|
ANÁLISE E PERCEPÇÃO TEXTURAL:
O Estudo no VII, PARA SOPROS,
DE LIGETI(1)
Sílvio Ferraz Mello Filho
Na
música da segunda metade do século XX foi retomado na
prática composicional o controle consciente da textura
musical, tendo como ponto de partida a obra de Claude
Debussy. Entre os compositores atuais que mais se utilizam
de tal procedimento destaca-se Györgi Ligeti. Para a
análise de uma de suas obras, proposta aqui, fêz-se
necessário forjar uma metodologia analítica própria
a ressaltaras particularidades do que procura discurso
textural. Com isso, antecede à análise uma proposta
metodológica destacar os parâmetros pertinentes a uma
textura musical.
Introdução
A compreensão, o uso e o tratamento textural
sempre estiveram ligados à percepção visual e tátil.
Para a percepção musical este sentido geralmente não
passa de uma transposição sinestésica da percepção(2).
Com a tendência cada vez mais forte no uso de procedimentos
marcadamente texturais na música pós-serial, remontando
ainda à Debussy, fazem-se necessárias ferramentas que
tornem tanto a análise quanto a composição textural
quantificáveis e qualificáveis, longe das comparações
sinestésicas. As definições de texturas como rugosas,
granuladas, lisas, se referem à sua superfície, gestalticamente
percebida, onde se escondem os jogos de relação estruturante
e os princípios dinâmicos que possibilitam passar de
uma textura à outra.
Neste ponto colocaremos as seguintes questões:
O que é analisável na textura, quais suas componentes?
Como analisar a textura a partir dos quatro parâmetros
elementares do som - base analítica para, por exemplo,
a música serial ou mesmo pré-serial?
Tais questões se colocam porque a textura nunca
foi desconhecida dos compositores. É texturalmente que
se pode distinguir fases da própria história da música
ocidental, da monodia à heterofonia(3). No
entanto, em todos os momentos que compõem esta história
a textura é tida como uma resultante do trabalho
sobre melodias, harmonias, complexos rítmicos. Sempre
conhecida dos compositores, a textura sonora e musical
só se tornou relevante como fundamento composicional
através de Debussy(4), isolada uma iniciativa
aparentemente que só foi considerada importante pelas
correntes historicistas do pensamento musical em 1960,
quando foi retomada por integrantes da Escola de Darmstadt.
Nos anos que seguem a Debussy a primazia da
altura sobre os outros parâmetros permaneceu, permeando,
inclusive, as diversas teorias atonais.
A compreensão dos fenômenos massivos, do uso
constante de e massas sonoras, é que veio dar a devida
importância estruturante à textura musical. Esta compreensão
está ligada à retomada, já em meados do século XX, de
elementos da psicologia da Gestalt, ou psicologia da
Forma(5) do final do século XIX aplicados
à prática composicional. Na música esta retomada se
deu justamente a partir da obra Jeux de Debussy
onde as composições massivas apelam ainda à percepção
e compreensão sinestésica onde fluxos ascendentes de
alturas, blocos rítmicos, tremulos, são sempre traduções
sonoras de movimentos conhecidos e reconhecíveis como
percepção visual e tátil tais quais o vai e vem de uma
bola de tênis, o movimento dos jogadores; descritos
não mais por símbolos (convenções) harmônicos, melódicos
ou rítmicos, mas por gestos sinestesicamente transcritos.
A retomada de Debussy já na metade do século
XX por K. Stockhausen(6) e posteriormente
por G. Ligeti, descartou no entanto o aspecto icônico
de seu tratamento textural. Com eles os resultados texturais
deixaram de ser perseguidos para descrever gestos extra-musicais,
mas para estruturar o próprio discurso intra-musical,
enfatizando transformações sonoras, desenvolvimentos
do complexo sonoro, enfatizando a própria textura da
peça. Isto é claro na obra de Stockhausen onde a textura
tomou a função de distinguir ou ligar eventos, criar
estratos sonoros distintos, relacionando micro e macro
elementos de uma composição musical(7).
Ligeti retoma a textura de um ponto de vista bastante
diferente daquele adotado por Stockhausen. Em
suas obras a textura não é trabalhada funcionalmente
e sim como sendo a temática principal da obra. Nelas
Ligeti trabalha a textura tendo em conta a não permeabilidade
de certos complexos sonoros às pequenas variações dos
quatro parâmetros elementares do som. Tais alterações,
isoladas, não chegam a alterar o resultado textural,
pois tais complexos sonoros são equiparáveis à blocos
estatísticos, onde a irregularidade e a complexidade
emascaram os formantes singulares em detrimento da textura,
dentro de limites bem determinados (como exemplo, ouça-se
a vibração irregular da distribuição de harmônicos no
som de uma consoante(8)).
Ligeti formula tal procedimento composicional
partindo da própria estrutura serial para negá-la. A
complexidade estrutural de certas obras do serialismo
tendiam a criar uma resultante similar à do ruído
estatístico. Com isso, a pertinência dos parâmetros
elementares para a série se perdiam em meio ao emaranhado
de acontecimentos que, mantidos numa estruturação seqüencial
sempre homogênea - já que definida por uma única série,
evitando-se ainda qualquer traço reiterativo -, resultavam
constantemente em texturas estacionárias, sempre idênticas
pois eram impermeáveis às variações de parâmetros sugeridas
pela série. Tal questão, também abordada por Stockhausen,
teve como conseqüência o tratamento massivo da própria
estrutura serial. Impôs-se com isto uma pré-determinação
à nível temporal da série, tratada como acontecimento.
Porém, como formula Ligeti: “posto que tais procedimentos
destroem totalmente a predeterminação original dos valores
de tempo - através de medidas de contrôle super ordenadas
- tem sentido perguntar-se se não devemos abrir mão
das próprias relações de duração elementares e trabalhar
diretamente com o desenvolvimento temporal da forma(9)
/.../ e no lugar de séries fixas, trabalharmos com a
distribuição desigual dos elementos, com bases estatísticas”(10).
Assim o tratamento recai sobre a textura em si, os
parâmetros elementares ficando submissos à resultante
timbrística e textural desejada: a textura não mais
como ícone, símbolo ou função articulatória de séries,
mas como temática principal.
Metodologia analítica
Por textura sonora, ou musical, compreende-se
os diversos aspectos da resultante vertical de uma estrutura
musical: a condução interna de seus elementos sonoros,
sua configuração externa, compatível com o sistema e
procedimentos típicos ao qual este se insere - polifônico,
monódico, harmônico, serial, pontilhista, estatístico.
Ela é a sensação gestáltica produzida pela configuração
e pelo dinamismo dos elementos sonoros presentes num
determinado fluxo sonoro(11).
Para o uso composicional de processos texturais,
de modo não apenas descritivo, é importante notar a
sua dependência ao dinamismo de seus elementos internos
e o grau de permeabilidade às mudanças destes elementos
como pontos básicos para se forjar um instrumental analítico
e composicional.
Para uma análise com tal preocupação é necessário
determinar quais os pontos elementares da formação textural,
quais os seus parâmetros principais. Esta análise da
formação textural não invalida, no entanto, a análise
textural comparativa às sensações táteis ou visuais.
A descrição sinestésica tem sua importância analítica
embora não penetre a composição das texturas, não desvendando
os seus mecanismos dinâmicos.
Parâmetros texturais
Vista a não permeabilidade dos parâmetros elementares
do som, cabe aqui determinar quais os parâmetros permeáveis
numa escuta textural, parâmetros decorrentes daqueles
elementares que se constituíram em unidades mínimas
do todo textural(12).
Na análise textural se destacam dois grupos
de parâmetros: os parâmetros elementares do som e os
parâmetros complexos(13). A permeabilidade
e variabilidade textural destes parâmetros está baseada
na maior ou menor estabilidade do todo textural frente
às alterações do parâmetro em questão. Distingue-se
assim: aqueles parâmetros que, se alterados - por menor
que seja esta alteração - alteram fatalmente a resultante
textural e aqueles que depedem do grau de alteração
que sofrem e do tipo de textura em que se inserem para
que interfiram ou não no resultado textural. O primeiro
grupo será tratado aqui por parâmetro permeável, ou
seja, aquele ao qual a textura é sempre permeável pois
suas alterações são sempre percebidas na gestalt
(na forma ou configuração) da resultante sonora. Eles
praticamente podem ser compreendidos como sendo a unidade
mínima paramétrica na percepção textural. O segundo
grupo é formado por aqueles parâmetros que dependem
da relação de permeabilidade, do grau de suas alterações
e da formação textural para que se destaquem e possam
transformar uma textura, os quais serão chamados por
parâmetros de permeabilidade variável.
O grau de permeabilidade de um parâmetro numa textura
está diretamentel igado às dimensões do parâmetro dentro
do complexo sonoro. A textura é permeável àqueles parâmetros
que compreendam em si diversas variáveis paramétricas,
o que vem a dizer, que na sua alteração alteram-se também
as mais diversas relações entre seus parâmetros internos.
Existe uma relação direta entre a permeabilidade
de uma textura e as dimensões paramétricas das alterações
dentro da textura especificada. Assim, por exemplo,
uma textura monódica constante é permeável a pequenas
variações de altura, ou mesmo de timbre, numa densidade
horizontal correspondente à uma unidade mínima que defina
esta textura. Já, num complexo polifônico de textura
heterogênea - contraponto de acontecimentos de texturas
diferentes, estratificadas - a alteração de uma simples
relação de alturas em uma das vozes não necessariamente
interfere no todo. Caberia, neste caso, uma alteração
também massiva, ou seja, uma alteração que modificasse
sensivelmente uma unidade mínima - seja vertical, seja
horizontal - da textura original.
De modo específico distinguem-se dois parâmetros
complexos, permeáveis à textura: a densidade,
que envolve também o número de eventos ou de estratos
sonoros; e a superfície, ou forma no sentido
da Gestalt, subentendendo também o sub-parâmetro
de encadeamento.
1. Densidade e número de eventos
(estratos sonoros)
A densidade é o parâmetro referente
à maior ou menor presença de elementos formantes numa
textura. Para estruturas polifônicas ou homofônicas
suas medidas correspondem ao acúmulo vertical de sons
ou de eventos e, para estruturas monódicas, ela compreende
o acúmulo horizontal - envolvendo indiretamente o parâmetro
elementar de duração do som.
Nos casos polifônicos ou homofônicos, a densidade
pode estar tanto relacionada aos sons presentes na textura
como também aos eventos nascidos de grupos de sons representativos
em destaque na estratificação da textura. Com isto,
a alteração da densidade não está necessariamente ligada
ao aumento do número de sons numa passagem musical podendo
estar ligada a um aumento do número de eventos,
ou estruturas qualificáveis como tal (estratos sonoros),
sensivelmente claros à percepção e permeáveis à estrutura
da textura em questão. O parâmetro complexo de número
de eventos não só quantifica a alteração da densidade,
mas também qualifica o dinamismo interno de um complexo
textural, fato que exige que se dê à estratificação
um tratamento especial como sub-parâmetro, considerando
também o fato que ele é largamente utilizado na composição
musical(14).

Ex. I - Passagem monódica com
aumento de densidade causado pela estratificação em
eventos distintos dada as características melódicas
encontráveis entre os formantes da textura.
Numa textura homofônica podemos notar a alteração
do número de eventos, por exemplo, numa passagem
em intervalos paralelos constantes onde a alteração
de uma das vozes em sua relação intervalar resulta no
adensamento timbrístico do bloco de acordes apontando
um novo evento simultâneo ao bloco, mesmo que este evento
não venha a ser desenvolvido(15).

Ex. II - Aumento no número de eventos
em uma passagem homofônica.
2. Superfície e encadeamento
A superfície é o parâmetro de complexos
mais intimamente relacionado à configuração do
bloco textural. Trata-sede uma resultante da conformidade
das vozes externas de uma textura. Nela estão em questão
a distância intervalar e as relações intervalares -
do ponto de vista melódico -, tanto no que tange às
vozes que envelopam a textura quanto na sua distribuição
interna quando se trata de uma textura com mais de duas
vozes ou estratos simultâneos. Na análise de passagens
ou nuances monódicas a superfície se manifesta como
contorno ou, ainda, perfil.
Dentre os sub-parâmetros associados à superfície
está o de encadeamento, ligado também à densidade,
qualificando o grau de continuidade e descontinuidade,
de diferenciação e repetição, numa textura musical.
Como exemplo de sua presença observe-se uma passagem
em trinado: alterando-se a distância intervalar de pequenos
para grandes intervalos, repetidos ou não, passa-se
de um tecido homogêneo e cerrado para um heterogêneo,
mais denso e intervalarmente dinâmico. Neste exemplo
a alteração no encadeamento gerou a quebra da continuidade
do discurso anterior, o que qualifica a alteração, os
grandes saltos irregulares, como indícios de eventos
distintos.

Ex. III - Dois exemplos de
alteração na distância intervalar implicando na sua
fragmentação em eventos distintos dando maior mobilidade
ao encadeamento, tendo também por conseqüência o aumento
de densidade e a ampliação da superfície.
3. Parâmetros de permeabilidade
variável
Vistos os parâmetros de complexos e seus sub-parâmetros
é interessante notar que eles medem duas dimensões de
um complexo sonoro; com a superfície os limites e a
distribuição interna de seus elementos formantes e com
a densidade o seu volume, a sua profundidade de campo.
Eles não encerram, no entanto, as dimensões de um complexo
sonoro, deixando espaço para aqueles parâmetros de permeabilidade
variável, onde se destaca a duração.
Para compreender experimentalmente a permeabilidade
dos parâmetros optou-se aqui por formar blocos sonoros
singulares, decupáveis e transformá-los por alterações
globais e uniformes de um parâmetro. Para compreender
a permeabilidade ou não permeabilidade, a alteração
dos parâmetros elementares se dará, aqui, de modo similar,
ou seja, por exemplo, na alteração global e uniforme
de alturas o bloco todo será elevado ou rebaixado,
na de intensidade idem e assim por diante. Do
mesmo modo, re-instrumentações (onde se mantenha o equilíbrio
de elementos da textura original) também não alteram
a textura musical.
A alteração de altura corresponde à
transposição onde todas as estruturas qualificáveis
e quantificáveis de uma textura permanecem intactas.
O mesmo ocorre para a alteração de intensidade.
Já para duração, a sua alteração global e uniforme,
por menor que seja, transforma a textura. Isto pode
ser visto, por exemplo, numa alteração de notas staccato
em notas longa, ou ainda no alargamento de uma passagem
prestíssimo, o que vem a alterar totalmente a
densidade horizontal da textura.
Com os parâmetros complexos foram vistas as
dimensões correspondentes ao movimento, profundidade
e presença (Ioudness) da textura; a duração vem
completar este quadro, dando-lhe sua dimensão temporal,
concentrando ou expandindo elementos, ligando ou desligando
seqüências.
A permeabilidade textural aos parâmetros elementares
é relativa às dimensões de sua alteração. Para que esta
alteração afete a textura ela deve tender a massiva
(no caso da alteração global e uniforme da duração)
e ser estruturalmente significativa como uma unidade
mínima da textura. Para que esta permeabilidade se dê
ela depende de dois fatores: o número de elementos alterados
e o grau, ou modo, de alteração destes elementos(16)
com relação à uma unidade mínima da textura. A permeabilidade
textural, praticamente restrita aos parâmetros de complexos
sonoros, impõe que as alterações de parâmetros elementares
os conduza a parâmetros de complexos, massivos. Esta
alteração massiva não implica numa elevação de todas
as notas, numa transposição. Implica sim numa alteração
das relações intervalares e estruturais a ponto de se
tornar uma alteração de parâmetro de complexos. O que,
como foi visto, não se dá com a duração, que altera
fatalmente o todo textural, exceto se a alteração de
duração for de um só elemento, por exemplo, dentro de
uma grande massa sonora. Esta alteração não massiva
da duração a colocaria como um parâmetro de permeabilidade
variável num complexo textural. Assim, para que se torne
permeável pela textura a alteração de alturas, intensidade
e timbre, deve afetar a densidade, o número de eventos
ou a superfície.
Aplicação analítica
Tendo por referência os parâmetros texturais
definidos acima, fazer uma análise textural não significa
simplesmente localizar tais parâmetros e delinear suas
qualidades. Elas antes abrem caminho para que se penetre
o dinamismo textural da obra. No intuito de demonstrar
a aplicação analítica escolhemos aqui o Estudo no
VII dos Dez estudos para quinteto de sopros,
de Györgi Ligeti(17), uma peça onde há uma
pouca permeabilidade dos parâmetros elementares na percepção
de uma textura que é progressivamente móvel.
Uma análise textural é antes de mais nada uma
análise da resultante sonora, portanto, uma análise
engendrada a partir do que é sensivelmente perceptível
na obra. A análise pura e simples da partitura, sem
compreender auditivamente o complexo textural corre
o risco de ser praticamente infrutífera e falseada.
Análise do “Estudo no
VII”
Para a análise desta peça tomou-se como temática
fundamental a transformação de duas noções elementares
da música e percepção tradicional: o acorde e a melodia
re-significados em complexos próprios a um discurso
textural. Este discurso fica claro pela direcionalidade
das transformações e pelo modo como as partes se encadeam;
nele, acorde e melodia são transformados em noções de
agrupamento vertical e encadeamento horizontal, tendo
o silêncio como agenciador destas transformações.
Para a reciclagem deste material tradicional,
que se dá claramente na não permeabilidade da resultante
textural aos parâmetros elementares do som, alguns procedimentos
se fazem evidentes:
1) O agrupamento vertical é realizado com o
uso de alturas próximas (cluster) tocadas por
ataques curtos (“short and very hard...”)(18),
isolados por longas pausas. Resultam assim em pontos
sonoros que se assemelham à textura estatística do ruído,
dado o choque de fundamentais e de harmônicos. Neste
cluster as notas não são reforçadas harmonicamente,
eliminando as particularidades e individualidades pertinentes
à uma escuta “harmônica” dos agrupamentos. Estruturalmente,
o desenvolvimento da peça se baseia na expansão de superfície
destes pontos que ao longo da peça abre o caminho para
as transformações texturais, lembrando uma passagem
do ponto (do cluster), à linha
(melodia), ao plano (polifonia).
2) A re-significação no plano horizontal dá-sede
duas maneiras. Primeiro tem-se que a percepção melódica
é desviada para uma só nota, ressaltando seu timbre,
sua superfície e densidade particulares. A escuta de
um encadeamento melódico se perde na longa duração de
cada apresentação desta nota, isolada ou em bloco horizontal
(Cf. compassos: 13-19, 35-37). O segundo aspecto desta
re-significação do encadeamento horizontal fica a cargo
do agrupamento polifônico de melodias irregulares(19).
O cruzamento constante dessas melodias dificulta que
a escuta se norteie pelos perfis individuais de cada
melodia voltando-a para a percepção da superfície móvel
de densidade variável.
Vistos o agrupamento vertical e o horizontal, resta
notar a presença marcante e funcional do silêncio nesta
peça. Por um lado ele favorece a compreensão textural,
como no isolamento dos blocos verticais, e por outro
é parte integrante da textura geral da peça: uma textura
vazada pelas grandes “manchas” de silêncio. O silêncio
realça também a ausência de dinamismo melódico ou harmônico,
pois isola os elementos não deixando que se constitua
um continuum sonoro necessário para que este
dinamismo se caracterize. O discurso passa a ser então
o das texturas singulares, apresentadas isoladamente
na ordem de suas transformações. Formam-se assim longas
pausas propícias para que o ouvinte inter-relacione
os formantes e compreenda o discurso textural da peça.
O esquema formal desse Estudo é a própria textura,
uma textura em transformação. Ele se molda no decorrer
da peça(20) com o entrecruzamento de materiais
de texturas diversas: clusters curtos, notas
longas, melodias irregulares sobrepostas - o ponto,
a linha e o plano. A peça é assim a transformação,
seja horizontal, seja vertical, do ponto: a passagem
de um bloco staccato à figuração de uma nota
longa, e a passagem da nota longa de superfície monódica
à uma polifonia melódica.
A distinção entre transformação vertical e
horizontal da textura chama a atenção para ciclos de
transformação que, de certa maneira, ligam, numa relação
de antecedente e conseqüente, o desenvolvimento vertical
e o horizontal.
O primeiro ciclo parte do ponto, que
se contagia com a duração mais extensa da linha
e procura simular a linha num encadeamento de
pontos [Ex. IV]. Assim, do ruído simulado pelo cluster
reiterado, cujas notas são apresentadas a cada vez com
um timbre diferente. Este movimento entre os pontos
só é percebido graças ao movimento direto, ou mesmo
paralelo, entre algumas vozes (clarinete + flauta; fagote
+ flauta), reforçando a configuração de uma linha de
pontos(21), como observamos em b), do exemplo
IV.

Ex. IV - Passagem do ponto
à linha: a) o ponto, o ponto + a linha; b) o encadeamento
de pontos simulando uma linha (partitura e diagrama
analítico da condução das vozes de cada instrumento).
O outro ciclo de transformações é o da linha
contagiada pelo encadeamento de pontos, indo do encadeamento
de pontos do compasso 23 [Ex. IV, b)] ao encadeamento
de linhas - configuração melódica (compassos finais)
[Ex. V].

Ex. V - Perfis individuais
de cada uma das melodias. Note-se o constante cruzamento
de vozes, quebras no encadeamento melódico, na busca
de uma composição textural (cps. 38-40).
Na passagem do ponto à linha
outros parâmetros são alterados, como, por exemplo,
a ampliação da superfície: do cluster para intervalos
mais largos (cps. 30-34). Esta ampliação delimita claramente
o ciclo de transformação vertical da textura. A superfície
se abre para compreender as melodias de saltos intervalares
dos seis últimos compassos [Ex. VI]. Uma passagem do
ponto, que se alonga com a linha, ao plano.

Ex. VI - Ampliação da superfície
ao longo da peça.
O que reforça a percepção dos ciclos de transformação
é a disposição e o tamanho das pausas que isolam as
partes da peça. Observando-se tem-se detalhadamente,
que para cada uma das transformações da textura original
(cluster) a duração do silêncio varia. Quanto
maior a transformação maior a duração do silêncio que
separa claramente, com cinco grandes pausas (G.P.),
os dois ciclos de transformação aqui relatados.
Sintetizando, a textura original, o ponto,
sofre várias transformações no seu contato com a textura
característica da linha, conforme podemos observar no
quadro apresentado a seguir:
|
Transformação horizontal:
|
alongamento do ponto: a) o ponto
mais a linha (cps. 6-8)
b) a linha (cps. 12-19)
encadeamento de pontos (cp. 23)
|
|
Transformação vertical:
|
encadeamento e a expansão do ponto
(cps. 23-34)
encadeamento de linhas: a) linha
com nova superfície (cps. 35-38)
b) a linha móvel (cps. 38-40)
c) o plano (cps. 40-43)
|
O discurso fica claro pelos seus aspectos texturais
expressos pelas alterações lineares de superfície e
densidade, esta tanto horizontal (encadeamento) quanto
vertical (estratificação de eventos). Assim, é do contato
entre tais texturas, da interferência de uma sobre a
outra, que ele se constrói de modo direcional, passando
de uma textura original densa, compacta e estática,
para uma textura densa porém expandida e móvel.
Conclusão
Uma avaliação paramétrica da textura serve,
aqui, como um modo de organizar a compreensão daquilo
que realmente se percebe texturalmente, sem se deixar
levar por particularidades próprias aos parâmetros elementares
do som. Os quatro parâmetros elementares tornam possível
a unidade entre as partes do discurso(22),
porém, sua pertinência como singularidade para como
desenrolar textural da peça é praticamente inexistente.
No caso desse Estudo no VII
de Ligeti, uma análise textural a partir das relações
de alturas poderia no máximo levar a identificação dos
formantes texturais, como foi inclusive utilizado na
análise ao identificar se a textura na mobilidade dos
acordes no compasso 23. Poderia também aclarar momentos
onde a transformação dos parâmetros elementares é extrema
como no compasso 30 e 34, ou também no compasso 23,
onde a alteração das alturas equivale à uma unidade
mínima da textura em questão. Mas, mesmo assim, uma
análise como esta deixa clara a permeabilidade variável
destes parâmetros na textura da peça, como na passagem
do cluster alongado por um acorde de meio tom
nos compassos 13, 14 e 15 e sua ampliação, texturalmente
insignificante, para um bloco de três notas com distâncias
de um tom e meio tom do compasso 16 ao 19. Ou, ainda,
a própria mobilidade da linha, do compasso 38 ao 40,
que, vistos os saltos irregulares das melodias, leva
o ouvinte a não se nortear pelo contorno individual
de cada melodia, que se perde no cruzamento entre as
cinco vozes (cps. 40 a 43), mas a voltar sua percepção
para o plano denso dos eventos, para a configuração,
a densidade e a mobilidade do todo textural.
Por fim, é interessante notar que a aplicação
desta ferramenta analítica não se restringe a peças
onde a textura se sobressaia funcionalmente ou estruturalmente.
Ela pode revelar caminhos outrora velados quando aplicada
para a análise de texturas permeáveis aos parâmetros
elementares. Dados como estes foram encontrados em análises
do Quarteto de cordas em Lá menor, op. 132,
de Beethoven ou ainda no Chants des oiseaux de
Jannequin(23). São caminhos que redimensionam
uma peça abrindo a possibilidade de redimensionar a
própria escuta musical.
NOTAS
(1) Este artigo é resultado de um projeto de
aperfeiçoamento realizado com o estudo da importância
da textura sonora na música do século XX, sob a orientação
do Prof. Carlos Kater, com bolsa da Fapesp, em 1985.
(2) Cf. MACKAY, John. “The perception of density
and stratification in granular sonic textures: an exploratory
study”, in: Interface, vol. 13, no
4 (Lisse: Sweets & Zeitlinger B.V., 1984), p. 172
e p. 184.
(3) Cf. WEBERN, Anton. O caminho para a
música nova. (Trad. bras. Carlos Kater). SãoPaulo:
Novas Metas, 1984, pp. 50-54.
(4) Cf. EIMERT, H. “Debussy's Jeux”, in: Die
Reihe, no 5 (reed. Pensylvania:
Theodore Presser Comp./Universal Edition, 1961), pp.
3-20.
(5) Cf. SHAEFER, Pierre. Traité des objets
musicaux. Paris: Ed. du Seuil, 1986, pp. 272 e 273.
(6) Apenas como referência: tal retomada se
dá, publicamente, em 1954 numa transmissão radiofônica
feita por Stockhausen analisando as obras Jeux
e La mer, de Debussy; cf. COTT, Jonathan. Stockhausen.
Conversation with the composer. London: Picador,
1974, p.69.
(7) Como exemplo ouça-se as obras Zeitmasse,
Gruppen e Mikrophonie I, de Stockhausen.
Ver também análises destas obras em: HARVEY, J. The
music of Stockhausen. London: Faber & Faber,
pp. 49, 69 e 92.
(8) Cf. COTT, Jonathan, op.cit., p. 80.
(9) Forma aqui aparece com o sentido
de gestalt.
(10) LIGETI, G. “Waldlungen der musikalishen
form”, in: Die Reihe, vol. 7 (Wien: 1958), (trad.
esp. Conrado Silva). Brasília: apostila mimeografada,
s.d., p. 11.
(10) Quanto à definição de texturas notamos,
em estudos realizados em 1985, a diversidade de definições
adotadas por alguns compositores pós-seriais (Stockhausen,
Ligeti, Berio, Boulez, Xenakis, Shaeffer, Varèse). Entre
eles, o uso determinou a conceituação do termo. Optamos
neste estudo por uma definição que indicasse as bases
da textura e que apontasse procedimentos analíticos.
(11) Entenda-se a unidade mínima de uma textura
associada à duração e à quantidade de informação que
a qualifique sensivelmente. Neste quadro ela deve ocupar
um espaço suficiente para que, se for alterada e voltar
ao seu estado original, o período onde esteve transformada
seja percebido, e se constitua relevante ao discurso
musical.
(12) Os parâmetros texturais constituídos por
diversos parâmetros elementares serão denominados aqui
por parâmetros complexos.
(13) Tal textura é empregada na Sequenza
VII para oboé de Luciano Berio (Cf. FERRAZ, Silvio.
“Diferença e repetição: a polifonia simulada na Sequenza
VII para oboé de L.Berio”, in Cadernos de Estudo:
Análise musical, no 1 (SP: Atravez),
1989, p. 65, Ex.II.
(14) Note-se este procedimento, reforçado pelo
timbre dos instrumentos na peça de G.Ligeti que será
analisada mais adiante [Ex. V]. Como exemplo, ouça-se
também os primeiros compassos do Prelúdio op. 28
no 4, de Chopin.
(15) Alterações globais e uniformes, alterações
individuais, alterações globais e não uniformes, etc..
(16) LIGETI, G. Zehn Stücke fur Blässerquintet.
Mainz: B.Schotts Sohne, 1969.
(17) Indicação para realização sonora das notas
curtas indicadas na partitura, entre os compassos 2
e 3.
(18) Cada uma dessas melodias é construída
por grandes saltos intervalares irregulares.
(19) Pode-se dizer que o discurso desta peça
é decorrente do processo onde as noções de esquema
formal e textura se entrelaçam. Outro tratamento formal
da textura pode ser constatado no Estudo no
6, do mesmo conjunto de peças de Ligeti, onde esta
é utilizada enquanto procedimento funcional para
ressaltar o esquema formal pré-determinado.
(20) Note-se que neste trecho a textura é permeável
às alterações de timbre propostas associadas à uma falsa
alteração de alturas. Porém, é uma permeabilidade relativa
onde se percebe o movimento timbrístico e não a melodia.
(21) Este é o caso da predominância de intervalos
como segundas, sétimas maiores e menores e o trítono,
como elementos harmônicos unificadores ao longo da peça.
(22) Essas análises foram realizadas como parte
do projeto Textura sonora da música do século XX,
como mencionado na nota (1).
Silvio Ferraz Mello Filho estudou composição
com Willy Correa de Oliveira e Gilberto Mendes. Formado
em Música pela Universidade de São Paulo (USP), termina
atualmente a dissertação de Mestrado em Composição,
a ser brevemente defendida nesta mesma instituição.
Compositor e professor, desenvolve, desde 84, uma linha
particular de pesquisa em análise, onde o estudo de
fenômenos sonoros (cantos de pássaros) e manifestações
musicais de outras culturas vêm se incorporarem seu
trabalho de composição musical. É membro da Equipe Editorial
dos Cadernos de Estudo desde sua fundação.
voltar
|