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O DEMÔNIO
DA ANALOGIA: ALGUMAS MELODIAS JUVENIS DE DEBUSSY
Lorenzo Mammi
Análise das estruturas harmônicas e sintáticas de
algumas obras juvenisde Claude Debussy, analógicos em
busca de procedimentos comparáveis àqueles utilizados
pelos literatos simbolistas: substituição inesperada
de vocábulos, elipses,livres associações de idéias.
Por esses meios, e graças a uma leitura particular dos
estilos de Borodin, Mussorgsky e Wagner, Debussy elabora
formas de transição e de progressão harmônica que permitem
suspender o fluxo tonal sem interrompê-lo de uma vez.
São analisados trechos das melodias Apparition, Pantomime,
L’ombre des arbres, Harmonie du soir.
.I.
O aspecto mais fugidio das obras maduras de Debussy
é certamente a articulação sintática. A origem dos elementos
modais, tonais e cromáticos presentes em suas obras
pode ser rastreada com uma certa segurança; a forma
geral, construída sobre simetrias e ciclos bastante
simples, pode ser descrita com facilidade; o nexo, porém,
entre os acordes, bem como a relação que conecta as
frases musicais, freqüentemente permanece indefinido
e misterioso.
Como pode Debussy passar da escala de tons inteiros
ao cromatismo, do tonal ao modal no espaço de poucos
compassos (às vezes no interior de um único compasso)
sem estraçalhar a unidade da composição? Quais os procedimentos
acionados para organizar, em uma escrita tão coerentemente
pessoa, material tão heterogêneo?
Debussy renuncia aos dois principais fatores de coesão
de que podia dispor: a harmonia funcional e o contraponto.
Por meio de um desses procedimentos, ou de ambos, a
obra se articulava em uma série de relações de causa
e efeito, antecedente e conseqüente. É verdade que,
a partir do último Beethoven, os elementos de descontinuidade
não estão mais escondidos; são, ao contrário, sublinhados.
Mas a unidade é reencontrada, pouco depois, por intermédio
da hipertrofia de um dos planos do discurso, que compensa
a maior heterogeneidade do material: tende-se a escrever
uma composição inteira como se fosse uma única concatenação
de acordes, ou uma melodia infinita; ou então torna-se
mais densa a elaboração das vozes intermediárias. Desse
modo se remove, sem resolvê-lo, o problema central:
o fato de não se poder mais pensar a composição como
série de conseqüências lógicas de um pressuposto.
Nesse quadro, as obras de Debussy representam uma
virada decisiva: nenhum aspecto de sua estrutura pode
ser lido em termos de causa e efeito. O modo pelo qual
as partes se relacionam não é hierárquico, não pressupõe
um antes e um depois. É algo semelhante à livre associação
de idéias. Por outro lado, a sintaxe do autor de Pelléas
não pode se reduzir apenas aos procedimentos de repetição,
justaposição e superposição de elementos heterogêneos,
enrijecidos em formulações estáticas, como é possível,
por exemplo, no caso de Satie ou do primeiro Stavinsky.
Por mais elípticas que possam ser, formas de transição
entre as partes são sempre identifïcáveis em Debussy(1).
Tratarei aqui apenas de algumas melodias juvenis,
para mostrar, também em confronto com obras de outros
autores, a progressiva elaboração de procedimentos analógicos
e de associação livre no interior do tecido tonal.
.II.
Antes de mais nada, uma especificação terminológica.
Para interpretar um estilo que escapa continuamente
à análise, recorreu-se e com freqüência a um vocabulário
extra-musical. Um tempo atrás, costumava-se classificar
Debussy como impressionista. Hoje, na esteira de Stefan
Jarocinsky, ele é mais aproximado da poesia simbolista,
sobretudo de Mallarmé(2). A comparação não
é certamente infundada: o poetado Après-midi d’un phaune
tensiona as regras gramaticais e o próprio sentido da
frase até dilacerá-los, mediante o jogo das assonâncias
e das associações; fiel ao poema, o Prélude sinfônico
de Debussy comporta-se do mesmo modo com as regras e
o sentido tonais; no final da vida, Mallarmé chega à
rede de possibilidades sem direção de Un coup de dés;
Debussy conclui sua obra orquestral com a pulverulência
sonora de Jeux.
Não podemos, porém, limitarmo-nos a um simples paralelismo.
A aproximação de linguagens radicalmente diferentes,
como a Poesia e a Música, adquire consistência somente
se identificarmos uma base comum, um núcleo estrutural
que possa ser atribuído a uma e outra. Jarocinsky o
encontra numa interpretação particular do conceito de
“símbolo”, entendido como relação aberta, em devir,
entre as formas sensíveis e o sentido que lhes pode
ser atribuído(3).
As questões que pretendo examinar são de caráter
sintático e não expressivo – dizem respeito às relações
dos signos entre si, não entre signos e significados.
Prefiro, pois, servir-me de um outro termo caro aos
simbolistas, que não direcione imediatamente a atenção
ao eixo forma/conteúdo: analogia.
Em matemática, analogia é a equivalência de duas
proporções, como na equação a:b = c:d. Em biologia,
são análogos dois órgãos que cumprem a mesma função,
ainda que sejam de origem e estrutura diferentes. Em
análise lógica, fala-se de analogia de atribuição (ou
de relação) quando um predicado muda parcialmente seu
significado conforme o sujeito a que se relaciona. Em
todos esses casos, a analogia nata de semelhanças entre
proporções, funções ou predicados, nunca de relações
entre dados sensíveis e seu significado.
A rigor, as correspondances baudelairianas são analogias:
um perfume está para o olfato assim como o som de oboé
está para o ouvido e a cor verde está para a visão.
É verdade que esses paralelismos se remetem a um significado
comum, mas esse é apenas une tenebreuse et profonde
unité(4), sempre inalcançável, indizível.
Constatando a impossibilidade de um liame não-arbitrário
entre significado e significante (Quelle déception,
devant la perversité conférant à jour comme à nuit,
contradictoirement, des timbres obscur ici, là clair)(5),
Mallarmé acaba por confiar à relação entre signos e
entre sistemas de signos (visuais, sonoros, lingüísticos),
desvinculados de seu significado imediato, a possibilidade
de um sentido substancial, não meramente rotineiro,
aparecer no horizonte. Em Le démon de l’analogie, descreve,
não sem um certo horror, a sensação de sentir-se cercado
de signos que se remetem uns aos outros, numa rede infinita
de ecos, enquanto o sentido desapareceu.
Em música, onde a relação com um significado é sempre
problemática, a ação corrosiva das analogias incide
sobre a direcionalidade, sobre a funcionalidade sintática
da composição. É analógica uma figura desprovida de
sentido tonal definido inserida numa progressão tonal,
que simule uma função harmônica sem completá-la de fato,
e provoque não tanto uma total desilusão, mas um leve
desvio, a abertura de perspectivas inesperadas (Accords
incomplets, flottands. Il faut noyer le ton. Alors on
aboutit où on veut, on sort par Ia porte qu’on veut)(6).
É igualmente analógico (no sentido de analogia de atribuição)
um acorde tonal inserido em um contexto que transforme
radicalmente suas funções, ainda que deixe intactas
algumas de suas características. Debussy é mestre em
tirar proveito de ambas as possibilidades.
.III.
A vontade de “noyer le ton” se manifesta bem cedo
na obra do futuro Claude de France. Sinais de desorientação
tonal se encontram já na melodia Apparition (de 1884),
que é também – detalhe não privado de significado –
a primeira sobre texto de Mallarmé(7) [Ex.
I].

Ex. I – Apparition, compassos 1 a
7.
A linha cromática do canto (Si, Dó, Réb,
Ré) é harmonizada com uma série de tríades desprovidas
de um centro comum: Mi Maior, Fá Maior, Réb
excedente, Ré Maior, Sib Maior. O modo pelo
qual esses acordes, em si estáticos, se sucedem, mediante
o deslizamento cromático das partes, é engenhoso, mas
levemente arbitrário. As harmonias permanecem um pouco
desconectadas e a suspensão tonal não se solidifica
em uma estrutura alternativa. Se Debussy jamais publicou
essa melodia, é possível que ele mesmo não estivesse
muito satisfeito com o resultado.
Na época, existiam músicos que já haviam desenvolvido
técnicas mais complexas, na trilha da suspensão da harmonia
tonal. Uma obra freqüentemente citada, dentre as que
influenciaram o jovem composior francês, é La princesse
endormie de Borodin(8). Debussy possuía
uma cópia dela provavelmente trazida de suas primeiras
viagens à Rússia (1881-82). Nela deve ter encontrado
pela primeira vez diversos elementos que depois seriam
típicos de seu estilo – particularmente o uso não-funcional
de intervalos de segunda e inteiras seções baseadas
na escala de tons inteiros. Mas o que nos interessa,
dentro dos limites desse artigo, é o modo como Borodin
enxerta esse material heterodoxo no tecido tonal da
composição.
A melodia é em Láb Maior, e apresenta
forma de balada: AbAcA, mais uma breve coda. As seções
b e c são baseadas na escala de tons inteiros. Transcrevo,
no exemplo II, a seção b.

Ex. II – La princesse endormie,
seção b, compassos 17 a 28.
Harmonicamente, a passagem consiste em uma modulação
de Láb a Réb Maior, seguida de
um retorno à tonalidade de partida. A escala de tons
inteiros aparece no baixo nos compassos 21-23, exatamente
no momento em que o Réb se instaura como novo centro
tonal. Borodin toma todas as precauções para que a centralidade
do Réb seja evidente, apesar da indefinição
da linha do baixo: além de introduzir a nova tonalidade
com uma cadência perfeita, desenha seja o canto, seja
a voz central do acompanhamento sobre o arpejo descendente
do acorde de tônica. Por outro lado, uma estrutura encavilhada
tão fortemente sobre uma única tríade provoca uma insólita
impressão de estaticidade. Toda a passagem poderia ser
suprimida da partitura sem que o movimento harmônico
se alterasse. Os compassos 21-23 são, na realidade,
a paráfrase, a analogia de um único acorde.
Analisando esse trecho de um outro ponto de vista,
pode-se observar que a escala de tons não é introduzida
abruptamente – é o ponto culminante de uma progressiva
ambigüidade do baixo. A harmonia que governa os compassos
17-18 já se presta a duas diferentes interpretações:
Sol 7a de sensível e Sol 7a de dominante
com a 5a abaixada, conforme se considere
o Sib nota harmônica e o Si natural nota de passagem,
ou vice-versa. A cadência sucessiva não resolve o problema
de todo. É verdade que a centralidade do Láb é reestabelecida
no início do compasso 19, mas só o Sol do canto resolve
como sensível sobre a tônica. O Sol do baixo se comporta
como uma dominante, subindo a Dó com um salto de quarta,
e inaugurando uma longa progressão de saltos análogos:
Sol, Dó, Fá,Sib,Mib, Láb.
A presença de intervalos de sétima maior na harmonia
dos compassos 18-19 aumenta ainda mais a ambigüidade,
porque permite desagregar cada acorde em duas tríades
perfeitas e ler a passagem inteira como superposição
de suas progressões independentes:
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sol 7a. dom.
|
LábM
|
RébM
|
SolbM
|
|
|
sol 7a
|
Dó m
|
Fá m
|
Sibm
|
Láb 7a
|
As duas progressões reconciliam-se apenas no
acorde de 7a de dominante de Réb, que introduz
a escala de tons. Mas o trítono descendente do compasso
21 alude ao dos compassos 18-19, do qual é a transformação
enarmônica e, de certo modo, a réplica potencializada.
Aquele tornava indecisas as funções harmônicas, este
as suspende. Tudo se cumpre sem que os centros tonais
sejam afastados ou suprimidos – esses são apenas velados,
como em um flou cinematográfico. Talvez não por acaso
essa passagem corresponda, no texto, à aparição de seres
fantásticos.
.IV.
Dois procedimentos devem, me parece, ser aqui sublinhados,
por terem sido mais tarde largamente utilizados por
Debussy: por um lado, a geração da escala de tons inteiros
mediante a transformação enarmônica do trítono e, por
outro lado, o emprego da 7a de dominante com a 5a abaixada,
para criar uma situação de desnorteamento ou de suspensão
tonal. Na realidade, as duas operações podem se reduzir
a um único princípio: a substancial ambigüidade do trítono.
O intervalo formado pela sensível e a contra-sensível
(VII e IV graus da escala maior) é o elemento que, nas
cadências, indica univocamente a tonalidade. Por outro
lado, o trítono é o único intervalo que divide simetricamente
a escala – logo, é igual à sua inversão. Por isso, em
um trítono que não apareça em uma situação tonal (por
exemplo, em um acorde de 7a de dominante), não posso
estabelecer, de ouvido, qual é a sensível e qual é a
contra-sensível. Se não se apóia em outros pontos de
referência, o trítono indica não uma, mas duas tonalidades
simultaneamente, essas também distantes um trítono.
Dó-Fá#, trítono de Sol Maior, soa como Solb-Dó,
trítono de Réb Maior.
Antes de Debussy, foram os compositores russos do
Grupo dos Cinco que exploraram com maior desenvoltura
essa brecha do sistema tonal. O mais audaz foi, sem
dúvida, Mussorgsky, quando, no início da cena da coroação
de Boris Godunov, alterna ao redor de um trítono comum
(por quase 38 compassos) as 7as de dominante de duas
tonalidades muito distantes (Sol e Réb)(9):

Ex. III – Boris Godunov, 2a
cena, compassos 1 a 9 (partitura para canto e piano).
Paira muita incerteza quanto à data em que Debussy
teria conhecido a partitura de Boris. Alguns autores
indicam o ano de 1889, outros, 1893, outros ainda, 1896(10).
De qualquer modo, o motivo inicial de L’ombre des
arbres, uma das Ariettes de 1888, já apresentava uma
solução muito semelhante:

Ex. IV – L’Ombre des Arbres,
compassos 1 a 4.
As 7as de dominante utilizadas aqui são aquelas de
Fá# Maior e Dó Maior, e a escrita é arredondada
por passagens cromáticas; na essência, porém, a situação
é idêntica.
Quanto à escala de tons inteiros, Debussy recorre
a ela (provavelmente pela primeira vez) em uma melodia
escrita pouco depois de suas viagens à Rússia. A peça
se intitula Pantomime, e é uma das primeiras tentativas
debussianas sobre um texto de Verlaine. Também aqui
a escala é imediatamente associda a um trítono [Ex.
V].

Ex. V – Pantomime, compassos
1 a 10.
O salto descendente de 5a diminuída indica, desde
o início, a tonalidade de Mi Maior, mas não resolve,
como poderia se esperar, mediante o movimento ascendente
da sensível em direção à tônica. Ao contrário, do Ré#
brota uma escala de tons de seis graus que vai alcançar
a tônica do lado oposto, através do semitom descendente
Fá-Mi. É claro que a escrita é ainda esquemática e ingênua,
a léguas da sofisticação de La princesse endormie. Aliás,
também essa melodia nunca foi publicada por seu autor(11).
.V.
Todos os exemplos examinados até agora apresentam
o mesmo limite: o fôlego curto. São figuras estáticas
que substituem determinados elementos da concatenação
harmônica, suspendendo por um instante o curso tonal
da composição. Em nenhum momento parecem em grau de
sustentar estruturas mais complexas. Para explicar o
estilo maduro de Debussy, é preciso remeter-se a um
outro tipo de influência.
Theodor W.Adorno escreveu: “A natureza adinâmica
da música francesa pode talvez fazer-se remontar a seu
inimigo declarado, Wagner, a quem contudo se costuma
censurar uma dinâmica insaciável. Já em Wagner o decurso
musical é, mais uma vez, um mero deslocamento. E dali
deriva a técnica temática de Debussy, que repete sem
desenvolvimento sucessões sonoras muito simples”(12).
Se aplicada a toda a música francesa fin-de-siècle,
a observação de Adorno é certamente forçada: muitas
páginas de Satie e de Fauré, que desempenham um papel
fundamental em encaminhar a música de seus compatriotas
em direção à estaticidade, não podem derivar de Wagner
senão por mero contraste – é muito mais sensato associá-las
ao filão modal que caracteriza a cultura musical francesa,
a partir do início do século passado. Mas é evidente
que Adorno está se referindo a Debussy, e nesse sentido
sua intuição é extremamente fértil.
Com efeito, a harmonia debussiana não pode ser explicada
apenas em termos de contaminação entre elementos tonais
e modais, nem como simples reação ao cromatismo neo-alemão.
Como já transparece nas melodias juvenis, e de modo
cada vez mais evidente à medida que seu estilo atinge
a maturidade, Debussy, longe de evitar o cromatismo,
absorve-o e o desativa. Grande parte das figuras harmônicas
que utiliza é interpretável como dissonância congelada,
destituída de qualquer direcionalidade, qualquer capacidade
de resolução. A diferença entre os fragmentos citados
de Apparition e L’Ombre des Arbres está também nisso:
no primeiro caso, tríades perfeitas, estáticas em si,
são movimentadas pelo deslizamento cromático das partes;
no segundo, ao contrário, duas dissonâncias, potencialmente
dinâmicas, bloqueiam-se reciprocamente, criando uma
figura estática.
Mais tarde, essa tendência vai se confirmar: no Après-midi,
em La mer, em muitos dos prelúdios para piano, Debussy
extrai suas estruturas imóveis justamente dos pontos
em que o movimento cromático tardo-romântico era mais
convulsivo. Por isso seu antiwagnerismo é qualitativamente
diferente do de seus contemporâneos – não uma recusa,
mas uma superação.
Mas para que de Wagner fosse possível extrair figuras
estáticas, era preciso que essa estaticidade já estivesse
presente, em potência, nas obras do músico alemão. Adorno
observa que, na escrita wagneriana, a modulação é dissociada
do desenvolvimento. O material melódico, ao qual Wagner
confia grande parte do sentido musical da composição,
permanece essencialmente inalterado, apesar da agitação
cromática da harmonia. A modulação torna-se um falso
movimento, uma pirueta que não transforma a situação
musical, como, ao contrário, ocorria com os clássicos.
Este é sem dúvida um ponto fundamental; mas é possível
reconhecer sinais de atrofia também nas estruturas harmônicas
em si, sem considerar a questão de sua relação com o
material melódico. Por exemplo, em um dos trechos mais
ousados, discutidos e famosos de Wagner, o início do
prelúdio ao 1o ato do Tristão [Ex. VI].

Ex. VI – Wagner: Tristão e Isolda,
Prelúdio do 1o Ato, compassos 1 a 11.
Do ponto de vista harmônico, essa passagem se articula
em três cadências claramente distintas, dispostas ao
longo de uma escala cromática ascendente que vai do
Sol# do compasso 1 ao Fá# do compasso
11. O prelúdio é em Lá Menor, mas essa progressão não
indica nenhuma tonalidade em particular. No entanto,
existe uma ligação com a escala de Lá Menor, ainda que
oblíqua. Passagens obrigam a repensar o próprio conceito
de tonalidade.
Na fase clássica da linguagem tonal, todas as funções
harmônicas contribuíam para reforçar os dois principais
centros gravitacionais do sistema, a tônica e a dominante.
Com a aceleração dos mecanismos modulantes, as referências
aos centros tonais tornam-se cada vez mais rápidas e
elípticas. Acordes de 7a não preparados, dissonâncias
avulsas, alterações imprevistas no interior de uma progressão
indicam, cada vez mais freqüentemente, tonalidades passageiras,
sem que essas sejam confirmadas por um mecanismo cadencial.
Cada vez mais são necessários sinais capazes de evocar
por si sós um centro tonal, sem passagens complicadas;
o acorde de 7a de dominante, em primeiro lugar; num
modo ainda mais enxuto, o trítono contido nele.
Mas o trítono, como já vimos, é em si ambíguo. Quanto
mais freqüentes são as modulações, mais o senso tonal
do trítono é fugidio. O início do Tristão é, nesse sentido,
um caso extremo. Já foram gastos tonéis de tinta a respeito
do acorde que abre essa progressão. A interpretação
mais linear consiste em considerar o Sol#
apogiatura e ler o acorde como acorde de 6a napolitana,
que resolve regularmente no acorde de Mi Maior. Trata-se
pois de uma cadência entre II e V graus da escala de
Lá Menor. Apresentado dessa forma, porém, sem preparação,
o acorde de 6a napolitana é extremamente ambíguo. Arnold
Schoenberg(13) já salientou a possibilidade
de uma leitura enarmônica que considere o Fá nota fundamental
(Si = Dób, Ré# = Mib),
interpretando assim o acorde como um II grau de Mib
Menor. Seria possível acrescentar que também o segundo
acorde da cadência apresenta inicialmente a 5a abaixada
(Lá# = Sib, e que esse também
poderia ser lido enarmonicamente como V grau de Mib
Menor (Sib-Ré-Fáb-Láb),
de modo que a situação se decida a favor da tonalidade
de Lá Menor apenas com a passagem do Lá# ao Si.
Duas tonalidades distantes um trítono colocadas em
contato pela transformação enarmônica do trítono. Apesar
da complexidade muito maior (os trítonos aqui são quatro:
Fá-Si, Ré#-Lá, Mi-Lá#, Sol#-Ré),
e ainda que esta leitura esteja provavelmente muito
distanciada das intenções de Wagner, de fato essa figura
harmônica não está muito afastada daquelas de Boris
Godunov e de L’Ombre des Arbres, citadas anteriormente.
No entanto, a seqüência da progressão evidenciará
como é mais amplo o fôlego do movimento harmônico wagneriano,
em relação aos exemplos já examinados. A segunda cadência
é a cópia perfeita da primeira, transportada uma terça
menor mais acima. A passagem se encavilha sobre três
notas comuns entre o acorde inicial desta cadência e
o acorde final da anterior: Láb (= Sol#),
Ré e Si. A terceira cadência, enfim, é uma variante
das anteriores, novamente uma 3a (desta vez maior) mais
acima. O acorde que aparece no início do compasso 11
é a transformação enarmônica da 6a napolitana do compasso
2 (Mi# = Fá), mas aqui o Mi# é nota de passagem e cai
sobre a 5a perfeita (Fá#), completando a
7a de dominante de Mi Maior. O acorde resolverá efetivamente
em Mi Maior no compasso 16.
Esse último movimento cromático que transforma uma
6a napolitana em uma 7a de dominante é a única modulação
efetiva do trecho aqui analisado. Anteriormente, Wagner
havia, na verdade, conduzido um jogo combinatório com
os dois trítonos característicos da tonalidade de Lá
Menor (Si-Lá e Sol#-Ré), acoplados aos poucos
a todos os outros quatro trítonos possíveis na escala
temperada: Ré#-Lá no primeiro acorde, Mi-Lá#
no segundo, Fá#-Dó no terceiro, Sol-Dó#
no quarto. Pode-se falar aqui, paradoxalmente, de progressão
estática, não só porque o acorde final corresponde àquele
de partida, mas sobretudo porque, nesse ínterim, não
fomos concretamente a parte alguma. Aludir a todas as
tonalidades significa não realizar nenhuma. O Lá Menor
não é enunciado explicitamente nunca, mas de Lá Menor
não saímos em momento algum.
.VI.
O ápice da influência wagneriana na produção de Debussy
é unanimemente atribuído aos Cinq poèmes de Baudelaire,
de 1889. Mas tampouco essas melodias são wagnerianas
em sentido estreito. Por um lado, o cromatismo delas
é distribuído em planos tonais mais definidos que os
do Tristão; por outro, aumentamos elementos não funcionais
em relação a Wagner.
Hamonie du soir, a segunda composição da série, é
um bom exemplo. Uma vez que o texto desempenha aqui
um papel mais importante do que nas melodias examinadas
anteriormente, será oportuno lembrá-lo em sua totalidade:
Voici
venir le temps où vibrant sur sa tige
Chaque
fleur s’évapore ainsi qu’un encensoir;
Les
sons et les parfums tournent dans l’air du soir;
Valse
mélancolique et langoureux vertige!
Chaque
fleur s’évapore ainsi qu’un encensoir;
Le
violon frémit comme un coeur qu’on afiige:
Valse
mélancolique et langoureux vertige!
Le
ciel est tiste et beau comme un grand reposoir.
Le
violon frémit comme un coeur qu’on afflige,
Un
coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir!
Le
ciel est triste et beau comme un grand reposoir;
Le
soleil s’est noyé dans son sang que se fige.
Un
coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir,
Du
passé lumineux recueille tout vestige!
Le
soleil s’est noyé dans son sang qui se fige...
Ton
souvenir en moi luit comme un ostensoir!
A rede de correspondances de que a poesia é tecida
se reveste de uma forma talvez inspirada num gênero
oriental: o Pantoum malaio, poema estrófico em que o
segundo e o quarto versos de cada quarteto se repetem
como primeiro e terceiro versos do quarteto sucessivo(15).
Assim, em quatro quartetos, há na verdade apenas dez
versos. O ritmo é lento, hipnótico, e cada novo verso
parece nascer, como um eco, da reverberação de um verso
já escutado. A linearidade do discurso é afrouxada,
incerta.
Debussy atribui a cada um dos dez versos uma linha
melódica diferente, que se repete (apenas trocando de
registro, se necessário, e com pequenas variações rítmicas)
quando se repete o verso. Também no acompanhamento do
piano, a cada verso é associada uma figura particular,
se bem que o autor coloque em jogo, aqui, um intrincado
sistema de remissões, fazendo com que o material de
um verso derive do verso anterior ou reapresentando,
com pequenas variações, células melódicas e rítmicas.
A melodia segue, pois, o percurso tortuoso do poema,
mas é também uma forma liderística clássica ABA, com
início em Si Maior, uma seção intermediária em Dó Maior
e Mi Maior, um retorno final a Si. O que interessa,
visto que é num plano sintático que caminha a presente
pesquisa, é o modo como Debussy consegue conciliar essas
duas morfologias diferentes. Transcrevo a seguir o primeiro
quarteto da melodia, no qual vem exposto, em essência,
todo o material melódico e rítmico que será desenvolvido
em seguida [Ex. VII].
 
Ex. VII – Harmonie du Soir,
compassos 1 a 16.
A estrutura tonal do fragmento é bem mais transparente,
em suas linhas gerais, do que a do Tristão. A tonalidade
principal é sublinhada com força pela cadência dos compassos
6-7 e é precedida por uma concatenação de acordes circunscritos
estritamente às relações Maior/Menor e tônica/dominante:
Dó# Menor, Mi Maior, Lá Maior, Fá#
Menor, Si Maior. Mas Debussy constrói a progressão de
modo que a cada verso corresponda um diferente centro
tonal: Lá para o primeiro, Si para o segundo, Dó#
para o terceiro e Ré para o quarto. Cada verso é introduzido
por uma cadência dominante/tônica. No compasso 17 retorna-se
a Si Maior, a tonalidade associada ao segundo verso,
que também será o primeiro do próximo quarteto.
Tal modo de proceder já cria uma certa defasagem
entre a tonalidade geral e os centros tonais locais.
Debussy cria uma sensação de desnorteamento ainda mais
acentuada utilizando breves elementos melódicos que
se repetem continuamente, mas que adquirem um sentido
tonal apenas intermitentemente. O mais flagrante, nessa
primeira parte da composição, é a linha ascendente de
tons inteiros que surge no terceiro compasso, tanto
no canto quanto no acompanhamento: Sol, Lá, Si, Dó#,
Ré#, Dó#. As duas 4as excedentes
entrelaçadas (Sol-Dó# e Lá-Ré#)
que constituem o esqueleto dessa linha melódica, e sobre
as quais insistem também as figuras harmônicas dos compassos
3, 4 e 5, situam claramente o canto na tonalidade de
Mi Menor. Cria-se assim uma espécie de segundo percurso
que, sobrevoando o Lá Maior, conecta diretamente o Dó#
Menor/Mi Maior dos primeiros compassos ao Si Maior/Si
7a de dominante dos compassos 6-8. A ambigüidade entre
as duas leituras harmônicas possíveis é semelhante àquela
de La princesse endormie, embora mais complexa. Borodin
atuava sobre uma situação harmônica estática; aqui,
a harmonia está em cada uma de suas camadas superpostas,
em rápida evolução. Além do mais, Borodin produzia o
efeito de desnorteamento por meio da única linha do
baixo, enquanto aqui todos os elementos da composição
concorrem ao mesmo fim.
A mesma figura melódica reaparece, abaixada em um
semitom e privada de um grau, mas claramente reconhecível
pela posição e pelo ritmo, noscompassos 9-10: Fá#,
Sol#, Lá#, Si#. Aqui
o sentido é unívoco, porque o trítono ocorre no interior
de um acorde de 7a de dominante de Dó#, que resolve
regularmente na tônica. Mais uma vez a figura harmônica
do compasso 3 reaparece, quase literalmente, no compasso
13. Agora, porém, a tensão da linha melódica ascendente
encontra repouso na resolução da sensível Dó# no Ré,
centro tonal do último verso – de modo que a tonalidade
de Ré Maior, anunciada desde o acorde de 7a de dominante
do compasso 3, realiza-se somente aqui. As funções harmônicas
não seguem um fio lógico contínuo, mas ecoam de um ponto
a outro da composição.
O último verso do quarteto também se presta a uma
leitura múltipla. O Lá continua como pedal embaixo da
nova tônica. A presença insistente da sensível Sol#,
que forma um trítono com o Ré, confere a este Lá o papel
de centro tonal alternativo. O verso se conclui com
uma 7a de dominante com a 5a abaixada (Ré, Fá#,
Sol# = Láb, Dó) que desliza, sem
uma relação harmônica clara, para o Si Maior 7a do compasso
17. Mas na realidade o acorde de Ré se liga, como dominante
secundária, à tonalidade de Dó Menor que desponta fugazmente
no fim do verso sucessivo(16). E assim por
diante. As expectativas do ouvinte nunca são completamente
contrariadas, tampouco inteiramente confirmadas. Cada
harmonia conserva a marca de sua função tonal, ou de
suas possíveis funções. Mas essas podem não ocorrer
de fato, ser evitadas ou suspensas, até que a aproximação
de dois acordes, uma determinada linha melódica, a retomada
de um ritmo as despertem subitamente. A harmonia de
Debussy tem o desconexo andamento dos sonhos, mas, tal
como os sonhos, não é arbitrária. A ela se poderia aplicar
a observação de Mallarmé sobrea poesia francesa de sua
época: “Je connais qu’un jeu, séduisant, se mène avec
les fragments de l’ancien vers reconnaissables, à l’éluder
ou le découvrir, plutôt qu’un sutbite trouvaille, du
tout au tout, étrangère”(17).
.VII.
Seria ingênuo reduzir a sintaxe debussiana aos poucos
elementos aqui analisados. Pareceu-me que partir da
relação tônica dominante e da resolução do trítono trouxesse
uma dupla vantagem: em primeiro lugar, pela importância
que essas questões assumem na harmonia tradicional;
depois, pela continuidade com que se apresentam nas
obras de Debussy, desde o início. Claro está, porém,
que seria igualmente possível conduzir análises desse
tipo sobre o modo como Debussy desenvolve as linhas
melódicas, por exemplo, ou sobre a organização das figuras
rítmicas.
De qualquer maneira, qualquer que seja a porta pela
qual se entre no labirinto, acaba-se por percorrer todas
as estradas, de tão coesas e interconexas elas são.
Antes de mais nada, é importante reconhecer que em Debussy
existe um labirinto, com seus percursos obrigatórios,
e não apenas o vagabundear de um flaneur genial. O pensamento
analógico não é menos rigoroso do que aquele lógico-matemático.
Apenas segue outras regras.
NOTAS
(1) Para uma interpretação de Stravinsky nesse sentido,
ver: BOULEZ, Pierre. “Moment de Johann Sebastian Bach”,
in: Counterpoint, no 7, 1954, e também in: Relevés d’apprenti.
Paris: Ed. du Seuil, 1966. Ver, ainda: ADORNO, Theodor
W. Filosofia da nova música. São Paulo: Perspectiva,
1974, p. 147 e seguintes.
(2) JAROCINSKI, Stefan. Debussy. Impressionisme et
Symbolisme. Paris: Ed. du Seuil, 1974.
(3) JAROCINSKI, S. Op. cit., cap. Il. Uma interpretação
simbólica, mas baseada em princípios diferentes, também
em JANKELEVITCH, Vladimir. Debussy et le mystére de
l’instant. Paris: Plon, 1976 (2a ed. 1988).
(4) BAUDELAIRE, Charles. “Correspondances”, in: Les
fleurs du MaI, IV .
(5) MALLARMÉ, Stéphane. “Cris du vers”, in: Divagations,
1897.
(6) DEBUSSY, Claude. “Conversations avec Ernest Guiraud”,
em apêndice a: LOCKSPEISER, Edward. Claude Debussy.
Paris: Fayard, 1980.
(7) A melodia apareceu postumamente, no suplemento
de La Revue Musicale, Maio de 1926. Cf. JAROCINSKI,
Cap. IV, v.
(8) Ver: VALLAS, Léon. Claude Debussy et son temps.
Paris: Alban Michel, 1958. LOCKSPEISER (Op. cit., Livro
I, cap. 5, p. 61 e seguintes) é contrário a se atribuir
a Borodin uma grande influência sobre Debussy, mas Harry
Halbreich, na “Analyse de L’Oeuvre” acrescentada à edição
francesa do livro, retoma a opinião de Vallas (p. 634).
Para uma análise de La princesse endormie, ver: ABRAHAM,
Gerald. “The reaction against Romanticism”, in: The
New Oxford History of Music, vol. X, cap. II, pp. 87-88.
(9) A importância dessa passagem foi sublinhada por,
entre outros, STUCKENSCHMIDT, H.H. Neue Musik. Berlim:
Suhrkamp Verlag, 1951. Trad. italiana: La musica moderna.
Turim: Einaudi, 1981, p. 28.
(10) Ver: LOCKSPEISER e VALLAS, Op. cit. São fundamentais
os depoimentos de Raimond Bonheur, Paul Dukas e Robert
Godet, publicados em “La jeunesse de Claude Debussy”,
número especial de La Revue Musicale, maio de 1926.
(11) Suplemento de La Revue Musicale, maio de 1926.
(12) ADORNO, Theodor W. Op. cit. p. 145.
(13) SCHOENBERG, A. Harmonielehre. Viena: Universal,
1922. Trad. italiana: Manuale d’armonia. Milão: Il Saggiatore,
1973, p. 324 e seguintes. No Guia Prático de Stein,
freqüentemente acrescido às edições mais recentes da
obra, a passagem corresponde ao Cap. XIV, iv, C.
(14) Les fleurs du Mal, XLIII.
(15) Ver: WENK, Arthur B. Claude Debussy and the
Poets. Berkeley: University of California, 1976, pp.
82-86.
(16) Para uma interpretação do acorde de 7a de dominante
com a 5a abaixada como dominante secundária do modo
menor, ver: SCHOENBERG, A. Op. cit., pp. 322-323. No
Guia Prático de Stein: Cap. XIV, iv, A, b.
(17) SCHOENBERG, A. Op. cit.
Lorenzo Mammi é formado em música pela Universidade
de Florença, Itália. Crítico de arte e professor de
História da Música no Depto. De Música da Escola de
Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, é
autor de uma monografia, onde analisa os primeiros Cadernos
para Piano, de Claude Debussy. Atualmente prepara uma
tese de doutorado junto à USP.
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