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OS
MODOS E A GÊNESE MUSICAL EM LUIS MILAN
Paulo Castagna
Este
artigo apresenta os resultados de um análise do sistema
modal na música para “vihuela de mano” de Luis Milan
(c.1500 – após 1561). Os dados obtidos foram comparados
com indicações deixadas pelo próprio compositor e com
conceitos musicais de sua época, numa tentativa de examinar
os elementos estruturais mínimos de que dispunha o vihuelista
para a elaboração de sua música.
Milan e sua produção
Luis Milan viveu na Espanha entre cerca de 1500 e
pouco após 1561. Cortesão valenciano, poeta, escritor,
vihuelista e compositor, de seu trabalho se conhecem
apenas três livros impressos, todos destinados às necessidades
artísticas da aristocracia ibérica. O Libro de motes
de damas y caballeros: Intitulado el juego de mandar,
de 1535, e o El Cortesano, de 1561 (baseado no Libro
del cortegiano, de Baldassare Castiglione), são obras
literárias com textos e poesias que versam sobre assuntos
da corte(1). Já o Libro de mvsica de vihuela
de mano. Intitulado EI maestro, de 1535, sua única publicação
no gênero, foi dedicado ao rei D. João III de Portugal
e voltado à prática musical da nobreza que o cercava(2).
Tida como a primeira coleção impressa de música instrumental
espanhola, o El Maestro foi escrito para vihuela de
mano [Figura I], instrumento peninsular de origens medievais,
como o violão, mas para o qual só foram encontradas
até hoje, composições feitas no século XVI. Suas seis
ordens, ou pares de cordas, eram afinadas como as do
alaúde(3), permitindo a execução de música
polifônica, original e/ou transcrita de obras vocais.
A notação da música para vihuela era feita por meio
de um hexagrama, que representava as ordens do instrumento
(a linha superior correspondendo à primeira ordem),
e de números e figuras de canto de organo que indicavam,
respectivamente, os trastes a serem usados pela mão
esquerda e o tempo que deve separar os ataques da mão
direita.

Fig. I – Vihuela de mano representada
no El maestro (fol. A4r).
Milan apresenta suas composições por esse sistema
de cifras, quase sempre precedidas por reglas ou declaraciones,
pequenos textos com informações destinadas à sua compreensão
e execução [Figura II].

Fig. II – Regla e Cifras da fantasia
VII (fol. C3r).
No El maestro encontram-se, além de inúmeros textos,
72 peças musicais. Destas, 50 são para tañer de vihuela
(31 fantasias, 13 tentos e 6 pavanas) e 22 para cãtar
y tãner em castellano y en portugues, y en italiano
(12 villancicos, 4 romances e 6 sonetos). O livro não
é apenas uma coleção repertorial, mas também uma obra
didática, contendo uma seqüência cuidadosamente planejada
de textos, reglas e música en cifras, pois es su intencion
formar e hazer vn musico de vihuela de mano; daquella
misma manera que vn maestro haria en vn discipulo que
nunca huuiesse tañido (fol. Br)(4).
Modos e transposições modais
Quase como em um tratado teórico, Milan fornece informações
básicas para a compreensão do sistema utilizado, permitindo
uma análise que revele as estruturas musicais mínimas
conhecidas e empregadas pelo autor.
Na Intelligencia y declaracion delos tonos que en
la musica de canto figurado se vsam, o vihuelista adverte
que no aueys de entender que ay mas de ocho tonos en
la musica (fol. R6r), como era sabido de todos os músicos
práticos e teóricos, antes que o sistema de 12 modos
fosse descrito por Glareanus no Dodecachordon(5),
de 1547. Desses 8 modos ou tonos, 4 são maestros e 4
são discipulos, termos hoje entendidos como autênticos
e plagais(6). Colocando em pauta as informações
encontradas na Intelligencia, observamos no Diagrama
I os 8 modos de que fala o autor, cada qual com sua
numeração, seu termino (o antigo ambitus)e sua clausula
final (a antiga finalis), além dos modos mixtos, assim
descritos pelo compositor: si el tiple sube nueue puntos
encima de su clausula final, y abaixa tres o quatro
puntos debaxo la dixa clausula final: entonces vsa del
termino del tono maestro y el discipulo, y se mescla
conellos: y por esto se dize mixto (fol. R6r).

Diagrama I – Modos maestros, discipulos
e mixtos descritos por Luis Milan.
Milan indica a possibilidade do uso de duas notas
além da oitava, escala básica dividida em quinta, ou
diapente, e quarta, ou diathesaron, com a função de
permitir cadenciamentos completos. Mas nem sempre usa
em música o termino que descreve. Em vários casos há
notas que excedem os 10 puntos e em outros a oitava
não chega a se completar, demonstrando a não rigidez
do sistema na questão dos âmbitos modais.
Sabemos, pelo autor, que el tono se ha de conocer
en solo en tiple en las cõposturas de musica (fol. R5v),
ou seja, apenas na voz superior da peça polifônica.
As vozes inferiores participam do contraponto, mas sempre
regidas pelo modo configurado no tiple. A tarefa mais
difícil, entretanto, é distingui-las entre si, pois
o vihuelista alterna o uso de uma, duas, três e quatro
vozes, em muitos casos entrelaçando-se de tal maneira,
que o termo pseudo-polifonia se torna mais apto a caracterizar
o tipo de música que se observa, quando se transcreve
suas cifras para notação moderna [Ex. I]. Por isso,
o conhecimento preciso do modo de uma peça se torna
fundamental para uma transcrição criteriosa.

Ex. I – Tentos IX (fantasia XVIII)
(fol. E6v, compassos 58-63) do 7o e 8o modos, transposição
re (clausula final Ré).
Facilitando a análise, Milan informa também que cada
peça para tañer de vihuela está composta em torno de
um único padrão modal, seja ele maestro, discipulo ou
mixto(7). Apesar de pequenos segmentos de
uma obra poderem aparentar incursões em outros modos,
esse comportamento é apenas uma das propriedades da
escala sobre a qual a música foi construída. Os modos
atuam como genes na criação musical, determinando a
priori grande parte das características melódicas e
harmônicas que terá a peça acabada.
Mas não é apenas nessa forma que os modos são usados
por Milan. O autor descreve um recurso que denomina
mutacion de termino (fol. E2v), que nada mais é do que
a transposição do ambitus e da finalis do modo por otra
parte en la vihuela (fol. F3v), ou seja, para outra
parte do braço do instrumento. O mesmo modo pode aparecer,
portanto, mudado por otras partes (fol. K2v) ou por
otros terminos (fol. E2v).
Catalogando todas as transposições utilizadas por
Milan em sua música, constatamos seis categorias diferentes
ou, na linguagem do vihuelista, seis clausulas finales
com seis terminos possíveis para cada modo, apesar de
não mais de quatro delas serem usadas em cada caso (Diagrama
II). Notamos ainda, que as clausulas finales do mesmo
modo, em cada transposição, estão separadas entre si
pela mesma distância que separa as alturas ut re mi
fa sol la, os signos de solmização conhecidos na época
e, aqui, correspondentes à escala Dó-Ré-Mi-Fá-Sol-Lá(8).
Assim sendo, usaremos tais signos para dar nome às transposições
e facilitar o reconhecimento da escala básica em cada
peça(9).

Diagrama II – Transposições modais
utilizadas por Milan.
Esse diagrama foi construído levando-se em conta
uma transcrição das cifras para a notação moderna com
base na afinação do violão, uma vez que não existia
na época nenhuma indicação precisa para a altura das
cordas da vihuela, além do intervalo que separava suas
ordens(10). Também não existia um padrão
que estabelecesse a altura absoluta das notas musicais,
fazendo com que o sistema de leitura musical, ou solmização,
fosse sempre relativo. Por isso, qualquer que fosse
a transposição usada na vihuela, as clausulas finales
dos oito modos recebiam sempre as mesmas designações,
baseadas apenas na nomenclatura teórica das notas musicais.
Tais nomes eram o resultado da superposição vertical
de letras e signos de solmização, de acordo com o Diagrama
III(11).

Diagrama III – Formação dos nomes
das notas musicais no século XVI (leitura vertical)
pela superposição de letras e signos de solmização (leitura
horizontal).
Isto significa que os vihuelistas não faziam seus
cálculos sobre pentagramas, mas diretamente sobre o
braço da vihuela(12). Representando-se nas
cordas do instrumento a posição de cada uma das seis
clausulas finales possíveis para cada modo, teremos
uma idéia bem mais clara dos pontos sobre os quais Milan
construia as escalas modais em cada tipo de transposição
[Diagrama IV].

Diagrama IV – Pontos da vihuela onde
se encontram as clausulas finales de cada transposição
modal.
Entende-se, portanto, como um mesmo punto da vihuela
pode ser clausula final de modos diferentes: por estas
mismas ptes (6o modo, transposição Lá) se puede azer
el octauo (transposição Sol). la difereciaes es ˜q feneciedo
los dos en vn mismo punto (1a ordem, 3o traste) se dira
fefaut si es sexcto y gesolreut si es octauo (fol. Pr).
O uso de várias transposições teria a função de dinamizar
o sistema, de atribuir matizes diferentes para a mesma
cor (tono ou modo): mejor paresce el tercero y quarto
tono enla vihuela por donde esta fantasia anda (3o modo,
transposição fa) que no por dõde va la fantasia passada
(3o e 4o modos, transposição sol) (fol. K2v). Teoricamente,
Milan apresenta a possibilidade total de 48 escalas
diferentes. Muitas delas, entretanto, não são usadas,
ou pela dificuldade técnica que implica sua execução,
ou pelas limitações de âmbito impostas pelo instrumento,
já que o número máximo de 10 trastes na vihuela impedia
a formação completa de certas escalas: no se puede perfectamete
formar por ãq sino el sexto (transposição sol): por˜q
pa el qu˜ito tono faltale su justo termio (fol. Mr).
A nota correspondente à 2a ordem, 3o traste (Ré3, no
violão) era a clausula final mais aguda sobre a qual
se podia construir uma oitava completa.
Aspectos didáticos
Além de proporcionar grande variabilidade de caráter,
o uso de diferentes modos e transposições teve uma intenção
claramente didática. Milan organiza as obras de seu
livro segundo vários critérios, dois deles envolvendo
fatores ligados ao sistema modal:
1) a apresentação coerente dos modos para cada forma
musical;
2) a apresentação de número e dificuldade técnica
crescentes de transposições modais.
O primeiro critério pode ser observado na Tabela
I, onde a numeração das obras que adotamos é seguida,
entre parênteses, pela numeração proposta por Ruggero
Chiesa, atualmente a mais conhecida(13). As indicações
de livros, cadernos (grupos de peças identificadas por
letras maiúsculas), das formas musicais e, no caso das
peças para vihuela solo, dos seus modos, são originais
de Milan (seja VC = villancico en castellano, VP = villancico
en portugues, RC = romance en castellano e SY = soneto
en ytaliano).
|
Primeiro livro
|
|
Segundo livro
|
|
FANTASIAS (grupo Ia)
|
B
|
F I (F I)
|
1o re
|
|
FANTASIAS (grupo IIa)
|
J
|
F XIV (F XXIII)
|
1o sol
|
|
F II (F II)
|
1o re
|
|
F XV (F XXIV)
|
1o sol
|
|
F III (F III)
|
1o re
|
|
F XVI (F XXV)
|
1o e 2o sol
|
|
F IV (F IV)
|
2o re
|
|
K
|
F XVII (F XXVI)
|
3o e 4o sol
|
|
F V (F V)
|
2o re
|
|
F XVIII (F XXVII)
|
3o fa
|
|
C
|
F VI (F VI)
|
1o e 2o re
|
|
F XIX (F XXVIII)
|
4o fa
|
|
F VI (F VII)
|
3o re
|
|
L
|
F XX (F XXIX)
|
3o e 4o fa
|
|
F VIII (F VIII)
|
4o re
|
|
F XXI (F XXX)
|
3o e 4o fa
|
|
F IX (F IX)
|
3o e 4o re
|
|
F XXII (F XXXI)
|
6o sol
|
|
|
|
|
|
|
M
|
F XXIII (F XXXII)
|
6o sol
|
|
|
|
|
|
|
F XXIV (F XXXIII)
|
6o sol
|
|
TENTOS (grupo I)
|
D
|
T I (F X)
|
1o e 2o re
|
|
TENTOS (grupo II)
|
N
|
T X (T I)
|
1o e 2o sol
|
|
T II (F XI)
|
1o e 2o re
|
|
T XI (T II)
|
3o e 4o fa
|
|
T III (F XII)
|
3o e 4o re
|
|
T XII (T III)
|
5o e 6o sol
|
|
T IV (F XIII)
|
1o re
|
|
T XIII (T IV)
|
7o e 8o la
|
|
T V (F XIV)
|
3o e 4o re
|
|
|
|
|
|
E
|
T VI (F XV)
|
5o e 6o re
|
|
|
|
|
|
T VII (F XVI)
|
5o e 6o sol
|
|
|
|
|
|
T VIII (F XVII)
|
5o e 6o sol
|
|
|
|
|
|
TIX (F XVIII)
|
7o e 8o re
|
|
|
|
|
|
FANTASIAS (grupo Ib)
|
F
|
F X (F XIX)
|
5o re
|
|
FANTASIAS (grupo IIb)
|
O
|
F XXV (F XXXIV)
|
7o re
|
|
F XI (F XX)
|
6o sol
|
|
F XXVI (F XXXV)
|
8o re
|
|
F XII (F XXI)
|
7o re
|
|
F XXVII (F XXXVI)
|
7o e 8o re
|
|
F XIII (F XXII)
|
8o re
|
|
F XXVIII (F XXXVII)
|
7o e 8o re
|
|
|
|
|
|
P
|
F XXIX (F XXXVIII)
|
6o la
|
|
|
|
|
|
F XXX (F XXXIX)
|
7o e 8o ut
|
|
|
|
|
|
F XXXI (F XL)
|
7o e 8o re
|
|
PAVANAS
|
G
|
P I (P I)
|
1o e 2o re
|
|
|
|
|
|
|
P II (P II)
|
3o e 4o re
|
|
|
|
|
|
|
P III (P III)
|
5o e 6o re
|
|
|
|
|
|
|
P IV (P IV)
|
7o e 8o re
|
|
|
|
|
|
|
P V (P V)
|
8o re
|
|
|
|
|
|
|
P VI (P VI)
|
8o re
|
|
|
|
|
|
|
MÚSICA PARA CANTO E VIHUELA (grupo
I)
|
H
|
H VC I (–)
|
(5o) re
|
|
MÚSICA PARA CANTO E VIHUELA (grupo
II)
|
Q
|
VC IV (–)
|
(7o) re
|
|
VC II (–)
|
(8o) re
|
|
VC V (–)
|
(2o) sol
|
|
VC III (–)
|
(1o) re
|
|
VC VI (–)
|
(1o) ut
|
|
VP I (–)
|
(7o) la
|
|
VP IV (–)
|
(1o) re
|
|
VP II (–)
|
(7o) la
|
|
VP V (–)
|
(8o) ut
|
|
VP III (–)
|
(7o) sol
|
|
VP VI (–)
|
(1o) ut
|
|
RC I (–)
|
(7o) sol
|
|
R
|
RC III (–)
|
(1o) la
|
|
RC II (–)
|
(7o) la
|
|
RC IV (–)
|
(7o) sol
|
|
SY I (–)
|
(7o) sol
|
|
SY IV (–)
|
(1o) re
|
|
SY II (–)
|
(7o e 5o) la
|
|
SY V (–)
|
(6o) mi
|
|
SY III (–)
|
(5o) sol
|
|
SY VI (–)
|
(7o) la
|
Tabela I – Modos e transposições
na música do El maestro.
Observamos, então, que as fantasias apresentam ao
principiante, numa ordem quase perfeita, os modos maestros,
discipulos e mixtos, mas com a interpolação, em ambos
os libros, dos grupos de tentos. Estes últimos, assim
como as pavanas, apresentam também em ordem os modos
mistos. Já os dois grupos de musica para cantar e tañer,
para os quais indicamos apenas os modos relativos às
partes vocais, fazem uso desordenado dos modos, mas
com uma nítida preferência pelo 1o e7o, rejeição do
3o e 4o e raro uso dos modos mistos.
O segundo critério de organização pode ser observado
na Tabela II. Nesta, utilizamos como medida da quantidade
de peças o quaderno, conjunto de 3 folhas grandes impressas
em frente e verso e dobradas no momento da encadernação,
totalizando 12 páginas de musica en cifras e englobando
número e tipos cuidadosamente planejados de composições.
|
|
|
|
UT
|
RE
|
MI
|
FA
|
SOL
|
LA
|
total
|
| PRIMEIRO
LIVRO
|
F–Ia
|
B
|
-
|
5
|
-
|
-
|
-
|
-
|
5
|
| C
|
-
|
4
|
-
|
-
|
-
|
-
|
4
|
| T–I
|
D
|
-
|
5
|
-
|
-
|
-
|
-
|
5
|
|
E
|
-
|
2
|
-
|
-
|
2
|
-
|
4
|
| F–Ib
|
F
|
-
|
3
|
-
|
-
|
1
|
-
|
4
|
|
P
|
G
|
-
|
6
|
-
|
-
|
-
|
-
|
6
|
| CV–I
|
H
|
-
|
3
|
-
|
-
|
4
|
4
|
11
|
| SEGUNDO LIVRO
|
F–IIa
|
J-
|
-
|
-
|
-
|
-
|
3
|
-
|
3
|
|
K
|
-
|
-
|
-
|
2
|
1
|
-
|
3
|
|
L
|
-
|
-
|
-
|
2
|
1
|
-
|
3
|
|
M
|
-
|
-
|
-
|
-
|
2
|
-
|
2
|
| T-II
|
N
|
-
|
-
|
-
|
1
|
2
|
1
|
3
|
|
O
|
-
|
4
|
-
|
-
|
-
|
-
|
4
|
| F–IIb
|
P
|
1
|
1
|
-
|
-
|
-
|
1
|
3
|
| CV–II
|
Q/R
|
3
|
3
|
1
|
-
|
2
|
2
|
11
|
|
|
|
Total
|
4
|
36
|
1
|
5
|
18
|
8
|
72
|
Tabela II – Quantidade de peças encontradas em cada
transposição no El maestro.
É o próprio vihuelista quem indica quais são as escalas
que resultam em música de execução mais simples, como
o 1o modo na transposição re: por estos terminos seda
Ia musica mas facil enla vihuela que por otras que la
musica huuiesse de subir mas arriba del cinqueno traste
y porque no sean dificiles detañer al principiante (fol.
B2v).
Percebemos, assim, como o primer libro, que es para
principiantes (fol. A6r), serve-se de modos por partes
faciles (fol. B3v), enquanto a música do segundo livro,
muito mais difícil, está feita sobre transposições de
execução mais complexa: y assi vereys eñste seg˜udo
libro los tonos por otras partes en la vihuela ˜q eñste
passado libro haueys visto (fol. H8v). Já nas peças
para canto e vihuela, a diferença é mais sutil, com
um predomínio das transposições sol e la no primeiro
livro e ut e re no segundo, além de número maior de
transposições usadas, com relação às peças para vihuela
solo.
Com isso, o compositor acaba fornecendo ao principiante
as informações necessárias e suficientes para a construção
das escalas na vihuela, mas de uma maneira completamente
integrada à sua prática musical e ao seu grau de domínio
técnico do instrumento.
Cadências intermediárias
Compreendida a estrutura básica dos modos em Milan,
passemos a analisar as características estruturais de
cada um deles. Segundo o autor, um modo não se individualiza
apenas en el termino ou en la clausula final, mas também
en las clausulas (fol. R5v), ou seja, nas pontuações
ou cadências intermediárias que acontecem no decorrer
da peça [Ex. II]. Muitas são as formas de cadências
que aparecem, com relação ao material empregado, apesar
de Milan identificar apenas duas delas como clausula
(cadência que faz uso da suspensão e resolução de uma
das vozes) e cadencia (cadência plagal): no todas las
fantasias acaban en clausula: porque algunas acaban
en vna cadencia o consonancia (fol. R6r). Porém, o que
nos interessa aqui não é a maneira como ocorrem as cadências,
mas em que graus do modo são encontradas.

Ex. II – Clausula e cadencia na fantasia XVIII (XXVII)
(fol. K5r, cps. 222-8) do 3o modo, transposição fa (clausula
final Ré).
O autor aponta, na Intelligencia, três tipos de cadências,
com relação aos graus da escala em que se formam: generales
(I, IV e V graus), voluntaria ou punto para descançar
(III grau) e, apenas para o 1o modo, un puto mas baxo
d su clausula final (VII grau, abaixo da finalis). A
análise demonstra um sistema bem mais complexo,mas confirma
a existência de uma hierarquia para as cadências, que
teóricos como Gallus Dressler agrupavam em clausulae
principales, clausulae minus principales e clausulae
peregrinae(14). Observamos na Tabela III a taxa média
de cadências que cada grau recebe em modos e transposições
específicos na música para vihuela solo (entre parêntesis
a quantidade de peças encontradas)(15).
Embora seja possível constatar diferenças quantitativas
que estatisticamente confirmem as categorias cadenciais
de Milan e Dressler, percebemos como as transposições
podem influir na ocorrência de certas clausulas, por
razões puramente instrumentais (a transposição sol,
por exemplo, aparece como a mais pobre em variedade
de cadências intermediárias).
Mas há particularidades no cadenciamento de cada
modo: enquanto para o 1o, 2o, 7o e 8o modos as clausulas
generales são I, IV e V, no 3o e 4o modos temos I, IV
e VI e no 5o e 6o, I IVb e V (modos plagais e mistos
podem, evidentemente, cadenciar abaixo da finalis).
Outras diferenças acontecem ainda ao nível das cadências
que chamaremos de excepcionais e inexistentes, como
veremos na Tabela IV e no Gráfico I, apresentados nas
páginas seguintes.
|
|
I
|
II
|
III
|
IV
|
V
|
VI
|
VII
|
| 1o modo t. re (4)
|
37,1
|
-
|
20,0
|
08,6
|
25,7
|
|
08,6
|
| 1o modo t. sol
(1)
|
45,5
|
-
|
-
|
-
|
54,5
|
|
-
|
| 2o modo t. re (2)
|
18,7
|
-
|
31,2
|
12,5
|
31,2
|
|
06,2
|
| 2o modo t. sol
(1)
|
46,7
|
-
|
06,7
|
13,3
|
20,0
|
|
13,3
|
| 1o e 2o modo
t. re (2)
|
30,5
|
05,5
|
05,5
|
-
|
50,0
|
|
08,3
|
| 1o
e 2o modo t. sol (4)
|
35,7
|
|
-
|
10,7
|
53,6
|
|
-
|
| Total
1o/2o modos (14)
|
34,7
|
01,4
|
10,6
|
07,1
|
39,7
|
|
06,4
|
|
|
I
|
II
|
III
|
IV
|
V
|
VI
|
VII
|
| 3o modo t. re (1)
|
77,7
|
|
11,1
|
11,1
|
|
-
|
-
|
| 3o modo t. fa (1)
|
45,4
|
|
-
|
36,4
|
|
18,2
|
-
|
| 4o modo t. re (1)
|
83,3
|
|
-
|
16,7
|
|
-
|
-
|
| 4o modo t. fa (1)
|
43,7
|
|
18,7
|
31,2
|
|
06,2
|
-
|
| 3o e 4o modo
t. re (4)
|
58,8
|
|
08,8
|
17,6
|
|
11,8
|
02,9
|
| 3o
e 4o modo t. fa (3)
|
49,0
|
|
12,2
|
24,5
|
|
14,3
|
-
|
| 3o e 4o modo t. sol (1)
|
77,7
|
|
-
|
-
|
|
22,2
|
-
|
| Total 3o/4o modos (12)
|
56,0
|
|
09,7
|
21,6
|
|
11,9
|
00,7
|
|
|
I
|
II
|
III
|
IVb
|
V
|
VI
|
VII
|
| 5o
modo t. sol (1)
|
66,7
|
-
|
-
|
06,7
|
26,7
|
-
|
|
| 6o modo
t. sol (1)
|
77,0
|
-
|
04,9
|
-
|
16,4
|
01,6
|
|
| 6o modo t.
la (4)
|
61,1
|
-
|
-
|
11,1
|
27,8
|
-
|
|
| 5o e 6o modo t. re
(2)
|
48,3
|
-
|
-
|
13,8
|
37,9
|
-
|
|
| 5o e 6o modo t. sol
(3)
|
60,0
|
-
|
10,0
|
-
|
30,0
|
-
|
|
| Total 5o/6o modos (11)
|
65,4
|
|
04,3
|
03,7
|
25,9
|
00,6
|
|
|
|
I
|
II
|
III
|
IV
|
V
|
VI
|
VII
|
| 7o modo t. re (2)
|
55,5
|
06,7
|
|
22,2
|
|
15,5
|
|
| 8o modo t. re (4)
|
62,5
|
-
|
03,1
|
12,5
|
21,9
|
-
|
|
| 7o e 8o modo t. ut (1)
|
54,5
|
-
|
09,1
|
09,1
|
18,2
|
09,1
|
|
|
7o e 8o modo t. re (5)
|
52,9
|
02,9
|
01,4
|
17,1
|
22,9
|
02,9
|
|
| 7o e 8o modo t. la (1)
|
57,1
|
-
|
-
|
28,6
|
14,3
|
-
|
|
| Total 7o/8o modos (13)
|
55,8
|
02,6
|
02,1
|
17,9
|
19,5
|
02,1
|
|
Tabela III – Taxa média de cadências por grau (em
%) na música para vihuela solo.
|
|
PROPRIAS (clausulas
generales)
|
FACULTATIVA (clausula
voluntaria)
|
EXCEPCIONAIS
|
INEXISTENTES
|
| 1o/2o modos
|
I IV V
|
III
|
II VII
|
VI
|
| 3o/4o modos
|
I IV VI
|
III
|
VII
|
II
V
|
| 5o/6o modos
|
I IVb V
|
III
|
(II)
VI
|
IV? VII
|
| 7o/8o modos
|
I IV V
|
III
|
II VI
|
VII
|
Tabela IV – Categorias de cadências intermediárias
e comportamento cadencial nos 8 modos.

Gráfico I – Diferenciação qualitativa e quantitativa
no cadenciamento dos 8 modos na música para vihuela
solo.
A razão desse comportamento específico pode ser encontrada
na própria estrutura de cada escala. Em todos os modos
há dois graus que distam um trítono entre si, ou seja,
uma quarta aumentada ou um quinta diminuída. Conhecido
há séculos como diabolus in musica, este intervalo ainda
era tido como elemento desestabilizador do sistema,
dado o desequilíbrio acústico que causava sua ocorrência.
Não era um intervalo proibido no século XVI, mas usado
com extrema cautela, de modo a ser ouvido com a mínima
ênfase possível. Como a cadência é um repouso sobre
determinado grau, resultando em seu evidenciamento,
duas delas jamais podem estar separadas por um trítono
dentro de uma mesma peça.
Assim é que no 3o e 4o modos, o caso mais drástico,
as duas extremidades do trítono deixam de receber cadências
(II e V graus). Já no 5o e 6o modos, dos graus extremos
(I e IV) só não ocorre cadência no IV, mas esta se dá
no IVb, onde o grau fundamental é bemolizado. Com isso,
novo trítono interno é formado, impedindo agora que
ocorra o cadenciamento no VII grau.
Nos outros modos, apenas uma das extremidades do
trítono é evitada como grau cadencial (VI no 1o e 2o,
VII no 7o e 8o), o que nos permite, finalmente, compreender
o significado das categorias de cadências intermediárias.
As clausulas generales (cadências próprias) ocorrem
sobre os graus, em termos estruturais, perfeitamente
consonantes de cada modo, graus esses que variam de
um modo para outro, caracterizando-os. Já a clausula
voluntaria (cadências facultativas) é feita sobre um
grau estruturalmente também consonante (ainda que uma
consonância imperfeita, pela teoria da época), mas situado
no meio da quinta do modo e idêntico para todos eles
(III grau): é um punto para descançar, comum a todas
as escalas, onde a cadência, como nas clausulas generales,
sempre é permitida.
Por essa razão, o 1o, 2o, 7o e 8o modos cadenciam
no III grau, deixando a outra extremidade do trítono
com cadências inexistentes. Cadências excepcionais podem
ocorrer ainda em outros graus, desde que não repousem
sobre um dos graus formadores do trítono.
Assim sendo, deduzimos não haver, pelo sistema, proibição
de cadências no II grau para o 5o e 6o modos (apesar
de Milan não ter se utilizado desse recurso), uma vez
que não existe trítono entre esse e outro grau nessas
escalas.
Alterações cromáticas
Analisemos, agora, os acidentes ou alterações cromáticas
que ocorrem em cada modo, cuja utilização não é comentada
por Milan. Por uma análise estatística, quantificamos
essas alterações em três categorias distintas, para
apresentá-las no Diagrama V como:
a) muito freqüentes (acidentes grandes);
b) pouco freqüentes(acidentes pequenos);
c) raras (acidentes pequenos, entre parêntesis).
As escalas modais são novamente representadas neste
diagrama (apenas pelos modos autênticos), com notas
brancas indicando graus de cadência inexistente e os
acidente quantificando e qualificando as alterações
cromáticas encontradas. Para facilitar a compreensão
da análise, ao lado dos modos representamos as suas
cadências intermediárias características.

Diagrama V – Alterações cromáticas utilizadas por
Milan.
Observamos, em uma das extremidades do trítono interno
de casa modo, o uso de acidentes muito freqüentes. Usados,
dentre esses extremos, sobre os graus estruturalmente
menos característicos do modo, sua função é abrandar
a ocorrência melódica ou harmônica desse trítono [Ex.
III]. Já os acidentes pouco freqüentes e raros têm como
função primeira permitir a formação das clausulas, que
necessitam um semitom superior ou inferior (mas nunca
ambos) para polarizar o grau cadencial e, em muitos
casos, a “terça de picardia” (acidente que torna maior
a terça do acorde) para enfatizar o acorde formado [Ex.
IV].

Ex. III – Neutralização do trítono nos tentos III
(fantasia XII) (fol. D5r, cps. 100-5) do 3o 4o modos,
transposição re (clausula final Si).

Ex. IV – “Terça de picardia” nos tentos XI (II) (fol.
N2r, cps. 137-43) do 3o e 4o modos, transposição fa
(clausula final Ré).
Constatamos, então, quatro categorias hierárquicas
para as alterações cromáticas. Assim como nas cadências,
temos para estas as próprias (muito freqüentes), facultativas
(pouco freqüentes), excepcionais (raras) e inexistentes.
Mas o que torna o sistema interessante é o fato de todas
as alterações poderem ocorrer com outras funções, aparecendo
as peças quase sempre repletas desses acidentes, aparentemente
estranhos ao modo, mas perfeitamente integrados à sua
estrutura. Foi possível detectar muitos casos diferentes
para as alterações cromáticas, além dos mencionados,
porém sempre utilizando os acidentes indicados, em suas
respectivas transposições [Ex. V].

Ex. V – Alterações cromáticas fora da cadência na
fantasia XIV (fol. Jr, cps. 5-10)do 1o modo, transposição
sol (clausula final Ré).
Como conseqüência dessas alterações, é nítida a aproximação
que existe entre o 5o e o 7o modos (e respectivos plagais),
pela tendência à sua equiparação intervalar, o mesmo
acontecendo entre o 1o e o 3o (idem), a ponto de ser
quase impossível, em muitos casos, a sua diferenciação.
O trítono, que provoca em cada modo a necessidade
do uso de certas alterações, agora é responsável pela
tendência à fusão, ou hibridização de certos modos,
acarretando a desestabilização progressiva do sistema.
Compreende-se o cuidado que se tinha com esse intervalo.
Conclusões
Percebemos, então, a relação entre a estrutura da
escala modal escolhida e as principais características
melódicas e harmônicas da peça acabada. De um lado,
a posição dos tons e semitons no modo determina a posição
do trítono interno e, como conseqüência, os graus onde
ocorrerão cadências e os tipos de acidentes que serão
usados. De outro, a adoção de um modo autêntico, plagal
ou misto já determina o âmbito, a posição exata dos
graus cadenciais e das alterações cromáticas na escala,
limitados e distribuídos no braço do instrumento de
acordo com a transposição empregada.
A gênese da música modal, como esta que vimos em
Milan, lembra a própria gênese dos seres vivos, onde
a posição dos aminoácidos na molécula de DNA determina
a seqüência dos genes, que já no embrião contêm codificadas
todas as características estruturais do indivíduo adulto.
E não apenas tais indivíduos possuem características
absolutamente individuais, como estas são o resultado
da troca de genes, e portanto características, dos dois
indivíduos que o geraram.
Observamos como o 1o e o 2o modos se aproximam do
3o e 4o pela troca de fatores comuns, o mesmo se dando
entre o 5o e 6o e o 7o e 8o modos. Estes são, respectivamente,
os pais dos modos dórico e hipodórico (9o e 10o), jônio
e hipojônio (11o e 12o), nomes infantis dos modos adultos
menor e maior.
Se, até aqui, analisamos a ontogênese do sistema
modal em Milan, pudemos observar apenas uma das gerações
na filogênese dos sistemas musicais. Superpondo-se,
modificando-se, aniquilando-se, muitos sistemas existiram
desde que o homem começou a fazer música, alguns chegando
vivos em nossos dias e outros só descobertos após sua
extinção.
Sistemas ainda em uso, novos ou velhos, muito ou
pouco difundidos, apesar de profundamente enraizados
na evolução musical, algum dia também se tornarão arcaicos,
cedendo seus lugares a outros sistemas que percorrerão
os mesmos caminhos: Enquanto este planeta continuar
a girar, obedecendo à imutável Lei da Gravidade, as
formas mais belas, mais maravilhosas, que evoluíram
a partir de um início tão simples, ainda prosseguem
hoje em dia neste desenvolvimento (Charles Darwin, 1859)(16).
NOTAS
(1) A primeira biografia conhecida de Luis Milan,
sobre a qual estão baseadas as demais, foi publicada
em MORPHY, Guillermo. Les luthistes espagnols du XVIe
siècle. Leipzig: Breitkopf und Härtel, 1902. Cf. PRAT,
Domingo. “Milán, Luis”, in: Diccionario de guitarristas....
Buenos Aires: Casa Romero y Fernandes, 1934, pp. 206-208.
(2) Extremamente raro, existem hoje cerca de 12 exemplares
do El maestro, em bibliotecas de Barcelona, Madrid,
Viseu, Leipzig, Paris, Parma, Haia, Londres, Chicago
e Washington, cujo frontispício é o seguinte: LIBRO
DE MV | sica de vihuela de mano. Intitulado El | maestro.
EI qual trahe el mesmo estilo y orden | que vn maestro
traheria con vn discipulo | principiante: mostrandole
ordenadamen | te desde los principios toda cosa que
| podria ignorar para entender la | presente obra. Compuesto
por | don Luys Milan. Dirigido | aI muy alto et muy
pode | rodo et inuictissimo pr˜ici | pe don Juhan: por
| la graciade dios | rey de Portu | gal y de las | yslas.
| etc. | Año. M.D.xxxv. | Con priuilegio Real. (no fol.
R6r.: /.../ por Francisco Diaz Romano. En la Metropolitana
y Coronada | Ciudad de Valencia. Acabose a .iiii. dias
del mes de Dez˜iebre | Año de nuestra reparacion. De
Mil y quinientos | treinta y seys). Houve seis reedições
completas desta obra, a saber: Libro de musica de vihuela
de mano intitulado El maestro (ed. Leo Schrade). Leipzig
(Publicationen älterer Musik, ll), 1927, e 2a ed. Wiesbaden,
1976; El Maestro (Trascrizione in notazione moderna
per chirarra di Ruggero Chiesa). Milano: Edizioni Suvini-Zerboni,
2 vol., 1965, 2a ed. 1975. Libro de Musica de vihuela
de mano intitulado El Maestro (ed. and translated by
Charles Jacobs). Pensylvania State University Press,
1971; Libro de Musica de vihuela de mano (ed. facsimilar).
Genève: Minkoff Editeur, 1975.
(3) A vihuela descrita por Milan tinha seis pares
de cordas afinadas em uníssono e distantes entre si
(da mais grave à mais aguda) segundo a relação 4aJ–4aJ–3aM–4aJ–4aJ.
Para tornar a afinação do violão próxima à da vihuela,
as cordas devem ser usadas nas alturas Mi1–Lá1–Ré2–Fá#2–Si2–Mi3.
(4) Nos livros antigos, muitas vezes a numeração
era feita não por páginas, mas por fólios (fol.). Neste
sistema de transcrição, o fólio é indicado por uma letra
maiúscula que representa o caderno (unidade de encadernação
constituída por 3 ou 4 folhas grandes dobradas),
um algarismo arábico que dá a posição do fólio no caderno
e as letras “r” ou “v”, que indicam a lauda da frente
(reverso) ou do verso.
(5) Há edição facsimilar pela Georg Olms Verlag (Hildesheim
e N. York, 1969, 470 p.).
(6) Mestres e discípulos. Os dicionários e tratados
de música espanhóis e portugueses continuam a utilizar
esta nomenclatura até, pelo menos, o final do século
XIX. Traduções para o vernáculo do latim autenticus
e plagalis são características deste século.
(7) Há casos ambíguos, como o villancico en castellano
I (Toda mi vida hos ame), que atribuímos ao 5o modo
(transposição re), mas que também pode ser analisado
como 7o modo (transposição ut). Quanto à mudança do
modo na mesma peça, um único caso parece ocorrer no
romance en castellano I (Durandarte durandarte), do
7o modo (transposição sol), onde a segunda parte começa
no 5o modo (transposição ut), retornando em seguida
ao modo e transposição anteriores.
(8) A solmização foi um sistema criadopor Guido d’Arezzo
no século XI e exposto pela primeira vez por Johannes
Afflighemensis no tratado De Musica, de c.1100. Nesse
sistema, as sílabas ut re mi fa sol la, iniciais do
hino Ut queant laxis, eram usadas para entoar três tipos
de hexacordes: naturale (Dó Ré Mi Fá Sol Lá), mollis
(Fá Sol Lá Sib Dó Ré) e durum (Sol Lá Si Dó Ré Mi).
(9) No século XVI a transposição começa a ser usada
tanto na música vocal (conhecida como cantus fictus)
quanto na música instrumental. Os vihuelistas sempre
fazem uso de transposições cuja distância está baseada
nos signos de solmização. Porém, enquanto Milan emprega
o hexacorde naturale (correspondente à escala Dó Ré
Mi Fá Sol Lá), Alonso Mudarra e Henriquez de Valderrabano,
por exemplo, utilizam transposições sobre o hexacorde
durum (Sol Lá Si Dó Ré Mi). Já Luis de Narváez serve-se
de ambos, usando uma escala do tipo (Dó) Ré Mi Fá Fá#
Sol Lá, ou (Sol) Lá Si Dó Dó# Ré Mi (desprezando a transposição
entre parênteses).
(10) A constatação de transposições diferentes para
o mesmo modo fez com que vários musicólogos imaginassem
que cada livro de música para esse instrumento teria
sido escrito para vihuelas com seis afinações diferentes,
permitindo sempre a transcrição para notação moderna
com ausência de bemóis ou sustenidos na armadura de
clave. Sob esse ponto de vista, Milan teria escrito
para vihuelas em Ré, Mi, Fá#, Sol, Lá e Si (considerando
a altura da primeira ordem), cuja música estaria cifrada,
respectivamente, nas transposições la, sol, fa, mi,
re e ut. Essa interpretação, apesar de bastante difundida,
não encontra qualquer fundamentação teórica. O próprio
Milan deixa instruções para afinar o instrumento que
invalidam tal hipótese: Si la vihuela es grãde, tenga
la prima (primeira corda) mas gruessa que delgada. Y
si es pequeña, tenga la prima mas delgada que gruessa:
y hecho esto, subireys Ia prima tan alto quanto lo pueda
suffrir: y depues templareys las otras cuerdas, al punto
dela prima (fol. A3V).
(11) Cf. MICHELS, Ulrich. DTV-AtIas zur Musik. München:
Deutscher Taschenbuch Verlag/Bärenreiter Verlag, 1981,
p. 188 (trad. esp. León Mames, Atlas de musica, I. Madrid:
Alianza Ed., 1989).
(12) Juan Bermudo descreve este processo na Declaración
de instrumentos musicales (Ossuna: Juan de Leon, 1555),
libro II, cap. 35: Comúnmente los tañedores de vihuela
que son diestros en el arte de cifrar y de poner en
este instumento cifras ymaginam començar la sexta cuerda
en vazio en gamaut y algunas vezes em A re (...) Puede
ser la sexta en vazio no solamente gamaut (Sol), o A
re (Lá) pero B mi (Si) y C fa ut (Dó) y D sol re (Ré)
y cualquiera de los otros signos diferentes. Dije señaladamente
ymaginar porque pintar las vihuelas, guitarras, bandurrias
y rabeles que adelante veréys no se hace porque de parte
de los dichos instrumentos ello sea así, sino que teniendo
las vihuelas dibujadas, fácilmente (mirando a los signos
que en ellas están pintados) pueden cifrar. Es, pues,
este arte ymaginario; para por él venir con facilidad
y certidumbre a cifrar que es Io que muchos tañedores
desean. De Ia manera que ymaginaréis ser la sexta en
vazío, así tendrán las claves sus asientos. Pues como
se mudare en la vihuela el gamaut, así se mudarán las
claves. Cf. NARVÁEZ, Luys de. Los seys libros del Delphin
de música de cifra para tañer vihuela. Valladolid, 1538;
Transcripción y estudio por Emilio Pujol. Barcelona:
Instituto Español de Musicología, 1945, p. 29.
(13) A análise das peças classificadas por R.Chiesa
como fantasias X a XVIII (do primeiro livro) e das referências
legadas por Milan, não deixa qualquer dúvida de que
estas pertencem à mesma forma musical dos tentos do
segundo livro: Esta arte de musicas que agora se sigue
(grupo N) es semblante ala musica del quarto y quinto
quadernos (grupos D e E) del primero libro (fol. M4v).
Portanto, ao reclassificarmos tais peças como tentos,
temos que alterar a numeração das fantasias que se seguem.
(14) Dressler,no Praecepta musicae poeticae, de 1563,
caracterizou esses três tipos de cadências: 1. principais
(principales) “...nas quais consistem o fundamento do
modo /.../ as cadências /.../ são construídas sobre
as notas das espécies de quarta e quinta, ou nos repercutia;
2. secundárias (minus principales) ...que não se afastam
da fonte básica do modo, mas podem ser inseridas sem
efeito desagradável no meio de uma obra; 3. Estranhas
(peregrinae) ...que não possuem lugar próprio no modo,
mas são invasões de outros modos”. Cf. POWERS, Harold
S. “Mode”, in: The New Grove Dictionary of Music and
Musicians (Org. S.SADIE). London: Macmillan Publs. Ltd.,
1980, v.12, pp. 376-450.
(15) Para essa análise, marcamos todas as cadências
observadas na música para vihuela solo, indicando o
grau em que ocorriam. Em seguida, preparamos uma tabela
com o número de cadências encontradas por grau em cada
peça para, em seguida, proceder a uma análise estatística,
agrupando obras de mesmo modo e transposição modal.
Não consideramos a música para voz e vihuela, cujas
cadências intermediárias possuem um comportamento diverso,
ficando restritas quase que exclusivamente às clausulas
generales.
(16) Cf. DARWIN, Charles. Origem das espécies (trad.
Eugênio Amado). B.H.: Editora ltatiaia; S.P.: EdUSP,
1985, p.366.
BIBLIOGRAFIA
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Renaissance Music”, in: The Music Review, 30(1):1-21,
1969.
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GREBE, Maria-Ester. “Modality in Spanish Renaissance
Vihuela Music and Archaic Chilean Folksongs: a comparative
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GREENE, Thomas. “The Hexacord System as it applies
to the Spanish Vihuelists”, in: Chelys, 1(3):23-27,
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HONEGGER, Marc. “La tablature de Diego Pisador et
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de Musicologie, (59):38-59,191-230, 1973; (60):3-32,
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HUDSON, Richard. “The Concept of Mode in Italian
Guitar Music During the First Half of the Seventeenth
Century”, in: Acta Musicologica, (42):163-183, 1970.
ROUTLEY, N. “A Pratical Guide to Musica Ficta”, in:
Early Music, feb. 1985:59-71.
STRUNK, Oliver. Source Readings in Music History.
I – Antiquity and Middle Ages; e II – The Renaissance.
London/Boston: Faber & Faber, 1965.
WARD, John M. “Le problème des hauteurs dans la musique
pour luth et vihuela au XVIe siècle”, in: JACQUOT, Jean.
Le luth et sa musique. Paris: Centre National de la
Recherche Scientifique, 1958, pp. 171-178.
ZARLINO, Gioseffo. On the Modes, parte IV de: Le
Institutioni Harmoniche (1558). New Haven/London: Yale
Univenity Press, 1983.
Paulo Augusto Castagna é bolsista da FAPESP
(Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo)
e pós-graduando do Departamento de Música da Escola
de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
(USP). Como pesquisador, dedica-se ao estudo da música
brasileira, desenvolvendo atualmente trabalho sobre
a prática musical no Brasil dos séculos XVI e XVII.
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