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Répons E
A CRISE DA “COMUNICAÇÃO” MUSICAL CONTEMPORÂNEA
Jean-Jacques Nattiez
O tema da ruptura entre o compositor e seu público
tornou-se um leitmotiv da reflexão(1) e da
literatura sobre a música contemporânea como testemunha
a obra de Pierre-Michel Menger, O paradoxo do músico(2).
No plano musical, a nova simplicidade dos minimalistas
e o neo-romantismo em voga se apresentam em geral explicitamente
como respostas à abstração pós-weberniana.
A questão da comunicação musical possui então atualidade.
A reflexão semiológica parece apropriada para intervir
no debate atual. Cumpre-se dizer que para mim, e diferentemente
de uma idéia corrente veiculada pelos pesquisadores
de orientação tão diferente como Mounin, Jakobson ou
Eco, a semiologia não é a ciência da comunicação. No
meu livro de 1975, já escrevia:
Não existe nenhuma razão para que o compositor
espere que o ouvinte encontre na obra as intenções criativas.
Senão, isto seria condenar e música a não evoluir jamais
e o ouvinte é livre o bastante para projetar sobre a
obra as estratégias perceptivas que desejar(3).
Sempre insisti em meus trabalhos, conforme proposições
de Molino, sobre o fato de que os processos situados
do lado da composição, o poïético, eram fundamentalmente
diferentes dos processos perceptivos, os processos estésicos.
Sem entrar num exame detalhado do livro de Menger, podemos
reconhecer que toda a sua empresa repousa sobre a idéia
de uma coincidência necessária entre estes dois pólos
e ele aliás pinçou(4) de maneira crítica
a citação de meu livro que acabo de apresentar.
Em meio a muitos outros aspectos filosóficos que
subentendem sua obra, como a crença nas “estruturas
invariantes da percepção”, Menger critica a ideologia
do progresso associada à noção de vanguarda. Ela existe
com certeza, psicologicamente. Mas eu gostaria de insistir
sobre a diferença entre progresso e evolução. A história
da música ocidental desde o século IX é caracterizada
pela mudança e poderíamos aqui opor nossa cultura às
culturas japonesas ou iranianas, ou a certas culturas
dos índios da América nas quais a novidade é desencorajada,
por vezes condenada ou punida. A evolução me parece
então um dado de fato ao mesmo tempo empírico, antropológico
e cultural, e creio que a “discrepância”entre poïético
e estésico é sua condição necessária. Toda a história
da linguagem musical ocidental é ao mesmo tempo uma
história da maneira segundo a qual os hábitos perceptivos
anteriores foram transgredidos e superados.
Gostaria de introduzir nesse estágio da reflexão,
uma noção proposta por Molino e que não tive até o momento
a ocasião de ilustrar em meus trabalhos sobre a música
mas que desenvolverei posteriormente. Trata-se da diferença
entre circuito curto e circuito longo da comunicação.
Jakobson, inspirando-se na teoria da informação, propôs,
num esquema célebre, que o que permitia a comunicação
na linguagem humana é a existência de um código comum
ao emissor e ao receptor(5). Quando falamos,
a propósito da música contemporânea, da ausência de
uma “linguagem pré-estabelecida à comunicação”, fazemos
largo apelo implicitamente a esta noção de código.
A propósito da linguagem humana, avançávamos um pouco
demais, porque parece necessário distinguir o que ocorre
segundo os estágios da estrutura lingüística. Ao nível
dos fonemas, a rapidez da troca interativa é tal que
as diferenças fonéticas são apagadas em proveito da
estabilidade fonológica: todos os falantes do francês
reconhecem as mesmas entidades lingüísticas e por conseqüência
os mesmos morfemas e as mesmas palavras em seu aspecto
sonoro. Pode-se dizer que estamos diante de um circuito
curto da comunicação, que se explica em grande parte
pelo pequeno número de fonemas em cada língua, entre
20 e 40. Ainda, se uma fonologia estrutural foi possível,
é porque, nesse caso preciso, as estratégias poïéticas
e estésicas em torno do fonema coincidem. Colocarei
entre parênteses o nível da sintaxe que chamaria de
desenvolvimentos sutis, extensos demais para este artigo,
e irei direto ao nível da semântica. Aqui, não somente
o número de unidades é considerável (cinco mil palavras
no vocabulário de base e o “thesaurus” pode se estender
até vinte ou trinta mil), mas os traços semânticos que
se combinam para a interpretação de uma palavra, no
contexto de uma frase e de uma situação de enunciação
são, em número, praticamente infinitos. Aqui, o circuito
da comunicação é longo. Ao mesmo tempo em que distingui
entre circuito curto e circuito longo, apliquei estas
noções a diversos níveis da estrutura lingüística. A
noção de código desapareceu: a relação entre o poïéticoe
o estésico não funcionada mesma maneira ao nível semântico
e ao nível fonológico, para se tomar os dois extremos.
Introduzamos já aqui um conceito que deduzi dos trabalhos
do musicólogo Leonard B. Meyer, e em particular de seu
ensaio sobre o estilo(6): a noção de parametrização.
A relação entre os pólos poïéticos e estésicos, a rapidez
do circuito de comunicação entre emissor e receptor,
entre compositor e ouvinte, não é a mesma conforme se
trate da fonologia, da sintaxe, da semântica e, em música,
conforme se trate das unidades escalares, dos fenômenos
rítmicos e métricos, da estrutura harmônica, da organização
melódica, do timbre ou da textura. Esta parametrização
é ainda um fator decisivo da evolução. Vejamos um exemplo
apenas. E porque, num dado momento, o parâmetro timbre
foi tematizado como elemento do poïético que um fenômeno
autônomo como a música eletroacústica pôde surgir. A
mais, os diferentes parâmetros não funcionam na mesma
velocidade ao longo da história da música: quando Schoenberg
detona a revolução serial, sua concepção do motívico,
da fraseologia, do ritmo e do metro permanece ainda
aquela do século XIX. Ao contrário, eu estaria pronto
a dizer que é uma atenção nova dada ao funcionamento
do intervalo a partir de Beethoven, como mostrou Réti,
e de maneira segura em Brahms que, no âmbito de uma
organização harmônica cujos princípios de base são ainda
aqueles do século precedente, contribui, junto com outros
fatores, para a emergência do dodecafonismo.
Não se poderia então falar de comunicação ou de linguagem
musical de maneira unidimensional. Ainda, é o grau de
discrepância entre o poïético e o estésico, a amplitude
do circuito de comunicação entre os dois pólos para
cada parâmetro e a velocidade de evoIução própria a
cada parâmetro no curso da história da música que me
parecem explicar um fenômeno bastante conhecido: a história
da música é atravessada ciclicamente por períodos clássicos
e períodos de ruptura. Nos breves períodos clássicos,
a conivência entre o poïético e o estésico é tal que
os ouvintes de música são conhecedores das regras de
produção. Na corte de Frederico II, os nobres cultos,
mesmo sem possuirem o gênio dos grandes mestres, podiam
escrever sonatas, por vezes sinfonias, que correspondiam
aos cânones harmônicos e formais da época. Num certo
sentido, as sociedades africanas, nas quais cada membro
da aldeia pode se tornar produtor de música, são sociedades
clássicas. Além disso, um período verdadeiramente clássico
em nossa civilização, é igualmente aquele onde os parâmetros
estão em relação de equilíbrio e elegante simbiose:
harmonia clássica comanda a frase de 4 ou 8 compassos
e pode-se falar de ritmo tonal. Porém, no mundo ocidental,
a situação de comunicação integral, quer dizer, funcionando
ao nível de todos os parâmetros, é rara. Quando Kreutzer,
segundo a tradição, sai da sala durante a estréia da
segunda Sinfonia de Beethoven, gritando “Louco !”, enquanto
que os princípios harmônicos de base estão imutáveis,
é que existem parâmetros – provavelmente ao nível da
forma – que ele não mais compreende. É aliás neste momento
que nasce a musicologia, quando o público está desorientado.
A história da música vive sobretudo períodos de defasagem
relativa entre os dois pólos: Francès(7)
demonstrou definitivamente que não se podia reconhecer
pela audição todas as unidades estruturantes de uma
fuga, mas outros parâmetros, em especial harmônicos,
fazem com que o ouvinte se sinta ainda em terreno conhecido.
Existem também fases de ruptura abrupta entre o poïético
e o estésico. Webern e o Boulez da série generalizada
oferecem testemunho disso. Quer dizer que estes músicos
são inaudíveis? Não é porque o sistema poïético não
foi encontrado que o ouvinte nada entendeu. Ele sem
dúvida percebeu alguma coisa: talvez uma imensa desordem,
uma confusão ou lampejos, fulgurações e porque não também
uma textura musical interessante? A condenação feita
em geral à música serial repousa sobre esta “utopia”
da comunicação.
Em particular, o argumento de Schaeffer e dos partidários
da música eletroacústica parece se apoiar, a meu ver,
sobre um raciocínio errôneo(8). Ele consiste
em dizer “Por que concebem ou escrevem vocês coisas
que não se podem ouvir?”, e em propor uma música cujas
idéias compositivas sejam transparentes para o ouvinte.
Ora, por um lado, o ponto de vista dos acusmáticos é
normativo: “Se o ouvinte dirige sua atenção a outras
qualidades sonoras que não sejam aquelas tratadas como
valores pelo compositor, a estrutura lhe escapa: ele
percebe apenas o caos”, escreve Schaeffer(9).
Ou ainda: “Deve-se submeter as novas estruturas a realizarem
uma comunicação entre aquele que as agencia e aquele
que as percebe”(10). Por outro lado, eles
esquecem que as obras eletroacústicas não serão necessariamente
percebidas como foram intencionadas e isto Schaeffer
bem notou: “No Estudo dos objetos, o mais escrupuloso,
a percepção dos timbres sobrepõe-se logo àquela dos
objetos. Dessa maneira, tais ensaios nos oferecem resultados
bastante afastados do que esperávamos ao nível do próprio
objeto. Despeitamos ver essas estruturas valorizarem
outros critérios, inesperados, outras funções dos objetos
diferentes daquelas que tivemos em vista lhes fazer
assumir”(11). Isto não nos causa a menor
estranheza. Mesmo a estratégia poïética que integra
mais explicitamente as estratégias estésicas possíveis
não pode prever em absoluto como reagirá o ouvinte.
O compositor propõe, o ouvinte dispõe, pois o poïético
não possui necessariamente vocação para a comunicação.
Não se estranha então que os objetos sonoros escutados
mil vezes pelos compositores de música eletroacústica
antes de serem inseridos na trama da obra assumam uma
outra significação para o ouvinte quando este os escuta
pela primeira vez no contexto da obra finalizada.
Que se trate de obras pós-webernianas de um lado,
ou eletroacústicas de outro, elas se submetem ao mesmo
princípio: a percepção é menos um fenômeno de recepção
do quede construção e de re-estruturação, que age segundo
princípios não necessariamente pré-determinados pelas
estratégias compositivas. Isto posto, é certo que a
música dos últimos trinta e cinco ou quarenta anos reparte-se
em duas grandes tendências que chamarei, em meu jargão,
uma tendência poïético-cêntrica – aquela de Boulez e
dos neo-serialistas que enfatizam a escritura e as estruturas
compositivas – e uma tendência estésico-cêntrica – aquela
dos acusmáticos e da escola repetitiva americana, para
a qual o sonoro concebido deve corresponder no máximo
ao sonoro percebido.
Aliás é característico observar que cada uma das
tendências vislumbra com nostalgia o lado que lhe falta.
Ao final de seu Solfège de l’objet sonore, Schaeffer
elege uma sintaxe dos objetos sonoros: “Se nosso solfejo
generalizado é indispensável para descrever e nomear
os objetos constitutivos, ele fracassa ao fornecer de
pronto a chave dos agenciamentos /.../ É, mais freqüentemente,
no estabelecimento da obra que se manifesta a função
dos objetos”(12). E muitas vezes falamos
da necessidade de se fazer seguir ao Traité des Objets
Musicaux um outro torno, o Traité des Organisations
Musicales, que nunca chegou a existir. Se, ao lado de
Boulez, tivemos por desejo a criação de um instituto
dedicado à coordenação da acústica e da música, é certamente
porque a dissociação produzida entre o público e o compositor
gerava um problema real e que era tempo de integrar
nas estratégias compositivas previsões sobre as estratégias
perceptivas. Esta dupla preocupação é reveladora do
período atual. Encontrei, sob a pena de Bourdieu e Darbel,
proposições ligeiramente próximas de minha própria concepção
de classicismo, na medida em que ela se apóia sobre
a relação poïético-estésico: “A legibilidade de uma
obra contemporânea varia em princípio segundo a relação
que os criadores entretêm, numa época dada, numa sociedade
dada, com o código da época precedente: podemos assim
distinguir, muito grosseiramente, períodos clássicos
onde um estilo atinge sua perfeição própria e onde os
criadores exploram as possibilidades fornecidas por
uma arte de inventar herdada – até as cumprirem e, talvez,
as esgotarem –, e os períodos de ruptura, nos quais
se inventa uma nova arte de inventar, onde se engendra
uma nova gramática geradora de formas, em ruptura com
as tradições estésicas de um tempo e de um meio. A defasagem
entre o código social e o código exigido pelas obras
tem todas as chances, evidentemente, de se tornar mais
reduzida nos períodos clássicos do que nos períodos
de ruptura, infinitamente mais reduzida sobretudo do
que nos períodos de ruptura contínua, como esse pelo
qual estamos passando hoje”(13). Este texto
remonta a 1969. Estaremos nós ainda em período de ruptura
contínua?
Tempo de mutações, pós-modernismo, era de Aquário:
deixo a cada um a escolha de rótulos. Para caracterizar
a época atual, Scarpetta(14) fala mesmo de
período “barroco”, que seria fundado sobre a estética
do segundo grau, da citação, da mistura e, eu acrescentaria
um pouco maldosamente, do qualquer coisa. Porém, nesse
contexto, como a sua teoria da impureza lhe permite
qualificar de obra-prima, em nota que seja(15),
Répons de Pierre Boulez?
Se tomo partido por Répons nesse presente momento
da história da música(16), é porque esta
obra me parece oferecer uma solução à ruptura entre
a produção contemporânea e seu público, e isto, insisto,
sem retorno, sem negação de princípios que subentendem
a elaboração da linguagem musical bouleziana desde o
Marteau sans maître. Depois do período poïético-cêntrico
do serialismo excessivo, mas sem concessões, Répons
consegue a reconquista do mais vasto público. Deveria-se
proceder a uma ampla pesquisa sociológica a fim de que
se pudesse estabelecer as razões deste sucesso unânime
tanto em Paris quanto em Metz, Londres, Turim, Los Angeles,
San Francisco, Chicago, Boston ou Nova York, verificando
em particular em que medida ele se deve à admiração
estética ingênua, ao deslumbramento diante da tecnologia,
ao impacto da ambiência eletroacústica, aos esnobismos
locais ou ao carisma do regente. Mas, não creio que
nos Estados Unidos, por exemplo, o público tenha sido
influenciado pela enorme cobertura das mídias, da qual
Boulez é regularmente objeto na França. O que vou tentar
analisar aqui é como a obra está organizada, de maneira
a poder se conectar com os diferentes públicos possíveis.
O estudo perceptivo poderia então servir de base à investigação
sociológica que, bem entendido, eu não empreenderei.
Ela tem o mesmo status dado por William Poland ao conceito
de “theory of music”, quando, precursor das pesquisas
cognitivas de hoje, ele a definiu como “a statement
or a set of statements, from which testable hypotesis
might be drawn about some aspect of music or musical
behavior”(17). Por conseqüência, admito perfeitamente,
assim como Poland, que as razões que explicam a recepção
positiva desta obra não sejam totalmente aquelas que
irei avançar baseadas apenas no exame da partitura.
Seria inútil dizer que os propósitos de P. Boulez
publicados no primeiro número de InHarmoniques – revista
do IRCAM(18) –, não passaram desapercebidos:
“(O sistema de Schoenberg) é uma utopia formalista sem
eficácia direta”. “(As deduções múltiplas a partir da
matriz original decorrem) de uma ginástica visual que
nada mais tem a ver com a percepção”(19).
“(A obra de Webern) é uma ilusão, um fantasmagórico
formal”(20). A propósito da “utopia que orientava
(o) serialismo integral: afora o desejo de unificar
o sistema, de fazer justiça aos componentes até então
negligenciados, de os reabilitar, existia uma crença,
não menos forte, na infalibilidade da ordem, quase uma
superstição frente às suas virtudes mágicas que, caso
não se substituíssem por completo à personalidade do
compositor, a apoiavam com segurança em seu combate
contra a incerteza, ao preço de uma parte consentida
de anonimato”(21). Neste exame crítico e
auto-crítico da música serial e pós-weberniana, Boulez
praticamente não cita nenhuma obra, nenhuma partitura.
Mas, como em todos os seus textos teóricos, mesmo que
pouco elaborados – penso em particular nos artigos maiores
de Relevés d’apprenti –, “Le système et I’idée” (“O
sistema e a idéia”) baseia-se na grande obra em curso,
Répons, jamais citada. E aqui, a preocupação perceptiva
está integrada às estratégias compositivas. Certamente
não é a primeira vez que Boulez, em seus escritos, se
interroga sobre a percepção. Em seus primeiros textos
ele explicitamente zombou do assunto, porém desde cedo
sua auto-crítica da série generalizada já estava construída,
em parte, sobre a base de considerações perceptivas.
Já a propósito de Berg, num artigo de 1981 e significativamente
intitulado “A escriturado músico: o olhar do surdo?”(22),
Boulez havia registrado esta constatação dramática de
que a escritura não permite prever as estratégias estésicas.
Mas em “O sistema e a idéia”, o compositor vai muito
mais longe. “Na diferença (entre intervalos), escreve
ele, deve haver elementos de repetição suficientes para
que memória e percepção possam agir em conseqüência
e reconhecer o objeto inicial através de suas diferentes
representações”(23). Traços comuns, um gesto
geral, uma “caracterização global”(24) transcendem
então o detalhe ou a miniaturização da escritura: inspirando-se
no vocabulário da música eletrônica, Boulez lhes dá
o nome de envelope. “A trajetória torna-se mais importante
que cada um de seus momentos”(25). Sinais
virão igualmente sublinhar as grandes modificações estruturais
no decorrer da obra: “(Eles) aparecem como corpos estranhos
cuja singularidade os faz imediatamente repousar, os
diferencia da textura predominante, o que nos faz justamente
percebê-los como articulações”(26). Todas
as noções propostas neste texto são de categorias perceptivas.
Mas como ficam então o sistema e a série? Boulez
os jogou no lixo? Prepara ele sua entrada (ou seu retorno!)
ao G.R.M.(27)? Eu gostaria, com alguns exemplos,
de ilustrar a maneira bouleziana de integrar as estratégias
estésicas nas estratégicas poïéticas. Em síntese, como
Boulez elabora uma retórica?
A obra é construída sobre um conjunto de cinco acordes
de sete sons, que reproduzo abaixo. A disposição em
que se encontram nos esboços do compositor(28)
é tal que podemos reconstituí-los logo a partir do início
da obra(29).

Exemplo I.
Para construir estes acordes, Boulez utilizou, a
partir do total cromático, a técnica do crivo. Disto
resultam disposições específicas de sete notas para
cada um dos acordes, nos quais Deliège sublinhou a omnipresença
de terças que, sem jamais sugerir uma tonalidade, associam
esses objetos ao universo diatônico. Sem dúvida, este
diatonismo constitui, como Deliège ainda disse, uma
das razões, no plano harmônico, que explica a força,
portanto, a eficácia da obra.
De meu lado, tentarei indicar como o compositor utilizou
sistematicamente este material de base a fim de dar
à obra uma coerência formal pertinente do ponto de vista
perceptivo.
Notamos inicialmente que estes cinco acordes são
enunciados por toda a orquestra no primeiro compasso
e primeiro tempo do segundo. O que Boulez aponta ao
longo da introdução, quer dizer dos sete primeiros minutos
da obra? Desde o compasso 3, um Si agudo tocado pela
flauta domina, deixado a descoberto durante duas batidas
e meia, e ainda no compasso 5, depois dominando até
o compasso 7. Ora, este Si é a nota superior do quinto
acorde da “exposição” harmônica e que Deliège nos diz
ser o mais importante da obra... Podemos distinguir
um Sib “nota de passagem”, piano, durando três compassos.
Nos compassos 3 e 5 do número 1, portanto bastante brevemente,
o Lá o substitui como nota dominante. Este Lá é a nota
superior do acorde IV. Não nos espantaremos então ao
ouvirmos, nos compassos 7 a 10 do número 1, o Fá#
da flauta, logo após revezado pelos primeiros violinos
no número 2 e por bastante tempo. Evidentemente, este
Fá# é a nota superior do acorde III. No número
4, é o Sib do acorde II que passa à flauta,
depois no quarto compasso de 4, o Mi do acorde I é confiado
aos violinos. Mudança de registro deste Mi no número
6 com uma bordadura, Fá#, após Fá bequadro
entre os números 6 e 8. A leitura da parte superior
dos cinco acordes, feita ao inverso, deu então nascimento
a uma linha melódica geral que atravessa os oito primeiros
números da partitura:

Exemplo II.
Depois, o percurso melódico da introdução de Répons
retoma em sentido inverso a partir do Si no número 9.
No segundo e quarto compassos de 9, o Lá reaparece furtivamente
como nota dominante. O Fá# é praticamente
escamoteado, mesmo sendo confiado às violas no número
10, mas no quarto compasso de 10 o Mi intervém, seguido
do Sib no quarto compasso de 11, como observamos
no Exemplo III:

Exemplo III.
Não nos surpreenderemos se o terceiro enunciado deste
material, onde o Si bequadro domina de 14 a 20, utiliza
no 19 o Fá# praticamente em reserva no conjunto
precedente [Ex. IV].

Exemplo IV.
Por via das dúvidas, vejamos novamente o conjunto
desta curva melódica que abarca os sete primeiros minutos
da partitura e constitui sua introdução [Ex .V]:

Exemplo V.
Várias observações podem ser feitas a partir desta
descrição. De início, a predominância do Si, evidente
se atentarmos à quantidade de números onde está presente.
Ele desempenha o papel de nota-pivô, nas idas e vindas
melódicas do material de base tirado da linha superior
dos cinco acordes. Em seguida, a passagem furtiva do
Lá. Deve-se notar que o acorde IV é, na “exposição”,
aquele que possui o valor rítmico mais breve (semicolcheia):
no resumo poïético do desenvolvimento que se segue,
Boulez indica o pouco espaço que será dado a esta nota(30)
[Ex. VI].

Exemplo VI.
A micro-estrutura prefigura a macro-estrutura. Da
mesma maneira, este esquema situa o Fá# do ponto de
vista rítmico em segunda posição. Efetivamente este
Fá# será posto em relêvo na longa seção final, dominada
pelo Si, no número 19. No restante da obra, o compositor
jamais utilizará o Lá entre suas notas sustentadas,
das quais compreendemos já o papel de referência auditiva
que desempenham em Répons. Com raras exceções, entretanto,
no número 47, o Lá aparece confiado à trompa e garante
a transição entre aquilo que Jameux chamou de seção
“Scriabin” e a seção “Lulu” da obra(31).
Esta intervenção do Lá é, no entanto, perfeitamente
coerente neste momento com a matriz inicial, uma vez
que é o Mi quem domina dos números 42 a 47, bem como
de 49 a 53. Esta exploração estrutural do Lá neste momento
da obra é ainda menos surpreendente caso reescrevamos
a sucessão descendente das notas polares utilizadas:

Exemplo VII.
Obtemos assim uma cadeia intervalar bem específica
(4a justa, 5a aumentada, 5a diminuída, 5a justa), caractenzada
pela proximidade cromática destes quatro intervalos:
acústicamente diferentes, eles participam do que Boulez,
no “O sistema e a idéia”, chamou de envelope, quer dizer,
o perfil comum de eventos diferentes entre si mas que,
auditivamente, se mostrarão aparentados. A melodia de
Répons é então claramente atonal uma vez que o falso
ciclo de quintas assim desenhado não é aquele do sistema
tonal.
Procurei mostrar que Boulez havia derivado a grande
curva melódica da obra de seu material poïético, o qual
explorou perceptivamente utilizando de maneira constante
e coerente um traço de estilo já presente em Éclat/multiples(32),
mas onde, precisamente, os “éclats” o disputavam ainda
com a linearidade do discurso. Boulez indica com clareza
a ênfase dada a estas notas: “A continuidade melódica
de um a outro desses objetos assim descritos dará uma
curva que só teria podido nascer da liberdade assegurando
a melhor transição, dando o mais profundo dos sentidos
à junção”(33). Além da coerência do sistema
inicial, Boulez privilegiou o interesse do percebido.
Porém o esquema pelo qual apresentei estas notas polares
longamente sustentadas ficou muito simples. Ele não
indica que em cada lugar ocupado por uma mesma nota
corresponde uma subseção formal dotada de grande homogeneidade.
Os vinte números da introdução de Répons se subdividem
em subseções. Elas se distinguem umas das outras:
- pela nota polar que as domina;
- pelo tempo que as caracteriza – escutamos uma
sucessão de movimentos “lentos, tensos” e de movimentos
“rápidos, enérgicos”;
- pela alternância de zonas informais, aleatórias,
caracterizadas por nuvens de dispersão e zonas onde
uma anacruse precede uma nota polar;
- por um certo número de traços de orquestração
próprios a cada subseção e constantes em toda sua
duração;
- pelo uso de sinais que vêm facilitar a referência
auditiva: “O sinal será, nos casos mais sumários,
uma nota, um acorde mantido fora do tempo, um silêncio
prolongado fora de uma duração imediatamente plausível
com o resto do contexto /.../. Os sinais podem utilizar
qualquer característica, podem ser premeditados
e definir os pontos observáveis de um desenvolvimento
sem que tenhamos de conhecer este desenvolvimento”(34).
Nessa introdução, existem cinco, de comprimentos
variados, que separam as zonas dominadas pelas notas
polares.
Ao invés de proceder à enumeração verbal de todos
estes procedimentos, resumirei as características próprias
de cada subseção dessa introdução no exemplo VIII, a
seguir. Esses diferentes procedimentos definem, no seio
da introdução, uma organização hierárquica a dois níveis
que aparecem claramente perceptíveis graças a essas
convergências de traços, criadores de contrastes. Pois,
“sob” estas referências perceptivas que se apreendem
imediatamente, Boulez nada renegou do refinamento e
da complexidade de escritura tão característica de seu
estilo inicial. Esta proliferação de detalhes – que
uma longa e custosa análise mostraria como e até que
ponto eles se associam à matriz harmônica original –
Boulez qualifica de fenômenos adjacentes: os satélites
em torno de um som, a ornamentação linear, os agregados
verticais, a heterofonia que envolve a linha principal
ou as fusas desembocando nas notas polares e que aparecem
desde o início de Répons, ao final do compasso 2, primeiro
confiadas às madeiras e muitos curtas: um tempo, às
vezes meio tempo. Depois, esses grupos polirítmicos,
polifônicos complexos ganham progressivamente terreno:
em 3/8 no oitavo compasso, em 3/4 nos compassos 3 a
8 do número 1. Os sinais dos números 3 e 5 são feitos
desse tipo de material. Em todo caso, é a alternância
dos acordes prolongados e desses strettos de agrupamentos
densos e rápidos, geralmente em posição de anacruse
em relação às durações prolongadas, que conferem à introdução
sua fisionomia particular. Esses fenômenos adjacentes,
desembocando nas notas polares, não seriam em si a imagem
em redução da alternância das zonas que, no exemplo
VIII, qualifico de entrópicos (números 1, 3, 5 e 8)
e que vêm puntuar as zonas de claridade?
  
Exemplo VIII.
Quando ouvimos os 42 minutos da versão atual de Répons,
compreendemos em que esta introdução, em sua alternância
de zonas contrastantes, prefigura tudo que se seguirá.
Para fazermos uma idéia melhor, utilizarei agora as
letras da referência proposta por Dominique Jameux na
apresentação de Répons(35). Os pares fusa-nota
mantida da introdução A são encontrados em B e C. Na
seção chamada de Bali (seção D), com ritmos e sonoridades
de gamelões, é essa floresta entrópica quem domina.
A dialética de notas polares e de auras retorna na seção
E, porém o informal reaparece progressivamente em F
e invade totalmente a seção G numa massa sonora compacta.
Lendo o artigo de Boulez, concluímos que a única coisa
que ele espera é uma “escuta esporádica”(36).
Nos dez minutos finais(37), antes da coda
que, com os solistas, conduz a uma rarefação progressiva,
o entrópico domina ainda, mas com aparições e desaparecimentos
de cores instrumentais, efeitos de mascaramento ou de
iluminação progressivos, que me fazem de bom grado pensar
àquilo que se produz quando observamos longamente certos
quadros de Pollock. Este “informal”, que pouco a pouco
invadiu todo o final da obra, foi instaurado progressivamente.
Na introdução ele ocupava apenas regiões relativamente
breves; alternou, por duas vezes (D e F) com grandes
seções dominadas por notas sustentadas. Quando se impõe
próximo do final, ele é então percebido como a contraparte
invertida dessas zonas de suspensão onde as notas sustentadas
possuíam toda a limpidez das fermatas.
Evidentemente, esta dialética do formal e do informal,
da ordem e da entropia, tem seu efeito na percepção
da grande linha de Répons. Minoritário na introdução,
o entrópico é aí percebido como uma figura sobre um
fundo. Após dá-se um equilíbrio e, em torno do final,
a relação se inverte: a figura torna-se fundo, no qual
apenas uma percepção muito atenta pode recuperar o detalhe
das asperidades.
Este informal, de que acabamos de nos referir, é,
há muito tempo, conhecido em Boulez. É aquele, por exemplo,
das Structures pour deux pianos. Por que a série generalizada
que as subentendia e as gerava se constituiu num impasse?
Porque a entropia do sistema era tal que todo ponto
de ancoramento perceptivo havia desaparecido. Boulez
reconhece isto no O sistema e a idéia: “(O compositor)não
tinha mais que se perturbar com os problemas de percepção,
aos quais, na verdade, ele não havia mesmo prestado
atenção, considerando-os secundários em relação ao bom
funcionamento de seus sistemas. No momento em que a
mecânica funcionasse, a percepção deveria também funcionar”(38).
Efetivamente passou o tempo em que o compositor escrevia,
em Penser la musique aujourd’hui, sem se preocupar de
fornecer comprovações: “(A série é o) germe de uma hierarquização
fundada sobre propriedades psico-fisiológicas acústicas”(39).
A matriz poïética de Répons deu nascimento a dois
grandes tipos de fenômeno, o ordenado e o entrópico,
cujo agenciamento sintáxico oferece à percepção de conjunto
um primeiro nível de organização imediatamente compreensível.
Aqui, convém sublinhar que as habilidades retórica e
pedagógica do compositor se confirmam ao mesmo tempo.
Isto porque a seção mais compactada peça – a seção G
e os dez minutos acrescentados – não está situada ao
início da obra, mas sim em seu terço final. É devido
ao fato do ouvinte ter escutado desde logo a alternância
das zonas formais e informais da introdução e também
as notas polares precedidas de fusas, depois toda uma
série de eventos novos que, a cada vez, renovaram e
diversificaram o interesse – a entrada dos solistas
e a intervenção do 4X(40) ao número 21, a
utilização da fita magnética entre 42 e 46, a transferência
alternada do som na sala às seções B, C, D, E e C –,
tudo isto o preparou para mergulhar neste último terço
opaco e compacto no interior do qual ele pode progressivamente
captar miríades de detalhes que serão renovados e diferentes
a cada audição. De resto, nos dez últimos minutos encontramos
figuras, “envelopes” da primeira parte da peça e que
nos são familiares: fusas, notas sustentadas, momentos
de clareza e precisão rítmica. Por causa disto, não
me parece adequado considerar inúteis essas excrecências
sucessivas da obra. Seguramente tudo foi dito nos sete
primeiros minutos da introdução, mas seu sentido se
faz apenas na relação que mantêm com o conjunto do desenvolvimento
que segue.
Qual seria o papel que poderíamos ainda reconhecer
do sistema inicial, da matriz poïética, ao termo dessa
análise, centrada sobre a eficácia perceptiva de Répons?
O radicalismo do propósito de Boulez nos surpreenderá.
Ele só se iguala à honestidade da autocrítica: deve-se
atribuir à invenção, diz ele, a imaginação, a intuição,
o livre arbítrio, a superioridade sobre os ditados do
sistema. “Isto significa considerar o sistema como um
auxílio, uma muleta, um excitante para a imaginação,
que, caso ausente, não propiciaria conceber realmente
um mundo sonhado: eu escolho logo eu sou; inventei o
sistemático apenas para me fornecer um certo tipo de
material; a mim compete eliminar ou superar em função
daquilo que possa julgar bom, belo, necessário”(41).
Assim, qual é a ligação entre este auxiliar da criação
e as previsões perceptivas do compositor?
O primeiro papel da matriz é preparar o material
de base, realizar as escalas, os circuitos intervalares,
as relações de duração e de potenciais de proliferação
em meio aos quais o compositor faz sua escolha. Evidentemente,
a estrutura dos cinco acordes geradores, ouvidos no
primeiro compasso, não é perceptível, sobretudo num
tempo de semínima igual a 138! Mas isso é importante?
O que conta é que a preparação do material de base tenha
sido feita em função da eficácia retórica que se pode
deduzir: a força do elemento diatônico, sublinhada por
Deliège, o jogo dos intervalos de quarta e de quinta
que assinalei, as relações entre as grandes zonas suportadas
por cada nota polar.
A matriz desempenha um segundo papel capital: ao
mesmo tempo em que prevê o desenvolvimento retórico,
ela resguarda o compositor de todo retorno aos arcaísmos
de escritura. Numa época em que as facilidades da música
repetitiva e a demagogia do neo-romantismo se viciam,
é conveniente lembrar o papel histórico positivo representado
pelo impasse da série generalizada: Boulez não foi o
único a chamar a atenção sobre o fato de que, em Schoenberg
e Berg, a exploração do sistema se fazia em função de
idéias que, no plano formal motívico, métrico e rítmico,
deviam ainda muito ao romantismo e ao pensamento tonal.
“Devia-se reformular os dados da linguagem. Nada teria
podido resultar se a abordagem não tivesse sido radical”(42).
É deste radicalismo que Répons se beneficia hoje; mesmo
se o compositor não tem mais medo de escrever montes
de semicolcheias regulares que ele havia eliminado do
manuscrito da Deuxième Sonate(43); toda referência
métrica de inspiração tonal desapareceu: a alternância
de compassos irregulares herdados de Stravinsky está
sempre presente. A forma, por sua vez, não adota um
molde pré-estabelecido e neoclássico; ela é deduzida,
como mostrei, da matriz concebida não em função de um
sistema à priori mas sim da idéia a ser ouvida.
Em terceiro lugar, a matriz dá lugar a uma obra organizada
grosseiramente a dois níveis (eu não ouso dizer que
ela é duplamente articulada para não criar confusão
com a lingüística). Na verdade, os critérios perceptivos
são simples e o próprio Boulez o reconhece: “A percepção
do envelope fará apelo a critérios de julgamento muito
sumários, mas bastante eficazes, que permitirão ao ouvinte
se orientar antes mesmo que o conteúdo lhe seja claro:
numa segunda audição, consciente do envelope que descobriu,
ele poderá se concentrar sobre especificidades mais
profundamente determinantes”(44). Quais são
estes dois níveis?
- Aquele da macro-estrutura, derivado da linha
superior dos cinco acordes que pertencem eles mesmos
a uma micro-estrutura: este nível define a curva
da obra e sua grande forma.
- O nível da micro-estrutura que, ao nível da
invenção, é igualmente derivado do sistema gerador,
mas sem que as ligações de detalhe possam de imediato
ser captadas auditivamente. Esses grupos de fusas,
esses stretti de notas, que Boulez denomina pelo
vocábulo geral de “fenômenos adjacentes”, de “auras”,
e que intencionalmente compara à ornamentação clássica,
numa palavra, todo o aspecto entrópico vem colorir
ou preencher a linha geral e dar às grandes articulações
formais sua profundidade e riqueza.
Cada um desses níveis determina aquilo que Poland
designa como “perceptual musical behaviors” e Delalande
chama “condutas de escuta”(45). Boulez os
tematiza explicitamente: o primeiro nível comanda uma
percepção imediata “global, sumária, intuitiva”, relativamente
“passiva” e o segundo, uma percepção “aguda, analítica,
responsável, ativa”, que exige “atenção e engajamento”(46).
É característico que Boulez recupera assim, o grande
princípio organizacional da música tonal, aquele por
exemplo que faz com que os encadeamentos funcionais
de acorde, a direção da melodia, as modulações e a organização
formal sejam regulados pelas mesmas leis sem que, dessa
forma, jamais faça recurso a um empréstimo qualquer
da escritura tonal. Aqui é o espírito e o exemplo que
primam – e não o dado empírico – numa obra que permanece,
devemos relembrar, fundamentalmente serial.
O romance de Umberto Eco, O nome da Rosa, obteve
um sucesso universal junto a todas as categorias de
leitores porque ele oferece leituras a vários níveis:
o mais comum dos mortais pode se contentar com a intriga
policial(47), o intelectual não é insensível
ao piscar de olhos a Aristóteles e Dante ou não detesta
se imiscuir com uma alusão a Conan Doyle, o medievalista
lá encontra a erudição de um especialista, o latinista
se deleita com uma citação a cada página. Em síntese,
graças a este livro, todo mundo se crê inteligente.
O sucesso unânime de Répons, fato empírico que devemos
levar em conta, me parece se explicar por razões análogas:
o ouvinte médio não é jamais desconcertado graças à
existência de referências, ao retorno de figuras estáveis,
à constância de trilos e a um sentido agudo da prolongação;
o ouvinte afastado da escuta de música contemporânea
sabe penetrar nas finezas do lado miniaturizado dessa
escritura; quanto ao especialista, por hábito e por
metiê, encontra de fato a fonte geradora do sentimento
de unidade que emana da obra, podendo reconstituir e
reencontrar sua matriz única situada além da proliferação
dos detalhes. Assim os diversos níveis de audição de
Répons refletem a organização hierárquica da obra. Da
mesma maneira que para Eco o romance cria seus leitores(48),
a obra musical cria os seus ouvintes. Isto significa
simplesmente que uma obra, segundo seu grau de complexidade,
é responsável pela multiplicidade e pela diversidade
das estratégicas estésicas que desencadeia. Nesse sentido
também, Répons não é diferente em espírito do Marteau
sans maître, que tinha entre uma das funções da complexidade
de escritura a de oferecer uma matriz de possibilidades
perceptivas praticamente infinita. No caso de Répons,
este fenômeno, garantido pela complexidade e densificação
da escritura, é ainda intensificado pela espacialização
do som e pela possibilidade oferecida ao ouvinte de
se localizar em diferentes locais da sala, quando de
representações sucessivas.
Ao fim deste trajeto, podemos retornar às noções
de circuito curto, circuito longo e de parametrização
apresentadas no início. A que corresponde esta multiplicidade
de estratégias perceptivas que acabamos de evocar? Ao
fato de que os diferentes níveis de organização de Répons
não são percebidos da mesma maneira. Com as sustentações
de notas – Si, Lá, Fá#, Sib, Mi
–, a grande linha melódica intencionada por Boulez é
imediatamente percebida: o circuito da comunicação é
curto. As oposições entre notas prolongadas e proliferação
interválica densa também o são relativamente. O conteúdo
dessas proliferações já requer várias escutas e mais
atenção. O circuito da comunicação se alonga. Chegado
ao nível da matriz harmônica, o circuito é o mais longo
possível, no sentido em que a estrutura só é revelável
com lápis e papel. A que isto serve, diria-se se não
a percebemos? Ela não é menos perceptível do que a organização
complexa de uma obra de Bach pela qual Boulez, aliás,
não cessou de interceder desde um de seus primeiros
textos. Mas é ela quem está estruturada, não em função
de um sistema à priori, mas em função da idéia geral
na base da obra(49). Diferentemente do impasse
do serialismo integral, o sistema está a serviço de
diversos graus de funcionalidade perceptiva.
E aí reside, creio eu, a grande diferença com a perspectiva
acusmática. Disse anteriormente que a música eletroacústica,
restrita à sua orientação estésico-cêntrica, não chegava
a explicitaras leis da organização musical. Por seu
lado, a obsessão poïético-cêntrica do serialismo lhe
fez “esquecer” a percepção. Alguns leitores talvez tenham
se espantado pelo fato de eu ter tomado partido de maneira
tão acentuada por Répons ao passo que, em trabalhos
anteriores, manifestei várias vezes um interesse marcado
e mais do que simpático pela reflexão schaefferiana.
Isto se justifica pelo fato de que, na clivagem entre
poïético e estésico, característico na música do pós-guerra,
Boulez me parece ser um dos primeiros – ao lado de Berio
provavelmente – a ter não apenas pensado mas realizado
a conexão que se esperava, sem nada renegar da complexidade
de escritura característica de suas primeiras obras.
Por certo, os schaefferianos não conteriam um ataque
de riso se eles olhassem de perto o artigo de Boulez.
Isto porque, atrás da noção de envelope não encontrariam
eles o perfil? Por trás dos sinais o conceito de acidente
ou de impulso? Por trás das auras a ressonância? Poderemos
falar de sustentação a propósito das notas repetidas
dos metais ou dos trilos das cordas, com entonação variável
ou fixa, conforme o caso. E, sem recorrer à partitura,
não poderíamos descrever Répons referindo-nos a objetos
“composés” e objetos “composites”, descrevendo a riqueza
da granulação e dos materiais tanto eletrônicos quanto
instrumentais? Seguramente, e ao largo das querelas
de escolas entre boulezianos e schaefferianos, seria
apaixonante para o próprio aprofundamento dos instrumentais
da análise perceptiva propostos pelo Tratado dos Objetos
Musicais se lançar a uma obra de qualidade estésica
tão considerável quanto Répons. Porém, se parássemos
aí, seguramente careceríamos daquilo que, neste momento
do pós-guerra, determina a importância histórica da
obra: ter conseguido, sem se desviar dos princípios
pelos quais a música weberniana se libertou a todos
os níveis da tonalidade, restabelecer a junção entre
os dois pólos característicos de toda forma simbólica
humana, o poïético e o estésico.
Do lado poïético, Répons nos lembra “que no seio
de toda evolução do pensamento musical se encontra a
escritura, não sendo possível disso se afastar sob pena
de precariedade e obsolescência”(50). Caso
dispuséssemos de dados históricos mais embasados, seria
interessante comparar o ritmo de evolução das músicas
de tradição oral e o das músicas de nossas sociedades.
Estou simplesmente convencido de que, se formas elementares
de contraponto aparecem em certas sociedades, como já
pude constatar nos Aïnous, um grau de organização mais
complexo deste contraponto, é impossível sem a intervenção
do papel e o uso do lápis (ou do 4X, que é apenas uma
sua extensão). Do lado estésico, o nível de percepção
de Répons se apóia sobre as grandes leis da percepção:
localização de repetições – que existem –, periodicidades,
paralelismos, delimitação pelo ouvido de entidades autônomas
distingüíveis por contrastes, silêncios ou marcadores
de seção, captação da continuidade e dos prolongamentos.
Deveria-se examinar em que medida as regras postas
em obra na percepção de Répons correspondem às regras
que Lerdahl e Jackendoff consideram, em seu livro, como
universais(51). Já expressei sobre este assunto
algumas dúvidas(52) em razão das surpresas
que a etnomusicologia nos reserva vez ou outra, e me
parece cientificamente prematuro afirmar que se Répons
recorre a estratégias perceptivas análogas àquelas que
movem a música tonal é porque elas são, de fato, fundadas
sobre constâncias naturais e universais do espírito
humano(53). A meu ver, não chamamos suficientemente
a atenção sobre as implicações estésicas dos problemas
epistemológicos que decorrem das pesquisas cognitivas
de hoje. Pois, caso se comprovasse que as estratégias
perceptivas às quais Répons faz uso foram conformadas
por três séculos de música tonal, isto não seria mais
remarcável do que o fato da familiaridade perceptiva,
com a qual Boulez dispõe ao nível da macroestrutura,
não ter jamais necessitado nele – como indiquei constantemente
ao longo desta análise – do retorno a procedimentos
arcaicos de escritura. A mais, os diversos parâmetros
ocupam na obra um lugar hierárquico – sem o pretendido
papel igualitário que se queria imputar-lhes na série
generalizada –, mas sim, conforme o momento, com relações
de dominância e subordinação análogas àquelas que se
encontram na música tonal.
Fiz intervir mais acima três traços para definir
o conceito de “clássico”. A expressão qualifica: . um
estilo caracterizado pelo equilíbrio de suas estruturas;
- um momento bastante particular da história da
comunicação musical onde há reversibilidade entre
as estratégias poïéticas e estésicas;
- um período que, após anos de pesquisa, testemunha
a aquisição de uma maneira de inventar.
E evidente que Répons não é uma obra clássica no
primeiro sentido do termo (estilístico): toda a empresa
bouleziana, ao nível das frases e da forma, visa constantemente
evitar recair nos esquemas previsíveis. Nesse sentido,
ele é sempre o discípulo de Schoenberg que se interessava
pela irregularidade das estruturas em Brahms.
Mesmo se, como tentei demonstrar ao longo deste ensaio,
Boulez constantemente recorreu a técnicas permitindo
de seguir um fio condutor na obra, não poderíamos falar
de “classicismo” no segundo significado do termo. A
escritura de Boulez seria antes comparável àquela de
um Bach – se a aproximação não causa incômodo –, em
quem a espessura, a profusão, a virtuosidade, a proliferação
e a prática da ornamentação jamais mascaram a trajetória
do discurso, sem que todo o processamento poïético de
uma fuga, por exemplo, seja imediatamente perceptível.
Nesse sentido, e apenas nele, há algo de “barroco” em
Répons.
Porém, após o impasse da série generalizada, os anos
de hesitação que se seguiram e as complacências de hoje
– minimalismo e neo-romantismo –, Répons aparece de
fato como o resultado, esteticamente bem sucedido, das
pesquisas de linguagem desencadeadas pela instauração
do dodecafonismo. Assim, ao menos para mim, ela é a
grande obra clássica que podíamos esperar nesta altura
do século. É porém muito cedo para dizer se ela marca
o fim de um período ou se inaugura uma nova idade do
classicismo. De toda maneira, a resposta não se encontra
entre as mãos do teórico, mas entre aquelas de Boulez
e dos compositores de hoje.
Tradução de Carlos Kater
NOTAS
(1) Este artigo constitui a versão revisada de uma
comunicação apresentada em 21/03/1987 no Colóquio “Composição
musical e percepção”, organizado por Philippe Albèra
e Etienne Darbellay para a revista Contrechamps e a
Universidade de Genebra. Foi também objeto de conferências
públicas no Departamento de Música da Universidade de
Oxford (10/04/1989), Universidade de Turim (10/10/1988),
Centro di Ricerca e di Sperimentazione per la Didattica
Musicale de Fiesole (15/10/1988), União dos Compositores
da Tchecoslováquia (Praga, 19/10/1988), segundo congresso
da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em
Música (Porto Alegre, 12/12/1989) e como “Key note address”
e William Poland Lecture, por ocasião da “Conference
on Music Cognition”, da Ohio State University (07/04/1990).
Publicado inicialmente em francês na revista InHarmoniques,
no 2, maio/1987, pp. 193-210 e no programa Répons, do
festival de Avignon 1988 (Actes Sud-éditeur). Agradeço
meus, colegas Susan Bradshaw, Marcelle Guertin, Célestin
Deliège, Francis Dhomont, James Ellis, Michele Ignelzi,
Fred Lerdahl, François Nicolas, Jurg Stenzl e Christopher
Wintle pelos comentários e sugestões que incorporei
na presente versão do texto.
(2) MENGER (P.-M.), Le paradoxe du musicien. Paris:
Flammarion, 1983.
(3) NATTIEZ (J.-J.), Fondements d’une sémiologie
de la musique. (Collection 10-18). Paris: UGE, 1975,
p.223.
(4) Op. cit., p.233.
(5) JAKOBSON (R.), Essais de linguistique générale.
Paris: Minuit, 1963, p.353.
(6) MEYER (L.B.), “Toward a Theory of Style”, in:
The concept of style (ed. por Berel Lang). Philadelphie:
The University of Pennsylvania Press, 1979 (2a ed. 1987),
pp. 3-44; retomado após como o primeiro capítulo de
Style and Music (mesma editora).
(7) In: La perception de la musique. Paris: Vrin,
1958, p. 231 e seguintes.
(8) Desenvolvi esta análise no capítulo IV de meu
livro: Musicologie générale et sémiologie. Paris: C.Bourgois
Éd., 1987.
(9) No encarte do disco que reune seus estudos de
música concreta; Philips 6521021.
(10) “Lettre à Albert Richard”, in: La Revue Musicale,
no 236, 1957, p. XI.
(11) SCHAEFFER (P.), Traité des Objets Musicaux.
Paris: Seuil, 1966, p. 488.
(12)Três discos (Plage 95-5) de 67 que acompanham
o Traité des Objets Musicaux.
(13) BOURDIEU (P.) e DARBEL (4.), L’amour de l’art.
Paris: Minuit, 1969, pp. 77-78.
(14) SCARPETTA (G.), L’impureté. Paris: Grasset,
1985.
(15) Ibid., p. 51.
(16) Cf. “Répons: un miroir pour I’histoire”, in:
Le Monde de la Musique, no 77, Avril 1985, pp. 78-83
e 107-108.
(17) POLAND (W.), “Theories of Music and Musical
Behavior”, in: Journal of Music Theory, vol. VII, 1963,
pp. 151-2.
(18) IRCAM, Institut de Recherche et Coordination
Acoustique/Musique (N. CE).
(19) BOULEZ (P.), “Le système et I’idée”, in: InHarmoniques,
no 1, 1986, p. 74. Este texto é atualmente acessível
sob uma forma muito mais desenvolvida graças a edição
de seus cursos no Collège de France: Jalons (pour une
décennie). Paris: C.Bourgois Éd., 1989, pp. 316-390.
(20) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 86.
(21) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 97.
(22) Critique, no 408, Mai 1981, pp.443-464 re-editado
em: Jalons (pour une décennie), pp. 293-315.
(23) Cf. BOULEZ (P.), “Le système et l’idée”, p.
99.
(24) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 100.
(25) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 92.
(26) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 102.
(27) G.R.M., Groupe de Recherches Musicales, de Paris
(N.CE).
(28) Eles nos foram gentilmente comunicados por Andrew
Gerzso.
(29) Como o havia feito Célestin Deliège em seu artigo,
“Moment de Pierre Boulez”, in: InHarmoniques, no 4,
Septembre 1988, pp. 181-202.
(30) Este esquema rítmico reúne as notas superiores
dos cinco acordes nos compassos 1 e2, não correspondendo
assim às notas tocadas por um instrumento particular.
(31) JAMEUX (D.), Pierre Boulez. Paris: Fayard, 1984,
pp. 433-444.
(32) Eclat/multiples pode ser traduzido por Brilho
(ou Estilhaço)/Múltiplos.
(33) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 99.
(34) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 101.
(35) Op. cit., p. 444.
(36) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 92.
(37) Trata-se, em linhas gerais, da seção acrescentada
por Boulez na terceira versão de Répons e que, por esta
razão, não figura no esquema de Jameux.
(38) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 97.
(39) BOULEZ (P.), Penser la musique aujourd’hui.
Paris: Gonthier, 1964, p. 35.
(40) O sistema 4X, desenvolvido pelo engenheiro G.
di Giugno, é um terminal gerador de sons – módulo digital
de síntese/processamento sonoro em tempo real – acoplado
aos computadores de grande porte do IRCAM. Foi usado,
ainda, por P. Manoury em Júpiter. Ver enrte outros:
SUKORSKI, W. Sistemas de Música Digital. SP: Núcleo
de Artes e Tecnologia, 1985 (N. CE).
(41) BOULEZ (P.), “Le système et I’idée”, p. 94.
(42) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 104.
(43) Cf. NATTIEZ (J.-J.) (ed.), Correspondance Boulez-Cage.
Winterthur: Amadeus Verlag, 1990.
(44) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 101.
(45) POLAND (W.), “Theories of Music and Musical
Behavior”; e, DELALANDE (F.), “Vers une psycho-musicologie”,
in: L’Enfant du sonore au musical (ed. por B. Céleste,
F.Delalande, E.Dumaurier). Paris: INA-GRM/Buchet-Chastel,
pp.157-179.
(46) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 102.
(47) O que se deve ao fato da obra preservar toda
a sua coerência quando da adaptação cinematográfica
que restringiu-se exclusivamente a esse nível do discurso.
(48) Cf. Lector in Fabula. Paris: Grasset, 1985.
(49) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 96.
(50) BOULEZ (P.), Op. cit., p. 93.
(51) LERDAHL (F.)/JACKENDOFF (R.), A Generative Theory
of Tonal Music. Cambridge: M.I.T. Press, 1983.
(52) “La relation oblique entre le musicologue et
le compositeur”, in: Quoi? Quand? Comment? La Recherche
Musicale (ed. por T.Machover). Paris: C.Bourgois Éd.,
1985, pp. 121-134.
(53) Lerdhal – ao final de seu estudo consagrado
às “constantes cognitivas sobre os sistemas compositivos”
(Contrechamps, no 10, Avril 1989, pp. 25-57), onde focaliza
com freqüência o Marteau sans maître – pleiteia uma
estética musical “fundada sobre a natureza” e localizada
no “espírito musical”.
Jean-Jacques Nattiez (França, 1945) é professor
da Escola de Música da Universidade de Montreal, Canadá,
onde dirige, desde 1974, o “Grupo de Pesquisas em Semiologia
Musical”. Afora vários textos isolados e artigos, escreveu
o livro Fundamentos de uma semiologia da música (Paris,
1975), considerado uma das primeiras e a principal referência
sobre o assunto. Desenvolve intensa atividade como conferencista
e professor-visitante nos mais conceituados centros
de estudo da atualidade. É Correspondente Internacional
dos CEAM.
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