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INFLUÊNCIAS
COMPOSTAS: TRÊS NOTAS DE CONCERTO
Arthur Nestrovski
Estas
notas combinam musicologia e análise com elementos da
teoria literária para um estudo da Sinfonia Praga e
do Concerto K.466 de Mozart, do Concerto no 5, para
piano e orquestra, de Beethoven e da Sinfonia Renana
de Schumann. A seleção das obras se justifica não só
por sua importância no cânone Romântico, mas também
por refletir convenientemente os padrões de influência
entre os três compositores. Uma leitura retórica das
obras, ao revelar padrões de defesa e expropriação poética,
vai de encontro à interpretação linear normativa das
histórias da música. No caso de Beethoven e Mozart,
por exemplo, a influência é, aparentemente, reversa,
com o precursor sendo deslocado da origem por obra de
seu sucessor. No caso de Schumann, semelhante expropriação
dos precursores deve ser vista no contexto das aporias
Românticas da imaginação e do instinto.
1. Mozart : A Sinfonia Praga
O desenvolvimento das formas-sonata corresponde,
em parte, a um desejo neo-clássico de simplicidade e
clareza estrutural; por outro lado, são as formas-sonatas
que proverão os meios de uma nova síntese, de um novo
e dramático estilo, capaz de compreender as mais diversas
linguagens sob um único regime. A música madura de Haydn
e de Mozart incorpora opera seria e buffa, o estilo
sentimental (Empfindsamstil) de C.P.E.Bach e o mundo
galant de J.C.Bach e Wagenseil, o Singspiel alemão e
vienense e os modos contrapontísticos do Barroco (J.S.Bach)
e da Renascença (stile osservato, versões acadêmicas
de Palestrina). O princípio que garante coerência a
uma tamanha diversidade de estilos é a elaboração temática
ou motívica: o emprego crítico de elementos mínimos.
As formas-sonatas expressam-se tanto por seu caráter
quanto por sua estrutura, uma estrutura dinâmica, na
qual os temas adquirem valor na medida de suas interrelações.
É um estilo de excesso, não menos do que de controle,
um estilo polissêmico, de múltiplos significados, onde
tudo se transforma e se traduz por sua função. É um
estilo que exibe a composição (não deus, nem rei, nem
músico) a nossos olhos, sob a visível tutela do compositor.
O estabelecimento das formas-sonatas representa um
impulso decisivo para a emancipação da música instrumental:
sonatas, quartetos, sinfonias e concertos. E o novo
prestígio adquirido pela música instrumental em fins
do século XVIII constitui-se, por si só, num poderoso
estímulo à liberação do compositor do patrocínio e da
autoridade do clero e da corte. O compositor vê-se,
agora, capaz de sobreviver numa economia de mercado
– no novo mercado da música impressa e do concerto público.
De agora em diante, a fortuna do compositor (em ambos
os sentidos) dependerá, dentre outros fatores, de sua
habilidade de cativar uma classe média urbana, ansiosa
por consumir cultura. A carreira de Josef Haydn é o
melhor exemplo desta progressão do mercado fechado ao
aberto. Haydn vivera bem no mundo velho, mas foi capaz
de adaptar-se com surpreendente facilidade ao mundo
novo também. Mozart, de sua parte, jamais chegou a compreender
bem seu papel nem num nem noutro, e foi impedido de
imitar o modelo do velho Haydn pela autoridade de um
pai ainda mais cego do que ele.
A Sinfonia Praga, ou “Sinfonia em Ré maior, sem minueto”,
foi composta em dezembro de 1786, pouco depois de Figaro
e pouco antes de Don Giovanni. Mozart trabalhara simultaneamente
na sinfonia e no Concerto para piano em Dó maior (no
25), ambos destinados a uma execução marcada para o
mês seguinte, em Praga, como um adendo à reencenação
de Figaro. Nessas circunstâncias, como em tantas outras,
Mozart mostra-se (tipicamente) capaz de se aproveitar
ao máximo das contingências: a falta de um minueto,
atendendo ao costume da Boêmia, o leva a conceber uma
obra tão inextricavelmente bem tecida, tão cheia de
contrastes e tão organicamente articulada de acordo
com o esquema dramático das formas-sonata, que o minueto
se torna virtualmente desnecessário, impensável. Apenas
neste sentido é possível se concordar com a afirmação
de Alfred Einstein, de que a sinfonia dispensa o minueto
porque Mozart “já dissera tudo o que tinha a dizer”.
Mais precisamente, ele compusera a própria ausência
de um movimento e integrara esta ausência numa estrutura
absolutamente sem igual no cânone Clássico inteiro.
Não é, contudo, apenas o emprego engenhoso das formas-sonata
que faz da Sinfonia Praga uma obra excepcional. Mais
notável ainda é o tratamento dos tropos, das figuras
de linguagem: da paronomásia (por exemplo, a figura
sincopada que dá início ao Allegro e que funciona tanto
como acompanhamento quanto como melodia) à anadiplose
(a recapitulação levando à recapitulação, a tônica preparando
a tônica), da permutação e da elipse (nas seções de
ritornello) à citação (Figaro no Finale e um trailer
de Don Giovanni na Introdução e no Andante) e aos tropos
mais especificamente musicais do contraponto invertido
(especialmente no primeiro movimento), das dissonâncias
acentuadas, do cromatismo e da superposição levemente
fora de fase das progressões harmônica e temática. Para
o compositor, como para o escritor, é a maestria dos
tropos que permite o desenrolar da fala. O espírito
da música de Mozart não é um tropo. Mozart é, e sabe
bem como deixar esse espírito à solta.
A Sinfonia Praga rearticula esta retórica erudita
com a maior desenvoltura e a maior espontaneidade, que
é a mais generosa ficção da música de Mozart. E sua
espontaneidade se mescla com a voz popular, da qual
Mozart jamais se afasta (nem se aproxima) demais. A
reconciliação das línguas que caracteriza o estilo Clássico
adquire uma outra dimensão à luz das crenças maçônicas
e do populismo de Mozart: na Sinfonia Praga, a reconciliação
é uma imagem de esperança contraposta à desintegração
da Europa Clássica, de uma só vez reafirmando, subvertendo
e sublimando um movimento de emancipação que chegaria
a uma primeira apoteose menos de três anos mais tarde,
na Praça da Bastilha.
O Concerto em Ré menor para piano e
orquestra, K.466
O Romantismo nos legou duas imagens de Mozart: uma
é a de um Mozart-Ariel, suave, levíssimo, ligeiro, um
Mozart em modo maior, um Mozart “clássico”, o Mozart
da “graça grega” (Schumann), o “gênio da música e do
amor” (Wagner); a outra é o Mozart de Hoffmann, um bruxo
gnóstico, um feiticeiro, um Mozart do modo menor, sublime
e trágico, um Mozart de “embates heróicos” (Michaelis),
um Mozart “romântico” do Don Giovanni, do Réquiem e
do Concerto para piano e orquestra em Ré menor. Nossa
própria imagem de Mozart, cristalizada em esforços relativamente
recentes por uma performance “autêntica”, lança-se em
busca de um Mozart “autêntico” ou ldeal, um mito primeiro,
o compositor na origem. Nessa versão, romantismo e Classicismo
se confundem sem contradição num estilo ainda mal conhecido
e mal descrito como “Clássico”.
O Concerto em Ré menor corresponde ao Mozart “romântico”
dos Românticos e constitui-se numa de suas obras capitais.
Do ponto de vista do século XIX, o surgimento de um
gênero musical está necessariamente ligado a um modelo
prévio, e o moderno concerto para piano – o concerto
de Beethoven – modela-se diretamente no K.466 de Mozart.
Em 1795, ainda jovem, Beethoven participou como solista
de uma performance em benefício da viúva de Mozart,
executando o Concerto em Ré menor entre dois atos de
La Clemanza de Tito. As cadências escritas por Beethoven
para seu próprio uso são escutadas até hoje com freqüência
e oferecem fascinante material para um estudo de genealogia
e ansiedade poética. Com Mozart, Beethoven aprendeu
o drama essencial do concerto: o conflito entre solista
e orquestra, desenvolvido simultaneamente como estrutura
e metáfora. O que Beethoven sobrepõe a Mozart é a convergência
de todos os papéis num esquema psicológico único, à
imagem do autor, um assalto à consciência do ouvinte
que vai tão longe quanto possível na direção do Romantismo
– do Romantismo beethoveniano. O Concerto no 4 para
piano e orquestra de Beethoven já progrediu o bastante
nesse rumo a ponto de reconhecer abertamente a influência
de Mozart, sem qualquer constrangimento.
A partir deste ponto, Mozart torna-se um verdadeiro
“clássico”, um autor exemplar, canônico: apropriado,
expropriado e abandonado. A cadenza de Beethoven para
o Allegro do concerto de Mozart nos oferece uma visão
privilegiada do conflito entre os dois: ela é menos
uma homenagem do que uma agressão à obra, o núcleo de
uma disputa difícil entre o velho e o novo. Passada
a cadenza, o resto todo do concerto nos parecerá repleto
de alusões a Beethoven, o que não é menos um sinal da
vitória de Beethoven do que uma indicação da riqueza
imaginativa de Mozart. E é assim que o drama interno
do concerto, sua lógica de composição, dá lugar a um
conflito externo, um agon da desleitura: a partir deste
ponto, para sempre suspensa entre o clássico e o Clássico,
a obra de Mozart estará sujeita às inevitáveis transformações,
às traduções – sea-changes – que determinam a vida póstuma
de toda obra de arte.
2. Beethoven: O Concerto no 5 para piano
e orquestra
É a Friedrich Nietzsche que se deve a idéia da música
de Beethoven como uma “música sobre a música”, idéia
trivializada desde então da maneira mais anti-nietzscheana.
Definir a música de Beethoven como sendo “sobre a música”
é sua mais elevada consagração na era da religião da
arte, mas é também uma fixação narcisista marcando o
encetamento da modernidade, uma ironia que não passou
desapercebida a Nietzsche. Das duas características,
a primeira se manifesta na violenta síntese de ideais
e materiais Clássicos realizada por Beethoven, um retorno
à essência da tonalidade de fins do século XVIII, bem
como uma imensa expansão de seu potencial dramático.
A segunda, mais severa e mais sombria, revela-se naqueles
momentos característicos em que a música de Beethoven
se detém, à procura de si mesma, incapaz de prosseguir;
revela-se ainda, de outro modo, nos blocos de esboços
do compositor, não menos parte integral da obra do que
os esboços de Joyce para Finnegans Wake, ou os cadernos
sanfonados de Proust. Leituras Românticas da música
de Beethoven como uma forma de autobiografia são só
involuntariamente e obliquamente corretas, na medida
em que sua música mais madura é sempre uma autobiografia
da forma e, portanto, consigna ao compositor um papel
positivo neste teatro ostensivamente instrumental. A
austeridade moral, ou franqueza, ou grosseria mesmo
de sua música é tanto sublinhada quanto contradita por
uma tal exibição: é só através da ilusão composta da
obra como uma solução eternamente provisória, como uma
espécie de work in progress, que poderá ela transcender
seus automatismos e projetar-se num Sublime que é menos
o Sublime Romântico do que o mais propriamente moderno.
E é isto apenas que pode hoje tornar a música de Beethoven
mais uma vez relevante e tolerável, sua figuração ambivalente
da Ernstfall, tanto a “maior seriedade” quanto a “franca
queda” dos poetas modernos.
Há um outro sentido ainda em que é possível referir-se
à música de Beethoven como uma “música sobre música”:
grande parte dela é sobre Haydn e mais ainda sobre Mozart.
De forma semelhante à abertura do Concerto em Sol maior,
no 4, também a cadenza inicial do Concerto no 5 constitui-se
numa alusão ao Concerto K.271 de Mozart (igualmente
em Mi bemol e igualmente apresentando o solista antes
da orquestra), bem como uma afirmação de potência sobre
o precursor. Mas a mesma maldição do ataque como defesa
e genealogia poética deve recair sobre o filho por obra
de seus filhos: de modo que assim como hoje se escutam
sugestões de Beethoven já em Mozart, também as explosões
pianísticas do Concerto em Mi bemol nos aparecem como
um legado reverso de Lizt a Beethoven. Este é um traço
sintomático da influência de Beethoven sobre a primeira
geração do Romantismo; pois, a despeito de sua admiração
declarada pela obra do Grande Surdo, nem Liszt, nem
Schumann, nem muito menos Chopin jamais fez uso dos
padrões de evolução harmônica e formal característicos
do gênio Clássico tardio de Beethoven. Os Românticos
se apropriam puramente de um repertório beethoveniano
de gestos, tanto psicológicos quanto retóricos. (A música
de Schubert é um caso diverso, mas o Schubert dos últimos
anos precisa ser visto à parte de todos os Romantismos
musicais contemporâneos.) Antes de Wagner e Brahms não
poderá reanimar-se o que de mais beethoveniano há em
Beethoven, seu retorno e luciferina reelaboração dos
princípios fundamentais do Classicismo. Que esta reanimação
– uma revisão verdadeiramente crítica, isto é, uma crítica
verdadeiramente revisionista – coincida com o envelhecimento
e petrificação da música de Beethoven (bem como a mitificação
do homem) é uma conseqüência da paradoxal vida póstuma
das obras de arte, cujo desdobramento se iguala à sua
decomposição.
3. Schumann: A Sinfonia Renana
As teorias Românticas (de princípios do século XIX)
sobre a música Clássica (de fins do século XVIII) baseiam-se
em três premissas:
1) de que a música é uma linguagem inteligível e
inteligível em seus próprios termos;
2) de que o significado musical escapa à racionalização,
o “puro jogo das formas” exibindo movimentos da consciência
(coração, alma, Geist) em um estado puro e não passível
de representação;
3) de que a música instrumental – a “música absoluta”
– é a mais elevada modalidade de expressão musical.
Tais pressupostos, contudo, são menos aplicáveis
ao período Clássico do que ao Romântico mesmo, o que
é talvez inevitável, já que cada época se esforça para
escrever o passado de acordo com suas possibilidades
de figuração. O que é mais significativo é a cegueira
dessas teorias face à identidade da própria música Romântica,
em suas relações para com a linguagem e, mais especificamente,
a poesia: assim como a música instrumental do Classicismo
internaliza o drama teatral e operístico, também a música
Romântica internaliza intenções e formas da poesia do
Alto Romantismo. A música Romântica está suspensa entre
dois impasses não resolvidos: o primeiro é aquilo que
Hegel descreve como a dialética do “puro som” ou “interioridade
formal” – a emancipação da música de seu conteúdo, sua
independência enquanto linguagem de tons (Tonsprache),
graças à qual será capaz de ascender à percepção de
si mesma, mas tão somente às custas da esterilidade
e da exaustão; o segundo é um impulso característico
do Alto Romantismo na direção do instintivo, que ironicamente
deve conduzir de volta à imaginação criativa e plenamente
auto-consciente. Isto é tão visível em Schumann, Liszt
ou Berlioz, como em Chopin ou Alkan, ou mesmo, num dado
sentido, em Brahms. (De certa maneira, isto se evidencia
ainda em nossa própria música, como na cegueira da teoria
musical contemporânea.)
Sinfonia e missa são as grandes formas Românticas
do Sublime. A sinfonia, que é secular, internaliza a
forma literária do “romance”, da narrativa épica, ancestral
e heróica – conquanto a busca do herói neste caso é
uma busca de auto-consciência, de modo que o solipsismo
e o Sublime coincidirão na figura do gênio individual.
Um clichê batido da musicologia afirma que Schumann
é tanto maior quanto menor a escala de suas obras, maior
em seus aforismas pianísticos do que nas vastas extensões
da sinfonia e do drama. Esta idéia não chega a ser propriamente
um erro, mas é fruto de uma leitura insuficiente; ela
deixa de reconhecera congruência essencial da obra de
Schumann como um todo, enquanto expressão da Imaginação
projetando-se em busca de uma beleza e de uma paixão
sobrenaturais, urna beleza e uma paixão que ela não
poderá encontrar jamais fora de si mesma.
A Sinfonia no 3, a Renana, foi composta em 1850;
faz parte, portanto, de um grupo de obras entre as quais
se conta o Concerto para violoncelo, a Abertura para
Die Braut von Messina, de Schiller, e o Réquiem für
Mignon. A Renana é a última sinfonia de Schumann, a
despeito da Sinfonia no 4, publicada em 1851, mas composta
cerca de dez anos antes. Menos que uma síntese, contudo,
ela é uma repetição de prévias crises: a sinfonia inteira
equilibra-se entre o gesto eminentemente individual
do primeiro movimento e a suite popular dos outros quatro,
centrada esta sobre um extraordinário coral em estilo
polifônico arcaico (originalmente intitulado “No caráter
de um acompanhamento para uma cerimônia solene” e supostamente
inspirado por uma visita à catedral de Colônia). A polifonia,
para Schumann aqui, representa menos uma figura de atavismo
do que a vigorosa reapropriação da música de Bach e
da música de Bach revista por Mozart e Beethoven. No
movimento final, a polifonia servirá a um propósito
que é tanto técnico quanto metafórico: é a polifonia
que permite a dramatização de um confronto entre o Sublime
pessoal do primeiro movimento e a apoteose natural do
quarto, uma reencenação da aporia Romântica, que faz
do final da sinfonia de Schumann não mais do que uma
provisória solução para impasses sem solução.
Arthur Nestrovski é formado em música pela
Universidade de York (Inglaterra). Doutor em literatura
e música pela Universidade de Iowa (EUA) e autor de
Debussy e Poe (L&PM, 1986). Atualmente leciona na
pós-graduação em literatura comparada da Universidade
Federal Fluminense.
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