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O MINIMISMO LATINO-AMERICANO
ATRAVÉS DA OBRA Piano piano, DO COMPOSITOR URUGUAIO
CARLOS DA SILVEIRA
Graciela Paraskevaídis
Introdução
Carlos da Silveira (Montevideo/Uruguai, 1950) pertence
à geração – hoje intermediária – de compositores que
cresceram musicalmente durante o regime militar (1973-1984),
aceitando esse desafio e assumindo o correspondente
compromisso histórico.
Formado teórica e praticamente tanto no ramo da assim
chamada música culta como no da música popular, da Silveira
atua como criador no âmbito da primeira e como violonista,
arranjador, acompanhante e assessor de gravação no da
segunda. Integrou, desde sua fundação em 1977, o conjunto
“Los que iban cantando”, de importante atuação e influência
durante o mencionado período político no Uruguai, como
ponta-de-lança alternativa e resistente, até sua dissolução
em 1982.
Na área erudita, começa interessando-se pelas técnicas
eletroacústicas, como testemunha sua obra Asi nomás
(1976).
As propostas conceituais do compositor argentino
Oscar Bazán (Córdoba, 1936) – tal como se apresentam
em sua trilogia eletroacústica Episodios (1973), Parca
(1974) e Austera (1974), bem como pela composição instrumental
Austeras (1975-77) interessam a da Silveira e a outros
jovens compositores uruguaios (Leo Maslíah, Luis Trochón,
Fernando Condón, entre outros). O procedimento, que
alia a máxima economia nos meios utilizados a um resgate
e reconhecimento de qualidades musicais das culturas
indígenas dominadas pelo conquistador europeu, é recolhido
por Carlos da Silveira de forma pessoal na obra que
será objeto deste breve estudo.
Sobre o reiterativo
Consultando o dicionário da academia espanhola(1),
vemos que “reiterar” é “tornar a dizer ou executar;
repetir algo”; e “repetir” é “tornar a fazer o que se
havia feito ou dizer o que se havia dito”. E de “repetição”:
“diz-se do mecanismo que uma vez posto em marcha, repete
sua ação automaticamente”. O dicionário latino espanhol(2)
explica: repeto – “tentar alcançar de novo, tentar chegar
de novo a, voltar em busca de, buscar, solicitar, repetir,
buscar longe, remontar à origem de”; e o verbo itero
– “repetir, renovar, iterar”.
É sabido que a linguagem musical não é regida pelos
mesmos códigos da linguagem verbal, mas sim por seus
próprios.
Sabe-se também que nas músicas esteve sempre presente
o conceito de repetitivo ou iterativo, de distintas
formas: nas não européias, através da rítmica mágico-ritual
ou da expressão melódica não temperada de refinadas
recorrências; na música européia (ou de influência européia
também, é claro) se dá, por exemplo, na canção estrófica,
nas texturas de condução harmônica (pedais, progressões),
no “da capo” textual das macro-estruturas do século
XVIII, nas formas tonais recorrentes, etc.
No contexto atual europeu-ianque se registra, a partir
de 1964, o surgimento de um fenômeno musical a que o
compositor inglês Michael Nyman denominou minimal music(3)
(música minimista e não minimalista, que é um anglicismo
do adjetivo mal empregado), uma música que utiliza poucos
– mínimos – elementos, apoiando-se na repetição automática
(ao menos em sua intencionalidade) de células e seqüências,
freqüentemente com polaridade tonal, sob a influência
– ocidentalmente mal entendida – e a aplicação – violentada
– de alguns conceitos filosóficos do Extremo Oriente
(mescla que tem provocado alguns produtos musicais questionáveis).
Partindo dos três representantes ianques do período
histórico da música minimista: Terry Riley (1935), Steve
Reich (1936) e Philip Glass (1937), observam-se extensas
macro-estruturas (igualmente prolongadas na duração
cronológica real e na interior ou psicológica). A voluntária
ausência total de silêncios e de flutuações dinâmicas
(quer dizer, a presença contínua de sons compactos,
de blocos impenetráveis em torno do “forte”, cujas mudanças
rítmicas, melódicas ou harmônicas são tão esporádicas
e espaçadas, como que para gerar uma saída total da
realidade e de qualquer relação com ela, conduzindo
não ao mágico-ritual, senão a um estado de letargia
que – além de suas conotações políticas – impede, anulando-o,
um gozo profundo e sensível do feito musical) logra
destruir, através da automatização, qualquer possibilidade
racional, intuitiva, emocional, de comunicação real
do fato sensível, intermediando assim uma escapatória
pseudo-nirvanística(4).
Na alternativa latinoamericana terceiromundista –
mais modesta e não tanto “epigonal” como pareceria à
primeira vista – ou, digamos, riopratense, o objetivo
é o oposto: estruturas breves, transformação interna
que concentra a atenção pelo imprevisível de sua aparição,
flexões dinâmicas, silêncio expressivo e de tensão,
ausência de memória histórica no âmbito harmônico-tonal.
A interação som/silêncio – onde o primeiro existe
graças ao segundo – e a força motriz – que move estes
elementos concentrados ao máximo – se manifestam através
da utilização de seqüências de ordem iterativa que impõem
uma presença protagônica, graças a sutis variantes reiterativas
não mecânicas nem previsivelmente mecanizadas.
Piano piano pode servir de caso típico.
Piano piano
Foi composta entre fins de 1978 e os primeiros dias
de 1979. Seu título – notoriamente polisêmico – indica,
reiterando-o, o instrumento a que está destinada a obra;
alude, também reiterativamente, a uma dinâmica que não
aparecerá jamais em todo o transcurso da obra; e, também,
ao ditado popular italiano (piano piano si va Iontano),
que tem versões em vários idiomas, inclusive o espanhol;
e, pela rítmica, ao tambor “piano” do conjunto de tambores
afromontevideanos.
Foi estreada por Leo Maslíah durante o VIII Curso
Latinoamericano de Música Contemporânea em São João
del-Rei (MG) em 18 de janeiro de 1979 e executada posteriormente
por outros pianistas, entre os quais Frederic Rzewski
(Festival da Sociedade Internacional de Música Contemporânea,
Graz, 1982), Terão Chebl (São Paulo, 1985), Martine
Joste (Paris, 1986). Existe uma versão discográfica
por Leo Maslíah(5).
Estrutura Geral
Carlos da Silveira opta, sem dissimulações ou atenuantes,
por uma estrutura claramente bipartida ou binária, um
crasso A-B. No entanto, esta obviedade não é, obstáculo
para gerar uma tensão que se acumula tanto em A como
em B e na soma de A e B, especialmente pela expectativa
que impõe em A o jogo de som-silêncio versus silêncio-som,
e em B a não interrupção do som.
Em ambos os casos, são poucos os sons em jogo (Sol-Lá-Dó-Ré),
com iteração marcada dos dois primeiros na primeira
parte e, em B, o Lá rodeado pelo Sol, mais a sétima
maior harmônica Dó-Si, estabelecendo não só outro estrato,
registro ou cor, como também ocorrendo em função do
elemento surpresa.
Observa-se a seguinte delimitação:
em A 
em B 
com uma dinâmica flutuante entre “mp” e “ff” em A,
e estável, sem indicação, em B.
Primeira parte: A
Nas instruções para a realização da peça, se refere ao “piú presto possibile” (que,
evidentemente, varia de executante a executante). A
duração está assinalada em segundos (tanto para o som
como para o silêncio). A duração de A, em comparação
à de B, é quase igual (3’41” e 3’38”, respectivamente).
Não há cálculo matemático, nem regras apriorísticas,
nem repetições mecânicas ou regulares. Tudo é “artesanal”,
sensível. Por exemplo:
| Unidades (segundos)
|
Quantidade de repetições
|
| 10”
|
1x
|
| 7”
|
4x
|
| 5”
|
14x
|
| 4”
|
5x
|
| 3”
|
19x
|
| 2”
|
9x
|
| 1”
|
2x
|
Uma das diferenças substanciais e conceituais da
aplicação de seqüências iterativas nesta obra é precisamente
a de evitar uma periodicidade previsível, mecânica,
simétrica. Nunca “voltar a dizer o que se havia dito”,
mas sim “tentar alcançar de novo”, “buscar”, “renovar”,
o que implica que o caminho pode ser similar ou parecido,
porém nunca exatamente o mesmo (tampouco perceptivamente).
Outros exemplos:
| somente Sol-Lá: com oitava:
|
20 23
|
|
|
|
|
Sol-Lá-Dó-Ré:
|
4
|
| com oitava:
|
6
|
|
|
|
| permanências
sobre o Lá:
|
5
|
| permanências sobre o Ré:
|
7
|
Subentende-se neste contexto que as durações em segundos
são proporcionais e que, uma vez estabelecidas através
dos sete segundos do começo (ou sua aproximação), o
resto se comportará inter-relativamente(6).
O material tetrafônico:

simétrico do ponto de vista intervalar, contém duas
segundas maiores sobre um eixo de terça menor.
Segunda parte: B
É formada por um movimento ininterrupto e estável
de semicolcheias, com ênfase manifesta sobre o 
Alternando com o (28vezes)
e o (17 vezes).
As instruções na partitura esclarecem que 1x, 2x,
etc. significa a “repetição do mesmo compasso tantas
vezes quanto o indicado” e que, “na segunda parte, cada
compasso dura aproximadamente um (1) segundo”.
Nem aqui há matemática oculta. O quadro resume-se
assim:
| repetições
|
vezes (ocorrências)
|
| 14x
|
1
|
| 13x
|
0
|
| 12x
|
0
|
| 11x
|
1
|
| 10x
|
2
|
| 9x
|
2
|
| 8x
|
2
|
| 7x
|
1
|
| 6x
|
1
|
| 5x
|
6
|
| 4x
|
5
|
| 3x
|
4
|
| 2x
|
10
|
| 1x
|
44
|
Observa-se que, a cada vez que aparece o Sol, o compasso
é tocado uma só vez, exceção feita à pagina 3, penúltimo
compasso do quinto pentagrama, onde é tocado duas vezes:

O compasso: 
é também tocado sempre uma só vez, menos ao final,
quatro compassos antes de terminar, quando se estabelece:

ou seja, dois compassos, e não um como previamente,
que se repetem duas vezes.
A e B terminam, em cada caso, com dez segundos de
silêncio – A – e um compasso de um segundo repetido
10x (quer dizer, dez segundos) – B –, duas maneiras
de descrever o mesmo resultado.
Comentário do autor
“Piano piano foi conseqüência de ter conhecido Leo
Maslíah e sua forma de tocar o piano. O que verdadeiramente
quis realizar é uma comunicação na qual o racional fique
relegado pelo sensorial”.
O racional – a escolha e limites dos materiais, sua
organização compositiva – cumpre com o sensorial – fato
comunicativo – uma função de mediador. Afasta-se, também
nisto, da música minimista do modelo europeu-ianque,
à qual não se deve associá-la apressada e superficialmente.
As diferenças de ponto de partida e de chegada, seu
itinerário entre um e outro, são conceitualmente opostas
e as possíveis semelhanças ficam definidas – em um e
outro caso – pelo próprio contexto e sua maneira de
realização. Restaria decidir ou redefinir o rotulado,
em todo caso, adjetivando-o (minimismo latino-americano?).
Carlos da Silveira propõe música mínima.
Tradução de Paulo C. Moura
NOTAS
(1) Real Academia Española, “Diccionario de la engua
española". Madrid: Espasa-Calpe, 1970.
(2) Diccionario ilustrado latino/español–español/latino.
Barcelona: Spes, 1950.
(3) Embora a autora não faça referência específica
aqui, podemos considerar que possivelmente tenha usado
como fonte para essa informação: NYMAN, Michael. Experimental
Music. New York: Schirmer Books, 1974, pp. 119-148 (Nota
CE).
(4) A referência é ao primeiro período (1964-1970)
e às propostas dos três compositores citados, sem generalizar
a casos posteriores.
(5) Fonograma de Tacuabé (Uruguai), vol. 7, da série
“Nova Música Latinoamericana”, 1981.
(6) De fato, a versão discográfica dura 6’40”, quer
dizer, as durações não são absolutas com respeito ao
indicado (A = 3’41” e B = 3’38”, total = 7’19”).
Graciela Paraskevaídis (Buenos Aires/Argentina,
1940) estudou no Conservatório Nacional, graduando-se
no Centro Latinoamericano de Altos Estudos Musicais
do Instituto Di Tella e após, como bolsista do DAAD,
em Friburgo/Alemanha. Compositora e professora, reside
desde 1975 em Montevideo/Uruguai, lecionando na Escola
Universitária de Música da Universidade da República.
Membro do Núcleo Música Nova de Montevideo e da equipe
organizadora dos Cursos Latinoamericanos de Música Contemporânea,
secretária da Sociedade Uruguaia de Música Contemporânea
e coordenadora da seção musical do semanário “Brecha”,
dedica-se ao estudo da música latinoamericana do século
XX, tendo já publicado vários trabalhos.
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