o esquema A
(a-b-a'-b') - B - A' (a”-b”-a'”). Na
seção A, subseção a (“Tristonho”, cps.
1-35), surge a melodia do violoncelo,
reapresentada pelo piano quinta acima,
que por várias vezes retorna, sempre
com modificações. Na subseção b (“Più
Mosso”, cps. 35-55), o piano trabalha
novo material melódico, acompanhado
por ornamentações do violoncelo, dando
lugar à subseção a' (“L'istesso
tempo”, cps. 55-73), caracterizada por
um “ostinato” do piano que altera
completamente a textura utilizada em
a. Na subseção b' (cps. 74-101), o
piano apresenta nova melodia, agora
sob notas longas do violoncelo e
utilizando fórmula de acompanhamento
já encontrada no final da subseção
a'.
(19) No Diário de
S.Paulo: “em Mi menor”. Na
verdade, a tonalidade do trecho que se
inicia no cp. 102 é bastante ambígua,
entre Mi menor e Mi maior.
(20) Entre os compassos 95-101,
ocorre uma ponte, construída com a
melodia de a, porém alargada,
proporcionando a ligação com B (cps.
102-133), seção contrastante, onde é
explorado um motivo de três notas, já
anunciado no final das subseções a e
b.
(21) No Diário de
S.Paulo: “O pensamento
tonal”.
(22) A seção A' (cps. 133-197)
funciona como reexposição. Na subseção
a” (“Poco meno”, cps. 133-166), volta
a aparecer a primeira melodia no
violoncelo, enquanto o piano conserva
elementos característicos de B, até o
cp. 162. A segunda melodia reaparece
na subseção b” (“Più lento”, cps.
166-189), com simplificação na parte
do piano e ênfase em notas da região
subgrave. A melodia de a volta a ser
tocada pelo violoncelo na subseção a'”
(cps. 189-193), em caráter de
recitativo, como no início do
movimento, encerrado por uma pequena
coda (cps. 194-197).
(23) A palavra “bordonejo” foi
dada pelo próprio Guarnieri. É o que
informa Mário de Andrade no artigo
“Sonatina” (Diário Nacional, São
Paulo, ano 2, no 548, 17
abr. 1929, p. 6), ao analisar o
segundo movimento da Sonatina para
piano, de Camargo Guarnieri: “O autor
indica que a peça tem de ser
`ponteada' e que o baixo deve imitar o
`bordonejo' do violão. Nunca vi a
palavra `bordonejo', que é esplêndida,
expressiva, bem formada. Entrou pro
meu vocabulário. Quanto a indicar que
a gente deve pontear a peça, não me
parece que esteja perfeitamente exato
não. Sei que nas línguas populares (e
ainda em formação, que nem a
brasileira), as palavras se sujeitam a
uma instabilidade semântica de
desnortear, porém `ponteio', `pontear'
são vozes já bastante fixas, indicam
`prelúdio', `preludiar',
`improvisar'”.
(24) No Diário de S.Paulo
: “duma queixosa malinconia”.
(25) O segundo movimento
(“Apaixonadamente”) está baseado na
forma Canção. Na seção A (cps. 1-28),
o piano expõe um motivo gerador de um
compasso, trabalhado simultaneamente
com a melodia exposta pelo violoncelo.
O motivo gerador é elaborado na seção
B (cps. 28-42), como integrante do
discurso do piano e da complementação
melódica do violoncelo. Uma grande
pausa no cp. 42 funciona como ligação
desta seção com a seção A', que tem
início no cp. 43. É uma reexposição de
A, com ornamentação na mão esquerda do
piano. A coda, a partir do cp. 57,
explora apenas o motivo gerador, com
um trabalho musical bem maior no
piano. Uma escala cromática
descendente, de uma oitava, serve de
acompanhamento para a última citação
desse motivo.
(26) O terceiro movimento, com a
indicação “Selvagem”, foi
construído segundo os princípios da
clássica Forma Sonata, mas com um
requinte próprio da arquitetura
musical de Guarnieri: a estruturação
da forma pelo trabalho com temas e
“ostinati”. Na re-exposição, o tema 1
é apresentado pelo piano, sobre um
primeiro “ostinato” da mão esquerda, e
repetido pelo violoncelo no compasso
14.
(27) A ponte (cps. 27-35), que
liga o tema 1 ao tema 2, nada mais é
que a extensão do primeiro “ostinato”.
O tema 2, derivado do primeiro, surge
no violoncelo (cp. 35), com um segundo
“ostinato” do piano, aparentemente
baseado na célula rítmica e melódica
do primeiro e segundo compassos do
próprio tema. Mas esse segundo
“ostinato” foi claramente retirado da
melodia indígena brasileira “Canidé
iouve”, o que nos leva a crer que
tenha servido também como substrato
para a construção dos temas e
“ostinati” deste movimento.
Habilmente, o compositor imprimiu
caráter próprio a cada uma dessas
derivações, reconhecidas por Mário de
Andrade como: “batuque frenético, de
legítimo caráter negro” (tema 1);
“choro alvi-mulato da cidade”
(primeiro “ostinato”); batuque negro
do campo” (tema 2) e “praia ameríndia”
(segundo “ostinato”).
(28) A melodia da qual Guarnieri
se utilizou para criar os temas e
“ostinati”, foi recolhida entre os
tupinambás pelo calvinista Jean de
Léry, na França Antártica (atual Baía
da Guanabara), em 1557. Impressa
inicialmente na terceira edição de sua
Histoire d'un Voyage fait en la
terre du Brésil... (Genéve:
Antoine Chuppin, 1585, Cap. XI, p.
159), esta melodia reapareceu em mais
de uma dezena de reedições da obra e
em inúmeros trabalhos musicológicos,
até ser empregada, pela primeira vez,
por Heitor Villa-Lobos, nos Três
poemas indígenas, de 1926, para
canto e piano, ou orquestra, com
versão para coro misto “a cappella”.
Várias composições, posteriores à
Sonata de Guarnieri, voltam a se
utilizar da melodia registrada por
Léry, como o Anhanguera, poema
sinfônico op. 11 no 7, de
Heckel Tavares (1954) e o
Moakaretá, suíte para quarteto
de flautas doces, de Sérgio
Vasconcelos Corrêa (1974), entre
outras. Este canto indígena foi
estudado por vários musicólogos, como
Luiz Heitor Corrêa de Azevedo
(Tupynambá melodies in Jean de Léry's
“Histoires d'un voyage fait en la
terre du Brésil”. Papers of the
American Musicological Society, Annual
meeting, 1941, pp. 85-96), Helza Camêu
(Introdução ao estudo da música
indígena brasileira. Rio de
Janeiro: Cons. Fed. Cult. e Depto. de
Assuntos Culturais, 1977 p. 83-101),
Manuel Veiga (“German and French
Visitors”. Art, vol. 14, 1985,
p. 33-90) e Paulo Castagna (Fontes
bibliográficas para a pesquisada
prática musical no Brasil nos séculos
XVI e XVII. Tese de mestrado,
ECA-USP, 1991, vol. 1, pp. 149-160 e
vol. 2, pp. 170-199). Mas há um
interessante comentário de Mário de
Andrade sobre esta e as demais
melodias anotadas por Léry, no artigo
“A música e a canção populares, no
Brasil” (Revista do Arquivo Musical,
São Paulo, ano 2, vol. 19, jan. 1936,
p. 249): “Jean de Léry já grafava, em
nosso primeiro século, algumas
melodias dos Tupis do litoral, mas
tanto dessa como de outras
contribuições de igual gênero, não
temos possibilidade alguma de controle
para determinar se são exatas ou não.
O mais provável é que sejam todas
inexatas”. E Guarnieri não se
preocupou com a fidelidade na
transcrição da melodia. Pelo
contrário, transformou-a, dando novo
significado e novo caráter a cada uma
de suas configurações.
(29) Apesar de suas observações,
Mário de Andrade não incluiu este
exemplo em seu texto. Extraímos o
fragmento, com o tema 2 e o segundo
“ostinato”, da própria partitura de
Guarnieri.
(30) Esta é uma das inúmeras
versões quinhentistas do “Canidé
iouve”, reproduzida na Viagem à
terra do Brasil, de Jean de Léry
(B.Horizonte, Itatiaia/S.Paulo, Ed.
USP, 1980, p. 150).
(31) No Diário de
S.Paulo: “Imediatamente depois
tudo se anima”.
(32) O trecho compreendido entre
os compassos 59-85 é a codeta da
exposição, estruturada sobre o tema 2,
com a mão esquerda do piano
trabalhando um terceiro “ostinato”,
claramente derivado do
primeiro.
(33) No desenvolvimento (cps.
86-134), todo construído por harmonia
de quartas, o violoncelo se limita a
executar o primeiro “ostinato” e o
piano explora intensamente o tema 2.
Entre os compassos 134-140, somente
aparece o tema 1, enquanto o piano
continua a trabalhar sobre o primeiro
ostinato. O violoncelo assume esse
papel na coda (cps. 166-179), apoiando
a insistência do piano sobre as cinco
primeiras notas do tema 2.
(34) No artigo “Camargo
Guarnieri” (Diário de S.Paulo,
ano 7, no 2.207, 28 de mai.
1935, 2ª seção, p. 7), Mário de
Andrade volta a tratar desta Sonata:
“Nada tenho a acrescentar aos
comentários e elogios que já fiz à
peça. Talvez apenas, como equilíbrio
de forma, se pudesse desejar que o
terceiro tempo fosse um bocado mais
longo, mais concludente. Mas neste
sentido, Camargo Guarnieri podia se
defender, invocando a Sonata em Si
bemol, de Chopin, e o Quarteto de
Debussy...”.
Mário Raul de Morais
Andrade (São Paulo, 1893-1945) foi
poeta, escritor, musicólogo,
folclorista, crítico e jornalista.
Influenciou toda uma geração de
compositores brasileiros e deixou um
volume extraordinário de escritos na
área musical. Dos cerca de 700 artigos
sobre música que publicou em jornais,
pouco mais de uma centena chegou a ser
reunida em livros. Seu arquivo vem
sendo catalogado, estudado e publicado
pela equipe do Instituto de Estudos
Brasileiros da USP.
Camargo Guarnieri (Tietê,
1907 - São Paulo, 1993) foi
compositor, regente, pianista e
professor. Tornou-se um dos músicos
brasileiros mais ativos do século XX,
reconhecido desde 1928, por suas
composições inovadoras e de caráter
nacional. Atingiu projeção
internacional, divulgando obras suas e
de compositores brasileiros, ao reger
as orquestras mais conhecidas de todo
o mundo. A partir de 1974 foi regente
e diretor artístico da Orquestra
Sinfônica da Universidade de São
Paulo. Em homenagem ao seu 85º
aniversário, o Instituto Brasileiro de
Arte e Cultura está patrocinando o
lançamento, em 1994, do livro
Camargo Guarnieri: vida e obra,
contendo a trajetória, o catálogo de
obras e a análise das principais
composições do grande músico
paulista.
Paulo Augusto Castagna
(São Paulo, 1959) é pesquisador da
música brasileira, graduado e
pós-graduado pelo Departamento de
Música da Escola de Comunicações e
Artes da USP. É professor da UNESP, da
Faculdade de Arte Santa Mercelina e da
Faculdade de Música Carlos Gomes,
tendo ainda participado do projeto
Mário de Andrade na crítica de
Artes Plásticas e Música,
coordenado por Telê Ancona Lopes e
Flávia Camargo Toni, no Instituto de
Estudos Brasileiros da USP, com
financiamento do CNPq.
Mário Ficarelli (São
Paulo, 1937) é compositor e professor
do Departamento de Música da ECA/USP.
Vem escrevendo música para solos, voz,
coral, formações camerísticas,
orquestra de câmara, orquestra
sinfônica e ópera, tendo obtido vários
prêmios em concursos de composição, no
país e no exterior. Suas obras estão
sendo executadas, gravadas e editadas
no Brasil e na Europa. Está escrevendo
a Sinfonia no 3, com apoio
da Bolsa Vitae de Artes.
Sonata Nº 1
para violoncelo e piano
a Iberê Gomes Grosso
Camargo Guarnieri (1931)




























































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