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UNIDADE E DIVERSIDADE EM RESSONÂNCIAS
Marisa Rezende
"Unidade e Diversidade em Ressonâncias” observa,
através da análise, o uso dos parâmetros registro, dinâmica,
direção de movimento, relação movimento x repouso e
altura como parâmetros estruturais, discutindo as manifestações
e pertinência dos vetores unidade e diversidade na peça.
Escrevi Ressonâncias em 1983 a partir de algumas
idéias básicas: a exploração da ressonância do piano
através do uso do pedal, nos seus vários registros,
partindo de uma linha melódica. Esta linha, pouco ordenada
a princípio, assumia uma formação triádica no decorrer
da peça, sendo construída, predominantemente, com articulações
de igual duração.
Ressonâncias é formada por cinco seções individualizadas
por material musical de conteúdo e/ou comportamento
diversos. Procedi à identificação e caracterização destas
seções e suas subdivisões pelo método comparativo; o
contexto permitiu a observação do comportamento e função
dos segmentos, evidenciando relações.
É minha intenção, no presente trabalho, observar
que fatores e procedimentos geram unidade numa peça
cujo caráter de improviso, sugerido inclusive por sua
própria notação, subentende a diversidade como sua característica
marcante. Procederei à descrição e análise da peça,
fazendo uso da partitura e de gráficos e reservarei
para a conclusão a discussão do tópico em questão. Critérios
e termos utilizados na análise serão explicitados ao
final do artigo(1).
1. Análise
1.1 – As seções(2) quanto aos parâmetros: registro,
dinâmica, articulação movimento x repouso, construção
linear ou bi-linear e seccionamento interno [Ex. I].
1.2 – Quadro comparativo das várias seções quanto
aos parâmetros: registro, dinâmica, articulação movimento
x repouso, construção linear ou bi-linear e seccionamento
interno [Ex. II].
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registro superagudo/agudo
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dinâmicas
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artic ulação movimento/repouso
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linha/linha
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3 grupos de 2 segmentos/ I segmento de
ligação
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registro agudo
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dinâmicas
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articulação movimento/ropouso
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linhas
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3 grupos de 2, 2 e I segmentos/l seg.
de ligação
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registro médio, grave, supergrave
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dinâmicas
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movimento
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linha
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2 sub-seções
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registro médio
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dinâmicas
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articulação movimento/repouso
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linhas
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2 sub-seções
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todos os registros
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todas as dinâmicas
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movimento x ropouso/movimento
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linhas/tinh
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3 grupos de2,2 e 3 segmentos/l seg. de
ligação
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Exemplo I.
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1a. Seção
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2a. Seção
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3a. Seção
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4a. Seção
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5a. Seção
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Registros:
SA
A
M
G
SG
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___________
___________
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__________
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__________
__________
__________
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__________
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__________
__________
__________
__________
__________
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Dinâmicas
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pp / p
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pp / mp
/ mƒ
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ƒ/ ƒƒ / mƒ
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mp / mƒ
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mp mƒ
p ƒ
pp ƒƒ
ppp ƒƒƒ
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Movimento
x
Repouso
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mov.
x
repouso
|
mov.
x
repouso
|
mov.
|
mov.
x
repouso
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ïmov./
rep.
movimento
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Linhas
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linha
linhas
|
linhas
|
linha
|
linhas
|
linhas
linha
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Seccionamento
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3 grupos
(7 seg.)
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3 grupos
(6 seg.)
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2 subseções
(7 seg
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2 subseções
(5 seg
|
3 grupos
(8 seg.)
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Exemplo II.
Do exposto no exemplo II, observa-se que:
- Há alternância de parâmetros comuns e diferentes
entre as seções.
- A 3a Seção apresenta contraste(4) com as duas seções
anteriores em três parâmetros (registros, dinâmica e
movimento).
- A utilização de um registro comum (agudo), de mesmas
dinâmicas (pp/p) e da relação movimento x repouso geram
afinidade entre a 1a e 2a Seções.
- A utilização de um registro comum (médio), de um
mesmo nível de dinâmica (mf) e a identidade quanto ao
seccionamento interno em 2 sub-seções geram afinidade
entre a 3a e 4a Seções.
- A 5a Seção reúne todos os registros, todas as dinâmicas,
a relação movimento x repouso/movimento, tornando-se
única com esta característica.
Pelas relações observadas, pode-se dizer que:
- A 1a e 2a Seções formam uma parte (A).
- A 3a e 4a Seções formam uma parte (B).
- A 5a Seção forma uma parte (A’), assim denominada
pela natureza de seu material melódico, a ser discutido
a seguir.
1.3 – As seções quanto ao parâmetro altura:
1.3.1 – 1a Seção:
— Seção caracterizada pela alternância de segmentos
de articulação rápida e pontos de repouso de durações
equivalentes; subdividida em 3 grupos de 2 segmentos
(a1 e a2 – a3 e a4 – a6 e a7) e 1 segmento de ligação
– a5 – por critérios que serão descritos a seguir e
pela recorrência do som sustentado que estabelece limites
e repouso.
- Sua linha melódica principal subentende dois planos
preponderantes [Ex. III].
— O plano inferior evidencia movimentos ascendentes
e descendentes:
a1 e a2 – têm um movimento descendente e ascendente
cada um.
a3 e a4 – têm um único movimento: a3 descendente,
a4 ascendente.
a5 – tem movimentos ascendentes e descendentes, múltiplos,
de pequeno âmbito.
a6 e a7 – têm movimentos ascendentes e descendentes
múltiplos e amplos.
— O plano superior, menos articulado, apresenta movimentos
ascendentes e descendentes múltiplos, de pequeno âmbito.
- Surge em a5 uma segunda linha, sob forma de pedal,
articulado em a6 e a7.
- A articulação das duas linhas apresenta intervalos
harmônicos consonantes em a6 (terças e quartas) e dissonantes
em a7 (segundas e resultantes).
- Há entre os planos preponderantes da linha principal
(1.1 e 1.2) e seus pontos extremos e de repouso as seguintes
relações [Ex.lV]:
a1 e a2 – ambos têm a nota Dó como ponto extremo
agudo e o intervalo de quarta aumentada entre o ponto
extremo grave e o ponto de repouso; a2 contém a1. Há
formação triádica indireta (g-f-a-b-c) em seus
fragmentos iniciais.
a3 e a4 – ambos têm como ponto de repouso, respectivamente,
seus pontos extremos grave e agudo. Há formação triádica
direta (db - ab - f e ab - eb - c) em seus fragmentos
iniciais.

Ex. III – Linha melódica principal, seus segmentos
e direção de movimento.
 
Ex. IV – Quadro das duas linhas melódicas (1 e 2)
com os dois planos preponderantes (1.1 e 1.2), seus
pontos extremos e de repouso.
a6 e a7 – ambos têm a nota Réb como ponto extremo
grave e o intervalo de quarta justa entre o ponto extremo
agudo e o ponto de repouso; a7 contém a6. Há formação
triádica direta ampliada (f-c-e e f-b-d#-g) nos seus
fragmentos finais.
a5 – segmento ímpar pela construção seqüencial de
1.1 , pelo equilíbrio de articulações entre 1.1 e 1.2,
pela sucessão de terças e saltos consecutivos de sétima
de sua linha. Tem como ponto de repouso seu ponto extremo
e tem o mesmo ponto extremo grave – Réb – de a6 e a7.
- Pelo exposto nos exemplos III e IV observa-se que
a direção de movimento e a relação entre pontos extremos
e pontos de repouso estabelecem que:
a1 e a2 – a3 e a4 – a6 e a7 – formam 3 grupos de
2 segmentos.
a5 – é ímpar e funciona como segmento de ligação
por reunir características comuns aos segmentos anteriores
(coincidência do ponto extremo agudo e ponto de repouso
e formação triádica direta) e seguintes (coincidência
do ponto extremo grave e presença da segunda linha melódica).
- A identidade intervalar existente entre a1/a2 e
a6/a7 confirma os grupos acima criando por exclusão
mais um elo entre a3 e a4 que poderia se estender a
a5 não fossem suas características individuais marcantes.
— Seção construída buscando um aumento gradativo
de tensão de a1 para a7, pelo número crescente de articulações
dos segmentos, pela introdução da segunda linha e pela
presença de intervalos harmônicos dissonantes em a7.
Intervalos preponderantes: segundas maiores e menores.
1.3.2 – 2a Seção
— Seção com características semelhantes às da 1a
Seção e presença constante da segunda linha melódica;
subdividida em 3 grupos de 2, 2 e 1 segmentos (a’1 e
a’2 – a’3 e a’4 – a’6) e 1 segmento de ligação a’5.
- Os segmentos a’1 e a’2 – a’3 e a’4 repetem o mesmo
conteúdo da 1a Seção, evidenciando as mesmas relações
de direção de movimento, pontos extremos/pontos de repouso
e grupamento.
- A segunda linha melódica inicia-se a partir de
a’1 apresentando nestes quatro segmentos iniciais articulações
sobre um acorde de sétima maior com quinta aumentada
[Ex. V].
- O segmento a’5 apresenta, como mais uma singularidade,
a retenção do fluxo pelo uso de articulações de dupla
duração em relação à 1a Seção e um pedal Dó articulado
em oitavas, permanecendo ímpar como tal e em sua função
de ligação.

Ex. V – Segunda linha melódica em a1...a4.
- O segmento final a’6 repete o conteúdo do segmento
correspondente da 1a Seção, com modificações e incorpora
a7, expandido com maior desenvolvimento do trabalho
triádico final; é ímpar no grupamento.
- A segunda linha melódica em a'6 apresenta-se com
contorno melódico definido, formado inicialmente por
notas mais agudas dos segmentos a1...a4; admite seccionamento
interno(5) evidenciado pelo uso de células rítmicas
e recorrência de certas alturas. Seu segmento inicial
explora a repetição de notas e o segmento final, intervalos
triádicos [Ex. VI].
— Seção construída buscando um aumento de tensão
de a’1 para a’6 pelo número crescente de articulações
dos fragmentos: a’6 é extenso, contínuo e apresenta
maior número de ataques simultâneos(6) das duas linhas.
lntervalos preponderantes: segundas maiores e menores;
forte presença de terças maiores e menores.
— Comparada à 1a Seção, a 2a Seção apresenta maior
nível de tensão, pelo uso do registro agudo aliado à
dinâmica mp predominante e pela presença contínua da
segunda linha melódica.
1.3.3 – 3a Seção
— Seção caracterizada pela articulação rápida e contínua
de tríades arpejadas; subdividida em 2 sub-seções de
4 e 3 segmentos.
1a sub-seção: b1
- Caracterizada por movimentos ascendentes e descendentes
amplos [Ex. VII].
- A estrutura intervalar triádica constante não cria
diferenças marcantes para os 4 segmentos que se explicitam
pela direção de movimento e relações intervalares entre
notas extremas dos arpejos [Ex. VIII].

Ex. VI – Segunda linha melódica em a6.

Ex. VII – Direção de movimento em b1.
- As notas extremas dos primeiro e último segmentos
têm entre si relação de segundas: eb – f – f# – gb –
ab – a# .
- As notas extremas dos segmentos intermediários
têm entre si predominância de relações por terças: g-b-d-f.
- O penúltimo arpejo gera uma assimetria numa estrutura
intrinsecamente simétrica.
- As notas extremas dos arpejos no registro grave
e as notas dos intervalos harmônicos formam uma linha(7)
com predominância de segundas maiores e menores; seu
primeiro fragmento ascendente apresenta a nota inicial
repetida, terça menor, segunda menor, e segunda maior:
formação análoga ao plano superior de a2 [Ex. IX].
2a sub-seção: b2
. Caracterizada pela predominância de movimentos
ascendentes.
- Formada por 3 segmentos semelhantes em sua formação
intervalar e direção de movimentos, apresentados em
registros distintos [Ex. X].
- As notas extremas graves da sub-seção repetem a
formação intervalar: nota repetida – terça menor – segunda
menor – segunda maior, já apontada em a2 e b1 [Ex. XI].

Ex. VIII – Notas extremas e direção de movimento
dos arpejos (representados dentro da oitava).

Ex. lX – “Linha do baixo” em b1.

Ex. X – Direção de movimento em b2.
- As mudanças de registro – pontos de articulação
– são antecedidas por arpejos das tríades f-a-c e f#-a#-c#.
- No terceiro segmento a supressão do salto descendente
dos segmentos anteriores enfatiza a nota extrema aguda,
que gradualmente apresenta duração diferenciada (FI)
e prepara, junto com o meno mosso, a mudança para
o andamento Lento da seção seguinte; este segmento funciona
assim como segmento de transição.
— Seção construída buscando um aumento de tensão
em b2 gerado pelo registro super-grave/grave e dinâmica ƒƒ. Intervalos preponderantes: terças em b1 e quartas
em b2.
— A 3a Seção apresenta maior nível de tensão do que
as seções anteriores pelo uso que faz dos parâmetros
dinâmica e registro.
1.3.4 – 4a Seção
— Seção caracterizada pela articulação simultânea
de duas linhas com durações diferenciadas, em andamento
Lento; subdividida em 2 sub-seções de 2 e 3 segmentos.
1a sub-seção: c1
- Caracterizada por movimentos ascendentes e descendentes
angulares, com saltos intervalares e tendência divergente
de movimento entre as linhas [Ex. XII].
- Segmentação determinada por pontos de repouso.
Ex. XI – “Linha do baixo em b2.

Ex. XII – Direção de movimento em c1.
- Presença de saltos com algumas formações triádicas
no 1o segmento.
- Presença de saltos de segundas no 2o segmento com
ocasionais dobramentos por terças.
- Articulações não coincidentes no 1o segmento e
simultâneas, a pulso distinto, no 2o segmento.
2a sub-seção: c2
- Caracterizada por movimentos ascendentes e descendentes
angulares, com saltos intervalares e tendência divergente
de movimento entre as linhas [Ex. XIII].

Ex. XIII – Direção de movimentos em c2.
- Segmentação determinada por simetria dos segmentos.
- Presença de saltos e segundas com dobramentos por
terças predominando.
- Articulações coincidentes a pulso distinto nos
3 segmentos.
— Seção construída buscando um aumento de tensão
pelo maior uso de simultaneidades e dobramentos em c2.
Intervalos preponderantes: saltos(8).
— A 4a Seção apresenta menor nível de tensão em relação
à 3a Seção pela retenção de fluxo.
1.3.5 – 5a Seção
— Seção caracterizada pelo retorno ao material temático
da 1a Seção apresentado por tríades, em linhas paralelas;
subdividida em 3 de2, 2 e 3 segmentos (a11 e a21 – a31
e a41 – d1, d2, d3) e 1 segmento de ligação (a51).
. a11 – fragmento inicial de a1 apresentado por tríades
repetidas em registros diferentes.
. a21 – repetição integral de a1 com a mesma característica
acima, enfatizando as segundas menores por mudança brusca
de registro.
. a31 – repetição integral de a1, alternando tríades
e sua fundamental, staccato.
. a41 – repetição de a1 com modificações intervalares
e perfil rítmico decorrente da relação estabelecida
entre a tríade e sua fundamental repetida ( . . ) .
. a51 – motivo inicial de a1 seguido por tríades
e notas isoladas em saltos amplos, com mudança de registro,
voltando à articulação linear.
- Os dois primeiros grupos caracterizam-se por movimentos
ascendentes e descendentes e paralelismo decorrente
da articulação da linha repetida [Ex. XIV]:
. a11 e a21 formam um grupo caracterizado pela articulação
de tríades separadas por fermatas.
. a31 e a41 formam um grupo caracterizado pela articulação
de tríades e notas isoladas.
. a51 permanece ímpar e funciona como segmento de
ligação por apresentar características comuns aos segmentos
anteriores (quanto à articulação e natureza intervalar)
e aos seguintes (quanto à troca abrupta de registro
e retorno à articulação linear).
- O último grupo caracteriza-se por movimentos ascendentes
e descendentes que se ampliam atingindo os registros
extremos no último segmento [Ex. XV].

Ex. XIV – Primeiro e segundo grupos, direção de movimento.

Ex. XV – Direção de movimento do 3o grupo.

Ex. XVI – Segmento d3: último movimento ascendente.
. d1 é caracterizado por tríades articuladas em registros
diferentes, em relação cromática.
. d2 é repetição seqüencial de d1 uma segunda acima.
. d3 apresenta início semelhante aos segmentos anteriores
seguido de movimentos descendente e ascendente amplos
com relações cromáticas em articulações de maior duração;
seu último fragmento ascendente traz novamente notas
chaves de a1 e uma tríade f#-a#-c# usada como ponto
de articulação de b2 [Ex. XVI].
— Seção construída buscando um aumento de tensão
pelo uso de registros extremos e dinâmica ƒƒƒ; o último
fragmento de d3 reverte este quadro com quebra abrupta
de dinâmica e uso de notas longas; intervalos preponderantes:
segundas e saltos.
A 5a Seção apresenta maior nível de tensão que as
anteriores pelo uso constante de tríades, extremos de
dinâmica e registro.
2. Observações da análise:
- Todas as seções são construídas internamente obedecendo
ao padrão menor ( maior tensão.
- A peça é construída tendo um momento de clímax
na 3a Seção e outro, mais significativo(9), na 5a Seção.
- Cada seção antecipa o elemento dominante da próxima
Seção(10).
- Cada seção faz uso de um intervalo preponderante.
- A estrutura geral da peça é assimétrica assim como
o são suas seções internamente.
- Há usos específicos dos parâmetros registro, dinâmica
e direção de movimento em cada seção.
- A recorrência de material melódico cria vínculos
entre a 1a, 2a e 5a Seções(11).
— A peça é de fato estruturada pela utilização que
faz dos diversos parâmetros (registro, dinâmicas, direção
de movimento, relação movimento x repouso, altura).
Nenhum parâmetro isolado se torna preponderante em sua
organização.
3. Unidade e diversidade:
Ao longo desta análise apontei semelhanças, transformações
e contrastes do material musical em Ressonâncias. Acredito
porém que a busca de unidade na peça e o uso que esta
faz de materiais diversos merecem alguns comentários.
A unidade parece ser diretamente associada à coerência,
meta tão minha de vida quanto de minha música; buscá-la
em trilhas estabelecidas representa segurança, procurá-la
num caminho livre, um desafio. Interessou-me agora,
de sobremodo, observá-la nesta peça que queria “pouco
ordenada” e com “caráter de improviso” conforme afirmei
no início deste artigo, entendendo que é de fato na
diversidade dos materiais usados que reside sua força
expressiva (não creio mais ser tão necessário mas apenas
reafirmo que suas muitas seções, repletas de segmentos,
não são mais do que a confirmação deste fato).
A diversidade tem o germe do contraste mas implica
numa gradação: sua abundância minimiza a contundência
daquele. Os muitos materiais de Ressonâncias acabam
assim por estabelecer entre si uma aproximação. A permanente
transformação a que estão sujeitos é outra forma de
vínculo: dinâmicas – registros – intervalos – direção
de movimento e relação movimento x repouso se substituem;
cada um ao estabelecer-se deixa o outro para trás e
por sua vez cede lugar ao próximo(12). E é justamente
por esta característica que se tornam parâmetros estruturais(13):
sua permanência e substituição determinam padrões.
Por fim, uma palavra sobre o fator recorrência, gerador
de unidade: o único elemento direto e óbvio de unificação
na peça(14) – as repetições do material melódico – tem
uma força relativa no contexto; acontece mas sua importância
é parcial face aos outros parâmetros estruturais.
Concluo então ponderando que a linha divisória entre
unidade e diversidade pode ser tênue e que o tratamento
estrutural aqui apresentado é eficaz neste tipo de peça,
pois a busca da coerência não poderia ser nem um pouco
mais óbvia sem comprometer seu caráter livre.
4. Critérios e termos utilizados na análise:
- A análise partiu da sub-divisão do todo em seções.
- Foram estabelecidos dois tipos de grupamentos nas
seções:
– sub-seções – quando se estabelecem partes nas seções
com relativo grau de contraste, possível pela maior
identidade dos segmentos de cada parte.
– grupos de segmentos – quando a identidade menor
entre os segmentos não estabelece partes com maior autonomia
nas seções.
- A relação movimento x repouso evidenciou:
– movimento contínuo com articulações de durações
iguais;
– movimento x repouso com articulações de durações
diferenciadas;
– movimento x repouso com articulações de durações
iguais.
. A direção de movimento evidenciou:
– movimentos ascendentes e descendentes;
– movimentos ascendentes e descendentes de curto
âmbito, nos quais o intervalo entre extremos é menor
do que o intervalo de quarta;
– movimentos ascendentes e descendentes amplos –
nos quais o intervalo entre extremos é maior que o de
quarta;
– movimentos ascendentes e descendentes com saltos
– quando qualquer dos movimentos inclui salto intervalar;
– movimentos angulares – formados por saltos com
reversão de direção como característica.
- Ponto de repouso – ponto no qual o som sustentado
estabelece retenção de movimento.
- Ponto de articulação – ponto no qual o contexto
determina mudanças em que haja repouso.
- Triádico – que diz respeito à tríade.
- Triádico ampliado – que diz respeito a acordes
de sétima ou nona.
- Formação triádica direta – quando as notas da tríade
estão apresentadas consecutivamente na linha melódica
sem intervenções de notas estranhas.
NOTAS
(l) O presente texto originou-se da palestra que
proferi no I Ciclo de Análise Musical – evento realizado
pelo “Núcleo de Apoio à Pesquisa” (NAPq) da Escola de
Música da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
–, em Belo Horizonte (Escola de Música), a 07/12/1989.
(2) Não constantes na partitura anexa, suas delimitações
serão detalhadas ao longo deste texto.
(3) Neste exemplo, o sinal ? representa pontos
de repouso, e ? pontos de articulação.
(4) A 4a Seção também apresenta contraste em relação
à 1a e 2a seções em dois aspectos que escapam aos quadros
expostos nos exemplos I e II: é a única a apresentar
mudança de andamento e articulação simultânea bi-linear
de durações diferenciadas.
(5) Não me detive no seccionamento da 2a linha por
acreditar ser ele de importância secundária no contexto.
(6) As articulações da 2a linha nos fragmentos a’1...a’4
ocorrem predominantemente nos pontos de repouso da 1a
linha.
(7) A “linha do baixo” explicitada aqui é fundamental
para a condução da sub-seção.
(8) Importa aqui o fato de que são usados intervalos
de quarta a oitava indistintamente ocasionando saltos
que contrastam com as seções anteriores onde havia predominância
de segundas e terças. Cabe a ressalva de que a 1a e
2a seções embora façam uso de saltos intervalares o
fazem em um contexto que privilegia graus conjuntos
de tal forma que os saltos tendem a ser entendidos como
movimentos por graus conjuntos de dois planos distintos
(vide 1a Seção – 1.4.1); a 3a Seção usa quartas, quintas
e sextas num contexto claramente triádico e a 5a Seção
explora saltos com mudança abrupta de registro, esta
sim característica marcante da seção.
(9) Justifica-se o “mais significativo” pela maior
permanência de extremos de dinâmica e registros da 5a
Seção.
(10) Na 1a Seção: a 2a linha é introduzida através
de nota pedal com poucas articulações preparando a 2a
linha da 2a Seção.
Na 2a Seção: os intervalos consecutivos de terça
do final de a’6 antecipam os arpejos de tríades da 3a
Seção.
Na 3a Seção: as notas de maior duração do último
segmento de b2 preparam a retenção do fluxo característico
da 4a Seção.
Na 4a Seção: as simultaneidades (dobramentos por
terças) surgem gradativamente preparando as tríades
da 5a Seção.
(11) Há outras recorrências menos perceptíveis na
peça:
. o plano superior de a2 (exemplo IV – 1.2) recorre
na mesma altura em b2 (exemplo XI) e transposto em b1
(exemplo IX);
. a 2a linha em a’6 (exemplo VI) traz notas extremas
do plano superior de a2 (exemplo IV – 1.2);
. o último fragmento de d3 (exemplo XVI) traz notas
chaves de a1.
(12) Daí decorre a noção de fluxo, bastante forte
na peça.
(13) Como pode ser observado no exemplo II e na partitura,
as seções de 1 a 4 com suas sub-seções firmam:
- um registro predominante;
- uma dinâmica predominante;
- um tipo de relação movimento x repouso;
- um tipo de relação de direção de movimento.
A 5a Seção, como um fechamento, reúne características
das várias outras seções.
(14) Um outro fator de recorrência, de percepção
indireta por resultar do uso de vários parâmetros, é
a relação de tensão na peça: cada seção é construída
internamente buscando um aumento de tensão no seu último
segmento. O esquema geral da peça determina um fluxo
de aumento de tensão da 1a para a 3a Seção, uma diminuição
da 4a Seção e um acirramento da 5a Seção.
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