|
O SIGNIFICADO DE KAREL GOEYVAERTS
NA FORMAÇÃO DA MÚSICA SERIAL NOS ANOS 50
Herman Sabbe
Tradução de Álvaro Guimarães
Karel Goeyvaerts (Bélgica, 1923) ocupa uma
posição central na história da formação do serialismo
europeu.
Em sua Sonata para 2 Pianos ele utiliza
pela primeira vez e em mais de dois parâmetros sonoros
o duplo princípio da serialidade, pré-seleção modal
e equivalência distributiva, com isto inaugurando a
época do serialismo.
Webern forneceu os primeiros exemplos da possibilidade
de relacionar, pela aplicação de operações comparáveis,
diferentes parâmetros composicionais uns com os outros
- ordenação das alturas, ordenação dos valores de tempo,
instrumentação, condução das vozes - esses igualmente
determinantes da composição por meio da técnica da variação
serial, assim garantindo a homogeneidade estilística
da obra.
Messiaen despertou na França do pós-guerra,
por meio de sua música e seus ensinamentos, a consciência
de que estruturas rítmicas - que já a partir de La
Nativité du Seigneur (1935) vêm à cena como ostinati
e “personagens rítmicos” - tanto quanto e independentemente
das estruturas das alturas, poderiam submeter-se a essas
operações, e que a acoplagem sincrônica das sucessões
respectivamente das alturas, valores de tempo e também
intensidades assim geradas poderiam reger o desenvolvimento
de uma forma musical. Também com Messiaen, Goeyvaerts
descobriu o princípio da ciclicidade multiparamétrica
- fase-coincidente ou fase-deslocamento - que empregaria
em seus Opus 2 e 3 (respectivamente 1951 e 52).
Messiaen cultivou apenas raramente a serialidade
dodecafônica. A 2ème Pièce en Trio,
no 5 do Livre d'Orgue, seria o único
exemplo(1). Porém empregou a pré-seleção
modal sobre diversos parâmetros em todos os seus trabalhos
do período 1948-51: sobre valores de tempo em várias
seções da Turangalila-synfonie, sobre valores
de tempo ligados a intensidades na peça para piano Cantéyodyayâ,
sobre intensidades ligadas a timbres na “Consécration”,
no 3 da Messe de la Pentecôte para
órgão.
Mas é em dois dos Quatre Études de Rythme,
mais precisamente em Mode de Valeurs et d'Intensités
e em Ile de Feu II, que Messiaen aplicou sistematicamente
a pré-seleção modal, utilizada sobre valores paramétricos
acoplados e fixos, a saber: altura fixa (nota + posição
de oitava) ligada à duração fixa, sinal de articulação
e intensidade. 35 alturas combinadas com 24 valores
de tempo, 12 sinais de articulação e 7 intensidades
na primeira peça citada e respectivamente 12, 12, 4
e 5 desses valores na segunda.
Em Messiaen a disposição da pré-seleção modal
não é verdadeiramente equidistributiva. Ele chegou mesmo
a esboçar indicações de liquidação do material pré-selecionado
(das séries das alturas e valores de tempo, entre outras
coisas, em Ile de Feu e Livre d'Orgue)
que mais tarde os serialistas usariam frequentemente
como técnica de permutação: a troca de posição `en éventail'
- respectivamente por abertura ou fechamento do leque,
indo-se respectivamente dos elementos mais internos
ou mais externos aos mais externos ou mais internos,
de forma a fazer surgir uma seguinte, nova ordem serial.
Também Boulez contribuiu com importantes trabalhos
pioneiros a partir da Sonatine para flauta
e piano (1946), na qual a interpretação temática da
melódica de doze sons herdade de Schoenberg já se encontra
mesclada com características estruturais e estilísticas:
canons rítmicos e abolição da pulsação métrica por meio
de deslocamento das entradas, que são baseadas em Webern.
Na 2a sonata para piano ele abandona o trabalho
motivo-temático. A forma constitui-se agora por meio
de relações mútuas entre grupos materiais sucessivos
que se diferenciam enquanto tipos texturais e enquanto
combinações globais de diversas características paramétricas
(um grupo homorrítmico ff martelato ao lado de
um grupo de duplo-trinados pesadamente acentuados numa
posição de tessitura extrema, ao lado de um grupo que,
no interior de uma posição de oitava fixa, emprega uma
imitação rítmica sobre células intervalares características,
etc.). No Livre pour Quartour (1949) o tratamento
de diferentes parâmetros é serializado parcialmente,
isoladamente ou em pares. Os timbres na seção Ia, os
valores de tempo na IIIa, a intensidade e as indicações
de ataque na IIIc.
Com Poliphonie X (1951) Boulez apresenta,
aproximadamente ao mesmo tempo que Goeyvaerts com a
Sonata e Opus 2, um dos primeiros exemplos
de serialismo.
Os 1o e 2o movimentos
do Premier Livre des Structures para 2 pianos
(1952) formam com o trabalho de Goeyvaerts o exemplo
mais típico do estilo puntual. Porém este princípio
de procedimento, absoluto em Goeyvaerts, torna-se relativizado
por Boulez através do emprego de caracterizações globais.
O 1o movimento é uma ilustração perfeita
disto. A partir de uma série formam-se permutações das
sucessões de alturas e dos valores de tempo baseadas
em Mode de Valeurs et d'Intensités de Messiaen.
Cada uma dessas permutações relaciona-se com uma de
6 diferentes densidades simultâneas: de 1 até 6 “vozes”
simultâneas, cada uma delas ligada a uma intensidade
e sinal de articulação contantes. Além disto ocorrem,
pela variação dos tempos de silêncio, figuras fortemente
predominantes, por exemplo semicolcheias e fusas.
Como fundador do serialismo paramétrico Goeyvaerts
estimulou ao mesmo tempo o uso do arbítrio por
meio da conexão de diversas séries de parâmetros. Ele
desprezou a aparência de racionalidade que advém do
procedimento de derivação de uma série paramétrica a
partir de outra, por exemplo a derivação da série de
valores de tempo a partir dos semitons que constituem
os intervalos da série das alturas, em função de submeter
todos os valores direta e totalmente ao assim chamado
“Número Sintético”.
Goeyvaerts também antecipa-se na supressão
do pensamento motívico, ao introduzir o som isoladamente
- sequer mesmo o intervalo - como unidade composicional
elementar. Acrescenta-se que a série é assim intencionada
sem qualquer função formal significante, essa de reguladora
do equilíbrio pancromático, sequer uma única. Esta mesma
característica do serialismo é encontrada em Nono, mas
então em uma época posterior, principalmente em seus
trabalhos escritos entre 1955 e 59. Em suas composições
do início dos anos 50, como Polifonica-Monodica-Ritmica,
Compozicione per Orchestra I, etc., a construção
ainda é fundamentada no intervalo e na figura rítmica.
Nos trabalhos iniciais de Stockhausen - Kreuspiel
(1951), Klavierstuck IV (1952), Kontra-Punkte
(1953) - que surgiram sobre a influência direta de Goeyvaerts,
a absoluta puntualidade é firmemente estabelecida, como
nos Opus 2 e 3 (resp. 1951 e 52) deste
último. Entretanto em Kontra-Punkte o tratamento
puntual já é relativizado em direção a uma entre diversas
possibilidades e a peça evolui de um início puntual
a um final caracterizado por abundantes figurações melo-rítmicas,
com as quais também é reintroduzido um sinal de desenvolvimento
formal dramático; e mesmo em Kreuspiel o efeito
motívico está presente nas partes do oboé e clarinete-baixo.
Os pontos comuns entre os trabalhos de Goeyvaerts
e Stockhausen durante os anos 1951-53, como pode ser
concluído da seguinte relação, são numerosos:
1) Utilização do serialismo fundamentado em proporções
racionais, ordenação multiserial pré-redacional
do material e conexão paramétrica de dimensões ordenadas
seriais;
2) Utilização do princípio de unidade formal,
de preferência realizado na estrutura em cruz (Kreuspiel,
Studie I), por meio de espelhamento no ponto
de cruzamento (retrogressão, cruzamento de vozes, inversão
de permutação-evolução), convergência divergência na
tessitura, troca entre valores médios e extremos;
3) Estilo puntual na condução das vozes por
meio, entre outras coisas, da inserção dos valores de
tempo do silêncio no cálculo serial;
4) Construção do desenvolvimento formal pela
combinação de evolução direcional e distribuição proporcional
(Studie I);
5) Caracterização dos momentos formais por
meio de cambiantes posições de oitavas do total cromático
(Kontra-Punkte);
6) Conexões proporcionalmente invertidas de
valores de tempo e intensidades com alturas, em virtude
de suas distâncias em relação a uma posição média (Studie
I);
7) Instrumentação em virtude de uma classificação
dos sinais instrumentais de ataque (Kontra-Punkte);
8) Utilização de geradores eletrônicos com
a finalidade de produzir sons `estacionários' e efetuar
a integração do material sonoro e da estruturada forma
em função de séries de correspondências comuns (Studie
I)(2).
A partitura de Goeyvaerts para o projeto eletrônico
Opus 4 e sua primeira peça eletrônica Opus
5 formam os documentos mais incontestáveis para
uma das gêneses estéticas da música eletrônica em fita
magnética: a composição sintética da matéria sonora
de forma que o total assim obtido possa ajustar-se à
concepção formal única. Isto, enquanto correlato do
desenvolvimento da interpretação serial refletida e
ampliada, distancia-se nitidamente tanto da estética
da música concreta, que parte dos dados empíricos do
complexo mundo sonoro gravado e da qual os dois ensaios
de Messiaen e Boulez do ano de 1952 (respectivamente
“Timbres-Durées” e “Étude sur un Son”),
que também procedem de uma idéia sistemática serial,
podem ser vistos como uma exceção, quanto da estética
do método de composição com ruídos `sustractive', como
a empregada por Stockhausen a partir de seu Studie
II (1954).
A severidade de Goeyvaerts até mesmo na interpretação
puntual intencional da constituição tímbrica impede
a utilização da voz humana. Ela ocupara um lugar definido
na música serial já a partir de 1954, por um lado pela
diferenciação das indicações de canto, levada a cabo
no Le Marteau sans Maître de Boulez - ainda que
neste sentido já se encontre um esboço presente no 1o
mov. Da obra Lorca-Epitaaf (España en el Corazón,
1952) de Nono - através da qual a parte vocal pode ser
inserida não apenas na estrutura das alturas e valores
de tempo como também na seriação tímbrica; por outro
lado graças à decomposição do texto verbal em pequenas
partes elementares (morfemas até fonemas) que então
podem ser incorporadas - seja eletroacusticamente (Stockhausen,
Gesang der Jungline) seja pela conexão de diversas
vozes (Nono, II canto sospeso) - à estrutura
serial, mesmo puntual no caso de Nono.
Enquanto síntese intelectual entre a estética
de Webern e o precoce serialismo dele e de Messiaen,
e as possibilidades nele contidas para um desenvolvimento
posterior, os trabalhos de Goeyvaerts do início dos
anos 50 representam um momento único de notável significado
histórico, momento este que conjuga o final de uma evolução
da história da música ocidental como início de uma nova.
Uma análise: Sonata para 2 pianos
(1950-51)
Organização das Alturas
A obra se inicia-se com a exposição de uma série
de doze sons [Ex. I]. Esta série caracteriza-se pela
absoluta ausência de identidade estrutural. Nela
não ocorre nenhuma simetria, nenhum intervalo preferencial.
Exemplo I.
Este início marca a única indicação de organização
dodecafônica. A série ainda não antecipa nenhuma de
suas possíveis gestaltes. O desenvolvimento ulterior
das alturas no 1o mov. caracteriza-se pela
presença do total (pan)cromático em contínua transformação.
Uma conjugação mostra-se dominante: a ligação Dó-Fá#
(veja infra: a organização paramétrica). Ocorre uma
acentuação particular da nota Dó por meio de sua manifesta
reiteração agógica (comp. 45-47). O pancromatismo é
momentaneamente interrompido duas vezes por meio de
ostinati (comp. 22 e 30-31).
No 2o movimento evidencia-se um
novo processo de organização das alturas. Aqui a unidade
recorrente permanente vem a ser um grupo de 14 notas,
composto a partir do total cromático com a adição constante
das mesmas duas notas, cada uma repetida uma vez: Lá
e Mib (Ré#) [Ex. II]. Estas notas
não desempenham a função de eixo comum entre duas disposições
seriais, como em obras dodecafônicas.
Exemplo II.
Esse total é dividido sempre em duas metades
iguais de 7 notas, com idêntica constituição. Ambos
heptacordes são além disso transposições mútuas [Ex.
III].
Exemplo III.
A constelação interna de ambos heptacordes
é modificada a cada repetição: cada nota reaparece a
cada vez em uma outra posição de oitava. Além disso
a disposição total do grupo serial evolui de uma posição
mais aberta para outra mais cerrada [Ex. IV].
Exemplo IV.
Esta evolução efetua-se gradual e sistematicamente,
em dez fases que exibem dez disposições sucessivas de
ambos heptacordes [Ex. V].
Exemplo V.
A redução sistemática do âmbito dá-se por rotação
concêntrica: com exceção das notas Lá e Mib
(Ré#), as quais se apresentam duas vezes
e ocupam invariavelmente as mesmas posições (respectivamente
oitava 2 e oitava 4), cada nota é deslocada uma oitava
a cada vez, do grave para o agudo, mais claramente da
região mais grave à mais aguda, saltando em seguida
novamente para a agrave, da segunda mais grave para
a segunda mais aguda, e assim por diante até que todas
as notas tenham ocupado pelo menos uma vez todas as
5 (ou 6) posições de oitava e finalmente concentrem-se
dentro do âmbito, atrelando-se umas às outras por intermédio
das duas notas-eixo Lá e Mib (Ré#)
[Ex. VI].
Exemplo VI.
A evolução do registro é acompanhada também por
uma evolução da composição intervalar: de uma total
predominância dos intervalos extremos (segunda e sétima)
a uma relativa preponderância dos intervalos de distância
média (quarta, trítono e quinta), e de uma inteira concordância
da constituição de ambos heptacordes - no sentido de
uma isomorfia estabelecida a partir de uma relação de
complementaridade: cada intervalo do heptacorde II é
o complemento do intervalo correspondente do heptacorde
I - a um grau pouco significante de relações recíprocas
[Ex. VII].
Exemplo VII - Composição intervalar
das dez frases.
Os desvios que sucessivamente se produzem,
tanto de sistemática de rotação de registro como de
isomorfia intervalar, são atribuídos à paralelamente
crescente estringência da concentração de todas as notas
e intervalos no interior do âmbito mais estreito. A
partir da totalidade do princípio de espelhamento aqui
existente verifica-se também que as duas notas com ordem
de posição correspondente em cada um dos pares de heptacordes
correspondentes situam-se a distâncias iguais de uma
das notas-eixo.
Disposição polifônica das alturas
As alturas, pré-ordenadas como acima descrito,
são tratadas pelos dois pianos, respectivamente as quatro
mãos, como segue:
1. Juntas, as duas partes dos pianos expõem
sempre e integralmente uma única e mesma disposição
da unidade de 14 notas, sucessivamente da disposição
A até a disposição J, assim dividindo o total em dez
partes imbricadas;
2. A parte de piano superior apresenta a disposição
por movimento direto (isto é, da disposição-heptacorde
I para a disposição-heptacorde II) e a inferior por
movimento contrário, em forma retrógrada (da II para
a I);
3. Em cada parte a mão direita conduz as notas
da disposição-heptacorde escritas na clave de Sol e
a mão esquerda as notas correspondentes na clave de
Fá.
A representação gráfica mostra o total como
segue: cada disposição se apresenta em conjunção simultânea-sucessiva
[Ex. VIII, 1o], em quatro direções [Ex. VIII,
2o], e a seguir, em imitação invertida [Ex.
VIII, 3o].
Exemplo VIII.
Obtém-se assim, em cada uma das dez divisões
do 2o movimento, a unidade global das alturas
em cada uma das partes separadamente e, ao mesmo tempo,
duas vezes em seguida na execução combinada dos 2 pianos.
Exemplificando: divisão I, partes separadas: piano I,
cp. 1 até a primeira nota no cp. 4; piano 2, cp. 1 até
o Ré# na mão esquerda; as duas partes juntas,
primeira vez: do início até o Ré na mão esquerda do
piano 1; segunda vez: o restante da divisão como abaixo
[Ex. IX](3).
Exemplo IX.
Organização paramétrica
As alturas são correlacionadas com os valores de
outros parâmetros sonoros. A cada nota liga-se, por
escolha, um valor de tempo específico, uma intensidade
e um sinal de articulação específicos.
No 1o movimento estas correlações
são construídas a partir de uma disposição das alturas
em torno das duas notas-eixo Dó e Fá# [Ex.
X] que se ligam a seis valores dentro de cada um dos
três outros parâmetros.
Exemplo X.
Aqui esta ligação é no entanto ainda muito
fraca. Cada uma das conexões das notas-eixo com os valores
mais extremos de intensidade e duração é de significância
relativa. A partir daqui é possível uma representação
esquemática das combinações paramétricas que pode ser
considerada como um modelo teorético de aplicação não
rigorosa [Ex. XI].
Exemplo XI.
No 2o movimento a aplicação da organização
paramétrica torna-se mais precisa, e também fundamenta-se
em bases aritméticas mais sólidas. Parte-se novamente
da organização das alturas em torno de duas notas-eixo,
aqui Lá e Mib (Ré#) (cf. supra),
na qual a cada nota, em função da sua distância em relação
a elas, é anexado um valor aritmético [Ex. XII].
Exemplo XII.
As conexões com outros valores paramétricos dão-se
agora em base do Número Sintético(4),
ao qual todos os sons se submetem: a soma de seus quatro
valores paramétricos deve resultar sempre igual a 7.
Os elementos dos demais três parâmetros (duração,
intensidade, articulação) são assim pré-organizados
em uma série fixa e, em função de uma decisão totalmente
arbitrária do compositor, supridos de um valor classificatório
[Ex. XIII].
Exemplo XIII.
A combinação altura-duração é a que apresenta
a maior precisão. Os valores de tempo também são construídos
sobre um eixo bidirecional em torno de um valor médio.
O princípio de ligação com o eixo de alturas baseia-se
em proporção invertida: quanto mais próxima a altura
do valor eixo 0, mais próxima a duração do valor extremo,
e o inverso.
Exemplificando: os valores-eixo de altura Lá e Mib
são ligados cada um com os valores de tempo 2 e 3 (respectivamente
18x e 42x); os valores de altura extremos Fá#
e Dó, ao contrário, não se ligam sequer uma vez com
os valores de tempo superiores a 2; o Mi, muito próximo
do valor-eixo de altura, apenas excepcionalmente é ligado
aos valores médios de duração, e somente com um dos
valores 1 (semínima pontuada ligada a colcheia pontuada);
o Fá, próximo do valor de altura extremo, é ligado apenas
a um dos valores de tempo 3 (nunca a mínima pontuada
ligada à semínima pontuada).
A combinação com os valores de intensidade
e sinais de articulação não apresenta menor precisão.
Os valores-eixo Lá e Mib apenas excepcionalmente
não são dotados de p ou mp
(respectivamente: sequer uma única vez pp,
2 vezes em 60 f). Em oposição está que
por exemplo o Fá# aparece 13 vezes em 20
com pp (o forte, com se alto valor, 4,
figura naturalmente raras vezes!). Quanto aos sinais
de articulação: os valores-eixo de altura são dotados
apenas 7 vezes em 60 com o valor 1 (portato),
enquanto por exemplo o Fá# aparece ao contrário
11 vezes em 20 com sinal de portato ou portato-staccato.
Veja o exemplo abaixo [Ex. XIV]:
Exemplo XIV.
Rigor da Organização
A organização pré-ordenada das alturas, junto com
a determinação da disposição polifônica, e a organização
paramétrica, antecipam em grande parte o desenvolvimento
composicional do 2o movimento. Porém
isto ainda codefine-se em última instância por um esgotamento
de liberdade cuja medida descreve-se através dos seguintes
elementos de escolha:
1. A nota média (aquela com posição de altura mais
central) de cada agregado de 7 notas (cada disposição-heptacorde,
veja [Ex. V]) pode ser utilizada seja na mão direita,
seja na mão esquerda, seja alternando uma vez na mão
direita, outra na esquerda. Por outro lado as notas
médias, justamente por suas posições, permancem inafetadas
pelas variações que se impõem pela redução progressiva
no interior dos limites do âmbito mais estreito, cf.
supra. Elas permanecem submetidas até o final ao princípio
de espelhamento, assim como ao duplo princípio
de espelhamento através do qual situam-se a distâncias
idênticas de ambas as notas-eixo;
2. Enquanto total cada um dos grupos respectivamente
de três ou quatro notas, distribuídas pelas claves de
Sol ou Fá e que juntos formam os agregados de 7 notas,
são usados por inteiro. A ordem sequencial das notas
constitutivas permanece totalmente livre (veja no [Ex.
IX] os 4 pares aI1, alz, aI2, aII1 e aII2).
3. Os valores de tempo referem-se sempre à
acoplagem nota + (eventual) silêncio. A distribuição
do valor aos dois elementos permanece sempre livre.
Desta maneira apresentam-se como figuras reais todos
os valores de tempo previstos (Ver [Ex. XIII), com exceção
do mais longo (mínima pontuada com semínima pontuada)
e mais semicolcheia e semínima pontuada ligada a semicolcheia.
4. Nos parâmetros duração e articulação existe
para cada valor paramétrico (excetuando o valor de tempo
mais médio) a escolha entre duas possibilidades (ver
[Ex. XIII]).
5. Para que cada som, partindo da altura, atinja
a soma 7 imposta pelo “número sintético” a combinação
dos três demais valores paramétricos oferece diferentes
possibilidades. Estes graus de liberdade são mais numerosos
para as alturas não-extremas e não-médias. Para uma
posição de altura com valor 3 (isto é, uma posição extrema)
a combinação dos três outros valores paramétricos deve
compor o número 4 para atingir afinal a soma 7. Assim,
ela não pode ligar-se nem a uma intensidade forte, nem
a um valor de tempo 3. Ligando-se ao valor de tempo
2, então pode levar apenas pp como intensidade
junto com portato como articulação. As alturas com cifra
0 (isto é, as notas-eixo), que a partir da combinação
devem atingir a soma 7, não podem levar nenhum valor
de tempo 0, nem intensidade pp, e se tiverem
1 como valor de tempo, poderão combinar-se apenas com
f ou com staccato (ou legato);
enquanto que as alturas 1 e 2 podem receber todos os
valores de tempo, e apenas pela combinação respectivamente
com os valores de tempo 0 e 3 não restaria nenhuma escolha
posterior para a combinação dos dois parâmetros restantes.
A escolha de possibilidades disponíveis, tal
como acima descrito, evidencia-se através dos seguintes
padrões de medida, dos quais o caráter mais ou menos
imperativo é novamente delimitado pela liberdade já
definida:
1. A sucessão de valores de tempo é co-definida
pela necessidade de se apresentar cada unidade de 14
notas mais ou menos como um bloco. A distribuição sobre
as 4 mãos sobrepostas deve assim ser mantida nos limites
de um espaço de tempo global.
2. A escolha de sucessões nos grupos de 3 ou
4 notas e a determinação dos valores de tempo superpostos
são influenciados pela prática de se evitar a formação
de oitavas.
3. A alternância na ordem e sucessão entre
os grupos de 3 ou 4 notas que se apresentam sempre duas
vezes é claramente inspirada pela prática de se evitar
identidades seriais que se destaquem, sejam imitações
literais, sejam retrogradações.
4. A prática de se evitar a coincidência de
diferentes articulações pelas quais a distribuição hetero-rítmica
seria neutralizada co-orienta a escolha dos valores
de tempo.
5. Onde exista uma escolha entre sinais de
articulação a decisão é tomada em função de se realizar
o padrão fraseológico, em vista disso, consequentemente,
força-se uma decisão semelhante a partir da escolha
da combinação específica dos demais parâmetros.
No 1o movimento, onde a liberdade
geral de escolha é mais ampla, o agrupamento imitativo
de padrões fraseológicos e figuras rítmicas de naturezas
iguais exerce uma determinada influência no estabelecimento
do sinal de articulação e valor de tempo.
Estrutura da Forma
O total está edificado a partir de quatro movimentos,
dos quais o segundo e o terceiro se interpenetram
via uma ligação attacca.
A organização das alturas assim como a paramétrica
foi abordada em relação ao 1o e 2o
movimentos da sonata. Suas aplicações no 3o
e 4o movimentos derivam diretamente da estrutura
da forma total da obra: 3o e 4o
movimentos resultam retrógrados dos 2o e
1o, respectivamente.
O 3o movimento é uma retrogradação
fiel e absolutamente exata do 2o(5), entendendo-se
que:
1. A rotação sobre a ligação-attacca
entre os dois movimentos é construída de certa forma
assimétrica, a saber, a partir do Ré# na
mão esquerda do piano 1 no último compasso do 2o
movimento até a pausa e o Lá# no piano 1
e o Fá na mão direita do piano 2 no compasso 1 do 3o
movimento, cuja última nota representa também o único
valor de tempo assimétrico;
2. O compasso 6/8 com o qual o 2o
movimento termina, por ser exceção na medida de tempo,
não é repetido;
3. Produz-se uma troca entre os dois pianos:
a parte do piano 1 é continuada no piano 2 por espelhamento
retrógrado, e vice-versa;
4. Cada unidade nota + silêncio é retrogradada
na sua totalidade, respeitando-se a sequência original
nota-silêncio [Ex. XV], de forma que surjam novas combinações
melódicas e novos padrões fraseológicos;
5. O tempo é alterado, a saber, dobrado.
Exemplo XV.
O 4o movimento é igualmente uma
retrogradação do 1o, mas então bem menos
exata do que é no caso do 3o em relação ao
2o. Não apenas ocorre aqui uma modificação
do tempo (uma semínima = 48, em oposição a 72) e uma
troca entre as duas partes dos pianos (parte I torna-se
parte II e vice-versa), como também uma troca de posições
de oitava para as alturas mais extremas (a nota mais
aguda passa a ser a mais baixa e a mais baixa torna-se
a mais aguda) e, no 4o movimento, uma ampla
passagem com alteração de compasso com considerável
modificação da extensão total: 30 compassos (24x 4/4
e 6x 12/8) contra 55 (54x 4/4 e 1x 5/4). Além disso
e sobretudo o desenvolvimento desvia-se, a princípio
pouco a pouco e principalmente a partir do compasso
10 (após a passagem com a acentuação da nota-eixo Dó,
cf. supra) cada vez mais, da fidelidade e exatidão,
de forma que o final, também por causa da frequente
supressão de notas, apresenta não mais que uma pequena
semelhança com a passagem correspondente do 1o
movimento.
O princípio de espelhamento efetua-se assim
sobre o campo de constituição das alturas (o trítono
como eixo, a troca das notas-eixo entre os movimentos
mais internos e os mais externos, a dupla relação de
transposição e de inversão entre as disposições respectivamente
horizontais ou verticais dos dois heptacordes); sobre
o campo de condução das vozes (o contínuo cruzamento
entre ambas as partes de piano no 1o e 2o
movimentos, a troca de partes entre os movimentos mais
internos e mais externos, a troca das posições de oitavas
mais extremas entre o 4o e o 1o)
e sobre o campo do total forma-estrutura (o retrógrado
entre o último e o primeiro movimentos).
A forma da obra é ademais co-definida pela
utilização do princípio de convergência no 2o
movimento, expressando-se na evolução convergente da
extensão do registro, do âmbito mais amplo ao mais estreito,
e na evolução concêntrica em direção à acentuação de
um duplo centro sonoro por meio da iteração progressiva
das notas-eixo (veja nota 1)(6).
No 3o movimento produz-se a evolução
inversa: o espelhamento estabelece assim a unidade formal
convergência-divergência. Os aspectos formais espelhamento
e convergência-divergência constituem juntos a unidade
da forma: forma em cruz, mais comumente a forma-X, da
qual o ponto central coincide com o último tempo do
2o movimento e o primeiro do 3o,
isto é, a rotação entre a exposição por movimento direto
e a recorrência, conforme supra.
A forma em cruz é confirmada pelo direcionamento
da organização composicional para o meio da obra, consequentemente
a organização desembaraçada em direção aos extremos
(cf. supra: livre organização das alturas, livre organização
paramétrica, livre utilização do retrógrado).
NOTAS
(1) Veja JOHNSON, Robert Sherlaw: Messiaen,
J.M. Dent and Sons, London, 1975, p. 113.
(2) Veja, para uma argumentação detalhada sobre
esta influência direta, meu artigo “Das musikdenken
von Karel Goeyvaerts in Bezug auf das Schaffen von Karlheinz
Stockhausen”, in: Interface II, 1, agosto 1975, Amsterdam.
(3) Transcrevo este exemplo do manuscrito em
minha posse. A partir da sistemática composicional (veja
a constituição-heptacorde) sabe-se que a terceira nota
na mão direita no piano II, Si, deveria propriamente
ser um Lá. Não é possível afirmar com certeza se nos
encontramos aqui verdadeiramente com um lapsus calami.
Contra este argumento induzido da sistemática depõe
o fato de que o mesmo Lá na mesma parte não se apresenta
ainda outras quatro vezes onde, para satisfazer a sistemática,
deveria aparecer. Além disso seria também um lapsus
fortemente persistente, visto que se repete na retrogressão
(veja penúltimo compasso do 3o mov.). Esta(s)
substituição(ções) poderia(m) ser explicada(s) pelo
desejo de intensificar a função de centro sonoro que
o Lá, após o final do 2o mov. e o início
do 3o, deve cumprir (cf. estreitamento do
âmbito) por meio de suas frequentes e súbitas aparições.
Esta suposição é estabelecida pelo fato de que a outra
nota-eixo Mib aparece apenas 15 vezes em
cada uma de ambas as partes, em lugar de 20.
(4) “Número Sintético” (sintetische getal)
é um termo empregado pela primeira vez por Karel Goeyvaerts
em relação a esta sonata. É depois adotado por Stockhausen
e aparece na correspondência inicial entre os dois compositores.
(5) Pelo menos se aceitarmos que o Láb
no piano II compasso 20 é uma falta sobre o Lá, e o
Dó no piano I compasso 23 outra sobre o Dó#.
Isto parece bem plausível. Aqui não é evidente a presença
de qualquer argumento para duvidar-se da ocorrência
de um lapsus calami (cf. (3)). A explicação
para a ausência do Fá no piano II compasso 21 é também
duvidosa.
(6) A duplicação do tempo no 3o
movimento produz de fato um desvio da correta concentricidade:
a rápida sucessão das notas-eixo efetua na percepção
uma maior pregnância destes centros sonoros no início
do 3o movimento do que no final do 2o.
Herman Sabbe (Bélgica, 1938) é Diretor
do Seminário de Musicologia e do Instituto de Psicoacústica
e Música Eletrônica da Universidade Nacional de Gand,
sendo também professor na Universidade Livre de Bruxelas,
editor da revista Interface e consultor de diversas
enciclopédias, tais como Algemene Muziek Encyclopedie.
Sonata
para 2 pianos
Karel Goeyvaerts
(1951)
|
|
nº1
|
|
|
circa 12'30"
|
1951
|
Karel Goeyvaerts
|

































voltar
|