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MÚSICA E LINGUAGEM: PRIMEIRA
APROXIMAÇÃO À “GRAMÁTICA GERATIVO-TRANSFORMACIONAL”
Mauricio Merlini
Introdução
A discussão acerca da importância, falhas e acertos
da gramática gerativo-transformacional (GGT, no que
se segue) não parece ter-se esgotado, pelo contrário.
Mas, a utilização de seus conceitos e métodos para fins
estranhos às línguas naturais é, em, geral, considerada
com precaução(1). Pretendemos verificar aqui
as possibilidades de uso de dois conceitos principais
dessa teoria para a análise musical: os conceitos de
competência/performance e estrutura profunda/estrutura
superficial. Em seguida, tendo em vista alguns exemplos
concretos de música medieval, tentaremos um esboço de
descrição que procurará reter, em particular, as sugestões
de formalização e elementos do aporte matemático associados
à GGT, bem como a exploração do método de reescrita.
Por último, tocaremos, embora superficialmente, no
tema das transformações que o processo polifônico traz
para a tradição do canto litúrgico.
Conceitos implicados
Segundo Chomsky, a competência lingüística é, resumidamente,
a capacidade que têm os falantes de uma língua natural
de inventar e compreender um número infinito de frases,
a partir de um número muito restrito de elementos. A
competência implica a intuição dos falantes relativamente
à gramaticalidade dos enunciados da língua de uma mesma
comunidade lingüística, e subentende uma criatividade
implícita a seus discursos, que faz com que os falantes
sejam capazes de emitir ou compreender uma frase nunca
antes manifestada. Podemos distinguir, ainda, uma competência
inata, que compreende as regras inatas que estão na
base das gramáticas de todas as línguas, e uma competência
adquirida, que corresponde à experiência particular
que o falante nativo tem de sua própria língua.
A performance pode ser definida como o conjunto de
normas que se manifestam a cada ato de fala, as quais
explicam o uso diversificado que se faz de uma mesma
língua, no que respeita à diversas comunidades sócio-culturais.
Este conceito foi muito pouco estudado inicialmente
pelos teóricos da GGT. Em parte porque os atos de fala,
dentro das condições normais da comunicação humana,
se manifestam simultaneamente a uma série de variáveis
extralingüísticas, de difícil controle.
O conceito de estrutura superficial pode ser compreendido
como o conjunto de regras sintáticas e fonológicas atualizadas
simultaneamente aos atos de fala. Já a estrutura profunda
é mais difícil de se definir, em virtude do seu caráter
muito abstrato. Está associada à capacidade que tem
o falante nativo de interpretar corretamente um enunciado,
ainda que ao nível superficial ele seja ambíguo. Essa
ambigüidade é resolvida, na análise, pelo processo que
visa explicitar a história transformacional de uma frase.
A estrutura profunda corresponderia então a uma frase
de base(2), sobre a qual atuam as regras
transformacionais associadas a uma interpretação semântica,
que tem por finalidade gerar a frase manifestada.
Ambos esses conceitos, de natureza dicotômica, parecem
suscetíveis de explicar, dentro de certos limites, as
estruturas musicais se compreendidas, também, como uma
espécie de “língua”. Cremos ser possível afirmar uma
competência musical humana. Tal afirmação está restrita,
no entanto, a considerações de ordem indutiva: dadas
as culturas humanas conhecidas, e visto que todas possuem
uma expressão musical qualquer, pode-se presumir essa
competência como inerente à natureza humana, tal como
as línguas naturais, naquele sentido de uma capacidade
inata “universal”. Ela estaria presente tanto numa sociedade
tribal, ou correlata, minimamente sujeita às influências
externas, como na sociedade “global”, em que as influências
recíprocas são muito acentuadas.
A noção de performance, por sua vez, é algo mais
complexa. No caso das línguas naturais esse conceito
implica todos os atos de fala de um grupo social, os
quais constituem a base sobre que assenta a análise
lingüística e varia segundo a competência, a atenção
e as condições de memória de cada indivíduo.
Mas, no caso da música, deveria esse conceito restringir-se
apenas às emissões verbais (o canto, em geral) ou envolver
as realizações instrumentais e eletro-acústicas(3)?
Restringindo-nos apenas aos casos de emissão vocal,
e adotando uma perspectiva genética, sabe-se que as
crianças muito pequenas (5, 6 meses) têm a capacidade
de emitir intervalos musicais, em seqüência, por períodos
relativamente longos(4). Contudo, sua digressão
sonora não passa, provavelmente, de reflexos imediatos
de vivências psicológicas (agradáveis, segundo supomos)e
não há intencionalidade nesse gesto, como se supõe para
a comunicação verbal.
Aos 20 meses de idade, Adriano, que conseguia articular
algumas frases, ligava o rádio e assim que ouvia uma
música qualquer, dizia prontamente: “música”. Quando
este conceito é sistematicamente associado a eventos
musicais podemos dizer que agora a criança atribui um
significado àqueles sons, que também nós designamos
por “música”. E é provável que a partir daqui os intervalos
que ela conseguir formular poderão corresponder a alguma
configuração particular que pode ter aprendido.
A predisposição ao intervalo e/ou à sua distribuição
temporal já existia(5) (esta seria precisamente
a sua competência) e é plausível acreditar que todas
as pessoas a possuem, de forma mais ou menos desenvolvida.
Quando chega à idade pré-escolar, ou mesmo antes, a
criança aprende inúmeras canções. O fato de ela aprender
a cantar implica uma competência de recepção e, se ela
reproduz o canto, uma competência de emissão. Contudo
esta última não se confunde com a performance, propriamente
dita, que diz respeito às condições específicas de atualização
e que podem ser diferentes, para um “mesmo” discurso
musical.
A questão das unidades manifestadas ao nível da estrutura
superficial, parece menos problemática em música do
que na linguagem verbal. As unidades fonológicas, segundo
certa concepção, não passariam de uma hipótese teórica;
importam muito mais as unidades de sentido que, se bem
sujeitas a controvérsia, são mais facilmente delimitáveis.
Em música parece ocorrer o contrário: as unidades de
sentido, conquanto existentes em algum nível, não são
passíveis de definição rigorosa, tanto quanto sabemos.
Para a música, a possibilidade de uma estrutura profunda,
subjacente a um grande número de expressões musicais
particulares é mais aceitável, embora não se possa dizer
o que vem a ser essa estrutura. Entretanto, postular
uma estrutura profunda, em sentido restrito, conforme
aos pressupostos da GGT para as línguas humanas, significaria
admitir a existência de “frases” musicais de base, a
partir das quais – e por um processo de transformação
– seriam geradas todas e somente as frases musicais
de uma comunidade. Tal não parece ser o caso.
Ao incorporara língua o falante nativo incorpora,
inconscientemente, a sua estrutura, que é “dada”, quando
da sua inserção no universo cultural de uma comunidade.
O mesmo poderia ocorrer para a música; só que, para
esta última – nos limites da sociedade e cultura ocidental
onde nos situamos – será algo forçado admitir uma estrutura
anterior, do tipo concebido para uma língua. Poderemos
falar, talvez, de estruturas, muito menos coercivas,
de caráter sócio-cultural, cuja componente “natural”
é, digamos, muito mais difusa e difícil de descrever.
Obviamente, essas considerações não pretendem esgotar
o assunto – quando muito chamar a atenção para alguns
pontos em que a relação GGT–Música poderia ser de algum
proveito para a teoria musical e que serão objeto de
reflexões posteriores.
Preliminares à análise
Primeiramente devemos sugerir um tipo de transcrição
gráfica dos exemplos que serão analisados. Isto se deve
a duas razões principais: a escrita musical que lhes
corresponde originalmente é muito imprecisa, ou pouco
explícita, aos nossos olhos; e, ainda, as transcrições
realizadas por musicólogos que “recuperaram” essas obras,
apresentam diferenças consideráveis, para uma mesma
obra transcrita. A que propomos – nos exemplos I a III
– tem a vantagem de contar com um procedimento comum
às ciências exatas, na forma de eixos coordenados, vertical
para a freqüência e horizontal para o tempo.
As obras que serão objeto desse esboço de análise
pertencem a períodos históricos distintos: séculos IX,
XI e XII, respectivamente(6). Tal disparidade
não deverá afetar nossa intenção de coerência por duas
razões. Em primeiro lugar, nada autoriza afirmar que
só a mais recente delas faria parte do repertório ativo
da Igreja, no século XII; em outras palavras, um corte
sincrônico nas manifestações musicais, literárias ou
pictóricas de um dado período histórico evidenciaria
a convivência de obras de origem distinta, no tempo.
Em segundo lugar, o modelo de análise proposto, se é
que se poderá assim chamá-lo, ou a metalinguagem descritiva
com que devemos contar, será a mesma para todos os exemplos.
Só desse modo será lícito extrair conclusões mais ou
menos abrangentes da análise.
É preciso ressaltar, ainda, o fato de tratar-se de
peças polifônicas e que, a par das questões relativas
a um possível aproveitamento da GGT para a análise musical,
interessa-nos observar o modo específico de articulação
das linhas melódicas postas a funcionar conjuntamente
numa única obra, fato este basilar, na história da música
ocidental.
Consideradas isoladamente, as melodias do canto gregoriano,
monofônicas, além de serem estabelecidas já de longa
data (desde Gregório, o Grande, por exemplo, do século
VI) são confirmadas pelo uso continuado nos rituais,
eminentemente cíclicos, da liturgia(7).
A invenção da polifonia(8) tende a solapar
a própria natureza dessa melodia e, como tentaremos
verificar, o que parecia muito bem assentado, segundo
regras aparentemente incorporadas, deixa de ter validade
conforme passe a funcionar em conjunto com as invenções
melódicas que lhe são acrescentadas.
Da concepção de Chomsky (e seus colaboradores), muito
complexa, desejamos reter especialmente o viés lógico-matemático,
que orientou desde o início os seus trabalhos – numa
palavra, o caráter formal e explícito da sua abordagem,
pelo grau de generalidade que apresenta(9).
Adotaremos como ponto de partida a definição de linguagem
formulada por Miller e Chomsky (1963)(10):
Uma linguagem é um conjunto (finito ou infinito) de
frases, cada uma finita em comprimento e construída
por concatenação (isto é, encadeamento) a partir de
um conjunto finito de elementos(11).
Uma rápida consulta às fontes musicais do período
que estamos considerando mostraria um número pequeno
de elementos (notas) que participam da composição; sete,
em geral, podendo chegar a oito ou nove, se considerarmos
o Bb e o F#, e que constituem
os conhecidos modos medievais(12).
De qualquer modo, as possibilidades combinatórias,
mesmo dessas poucas notas, é elevada. Chamemos N, a
esse conjunto; temos então, N= 7! = 1x2x3... x7 = 5.040.
O que faz com que os exemplos em pauta (e provavelmente
a grande maioria da produção contemporânea deles) não
esgote, pelo contrário, o potencial combinatório dessas
notas, pode ser atribuído às coersões vigentes no interior
do sistema modal, tal como era praticado. Em outras
palavras, haveria um conjunto de regras, mais ou menos
explícitas, que norteavam a composição, considerando
válidas tais ou tais seqüências e não outras(13).
Muito haveria para ser dito sobre este ponto. Mencionaremos
apenas que para a língua – uma semiótica natural – as
regras sintáticas, por exemplo, são incorporadas inconscientemente
pelo falante nativo de uma comunidade, além de que elas
repousam sobre propriedades universais da linguagem
humana e implicam, segundo a GGT, uma estrutura inata
de aquisição da linguagem(14).
Regras de encadeamento de notas ou frases musicais
– no nosso caso –, regras de agenciamento de rimas e/ou
ritmos na poesia ou mesmo de volumes e módulos na arquitetura,
dizem respeito às semióticas construídas pelo fazer
humano e são sujeitas a um processo de transformação
(histórico) bastante diferenciado.
Com o intuito de delimitar um pouco o campo de nossas
preocupações, poderíamos começar definindo o conjunto
(finito e abstrato) das alturas que compõem a música
de uma comunidade como:
A = (a1, a2,... an)
e passíveis de serem traduzidas em freqüências mediante
procedimentos adequados. Essas alturas têm a característica
de serem discretas e de se apresentarem numa certa ordem
e não em outra.
Nos exemplos que estamos analisando, se iniciarmos
a lista dos elementos que deles participam com a altura
A (freqüência de 440 Hz ou um seu múltiplo ou sub-múltiplo),
teremos as seguintes séries de alturas:
Ex. Ia= (A, Bb, C, D, E, F, G)
Ex. Ib= (A, B, C, D, E, F#,G)
Ex. II= (A, B, C, D, E, F, G)
Ex. III= (A, B, C, D, E, F, G)
Se por um lado, a explicitação dos elementos que
compõem uma “frase” (ou todo um corpus), no caso da
música, é menos problemática relativamente à língua,
é ao nível das relações entre elementos que a música
parece apresentar as maiores dificuldades. Isto é particularmente
verdadeiro para músicas compostas fora do âmbito do
sistema tonal; mas vamos adiar temporariamente essa
discussão.
Como vimos anteriormente, na definição de linguagem,
o conceito de concatenação não foi explicitado. É o
que tentaremos fazer agora, após o que, retornaremos
aos nossos exemplos musicais.
Esse conceito está intimamente associado ao de regra
de reescrita (ou reescritura). Valendo-nos da formulação
de N.Ruwet: uma regra de gramática pode ser apresentada
como uma instrução, que toma certo elemento, ou uma
seqüência de elementos, e indica que este elemento ou
esta seqüência deve ser convertida em outro elemento
ou seqüência de elementos(15).
Tal regra pode ser representada pela forma: X -->
Y, onde X representa uma seqüência qualquer de elementos,
Y uma outra e, onde também, a seta indica que X deve
ser reescrito como Y. Se X corresponder a uma frase
da língua portuguesa, por exemplo, o menino brinca,
teríamos o seguinte conjunto de regras (tendo ao lado
a mesma estrutura em forma de árvore), a partir de F:
|
F --> SN + SV SN --> Art.+N SV
--> V (= verbo) Art. --> o N
--> menino V --> brinca
|

|
Em geral, como se vê, cada elemento à esquerda é
substituído pelo ou pelos elementos à direita, correspondentes
a Y. Neste ponto temos que remeter o leitor curioso
à bibliografia especializada(16). O exemplo
é banal, mas serve aos nossos propósitos: a concatenação
aqui é representada pelo sinal +, que indica ainda a
ordem em que os constituintes estão encadeados uns aos
outros.
Resumidamente, as regras de reescrita têm a finalidade
de explicitar a história transformacional de uma frase;
elementos muito simples da estrutura profunda vão se
complicando até que se obtenha a frase tal como atualizada
em discurso. A peculiaridade desse processo está em
que, desde o começo (e no âmbito das línguas naturais)
trata-se de uma frase, da concatenação de dois ou mais
elementos, numa palavra, de uma estrutura.
Em música – retomando agora as considerações anteriores,
referentes aos nossos exemplos –, torna-se difícil supor
a existência de um processo semelhante. O caráter fraseológico
da música – quando existe algo que possa ser caracterizado
como frase – e mesmo ao nível superficial, é ainda bastante
problemático. Devemos nos abster de um aprofundamento
dessas questões neste estudo, mas podemos ressaltar
alguns princípios que nortearão o que se segue:
a) a idéia de frase sugere um processo reiterativo
de elementos e/ou regras entre elementos;
b) sugere ainda alguma indicação pela qual se possa
atribuir um começo e um fim à frase: pausas respiratórias,
retorno a um centro tonal significativo, etc..
Para ilustrar o procedimento de reescrita no âmbito
da música, reproduzimos abaixo a análise feita por J.J.Nattiez
de uma canção medieval, do século XIV(17),
em que os processos de reiteração são mais claramente
definidos. Trata-se de uma peça monofônica, já ao tempo
da escrita mensurada(18). Os últimos componentes
reproduzem a manifestação de superfície, como indicados
na figura: Essa análise, contudo, não se dá sem problemas.
Há alguns trechos que são irredutíveis a qualquer regra;
e, em última análise é a própria canção que facilita
uma abordagem por essa via. No nosso caso, tais processos
de reiteração são ainda muito rudimentares (ou existentes
num nível que resta determinar). Já no século XV e principalmente
XVI eles serão a base formal que sustentará quase toda
a produção ocidental nos trezentos anos seguintes.
Obviamente, a tarefa que se impõe neste momento,
para a nossa tentativa de análise, é a de “descobrir”
a gramática musical subjacente a essa música, em confronto
com a qual o problema das frases seria tratado. Todavia,
teremos em vista objetivos bem mais modestos, não só
pelos problemas levantados pela escrita(19)
como pela ausência relativa de abordagens dessa natureza.
Tudo considerado, iremos abordar nossos exemplos
do ponto de vista da relação que suas unidades mantêm
entre si, para sugerir uma espécie de algoritmo(20),
para fins de análise. Essas unidades, muito poucas como
vimos, são bastante reiteradas e, em conjunto, não ultrapassam
a nove.


Ex. Ia – Gráfico derivado de organum
paralelo na quinta, Escola Enchiriadis séc. IX, c.850
(linha superior VP, linha inferior VO)

Ex. Ib – Gráfico derivado de organum
paralelo na quarta, Escola Enchiriadis séc. IX, c.850
(linha superior VP, linha inferior VO)

Ex. II – Gráfico derivado do organum
livre “Cunctipotens genitor”, séc. XI

Ex. III – Gráfico derivado do organum
“Benedicamus Domino”, Escola de Compostela, c.1125
Análise
Nos exemplos Ia e Ib, sob a Vox Principalis (VP),
tomada de empréstimo ao repertório gregoriano, foi acrescentada
uma linha melódica, a Vox Organalis (VO), a uma distância
de quinta e de quarta(21), e que permanece
constante ao longo de todo o trecho.
Considerada isoladamente, a VP apresenta claramente
uma polarização sobre A (= Lá), que uma rápida consulta
ao gráfico, apresentado anteriormente, ilustra.
Podemos, então, dizer que a forma: A --> (0) A(22)
prevalece, em detrimento de todas as demais substituições.
O trecho termina em D, o que sugere o modo hipodórico
(âmbito A-A, coma final em D) com uma longa polarização
na “dominante”. A VO é subsidiária, num certo sentido;
contudo, a afirmação do D – no Ex. Ia e seu gráfico
correspondente –, pelo mesmo longo trecho, tem o efeito
de confirmar o modo sugerido. Nota-se a presença do
Bb neste exemplo, cuja finalidade é a de
evitar o temido diabolus medieval. Assim também, o F#
no exemplo Ib.
Considerando-se a numeração indicada entre parênteses
como medida intervalar em semitons, genericamente poderíamos
escrever:
Ex. Ia
|
A --> (2) B ... --> (2) D (7)
(7)
(7)
D --> (2) E ... --> (2)
G
|
Ex.Ib
|
A --> (2) B ... --> (2) D (5)
(5)
(5)
E --> (2) F# ... --> (2)
A
|
Simetrias rigorosas que não explicam, todavia, as
nuances de sonoridades que o acréscimo da VO no exemplo
Ib ocasiona. Observe-se ainda o lugar da incidência
da pausa – que mantivemos – provavelmente dependente
do texto e após um F. Tudo isso está a indicar algum
nível de análise que está além de uma sintaxe, do qual
não nos ocuparemos, entretanto. Por último, note-se
que o maior salto é o de terça, F --> A. Neste domínio
localizam-se, talvez, as maiores coerções, na música
do período, além das polarizações modais.
Muito diferentes são as condições ao século XI. O
organum paralelo há muito foi sendo substituído por
outro, em que prevalece o movimento contrário em ambas
as vozes. A VP corresponde agora, geralmente, à voz
inferior. O nosso exemplo II foi composto sobre a melodia
do Kyrie IV, Cunctipotens genitor e apresenta certas
peculiaridades que passaremos a descrever. Sua forma,
genericamente, corresponde a:
|
A --> (7) E --> (3) G ... -->
(3) A (0) (7)
(12)
(0)
A --> (0) A --> (2) G ...
--> (1) A
|
muito longe da simetria dos exemplos anteriores.
Em apenas três “tempos” a VO alcança o intervalo de
sétima; os saltos de quinta ou quarta são mais freqüentes.
O tempo 13 ilustra a maior distância entre as vozes
– (17), G superior e D inferior – ao mesmo tempo em
que se observa sobrevivências do procedimento anterior
entre os tempos 6-8 e 56-58. Mais surpreendente é a
seqüência entre 53 e 56 da VO:
|
A --> (5) E --> (5) B --> (5)
E(23)
|
encadeada, em seguida, à série de quintas paralelas,
que acabamos de referir, para terminar num “acorde”
de Lá menor...(24)
|
E --> (4) C --> (3) A (12)
(5)
(0)
E --> (3) G --> (2) A
|
Obviamente, essa denominação não é pertinente. Porém,
tais seqüências de terças, ou mesmo o que chamaríamos
de acordes invertidos, são freqüentes ao longo de toda
a peça.
Há que mencionar, finalmente, a presença de ritornelos,
na transcrição (três ao todo), o que sugere uma estrutura,
sem dúvida rudimentar, do tipo A A’, B B’, C C’.
A existência daquilo que conhecemos por motivo, no
interior dessas seções, não está descartada mas não
poderá ser abordada nos limites desse estudo.
Nosso último exemplo – [Ex. III] – data do século
XII e é composto sobre uma melodia gregoriana, Benedicamus
Domino, muito utilizada neste século e no seguinte
para as composições polifônicas.
Ao contrário dos exemplos anteriores, nota contra
nota, as notas do tenor (do latim tenere, que
significa sustentar, manter), isto é, o canto gregoriano
usado como suporte para a composição, se alargam e formam
um contraste pronunciado em relação à variedade melódica
na VO. Estamos diante de um caso em que o fator tempo
adquire uma importância nova(25).
As vozes são independentes quanto às alturas e também
quanto às durações. Às sete primeiras notas iniciais
da VO corresponde uma única da VP, como podemos verificar
na ilustração abaixo.
|
A --> (0) A --> (2) G --> (2)
A --> (2) B --> (2) A --> (4) F
(7) (7)
(5)
(7)
(9)
(7)
(3)
D --> (0) D --> ...
--> (0) D
|
Os valores pertencentes à VP são muito variados(26),
correspondendo ora a sete notas da VO, ora a duas, ora
a quatro, três ou cinco, etc., o que deveria acarretar
dificuldades não pequenas à interpretação, ainda mais
se levarmos em conta que as partes, em geral, eram escritas
separadamente.
Quanto às alturas, deparamos agora com repetições
literais e às vezes quase literais de trechos da VO,
como é o caso entre os tempos 8-18 e 41-51; entre 106-115
(exceto pela nota Si); e a cadência final que sugere
uma variação notável desse perfil, entre 137-147. O
maior âmbito observado entre as duas vozes, na peça
inteira, é (19) – E superior e A inferior – e há pelo
menos um salto de sétima, D --> (10) C, entre 51
e 52. Observa-se ainda a presença e afirmação do trítono
em 53 e 54.
Exceto pela nota final F, o trecho entre 124-132
é o que chamaríamos, hoje, uma citação. Ele reproduz
o início de Cunctipotens genitor, do exemplo II. O fato
é que elaboração melódica ou textual sobre material
pré-existente era um procedimento usual na Idade Média
e extrapolava o campo da música. A reprodução do trecho
final deste exemplo no gráfico (137-147) tem apenas
a intenção de ilustrar um movimento cadencial exemplar.
A designação de tenor é significativa (conforme a
nota D no último quadro), na medida em que ela se constitui
num verdadeiro centro de polarização tonal e prenuncia
um procedimento exaustivamente utilizado desde então
e durante vários séculos posteriores.
Da repercussão
A novidade nem sempre é vista com bons olhos, em
arte. E a polifonia não tardou a levantar suspeita de
vozes eminentes, quando ficou manifesto que a palavra
divina – quer no caso do prolongamento inusitado das
palavras do canto (Ex. III), como no crescente amálgama
de vozes – foi atacada de vários flancos. A temática
foge ao escopo desse estudo, mas citaremos para ilustrá-la
apenas uma dessas vozes, a de John of Salisbury, que
lecionou na França e foi bispo de Chartres pelo fim
do século XII: Basta ouvir simplesmente uma destas execuções
enervantes realizada com todos os artifícios da arte
para se ter a impressão de estar a ouvir-se mais um
coro de sereias que de homens; /.../ Com que facilidade
executam longas passagens /.../ repetindo frases sobre
frases e fazendo as vozes chocarem-se umas com as outras;
na meio de tudo isso, as notas altas e até as extremamente
altas ficam tão baralhadas com as baixas ou as extremamente
baixas que os ouvidos acabam por ficar quase privados
de as distinguir(27).
Conclusão
Tal como para a lingüística no estudo da língua,
uma semiótica musical – na qual a abordagem chomskyana
também se insere depende, até certo ponto, da dimensão
escrita da música. Datam de aproximadamente 30 anos
as primeiras pesquisas que incorporaram as contribuições
lingüístico-semióticas à análise musical.
Em geral a metalinguagem que está associada à música,
ao longo da história – de caráter teórico, filosófico
ou normativo –, embora constitua um conjunto auxiliar
de textos a serem invocados para a análise musical,
está longe porém de fornecer instrumentos consistentes
para esse fim.
Uma dificuldade adicional para a formalização de
uma gramática da música e da arte em geral reside no
fato de que, diversamente das línguas naturais, as linguagens
artísticas são semióticas construídas, donde a ausência
– ou perda gradativa, historicamente – do caráter de
necessidade, próprio das línguas humanas.
No nosso caso, tratou-se tão somente de esboçar um
procedimento de análise. Contudo, a par de constatações
banais, que uma simples leitura poderia resolver, percebe-se
todo um jogo de coerções, seja no sentido de certas
polarizações, via repetição ou direcionalidade das seqüências,
seja pela restrição a determinados encadeamentos.
A ausência de durações precisas, por exemplo – tratam-se
de obras anteriores à música mensurada –, não nos deixa
ver a articulação dos motivos em frases, etc., tal como
no lied abordado por Ruwet/Nattiez.
De qualquer maneira, a simples presença de ritornelos
(quiçá dependentes do texto) é uma indicação clara de
um princípio organizativo, de uma estrutura, na qual
certamente nos haveremos com partes e sub-partes, da
totalidade que é a obra, conforme apontamos.
E interessante notar, por último, que as peças em
questão envolvem cerca de 400 anos de música(28)
e é surpreendente a constatação de que os processos
observados – a saber, o movimento contrário, oblíquo
e paralelo – serão basilares na composição polifônica
dos séculos seguintes e até recentemente(29).
NOTAS
(1) Cf. CHOMSKY, N. Linguagem e Pensamento (Petrópolis,
1977), pp. 98-99: Em geral, o problema de estender conceitos
da estrutura lingüística a outros sistemas de conhecimento
parece-nos, no momento, achar-se num estado não demasiadamente
promissor, embora seja /.../ muito cedo para pessimismo.
(2) Nos termos da GGT, essa frase se traduz por SN+SV
(sintagma nominal + sintagma verbal), que corresponde
à estrutura sujeito + predicado, postulada como universal
para todas as línguas humanas.
(3) O problema é vasto. Diz respeito aos níveis intermediários
de realizaçãoda música – partitura, esquemas gráficos,
simbolismos – que de mandariam uma abordagem específica.
(4) Tal foi nossa experiência, espontânea, com Emília
e Adriano, nessa idade.
(5) Essa afirmação carece de uma fundamentação epistemológica.
Nesse momento ela tem o caráter de uma hipótese de trabalho.
Uma discussão extensa do problema encontra-se em: Théories
du Langage, théories de I’apprentissage. Le débat entre
Jean Piaget e Noam Chomsky (ver bibliografia).
(6) Cf. DAVISON e APEL. Historical Anthology of Music,
exemplos: 25a (2 e 3), 26a e 28b.
(7) Todavia, nem sempre foi tranqüila essa questão.
Sabe-se dos esforços não pequenos da Igreja para normatizar
os ritos. Localidades muito distantes de Roma tendiam
a uma certa autonomia quanto a estes.
(8) Nos termos ocidentais; é conhecida a existência
de procedimentos polifônicos em diversos outros tempos
e lugares. Ver, entre outros: POUSSEUR, H. Musique,
Sémantique, Société (Bélgica, 1972), p. 27.
(9) Cf. LYONS, J. As idéias de Chomsky (SP, 1976),
p. 63: O estudo das propriedades formais e da capacidade
gerativa dos vários tipos de gramática se faz como um
ramo da matemática ou da lógica, independentemente de
sua relevância para a descrição das línguas naturais.
(10) Apud, RUWET, N. Introdução à gramática gerativa
(SP, 1975), p. 42.
(11) Fica temporariamente adiada a questão de saber
o que vem a ser “frase” e “concatenação”.
(12) Por comodidade adotamos a notação convencional:
A, B, ...G = Lá, Si, ...Sol; b = bemol, # = sustenido.
Para maiores detalhes sobre os modos medievais, ver:
SEAY, A. La musique du Moyen Age (Paris, 1988), p. 52
e ss. Também em inglês: Music in Medieval World (Prentice
Hall, 1975).
(13) Data do século X o tratado que primeiro faz
menção ao modo de composição polifônica, Musica Enchiriadis.
Cf. SEAY, A. Op. cit.,p. 126 e ss.
(14) Cf. também nota 5 acima.
(15) SEAY, A. Op. cit., p. 106.
(16) Omitimos alguns detalhes no exemplo sem prejuizo
do argumento. Ver a respeito: LYONS, J. Op. cit.,
capítulos 6 e 7, e RUWET, N. Op. cit., p. 106 e ss.;
DUBOIS, J. et alii. Dicionário de Lingüística (SP, 1978),
para uma definição de concatenação.
(17) Cf. o artigo “Trois modèles linguistiques pour
I’analyse musicale” (1973), onde Nattiez retoma uma
iniciativa anterior de N.Ruwet, de 1966.
(18) Cf. SEAY, A. Op. cit., p. 148 e ss. Atribui-se
a Leonin, da escola de Notre Dame (Paris, séc. XII),
as primeiras iniciativas de mensuração.
(19) As transcrições nas quais nos baseamos – cf.
nota 6 – deixam em aberto a questão do tempo. Implícita
a essa observação está a idéia de que os valores temporais
são necessários a uma “teoria” das frases musicais.
(20) Conjunto de regras formais para obtenção do
resultado ou da solução de problemas.
(21) Podendo serem duplicadas, uma delas ou ambas,
oitava abaixo ou acima, respectivamente.
(22) No quadro de uma álgebra de Boole, trata-se
de uma lei de tautologia: a + a (ou: a U a) = a; nos
termos da teoria cibernética, de uma transformação idêntica
a --> a.
O número entre parênteses indica a quantidade de
semitons no gráfico.
(23) Trata-se de intervalos de quarta, naturalmente,
indicados pelo número de semitons. O intervalo de quinta,
ascendente portanto, comportaria a indicação (7).
(24) Diante da dificuldade de transcrição integral
do exemplo remetemos à antologia de Davison e Apel já
mencionada, p.22.
(25) Como já foi apontado, o tipo de transcrição
proposto – e muito menos os originais, com certeza –
não nos diz do valores relativos implicados. Remetemos
ao livro de I.Spink, An Historical approachto Music
Form, p. 20 e ss., para mais detalhes.
(26) Vale aqui a observação da nota 23.
(27) Apud, ROBERTSON, A. e STEVENS, D. História de
Música “Pelicano”. Lisboa, Ed. Ulisseia, s.d., Vol.I,
p. 255.
(28) Bem entendido, música religiosa, escrita. O
século XII é rico de uma produção trovadoresca e/ou
popular da qual pouco ou nada sabemos.
(29) Veja-se a Suite Opus 35, de Schoenberg, entre
outros.
BIBLIOGRAFIA
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no. 28). Lisboa: Ed. 70, 1980.
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1974 (12a ed.), Vol. I.
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vol. LXIV, no. 2. New York: G.Shirmer, 1978, pp. 195-222.
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1976.
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Paris: Union Generale d’Éditions, 1975. Série “Esthétique”.
NATTIEZ, J.J. “Trois modéles linguistiques pour I’analyse
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1973, pp. 3-11.
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théories de l’aprentissage. Les débats entre Jean Piaget
et Noam Chomsky. Paris: Seuil, 1979.
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RUWET, N. Introdução à Gramática Gerativa. São Paulo:
Perspectiva, 1975.
SEAY, A. La musique du moyen age. Paris: Actes du
Sud, 1988.
SPINK, I. An Historical Approach to Musical Form.
London: G.Bell and Son, 1972.
Mauricio de Souza Merlini é compositor,
formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade
de São Paulo. Tem atuado como arte-educador. Deu cursos
de harmonia no Centro Cultural São Paulo e orientou
Oficinas de Música em escolas da rede pública. Pesquisador
independente, interessa-se pela confluência das linguagens
artísticas e/ou formais. Tem dois livros de poemas publicados
(Contramão e Misery Mor) e prepara uma exposição de
poesia associado a artistas plásticos.
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