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CARACTERÍSTICAS DODECAFÔNICAS
DO ALLEGRETTO CON MOTO, DE C.GUERRA PEIXE(1)
Glaura Lucas
A técnica de composição dodecafônica, desenvolvida
por Arnold Schoenberg no começo deste século, chegou
ao Brasil em 1937, trazida por H.J. Koellreutter, atraindo
o interesse de alguns compositores brasileiros, dentre
eles César Guerra Peixe.
Guerra Peixe inicia seus estudos com H.J. Koellreutter
em 1944, marcando assim o começo de sua segunda fase
composicional (Allegretto com Moto, para
flauta e piano, foi composta em 1945). Extendendo-se
até 1949, esta fase se caracterizou também por tentativas
de fundir os princípios do dodecafonismo ao nacionalismo.
Podemos verificar a série de 12 sons imediatamente
no início da peça, sendo formada pelas dez primeiras
notas da voz superior do piano, finalizando nas duas
primeiras notas da flauta [Ex. I]. Porém, embora pareça,
à primeira vista, ter sido composta dodecafonicamente,
ela não se desenvolve seguindo rigorosamente as leis
desta técnica.

Exemplo I.
Ao observarmos a voz da flauta isoladamente,
notamos que ela foi construída principalmente a partir
da série original. Porém, o compositor nunca a apresenta
integralmente, ou na ordem esperada. Observamos a seguir
[Ex. II], como ele dispõe as notas da série original
na voz da flauta ao longo da peça (as tabelas com as
séries decorrentes - retrógrados, inversões e inversões
de retrógrados, bem como suas transposições - encontram-se
ao final do artigo).

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Ia exposição- (1 2 3 4 5 6 7 8 9 10)
11 12
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VIIIa e xposição-2 4 3 5 11 2 9 10
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IIa exposição- 1 3 4 5 7 8 9 10
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IXa exposição- 1 3 4 5 6 7 9 10 12
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IIIa exposição- 2 1 4 3 5 6 7 8 9 10
11 (12)
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Xa exposição- 4 6 7 3
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IVa exposição- 2 12 3 1 4 5 7 8 9 6 l0
11 12
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XIa exposição- 2 12 6 5 7 8 9 10 3 14
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Va exposição- 2 8 12 9
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XIIa exposição- 7 6 10 8 9 10 11 2 3
1 4 5
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VIa exposição- 2 1 3 4 7 8 9 10 11 12
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XIIa exposição 7- 8 9 10 12 2 1 3 4 5
6
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VIIa exposição- 2 1 3 4 6 5 7 8 910 11
12
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Exemplo II.
A parte do piano não apresenta, na maioria
das vezes, as notas da série original que complementariam
a flauta. Piano e flauta também não se complementam,
quando procuramos em suas notas as outras séries deduzidas
a partir da original.
Analisando-se só o piano, encontramos apenas
fragmentos de séries contendo no máximo seis notas.
Interessante que podemos notar, entretanto,
interpretar alguns trechos da flauta também como sendo
partes provenientes de outras séries que não a original,
e podemos atribuir os pequenos fragmentos de séries
que compõem a parte do piano, a várias das séries possíveis.
Esta multiplicidade de interpretação ainda se torna
mais evidente se considerarmos como característica de
construção da peça a possibilidade de utilização das
séries com omissão de notas ou com notas em ordem invertida.
Como exemplo, podemos citar as notas da flauta
dos compassos 7, 8 e 9 que, analisadas do ponto de vista
da série original, estariam na seguinte ordem:
[O 1] - 2 1 4 3 5 6 7 8 9 10 11
Estas notas podem, porém, ser interpretadas
como sendo [IO 9] - 1 2 3 4 5, seguida de [O 1] - 6
7 8 9 10 11.
Também as notas do penúltimo e último compassos
da flauta podem ser interpretadas tanto como sendo provenientes
de [O 1] - 2 1 3 4 5 6, quanto de [IO 4] - 7 8 9 10
11 12.
Guerra Peixe, portanto, utiliza o material
dodecafônico de forma bastante particular para construir
esta peça. A fragmentação das séries e suas inúmeras
possibilidades de interpretação encontram explicação,
entretanto, na forma como o compositor estruturou a
série original.
Ao dividirmos a série original em quatro grupos
de três notas, percebemos uma estreita relação entre
estes grupos: os três intervalos formados entre as três
notas existentes em cada grupo são uma segunda menor,
uma terça maior e uma terça menor. Podemos observar
[Ex. III] que a ordem e o direcionamento destes intervalos
diferem de um grupo para o outro. Constatamos, porém,
que o segundo grupo é o retrógrado transposto do primeiro;
o quarto grupo é o retrógrado da inversão transposto
do primeiro; já o terceiro grupo apresenta uma disposição
diferente das notas, gerando, assim, uma ordem especial
destes intervalos.

Exemplo III.
A série de 12 sons, portanto, foi construída
a partir de uma célula estrutural de três notas apenas.
Assim, a série já contém em sua própria estrutura interna
os princípios dodecafônicos básicos de inversão e retrogradação.
Isto faz com que as séries derivadas da original tenham
entre si uma grande semelhança, contendo fechos iguais,
ou com pequenas diferenças na ordem das notas (devido
à disposição diferente das notas do 3º grupo). Os grupos
da série [IO 4], por exemplo, contêm as mesmas notas
dos grupos da série original [Ex. IV].

Exemplo IV.
Várias outras séries apresentam dois dos quatro
grupos com as mesmas notas dos grupos da original.
Por esta razão é que observamos tantas possibilidades
de interpretação de diversos trechos da peça. Isto explica
também o fato de sempre acharmos séries incompletas,
e com ordem de apresentação de notas invertida. Na verdade,
o desenvolvimento da peça se dá, a partir da relação
entre apenas três notas, e não doze. De fato, podemos
constatar um grande número de combinações destes intervalos
ao longo de toda a peça.
Este princípio de estruturação da série dodecafônica,
presente nesta peça de Guerra Peixe, pode ser verificado
também nos procedimentos de composição serial de Anton
Webern. A série de Allegretto com Moto em particular
se assemelha bastante à do Concerto para nove instrumentos,
Opus 24, de A. Webern.
A série de Webern contém uma figura inicial
também de três notas, seguida do retrógrado de sua inversão,
de seu retrógrado e de sua inversão [Ex. V]:

Exemplo V.
A semelhança se estende à própria forma como
a figura inicial foi montada: os intervalos formadores
das figuras iniciais são os mesmos em ambas as séries,
diferindo apenas em sua ordem de apresentação. Uma outra
diferença entre as duas séries está no fato de que Guerra
Peixe não apresenta a inversão da figura inicial na
ordem esperada (Si, Ré#, Ré), trocando a
ordem das duas primeiras notas (Ré#, Si,
Ré).
Agindo assim, o compositor estabelece, na sua
série, um outro fator estrutural importante da peça:
os intervalos de quinta/quarta justas. Se dividirmos
a série ao meio e partirmos do intervalo central - formado
pelas notas 6 e 7 - em direção às extremidades, os intervalos
simétricos assim formados são de quinta ou quarta justas,
com exceção dos dois últimos: ao invés das quintas ou
quartas justas serem formadas entre as notas 2 e 11,
e 1 e 12, formam-se entre as notas 2 e 12, e 1 e 11
[Ex. VI].

Exemplo VI.
Na verdade, os intervalos formados simetricamente
entre as notas 2 e 11, e 1 e 12 são uma segunda menor
e uma têrça menor, o que reforça a importância destes
intervalos na construção da peça.
Podemos verificar, de fato, a existência de
103 intervalos de quinta ou quarta justas - sejam melódicos
ou harmônicos - nos 38 compassos que formam a peça.
Apenas 3 compassos em toda a peça não apresentam este
intervalo.
Todas as maneiras de se formar um intervalo
de quinta ou quarta justa estão presentes na peça. O
intervalo mais freqüente é o formado pelas notas Lá
e Mi, seguido do formado pelas notas Ré#
e Lá#. Eles aparecem independentemente de
estarem vinculados a séries, embora eles sejam os intervalos
centrais (forrnados pelas notas 6 e 7) das séries mais
presentes na peça: [O 1], [IO 4] e [O 7].
Conclusão
Ao compor Allegretto con Moto, para
flauta e piano, no segundo ano de sua fase composicional
caracterizada pelo dodecafonismo, Guerra Peixe já demonstra
uma considerável liberdade no tratamento serial.
Em síntese, as principais características estruturais
dodecafônicas desta peça são:
— a série foi montada à partir de uma figura
inicial de três notas contendo entre si os intervalos
de uma segunda menor, uma terça menor e uma terça maior;
— para construir a série, o compositor apresenta
a figura inicial seguida do seu retrógrado; coloca após,
a inversão com as duas primeiras notas em ordem trocada,
e finalmente, o retrógrado da inversão;
— há uma grande semelhança entre esta série,
e a estruturada por Anton Webern no Concerto para
nove instrumentos, Op. 24;
— a série completa só aparece uma vez ao longo
de toda a peça;
— há uma ampla utilização dos intervalos de
quinta/quarta justas (presentes na estruturação da série).
Observamos, portanto, que ao mesmo tempo que
constrói uma série de doze sons que traz em si própria
princípios dodecafônicos básicos como inversão e retrogradação,
o compositor contraria outros princípios formais igualmente
determinantes para a caracterização da técnica dodecafônica.
Ao desenvolver a peça, por exemplo, Guerra
Peixe não faz uso das séries deduzidas da original conforme
as leis dodecafônicas, estabelecendo, ao invés, um jogo
mais livre entre os três intervalos formadores da figura
inicial da série.
Além disso, o compositor usa como elemento
estrutural da série um intervalo, que por estar intimamente
vinculado ao sistema tonal, deveria ser evitado segundo
as leis dodecafônicas: a quinta justa.
Embora possamos ampliar e aprofundar ainda
mais o espectro analítico, concluímos já aqui que o
rigor formal-estrutural de Webern ou de Schoenberg não
são referências para Guerra Peixe.
Essa peça reflete mais propriamente a busca
de uma estética particular dentro do atonalismo do que
a concretização de leis e princípios dodecafônicos.
Allegretto con moto
C.Guerra Peixe Rio de Janeiro,
1945
Allegretto con moto




Edição gentilmente realizada por André Guerra:
(031)224-8097
ALLEGRETO CON MOTO
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Série Original - O
|
Série Retrógrada-
RO
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ALLEGRETO CON MOTO
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Inversão- I
|
Relrógrado da inversão
- RI
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NOTA
(1) Trabalho realizado na disciplina Análise
Fenomenológica, orientado pelo Prof. C.Kater e objeto
de comunicação, em 07/10/1991, no “III Ciclo de Análise
Musical”, promovido pelo NAPq-Núcleo de Apoio
à Pesquisa, da Escola de Música/UFMG.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARRAUD, Henry. Para Compreender as Músicas
de Hoje. Trad. de J.J. de Moraes e M.L. Machado.
São Paulo: Editora Perspectiva, 1975.
BOULEZ, Pierre. A Música Hoje. Trad.
de R. de Carvalho e M.A. Leite de Barros. São Paulo:
Editora Perspectiva, 1981.
MARIZ, Vasco. História da Música no Brasil.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983 (2ª ed.).
NEVES, José Maria. Música Contemporânea
Brasileira. São Paulo: Ricordi, 1981.
WEBERN, Anton. O Caminho para a Música Nova.
Trad. de C.Kater. São Paulo: Novas Metas, 1984.
Glaura Lucas estudou piano, técnica
vocal e matérias teóricas na Fundação de Educação Artística,
de Belo Horizonte. Está concluindo o curso de Pós-Graduação
em Musicologia Histórica Brasileira, na Escola de Música/UFMG,
tendo trabalhado no NAPq-Núcleo de Apoio à Pesquisa,
dessa mesma instituição. É Diretora-fundadora do Centro
Artístico Tangram para o Desenvolvimento da Criatividade,
em Belo Horizonte.
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