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TEMPO
E TENSIVIDADE NA ANÁLISE DA CANÇÃO
Luiz Tatit
1. Uma canção
O surgimento de uma canção arrebatadora, em meio
ao fluxo contínuo das produções habituais, seduz, intriga
e faz pensar. “Brilho de Beleza” – interpretada sucessivamente
por Caetano Veloso e por Gal Costa em seus últimos shows
e registrada no LP da cantora (Gal Costa, 1990) – é
uma composição de Nego Tenga, simples em todos os sentidos,
mas portadora de um brilho especial que tem impressionado
músicos, platéias e cancionistas em geral.
O aparato percussivo e a forte encenação incluídos
em suas execuções, especialmente na versão de Gal Costa,
vêm ressaltar alguns aspectos que por certo já estavam
virtualizados na composição quando de sua escolha pelos
artistas. Questão intrigante: onde ficam armazenados
os recursos da canção antes de sua explicitação instrumental
e cênica?
2. Uma teoria
Do mesmo modo, o surgimento de uma nova formulação
teórica em meio aos princípios já bem estabelecidos
de uma ciência, ou quase ciência, pode também se tornar
arrebatador, embora saibamos de antemão que tais modelos
de compreensão não sejam construídos para durar, mas,
ao contrário, para se extenuar assim que tiverem nutrido
os centros vitais de uma formulação melhor. De qualquer
forma, sempre que irrompe um modelo sugerindo soluções
a questões pendentes e motivando a retomada da reflexão,
uma nova elegância se manifesta e nem sempre sabemos
ao certo se estamos no terreno da teoria ou da estética.
Nessa faixa híbrida, entre a teoria e a estética,
transcorrem, a meu ver, os últimos trabalhos de Claude
Zilberberg (1985; 1988; 1989). Oscilando entre o rigor
epistemológico de L. Hjelmslev (1971; 1975; 1985) e
a precisão assistemática de P. Valéry (1957; 1973),
Zilberberg reformula o percurso gerativo da significação
que tem sido, sem dúvida, uma das contribuições mais
férteis da semiótica de A.J. Greimas (Greimas/Courtès,1979,
160) ao pensamento contemporâneo.
O percurso gerativo é uma representação sugestiva
e heurística das etapas de construção do sentido de
seu nível mais simples e abstrato até a manifestação
complexa, concreta e enriquecida do texto. E texto aqui
não se refere apenas a textos lingüísticos, como se
costuma pensar, mas a tudo que for tecido por um conjunto
de leis (a explicitar em cada caso) e materializado
numa ordem sensitiva qualquer (visual, auditiva, tátil...).
Toda análise toma, necessariamente, o itinerário
inverso ao do percurso gerativo. Partindo do texto e
de sua riqueza insubstituível e singularizante, o analista
refaz suas etapas abstratas de construção do sentido,
seguindo processos de pressuposição, até atingir uma
região de conteúdos e sintaxes muito elementares que
não são mais exclusivas deste texto mas extensivas a
todas as criações do imaginário humano. Nesse patamar
profundo, ou próximo dele, podemos conceber uma zona
franca de trânsito livre entre os textos, um lugar em
que o texto perde sua singularidade, se empobrece, mas
põe à mostra seus elos formais e culturais com outras
produções da comunidade, deixando transparecer os sintomas
de compatibilidade intertextual que normalmente apreendemos,
sentimos e nem sempre conseguimos explicar (aquele lugar
recôndito do nosso espírito em que intuímos os pontos
comuns entre um filme e uma obra literária, entre uma
pintura e uma música, entre uma canção e uma história
em quadrinhos mas que, afinal, são tão diferentes...).
O percurso gerativo, no fundo, apenas sistematiza,
com a devida economia conceitual, nossa prática espontânea
de reflexão sobre os textos. Fornece uma trajetória
conseqüente às necessárias abstrações e evita que, a
cada análise, tenhamos que retomar o ponto de partida.
Entretanto, o ganho que se obtém em termos de progresso
analítico é constantemente relativizado por se tratar
de um modelo arbitrário, como todo modelo, e que acaba
se convertendo numa espécie de guia para a reflexão.
O modo de pensar, evidentemente, tem participação decisiva
nos resultados.
Não podendo prescindir de um modelo, fruto de um
progresso nas pesquisas, mas ao mesmo tempo não podendo
lhe atribuir um crédito definitivo, só resta ao teórico-analista
submeter tais princípios conceptuais a uma constante
revisão epistemológica.
No caso da semiótica, embora o percurso gerativo
tenha representado uma conquista teórica de peso, sua
formulação canônica sempre revelou insuficiências de
base quando aplicada em domínios não verbais. Além disso,
as instâncias de geração do sentido(1) (fundamental,
narrativa e discursiva) foram incorporando novas noções
cuja importância ultrapassou o nível de simples aprimoramento
heurístico para sugerir uma outra disposição dos estratos
de abstração. Podemos citar como exemplo a introdução
dos processos de modalização no nível narrativo. As
modalidades – representadas lingüisticamente pelos verbos
querer, dever, crer/saber e poder – que, a princípio,
figuravam como simples dispositivos auxiliares de descrição,
revestindo semanticamente os papéis desempenhados pelos
actantes (personagens em nível abstrato), foram ganhando
um estatuto de anterioridade lógica com relação a toda
a instância narrativa. Hoje, há um certo consenso em
considerar os actantes, estes sim, como meras resoluções
pontuais de um fluxo modal subjacente.
O recente rearranjo do percurso gerativo, projetado
por Zilberberg, vem responder a esse desafio que há
algum tempo incomodava os semioticistas. Se suas hipóteses
ainda estão em fase de comprovação e aprimoramento,
não há dúvida que uma nova orientação de pesquisa foi
implantada preenchendo, no mínimo, dois critérios fundamentais
da axiomática de Hjelmslev (1975, 11):
a) a coerência conceptual, já que sua teoria dispõe
de uma engenhosa rede de noções interdefinidas, levando
em conta aspectos do imaginário, como a gradação e o
tempo por exemplo, que sempre foram refratários à esquematização.
b) a adequação, uma vez que sua versão do percurso
gerativo não apenas pode ser transplantada imediatamente
para a verificação dos domínios não-verbais do sentido
como ainda requer esse tipo de aplicação para revelar
todo seu poder analítico. Surgem, nesse ponto, perspectivas
auspiciosas para a música e para a canção popular de
que tratamos aqui.
3. Uma reformulação
Nesse artigo, atinente à prática analítica mais que
às questões de princípio, limito-me a expor as coordenadas
do modelo mais sugestivas para a descrição que vem a
seguir.
Zilberberg propõe cinco níveis responsáveis pela
geração do sentido dos textos: tensivo, aspectual, modal,
narrativo e discursivo (1988, 121; 1989, 21).
Embora nenhum deles seja exclusivo da linguagem verbal,
os níveis mais abstratos, como o tensivo e o aspectual
(e mesmo o modal), permitem uma passagem ao domínio
musical mais fluente e motivada.
O autor conserva, em todos os níveis, a oposição
suprema concebida por Hjelmslev entre termo intensivo
e termo extensivo (Hjelmslev, 1971, 164).O primeiro
tem valor de concentração da tensividade, de nominalização,
de localização, de interrupção ou, se quisermos, de
saliência tensiva. O termo extensivo tem valor de expansão
da tensividade, de desdobramento, de verbalização, de
continuidade e permite relações à distância. Assim,
como ponto de partida, no nível mais profundo, Zilberberg
estabelece uma oposição extremamente simples, como um
mínimo necessário para indicar que alguma coisa acontece
ou não: continuação (termo extensivo) /vs/ parada (termo
intensivo).
Uma afirmação, na linguagem cotidiana, pode representar
a continuação assim como a negação ou uma conjunção
adversativa (mas, entretanto...) pode representar a
parada.
Esse ponto de vista sugere uma operação com as noções
de tempo e espaço já em nível profundo – e não apenas
como articulação discursiva de superfície conforme proposta
semiótica – pois que os valores extensivos correspondem
à temporalidade corrente, ao tempo que passa, se distende
e se difunde ou, num sentido mais figurativo, se narrativiza,
enquanto que os valores intensivos correspondem à temporalidade
suspensa, remissiva, erigida como um ponto tenso entre
a expectativa e a recordação. Do mesmo modo, o espaço
se fecha quando sobrevêm os limites impostos pela parada
(intensiva) e se abre quando o fluxo de continuação
excede as barreiras.
A articulação desses termos tensivos sobre uma cadeia
processual qualquer (texto lingüístico, texto pictórico,
texto musical...) produz uma alternância dinâmica que
pode ser expressa pela atuação do termo descontínuo
(parada) sobre o contínuo (continuação) e sobre o próprio
descontinuo. Essa operação estabelece a conversão do
nível tensivo em nível aspectual, onde os termos resultantes,
parada da continuação /vs/ parada da parada, já prescrevem
um regime de dominância de uma atividade sobre a outra.
No primeiro caso, prevalece a concentração do campo
tensivo com suas interrupções, seus limites, suas demarcações
(início/fim) e, no segundo, com o retorno da continuação,
prevalece a expansão da tensividade em gradações, durações
e aberturas de modo geral.
O alcance e a generalidade dessa articulação abstrata
podem ser avaliados quando verificamos que algumas forças
vitais que comandam uma narrativa, por exemplo, já estão
programadas nos níveis tensivo e aspectual.
São os limites próprios da parada da continuação
que instruem a noção de falta (ou perda) que, em geral,
desencadeia um processo narrativo de liquidação da falta.
Por outro lado, o sujeito do querer, aquele que deseja
recuperar algo perdido, é sempre alguém que assume a
parada da parada e projeta à sua frente a extensão que
deve conduzi-lo ao objeto.
Assim também, a parada da continuação /vs/ parada
da parada representa o “regime imanente da polêmica”
(Zilberberg, 1988, 106) entre sujeito e anti-sujeito,
entre herói e vilão, entre o progresso narrativo e seus
obstáculos. Ou, se quisermos ir adiante, a expansão
tensiva regula o querer que, por sua vez, regula a atividade
estética. A concentração tensiva, a parada, a descontinuidade
regulam a modalidade do dever e, conseqüentemente, a
atividade ética.
4. Uma análise
Um “brilho de beleza” constitui, pela própria metáfora,
um breve instante de plenitude estética, surpreendido
na paisagem relativamente opaca do cotidiano. Trata-se
daquilo que Greimas chamaria de nostalgia da perfeição
(1987, 17), uma lembrança que já vem despida das imperfeições
e das incompletudes pois que, pela nostalgia, reconstruímos
os acontecimentos passados no futuro, aparando-lhes
as arestas e definindo-lhes os limites com precisão
emotiva.
O
negro segura a cabeça com a mão e chora
E
chora
Sentindo
a falta do rei
Quando
ele explodiu pelo mundo
Ele
lançou seu brilho de beleza
Bob
Mahley pra sempre estará
No
coração de toda a raça negra,
Quando
Bob Mahley morreu
Foi
aquele chororô
Na
Vila Rosenval
Muzemza
trazendo Jamaica
Arrebentando
nesse carnaval
Adeus
não, me diga até breve
Adeus
não, eu sou muzemza do reggae
Entretanto, pelo detalhamento que nos oferece a letra
desta canção, o conteúdo intenso do brilho colide com
o anseio de extensividade manifestado pelo enunciador.
O término inevitável do brilho produz o sentimento de
falta, a parada que convoca o tempo e sua forma própria
de conjunção: a expectativa (Zilberberg, 1985, 19).
E quando surge o querer reparar a falta e perpetuar
o brilho.
Essa armadura inicial, definida como rejeição da
parada e adoção dos valores continuativos, vai reger
tanto o texto quanto a melodia imprimindo-lhes um ritmo
geral – ritmo como medida interiorizada (espera), como
intervalo entre ataques (Valéry, 1973, 1311 e 1320)
e não como recorrência concreta das batidas – de virtualização
da continuidade, quando sobrevém a parada e, inversamente,
de conservação dos traços intensos da parada mesmo quando
esta se interrompe (parada da parada).
Um grande problema para o analista é saber o que,
na manifestação, corresponde ao regime profundo de articulação
entre continuação da parada e parada da parada. O que,
na melodia, no texto, na base instrumental e em suas
interações, faz mobilizar nossas tensões básicas que
engendram o sentido.
Já apontei, aqui mesmo no primeiro número dos Cadernos
de Esudo: Análise Musical (Tatit, 1989, 71) e em outros
trabalhos (1986a;1986b), alguns critérios que poderiam
ser úteis no preenchimento das etapas intermediárias
entre o nível tensivo-aspectual e a manifestação da
canção propriamente dita. Chamei-os de tematização,
passionalização e figurativização.
As operações temáticas são as que apresentam vocação
natural para absorver as gradações em processos narrativos,
para a distensão temporal, para a abertura do espaço
e para a dinamização melódica. As operações passionais,
pela própria passivação do sujeito, funcionam primordialmente
como força de interrupção do contínuo, como fechamento
e contenção melódica. No entanto, basta considerarmos
uma canção (como “João Valentão”, por exemplo) que instaure
a operação temática como saliência, como parada, e a
operação passional como distensão, passivação do sujeito
e tendência à continuidade repousante (fruto de uma
conjunção plena como objeto), para termos uma inversão
nessa fase de aproveitamento dos valores aspectuais
de base.
Quanto à figurativização, representante direta da
atividade enunciativa na canção, sua maneira de interferir
no texto pode ser tanto intensiva como extensiva. A
forma intensiva é a descendência (não confundir com
a distensão fisiológica das cordas vocais) pois seu
sentido pode ser sempre definido como asseveração, ou
seja, como um saber sobre algo. Tal asseveração pode
incidir sobre a continuação ou sobre a parada, reforçando
esses valores, em geral já manobrados pela tematização
e pela passionalização. A forma extensiva da figurativização
pode ser representada por duas soluções entoativas:
ascendência ou suspensão (permanência no mesmo tom),
ora sobre a continuação ora sobre a parada.
Extensivas porque representam não-asseveração sem
qualquer outra definição de sentido. Podemos ter negação,
indagação, hesitação, passividade, impotência, expressão
emotiva ou, simplesmente, indicação de que o discurso
ainda está em plena evolução. Sabemos, apenas que a
continuação ou a parada não estão sendo confirmadas.
“Brilho de beleza” traz um comportamento regular.
A tematização da célula mínima do reggae (com dois ataques
no contra-tempo), sua recorrência já na etapa introdutória
da canção e sua brusca interrupção com a entrada da
voz instauram um primeiro mapeamento do campo tensivo
a ser aspectualizado. Continuação e parada, termos articulados
no próprio arranjo musical(2), antevendo, com propriedade,
as alternações constantemente praticadas na composição.
A caracterização da melodia retensiva(3) também não
foge à regra: fixação no nível médio de tessitura, sustentação
de freqüência sem inflexão até atingir a elevação emotiva
de dois semitons sobre a palavra mão. O alongamento
das vogais, com três ataques no lugar de quatro, desemboca
na utilização quase onomatopaica das durações em choora
[Ex. I]:

Exemplo I.
Em se tratando de ocorrências complexas, como são
de resto todas as ocorrências, leis simultâneas regulam
o mesmo corpo sonoro. Neste primeiro segmento, temos
a configuração de duas gramáticas manifestas contracenando
com outra gramática latente. As manifestas podem ser
esquematizadas como passionalização ascendente (cf.
abaixo ítem a) e figurativização descendente (ítem d).
A gramática latente é a tematização (ítem b) implantada
instrumentalmente na introdução e interrompida em nome
da clareza do estado intensivo. Mas sua presença virtual
tem a força decisiva da seleção dos valores que antecede
a seleção dos objetos. A expectativa com relação ao
retorno iminente da tematização periódica acusa um primeiro
nível de conjunção (em sua forma temporal) com a parada
da parada, ou seja, com os valores extensivos. Antes
de explorarmos este aspecto, porém, vejamos a passionalização
melódica ascendente.
a) Sintaxe melódico-passional
Chama a atenção, no primeiro segmento, a repetição
mais aguda do tonema(4) ascendente-descendente, uma
vez que o primeiro já cumpre a função básica de intensificar
o estado passional na elevação e de confirmar tal disposição
com a descendência conclusiva [Ex. II].

Exemplo II.
Mais que um reforço expressivo de comportamento,
essa elevação está definindo o limite superior e a direção
da sintaxe melódico-passional de “Brilho de beleza”.
Deixando de lado, por ora, tanto os tonemas quanto
as inflexões descendentes, observemos os níveis de altura
selecionados pela incidência dos acentos entoativos
[Ex. III].

Exemplo III.
Essa mesma progressão ascendente, em versão mais
expansiva, assegura a presença – bem menos dominante
mas ainda influente – da sintaxe passional na passagem
do terceiro para o quarto segmento [Ex. IV], e em sua
repetição, do quinto para o sexto segmento [Ex. V].

Exemplo IV.

Exemplo V.
Resumindo, a instituição desses pontos limítrofes
mais a progressão diretiva ascendente que vai da região
média até o ponto mais elevado do campo de tessitura
constituem, nesta canção, a sintaxe melódico-passional
que absorve e representa os valores da parada tensiva.
b) Sintaxe melódico-temática
Deixemos para depois o comentário sobre a figurativização
descendente. Urge identificarmos o perfil temático cuja
definição está em relação de dependência recíproca com
o perfil passional.
Só falamos, até agora, da tematização sugerida pela
introdução instrumental. Trata-se aí de uma caracterização
do gênero musical, nesse caso o reggae, uma espécie
de gabarito pré-concebido cuja função é fornecer um
parâmetro contínuo (periódico, extensivo) de tensividade
que facilita sobremaneira a apreensão da parada e da
parada da parada. Resta saber qual o perfil melódico
criado especialmente para traduzir a continuidade, ou,
de outro viés, como a periodicidade típica do gênero
foi convertida em melodia temática. Para tanto, examinemos
diretamente o terceiro segmento [Ex. VI].

Exemplo VI.
Já comparamos a altura de suas sílabas acentuadas,
localizadas no sexto semitom do campo de tessitura desta
canção, com a sustentação inicial do primeiro segmento
[Ex.VII].

Exemplo VII.
A execução desses dois segmentos, bem distintos entre
si no diagrama, pode chegar a resultados bem semelhantes.
Por vezes, as sílabas fracas do primeiro (segura ou
cabeça) descem três semitons enquanto que, no caso do
terceiro segmento, uma interpretação menos meticulosa
simplesmente elimina a inflexão, mantendo a progressão
na mesma freqüência, até atingir o tonema descendente(5).
As conseqüências são decisivas. As tensões básicas do
sentido dependem muito do apuro interpretativo que pode
revelar mas pode também, em alguns casos, escondera
força expressiva de uma canção.
Ao infletir com clareza o perfil do terceiro segmento,
a interpretação de Gal Costa conduz com especial energia
a parada da parada. As ondulações potencializam a dinâmica
melódica em sentido horizontal contrastando-a com a
melodia suspensiva utilizada para desferir o corte vertical
da parada. No fundo, essa solução temática já vem sugerida
na composição, quando o terceiro segmento apresenta
um maior número de recortes silábicos que pede, necessariamente,
a aceleração do segmento e o retorno do encaixe binário.
Isso tudo traz um efeito extraordinário de engate na
continuidade subjacente do gênero. E o arranjo, sempre
sensível a essas sutilezas expressivas, reforça a dinâmica
da tematização com o aparecimento oportuno de um motivo,
também periódico, desenvolvido pelo contrabaixo.
Assim, temos dois segmentos que abrigam, com prioridade,
a sintaxe melódico-temática [Ex. VIII]:

Exemplo VIII.
c) Interação temático-passional
Reduzindo ambas as sintaxes (passional e temática)
a um regime básico de oposição, teremos [Ex. IX]:

Exemplo IX.
Com essas duas direcionalidades imanentes, podemos
dizer que o percurso melódico dessa canção é produto
de uma alternância das duas sintaxes, em termos de dominância
e recessividade, de modo que temos sempre um emaranhado
passional e temático nos transportando ora aos valores
retensivos ora aos distensivos.
Nesse sentido, no terceiro segmento (e no quinto),
a tematização deslancha como termo dominante, enquanto
que a passionalização ainda é recessiva. As inflexões
são resoluções eminentemente temáticas mas, como já
vimos, a primeira fase da passionalização (sobre o sexto
semitom) já vem esboçada na linearidade dos acentos
silábicos [Ex. X]:

Exemplo X.
No segmento seguinte (e no sexto) a tematização permanece
mas em estado recessivo, pois, embora mantenha a dinâmica
de acompanhamento e haja uma inflexão descendente até
certo ponto simétrica às do segmento anterior, a ocupação
do oitavo semitom e, logo em seguida, do décimo perfazem
a direcionalidade passional tornando-a dominante. Não
é por outra razão que, ao iniciar o quarto segmento
(ou o sexto), a melodia retoma a linearidade fixa do
segmento inicial, expandindo de novo as vogais (com
três ataques no lugar de quatro) e atingindo o pico
da tessitura [Ex. XI].

Exemplo XI.
Interessante verificar que as variações interpretativas
da cantora podem alterar a regularidade das dominâncias.
O trecho que vai do terceiro segmento ao final é repetido
três vezes. Durante a segunda execução, Gal Costa transforma
a linha melódica do quarto segmento, produzindo o seguinte
resultado [Ex. XII]:

Exemplo XII.
A interrupção da direcionalidade passional antes
de completar o seu ciclo e a duplicação do motivo temático
provocam, nesta versão, um rearranjo dos termos dominantes.
A continuidade se sobrepõe assim à parada.
Na terceira execução desse mesmo trecho, a voz volta
a percorrer os contornos originais da melodia, no entanto,
todo o acompanhamento de base se interrompe. O silêncio
instrumental é ainda mais longo que o do início: ocupa
todo o terceiro segmento mais a metade do quarto. A
expectativa é intensa, tanto mais que sobram algumas
menções percussivas acentuando a iminência da parada
da parada. Nesse caso, é a passionalização que se torna
dominante já a partir do terceiro segmento.
Tudo ocorre como se os recursos da parada, os recursos
passionais nesta canção, fossem ativados apenas para
criar expectativa e valorizar o retorno dos recursos
durativos da continuidade. Como se a expectativa estabelecesse
uma conjunção temporal anterior à conjunção espacial
que só se realiza plenamente quando o sujeito se (re-)engata
no movimento. E por isso dissemos valorizar os recursos
continuativos. Trata-se de assumir a não-interrupção,
a parada da parada, ou simplesmente o fluxo contínuo,
como valor.
d) Figurativização enunciativa
As entoações enunciativas não trazem maior complexidade
em “Brilho de beleza”, uma vez que seus tonemas só desenvolvem
o termo intensivo, ou seja, a descendência asseverativa.
Nesse sentido, apenas confirmam, em nível de superfície,
a assunção dos valores em nível profundo.
Nos segmentos predominantemente passionais, as descendências
afirmam a parada. Interessante notar que, nesses casos,
elas também adotam o desdobramento vocálico próprio
da passionalização [Ex. XIII]:

Exemplo XIII.
Nos segmentos com dominância temática, as descendências
se integram à continuidade. Nesse caso, apenas atingem
um nível inferior ao dos motivos [Ex. XIV]:

Exemplo XIV.
A figurativização enunciativa traz uma complexidade
à parte para a análise da canção. Se considerarmos sua
interação com os outros dois processos persuasivos (passionalização/tematização),
a figurativização é o termo extensivo que abrange todos
os recursos não passionais, não temáticos e, inclusive,
entre os dois polos. É a passagem a neutralização dos
investimentos melódicos. A melodia figurativa é dessemantizada
tal como a entoação lingüística que se dissolve no instante
em que o texto é compreendido pelo falante (Valéry,
1957, 1326). É quando a sonoridade não importa mas sim
a compreensão abstrata. Como na linguagem oral. Nesse
sentido, a (relativa) precisão dos tonemas (descendentes/não
descendentes) contrasta com a instabilidade geral dos
contornos que podem ser alterados a cada instante e
até anulados em função da clareza do texto. A melodia
radicalmente figurativa não pretende dizer além do que
já está no texto. Passaria muito bem sem ser notada:
figurativiza a fala cotidiana.
A abordagem completa da figurativização enunciativa
foge aos limites deste ensaio mas gostaríamos de frisar
que sua atuação habitual na linguagem da canção popular
permite-nos aceitar, com tranqüilidade, execuções tão
distintas (Gal Costa e Muzemza, por exemplo) como interpretações
da mesma canção.
5. Um brilho de beleza
O encanto da canção está na ressonância do sentido
da melodia no texto e vice-versa. Quando levamos em
conta o nível profundo proposto por Zilberberg – onde
as categorias universais da tensividade (parada e continuação)
entram em processo de determinação mútua e se convertem
no nível aspectual, já com a predominância de uma tensividade
concentrada (repleta de limites e demarcações) ou expansiva
(passante, durativa) – contamos com um modelo geral
de organização do sentido que oferece unidade aos eventos
melódicos e lingüísticos.
A imagem lírico-dramática que descreve a condição
altamente passional vivida pelo “negro” propõe, paralelamente
à melodia, uma parada no nível do texto:
O
negro segura a cabeça com a mão e chora
E
chora
Sentindo
a falta da rei
A transcrição literal da “falta do rei” dirime qualquer
dúvida quanto à existência anterior do personagem numa
dimensão extensiva que se interrompe, deixando o sujeito
(“o negro”) incrustado entre duas temporalidades:
a) passada: frente a qual o sujeito sofre a atuação
do evento anterior e se manifesta passivamente: “...segura
a cabeça com a mão e chora”.
b) futura: frente a qual o sujeito se posiciona ativamente
no sentido de reparar a falta. A consciência do objeto
ausente já significa um primeiro grau de junção em forma
de expectativa. O sujeito que sente a falta já possui
o querer liquidá-la.
Assim, trata-se do relato de uma cena intensiva mas
que a qualquer instante – e isso é decorrente da própria
retensão do tempo pode se distender pela interrupção
polêmica da parada.
Importante assinalar que a coincidência dos sentidos
do texto com os sentidos da melodia no mesmo segmento
da canção produz um efeito rendoso mas não necessário.
A ressonância entre os componentes (lingüístico e melódico)
se dá por correspondência de articulações no curso das
cadeias fônicas e semânticas independentemente dos encontros
termo a termo. Em Brilho de beleza, por exemplo, a articulação
passionalização/tematização e a urgência de suas sucessivas
alternâncias são apreendidas tanto na melodia como no
texto.
Os termos tensivos devem ser vistos como valores
oriundos diretamente de nossa condição básica de um
ser no tempo e no espaço: a retensão é a interrupção
do tempo passante e a circunscrição do espaço; a distensão
é o tempo que volta a se movimentar e o espaço que se
abre. Antes de determinar seu objeto, o sujeito se conjunta
com os valores retensivos ou com os valores distensivos
deduzidos do nível aspectual (Greimas/Courtès, 1986,
100). Só numa etapa gerativa mais superficial, identificamos
o objeto que cobrirá o valor escolhido. Em nosso exemplo,
o valor almejado é a continuação distensiva e o objeto
é o reggae.
Nesse sentido, podemos observar no texto a dupla
atuação do sujeito selecionando os valores distensivos
no passado e no futuro:
a) Quando
ele explodiu pelo mundo
Ele
lançou seu brilho de beleza
Esses dois versos sintetizam a direcionalidade fundamental
desta canção: parada da continuação --> parada da
parada.
“Quando ele explodiu pelo mundo” é a demarcação de
um ponto de partida intensivo (ruptura da continuação
rotineira do mundo) que se expande no tempo e no espaço
com a imagem da difusão do brilho: “Ele lançou seu brilho
de beleza”. E a expansão é tão implacável que atravessa
o presente e se projeta ao futuro, na condição de pura
continuidade:
b) Bob
Mahley pra sempre estará
No
coração de toda a raça negra
Aqui temos a expressão máxima da modalidade do querer,
que já habitava o sujeito a partir de sua consciência
da falta. A conjunção com o querer pressupõe a seleção
dos valores continuativos, dos valores passantes. O
sujeito do querer é aquele que rompe a parada, embarca
no tempo que passa, e ocupa o espaço. E o sujeito que
crê nos valores distensivos.
Nova parada. Novo ponto de interrupção reforça o
lado passional da canção:
Quando
Bob Mahley morreu
Foi
aquele chororô na Vila Rosenval
Nesse caso não temos coincidência. A melodia persiste
na tematização enquanto a letra retoma a razão passional.
De fato, a razão da continuidade está sempre associada
ao aumento de tensão de corrente da parada. A perda,
a nostalgia, a expectativa, o desejo são sintomas da
parada que fazem sobressair o tempo. Nessa linha de
reflexão e na esteira de Valéry (1973, 1365), Zilberberg
pontua o tempo como razão do espaço (1988, 113).
Acontece que a melodia adota de vez os valores continuativos
como preponderantes, deixando para o texto e para o
arranjo as intervenções explícitas da parada.
No texto, o rei do reggae passa o bastão para o bloco
Muzemza que se transforma em porta-voz do gênero nas
festas de carnaval:
Muzemza
trazendo Jamaica
Arrebentando
nesse carnaval
Reggae é o termo extensivo que liga o passado ao
futuro independentemente dos destaques intensivos que
vão de “Bob Mahley” a “Muzemza” passando por “Jamaica”.
Reggae é o objeto. Continuidade é o valor.
A resolução textual pode ser descrita como representação,
quase literal, da parada da parada:
Adeus não, me diga até breve
E a continuidade sobrevem com Muzemza [Ex. XV].

Exemplo XV.
Mais que uma adesão definitiva às inflexões temáticas,
essa melodia reproduz o perfil de diversas canções de
reggae, de forma que seus contornos praticamente se
dessemantizam enquanto direcionalidade, em nome de uma
perfeita integração no gênero. E se resta algum sentido
nas direções dos tonemas, sem dúvida é o de descendência
categórica, de afirmação da continuidade do reggae.
O esforço desta canção é o de contornar o destino
de sua própria metáfora, tentando expandir a instantaneidade
do brilho. Paradoxalmente, porém, é o brilho das paradas,
nesse caso dos recursos passionais, que faz seu esplendor,
destacando a da rotina, muitas vezes apenas pulsativa,
do reggae.
E se o sujeito desta canção consegue, finalmente,
externar o seu compromisso com a continuidade, interrompendo
a parada, a canção em si permanece saliente, cortante,
assegurando com seu brilho instantâneo a vitalidade
do gênero que se perpetua.
NOTAS
(1) Essas instâncias mantêm entre si relações de
conversão do nível mais abstrato (fundamental) ao nível
mais concreto (discursivo) e relações de pressuposição
no sentido contrário. Já há trabalhos de semioticistas
brasileiros explicando, com clareza e simplicidade,
o funcionamento do percurso gerativo (cf. Barros, 1988,
15; 1990, 8; Fiorin, 1989,15).
(2) Esse é um exemplo de arranjo eficiente para a
canção popular: explicita os conteúdos e os valores
que já constam da composição. Esse dom é característico
do arranjador-cancionista (para a noção de cancionista,
cf . Tatit, 1983).
(3) O termo retensivo (ou remissivo) corresponde
à parada no nível tensivo. Opõe-se, portanto, a distensivo
(Zilberberg, 1988, 55 e 126). A melodia retensiva é
a que suspende a recorrência ou qualquer fluxo de continuidade.
Por isso, aparece quase sempre modalizada pelo ser e
configurada pelos recursos passionais.
(4) Tonema é a inflexão final da frase entoativa,
onde se concentra o núcleo de sua modalidade de sentido.
Esta noção recebe um tratamento especial em sugestivo
trabalho de Navarro Tomás (1966, 69).
(5) Na interpretação original desta canção, realizada
pelo bloco Muzemza (1988), sequer são articuladas as
inflexões temáticas do terceiro e do quinto segmentos.
O desprezo total às nuanças do perfil melódico se justifica
pela predominância do processo figurativo (alguém dizendo
alguma coisa) sobre a tematização e a passionalização.
Essas últimas supõem uma definição semântica da melodia
que não interessa ao bloco carnavalesco.
BIBLIOGRAFIA
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São Paulo: Atual, 1988.
BARROS, D.L.P. Teoria semiótica do texto. São Paulo:
Ática, 1990.
FIORIN, J.L. Elementos de análise do discurso. São
Paulo, Contexto/EDUSP, 1989.
GREIMAS, A.J. & COURTÈS, J. Sémiotique. Dictionnaire
raisonné de la théorie du langage I. Paris: Hachette,
1979.
GREIMAS, A.J. & COURTÈS, J. Sémiotique. Dictionnaire
raisonné de la théorie du langage II. Paris: Hachette,
1986.
GREIMAS, A.J. De I’imperfection. Périgueux :Pierre
Fanlac, 1987.
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São Paulo: Perspectiva, 1975.
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TATIT, L. “Vocação e perplexidade dos cancionistas”,
in: Folha de S.Paulo (Folhetim, 318), 20 de fevereiro
de 1983.
TATIT, L. Canção: eficácia e encanto. São Paulo:
Atual, 1986.
TATIT, L. Elementos semióticos para uma tipologia
da canção popular brasileira, tomo I. São Paulo: FFLCH-USP
(Tese de doutorado – cát. Lingüística), 1986.
TATIT, L. “Elementos para a análise da canção popular”,
in: Cadernos de Estudo: AnáIise Musical, no 1. São Paulo:
Atravez, 1989.
TOMÁS, N. Manual de entonación española. México:
Malaca, 1966.
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1957.
VALERY, P. Cahiers, Tome l. Paris: Gallimard/La Pléiade,
1973.
ZILBERBERG, C. Essai sur les modalités tensives.
Amsterdam: J.Benjamins, 1981 (Col. “Pragmatics &
Beyond”).
ZILBERBERG, C. L’essor du poèm – information rythmique.
Saint-Maur-des-Fossés: Phoriques, 1985.
ZILBERBERG, C. Raison et poétique du sens. Paris:
Presses Universitaires de France, 1988.
ZILBERBERG, C. “Modalités et pensée modale”, in:
Nouveaux Actes Sémiotiques, no 3. Limoges: Trames, 1989.
Discografia
GAL COSTA. Plural. São Paulo: RCA, 1990.
MUZEMZA. Muzemza do reggae. São Paulo: Continental,
1988.
Luiz Tatit é cancionista e compostior do grupo
RUMO e professor no Departamento de Lingüística da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
de São Paulo. Dedica-se aos estudos semióticos e à sua
aplicação na canção popular brasileira, tendo escrito
a dissertação de Mestrado Por uma semiótica da canção
popular, e a tese de Doutorado Elementos semióticos
para uma tipologia da canção popular brasileira. Seu
livro Composição de canções no Brasil deverá ser publicado
brevemente.
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