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Relatividade IV: VARIAÇÕES
E DIGRESSÕES(1)
Jamary Oliveira
Lindembergue Cardoso (1939-1989),um dos mais importantes
e conhecidos integrantes do “Grupo de Compositores da
Bahia”, compôs quatro peças para conjuntos diversos
entre 1980 e 1982 às quais deu o título Relatividade.
A primeira, Relatividade op. 69, foi composta em 1980
para um conjunto constituído do quarteto de madeiras,
piano, 4 grupos de percussão e do quinteto de cordas.
Em 1981 ele compôs Relatividade II op. 76 para orquestra
e em 1982 continuou a série com Relatividade III op.
79 para piano e triângulo e Relatividade IV op. 83 para
piano solo.
Relatividade IV, dedicada à pianista Beatriz Roman,
foi estreada em 1982 e publicada em 1987 no Vol. 11
da Série Compositores da Bahia(2). De acordo com o autor,
segundo esclarece na partitura editada, a peça é toda
composta sobre um coral tonal que, conforme os ângulos
sob os quais é visto (ouvido), suas características
são alteradas. Na realidade, o coral tonal, a que o
compositor se refere, não é de fato uma melodia “choral”
harmonizada, mas um encadeamento harmônico provavelmente
elaborado pelo próprio compositor [Ex. I].

Exemplo I.
Este encadeamento é apresentado inicialmente com
cada acorde atacado em fortíssimo, alguns com o baixo
duplicado, onde apenas uma das vozes é sustentada. O
encadeamento começa em Lá Menor, a tonalidade da peça,
tonicaliza o Dó, a mediante, o Mi, a dominante,e o Sib,
a napolitana, onde conclui. O conjunto de notas resultantes
deste encadeamento é o cromático com a exclusão do Dó#
(Réb). As notas sustentadas não parecem ser
resultado de uma escolha sistemática. Faltam aí, do
conjunto cromático, além do Dó#, apenas o
Sib e o Si.
Tecnicamente, Relatividade IV é uma série
de variações sobre este encadeamento. É uma obra descritiva.
Entretanto ela não tenta descrever fenômenos extra-musicais
mas fenômenos perceptivos, às vezes sofisticados, mais
próprios a um ouvinte com formação musical. Podemos
comparar os ângulos a que o compositor se refere, às
audições sucessivas de um músico submetido a, por exemplo,
um ditado do encadeamento. A atenção deste músico, ora
voltada para as harmonias, ora para uma voz ou um detalhe
específico ou, para a memória do que se foi com as conseqüentes
distrações e incertezas. Estas distrações e incertezas
são refletidas na peça como digressões, pelo uso de
material às vezes afim, às vezes completamente estranho
ao encadeamento.
Sob o ponto de vista do material relacionado com
a altura, podemos resumir os processos utilizados nas
variações conforme segue:
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harmônico
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. representação das harmonias (homoritmia) .
arpejos das harmonias . acordes simultâneos-bicordes
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melódico
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. reapresentação de vozes
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A reapresentação homorítmica das harmonias é utilizada
apenas duas vezes em toda a peça. Na primeira vez, no
quinto compasso da seção em =
72, apenas os acordes 1-3 são utilizados. Note-se aqui
a mudança de registro e a omissão do baixo – que aparece
no compasso seguinte – além da mudança de posição do
acorde 3.

Na segunda vez, próximo ao final da peça, o encadeamento
é reapresentado em retrógrado com a omissão do acorde
1. Aqui os acordes 16, 15, 14, 10 e 9 são reapresentados
de forma semelhante ao original, inclusive com as mesmas
notas sustentadas. Os outros acordes são curtos e, com
exceção do acorde 2, são apresentados em grupos de três.
Os arpejos são ascendentes no início da peça e descendentes
no final, reforçando a simetria decorrente da reapresentação
do encadeamento em retrógrado. Na seção em =
132, Ligadissimo, a primeira após a apresentação
do encadeamento, a ordem das vozes é mantida(3).

Entretanto na cadenza que segue, o arpejo
não obedece a qualquer ordem das vozes do original.
O compositor utiliza as notas dos acordes de modo a
lhe permitir, em três movimentos ascendentes, ir da
região grave à aguda do piano. Na seção em tempo livre
(identificada com o sinal ~) o grupo de dez notas arpeja
descendentemente os acordes 9-11. Aqui, como na primeira
seção em arpejo, a ordem das vozes é mantida.

A seção =
60-72, Ligado, inicia arpejando descendentemente
os acordes. A ordem das vozes é mantida a maior parte
do tempo. As modificações deste procedimento permitem
o descer gradativo do registro agudo para o grave.
A utilização de bicordes acontece três vezes no decorrer
da composição, cada uma com características distintas,
e jamais envolvendo todos os acordes do encadeamento.
A primeira vez que surgem, logo após a cadenza,
a textura é derivada da apresentação original. Aqui,
é um acorde, e não uma voz, que permanece soando. Neste
trecho são utilizados os acordes 1-11, seguidos pela
primeira digressão importante, que marca inclusive o
surgimento da nota Dó#. A seção em
= 72 inicia com o bicorde 11-12 e continua com outros
elementos assumindo características de desenvolvimento.
Finalmente, no trecho que antecede a seção em =
60-72, os bicordes 1-2, 3-4, 5-6 são apresentados homoritmicamente
e antecedidos por um “cluster” em trêmolo acelerando.
O processo mais extensivamente usado, e aquele com
maior diversidade, é sem dúvida o da reapresentação
de vozes do encadeamento. Convém salientar que neste
processo, assim como no arpejo, a repetição de notas
no encadeamento é geralmente representada por apenas
uma nota nas variações. A seção em
= 100 consiste de três reapresentações completas e uma
incompleta. Nos quatro primeiros compassos desta seção,
a mão direita apresenta o soprano dos acordes 1-11 seguido
pelo contralto dos acordes 12-16. A mão esquerda verticaliza
três a três os baixos dos acordes 1-15 [Ex. II].

Exemplo II.
Nos dois e meio compassos seguintes a mão direita
apresenta o contralto dos acordes 1-14 seguido do soprano
dos acordes 15-16. A mão esquerda começa um processo
de digressão do qual falaremos mais tarde. Enquanto
estas duas primeiras reapresentações têm características
pontilhistas em sua textura, a terceira, que parece
combinar as duas anteriores, readquire o registro original
das duas vozes superiores do encadeamento. A reapresentação
incompleta continua as características da terceira apresentando
o baixo e o tenor dos quatro primeiros acordes no registro
original. Outras apresentações de linhas melódicas integrais
ou quase integrais são utilizadas no decorrer da peça.
É interessante observar que o tenor é a única voz não
apresentada integral ou quase integralmente. O baixo
completo é apresentado em retrógrado no início da seção
em tempo livre (~) e na ordem original no final da composição.
O soprano dos 15 primeiros e o contralto dos 14 primeiros
acordes são ainda apresentados sem interrupção na seção
em tempo livre como último gesto antes da passagem em
notas indeterminadas.
A seção em =72
– que conforme afirmamos antes tem características de
desenvolvimento – combina os vários processos até aqui
descritos. Com relação à reapresentação de vozes do
encadeamento, podemos distinguir fragmentos, principal-mente
das vozes dos três primeiros acordes. O baixo destes
acordes é encontrado no sexto compasso, o soprano no
nono e o tenor no décimo. A figuração no início do oitavo
compasso consiste no soprano dos acordes 11-16 em retrógrado
(o acorde 14 com o soprano substituto). O acorde no
final do sexto compasso é constituído do tenor verticalizado
dos quatro primeiros acordes.

Esta seção, que apresenta muitas digressões, conclui
com os dois primeiros acordes do encadeamento totalmente
desfigurados por notas extras e por substituições, com
suas identidades asseguradas pelo baixo.

As digressões variam desde pequenos desvios de um
padrão estabelecido, até a utilização de material novo.
A simetria a que nos referimos antes é também refletida
no uso das digressões, que se acumulam no centro da
peça. Entre as digressões mais simples podemos citar
a mudança de padrão no acorde 4 da seção
= 132, devido ao fato de que soprano e contralto
duplicam a mesma nota,
e a utilização de uma nota de acorde substituta,
como no acorde 14 onde um Sib substitui o
Sol do soprano na seção em
= 132 e na apresentação da linha do soprano logo
antes da passagem com alturas indeterminadas, ou no
acorde 10 na apresentação bicordal após a cadenza
onde o Fá# substitui o Lá do soprano. Na
cadenza temos pela primeira vez na peça o acréscimo
de nota não pertencente ao acorde: uma simples passagem
do Lá do acorde 5 para o Dó do acorde 6.

No outro extremo, entre o material completamente
estranho ao original, o “cluster” desempenha um papel
de destaque. Ele é utilizado tanto como elemento de
transição quanto como elemento de substituição. Como
exemplos do primeiro caso citamos os “clusters” que
conectam a cadenza aos bicordes na seção em =
60-72 à primeira fermata. Do segundo caso citamos os
“clusters” acompanhamento na seção em =
100 e os “clusters” ataque após a passagem em alturas
indeterminadas. Uma situação intermediária resulta quando
a partir de um “cluster” são mantidas notas de uma tríade
como no “bicorde” que antecede a =
100, ou quando “clusters” e tríades alternam-se como
nos trêmolos da passagem que antecede a =
60-72.
Um outro tipo de digressão consiste de fragmentos
melódicos que se assemelham a trechos do encadeamento
e que resultam em conjuntos familiares. Entre estes,
como exemplo, encontramos os conjuntos cromáticos [Ex.
III], conjuntos diatônicos [Ex. IV] e conjuntos octatônicos
em graus conjuntos [Ex. V] ou atomizados [Ex. VI] conforme
podemos verificar abaixo.

Exemplo III.

Exemplo IV.

Exemplo V.

Exemplo VI.
Convém notar que este é um tratamento quase que exclusivo
das seções centrais da peça.
A seção em =
100 até certo ponto resume muitos dos procedimentos
utilizados na peça e vale a pena ser examinada com mais
detalhe.
Conforme afirmamos antes, a primeira apresentação
do encadeamento nesta seção – ver [Ex. II] – contém
apenas material extraído do original. Na segunda apresentação,
a mão esquerda utiliza acordes que podem ser relacionados
com o original sem a rigidez da anterior. Por exemplo,
o primeiro acorde pode ser interpretado como conclusão
da seqüência anterior onde o Sib completaria
a série de baixo e o Lá recomeçaria a mesma série. O
Mib neste caso teria de ser considerado como
elemento estranho. As três notas que formam o acorde
seguinte parecem confirmar esta interpretação já que
coincidem com os baixos dos acordes seguintes (2-4).
O primeiro acorde, entretanto, pode ser interpretado
também como originário dos acordes 14-16:

ou dos acordes 13-15

(Estas interpretações envolvendo o uso de vozes diferentes
são possíveis devido ao tratamento dado à mão direita
no mesmo trecho e explicaria por exemplo os dois grupos
melódicos finais de três notas da seção em [símbolo
| pg. 14] = 72 como originário dos acordes 11-13). Os
dois últimos acordes desta apresentação parecem ter
suas origens no tenor dos acordes 1-3 e 4-7, como ilustramos
abaixo [Ex. VII]. Entretanto, o último acorde coincide
também com as notas do baixo dos acordes 8-10.
A terceira reapresentação do encadeamento contém
na mão direita duas digressões. A primeira consiste
na substituição de Mi do contralto do acorde 1 por um
Fá. A segunda na utilização do Sib como soprano do acorde
14. A mão esquerda agora diverge completamente do material
original, utilizando, em vez dos acordes derivados,
“clusters” em notas brancas ou pretas. A quarta apresentação
é interrompida no acorde 4. Os quatro acordes que seguem
têm em comum as notas Ré-Fá, provavelmente soprano e
contralto do acorde seguinte, o 5. O acorde inicial
é entretanto o de Sib (acordes 2, 13 ou 16),
o mais freqüente no encadeamento. O tenor e o baixo
destes acordes são fragmentos respectivamente do conjunto
octatônico e do cromático.
Relatividade IV é uma obra que sem dúvida
reflete o estilo de compor de Lindembergue Cardoso.
Ela é tonal, se entendermos tonalidade no sentido amplo,
mas no seu decorrer não há restrições quanto ao uso
de materiais ou procedimentos. Do universo acumulado
pela criação musical, ele nada rejeita, utilizando aquilo
que melhor lhe convenha para obter o resultado desejado.

Exemplo VII.
NOTAS
(1) Análise composicional de Relatividade IV para
piano de Lindembergue Cardoso focalizando aspectos temáticos.
Descreve os processos composicionais melódicos e harmônicos
utilizados nas variações e as digressões introduzidas
como elementos de contraste. Não se trata de uma análise
exaustiva da composição, mas de exemplificações de procedimentos
típicos do compositor.
(2) Obras para piano. (Série Compositores da Bahia,
vol. 11). Salvador: UFBA/EMAC IFUNARTE, 1987, pp. 30-34.
(3) Neste e nos exemplos seguintes utilizaremos as
iniciais s,c, t, b para indicar as vozes.
Sobre o compositor
Lindembergue Cardoso (Livramento/Bahia, 1939
– Salvador, 1989) estudou nos Seminários de Música da
Universidade da Bahia – atual Escola de Música da UFBa
–, onde diplomou-se em Composição. Nessa mesma instituição,
lecionou diversas disciplinas – Composição, Percepção,
Improvisação, Instrumentação e Orquestração –, atuou
como regente de seu Madrigal e desenvolveu intensa atividade
como compositor. Foi um dos fundadores e membro ativo
do Grupo de Compositores da Bahia, do qual também participaram
Ernst Widmer, Rinaldo Rossi, Jamary Oliveira, Carlos
R. Carvalho, Fernando Cerqueira, Antonio José S. Martins
(Tom Zé), Milton Gomes, Nicolau Kokron, Carmen Mettig
e posteriormente Walter Smetak, Rufo Herrera, Alda Oliveira,
Agnaldo Ribeiro, Paulo C. Lima e vários outros. Entre
as muitas obras premiadas de Lindembergue Cardoso, foram
editadas Procissão das Carpideiras, Relatividade, Forrobodó
da Saparia e gravadas Procissão das Carpideiras, Trio,
Réquiem para o Sol, Suitemdó (Nota CE).
Jamary Oliveira é graduado em composição
pela Universidade Federal da Bahia, onde foi aluno de
Ernst Widmer. É mestre em composição e teoria pela Universidade
Brandeis e doutor em composição pela Universidade do
Texas em Austin. É professor de composição e matérias
teóricas na UFBa. Atualmente é membro da diretoria da
ANPPOM e representante da área junto ao CNPq.
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