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ENCONTRO COM ROBERT PIENCIKOWSKI
Entrevista realizada para Cadernos
de Estudo por Yara Caznók (Paris, 03 de janeiro de 1990)
CE – O que significa, em
sua opinião, analisar uma obra?
RP – Analisar uma obra
é lê-la no sentido amplo do termo, isto é, estabelecer
um diálogo com ela, procurando em seu interior os elementos
que nos interrogam e que nos parecem mais significativos.
Eu vejo a análise como uma espécie de crítica no
sentido literário, de uma crítica literária, por exemplo.
Ao ler uma obra, somos levados a nos interrogar sobre
os “porquês” dessa obra, tentando então encontrar elementos
que ajudem a nos familiarizarmos com ela, a dar um sentido
a nossas indagações.
De uma maneira geral, temos, no primeiro contato,
um choque inicial que pode ser positivo ou negativo
e, conforme as circunstâncias, somos levados a aprofundar
as razões desse choque, dessa emoção inicial.
Quando analisamos, é fato comum refletirmos sobre
os elementos que nos atraem com maior força e, ao nos
darmos conta, estamos analisando nossas questões pessoais.
Essa é uma experiência que todo mundo normalmente
enfrenta. As questões e inquietações que as obras colocam
levam-nos às nossas próprias questões.
Não sou eu quem diz isso. Boulez cita freqüentemente
o posfácio de um ensaio muito famoso sobre Baudelaire
escrito por Michel Butor. É o encontro de um romancista
com um poetado passado que, interrogando-o, interroga-se
a si mesmo, projetando suas próprias preocupações de
escritor. Neste ensaio, Butor diz: pareceria que ao
final desta leitura eu não falei exatamente sobre Baudelaire,
mas de mim mesmo. Esta citação encontra-se no prefácio
do livro “Penser la Musique Aujourd’hui”, de Pierre
Boulez(1).
CE – Nesse sentido, você
acha que o analista deve estar consciente dos elementos
subjetivos que atuam no momento do trabalho, sendo capaz
de separar os elementos objetivos que a obra possui
de seus dados pessoais?
RP – Esta prática é quase
impossível. Quando, depois de alguns anos relemos as
análises que fizemos, nos damos conta de toda a evolução
que houve em nosso trabalho. Vemos coisas que não tinham
sido sequer reparadas no momento em que as escrevemos.
Tínhamos pensado fazer o melhor possível naquela época,
porém não percebemos que nossas questões pessoais também
estavam lá incluídas e que só afloraram mais tarde,
com nosso desenvolvimento pessoal.
Creio que é uma ilusão pensar que uma análise possa
ser cem por cento objetiva; pois é impossível separar
de maneira radical a subjetividade da objetividade.
Há, certamente, um ideal de equilíbrio; se não fosse
isso seria difícil ter um objetivo. Ao mesmo tempo,
há também todo um caminho a percorrer entre essa “miragem”
e a realidade. Este caminho é às vezes mais interessante
que a miragem ou a realidade em si e é esse o trabalho
de qualquer artista.
A análise puramente objetiva é mecânica e estéril.
Encontramos essa prática sobretudo em análises de música
serial. Faz-se aí a contabilidade das notas e acredita-se
que a obra foi analisada. Mas, na verdade, nada se fêz.
Substituiu-se apenas as notas por números e não se respondeu
à pergunta: “O que é a obra?”. Esta “objetividade” é
uma ingenuidade que deve ser denunciada porque freqüentemente
trata-se de um pseudo-cientificismo. Na verdade, nada
mais é do que um “fantasma” de cientificidade, é uma
ilusão! Neste sentido, devemos estar conscientes para
não cairmos nesta armadilha e acabarmos por produzir
banalidades apenas(2).
CE – Há hoje em dia vários
tipos de abordagem analítica, como por exemplo a fenomenológica,
a semiótica, as matemáticas e tantas mais. O que você
pensa sobre isso?
RP – Tudo o que pode ajudar
a elucidar uma obra, a esclarecê-la de diferentes maneiras,
é benvindo. É preciso não excluir, a priori, as possibilidades
e as hipóteses de trabalho.
O perigo desses princípios reside em sua aplicação
unilateral e inadequada; isto é, em nome apenas da manutenção
de um dado princípio, forçar a obra a aceitar ou dela
eliminar elementos conforme uma conveniência específica.
Era o que a tradição romana fazia: quando um determinado
ator tinha um papel muito longo, cortava-se sua atuação;
no caso inverso, se seu papel era muito curto, estendia-se.
É preciso ser muito prudente com os princípios propostos,
pois eles às vezes nos impedem de ver certas coisas.
Porém, não está jamais excluída, a meu ver, a possibilidade
de se fazer recurso às ciências paralelas à música,
para atingirmos a maior eficácia possível numa análise.
CE – Qual é o caminho habitual
que você percorre ao analisar uma obra?
RP – Eu pessoalmente prefiro
analisar as obras por elas mesmas, isto é, pegar numa
partitura diferentes partes e esclarecê-las umas pelas
outras.
Pode-se pegar uma partitura e escolher ao acaso uma
ou outra página, e nesse trabalho demonstrar as conexões
que elas poderiam ter entre si. Disse “ao acaso” mas,
evidentemente, isto pode ser feito de maneira deliberada.
Depois de percorrer realmente a obra, escolhemos um
certo número de fragmentos que estejam aparentemente
distantes uns dos outros e, em seguida, procuramos a
lógica interna, as relações profundas e estruturais
que estão sob esta aparente gratuidade de distância
e assim por diante...
CE – ...isto, mesmo ao
trabalhar uma peça sem jamais tê-la ouvido?
RP – Minha escuta de uma
obra é como a de todo mundo, quer dizer, eu a recebo
como um choque, como uma inquietação a ser investigada.
Quando não há a possibilidade da escuta devemos supor
que o aprendizado da audição interna não nos traia muito.
Nesse caso então percorro a partitura, como dizia,
e se há de repente uma página que por uma razão ou outra
me parece ter qualquer coisa a revelar, eu a observo
o mais atentamente possível. Em seguida, tento relacioná-la
como que está imediatamente próximo ou com partes mais
distantes que talvez possuam alguma afinidade. Isso
é o que eu chamo de esclarecer uma obra por ela mesma.
CE – Você adota um método
particular em suas análises?
RP – De maneira geral o
método que sigo, quando tenho tempo de me concentrara
fundo numa análise, baseia-se na transcrição – que é
o que aconselho a meus alunos. Era o que se fazia no
século XIX, quando se reduzia para piano obras sinfônicas.
Não havia discos e para conhecer essas obras era preciso
tocá-las ao piano. No nosso caso é mais ou menos a mesma
coisa. Como o objetivo é prático, utilitário, isto é,
de conhecimento, eu reescrevo a peça levando em conta
os dados práticos da execução. Por exemplo, se há grupos
instrumentais eu os reúno conforme a música que estão
tocando e não em relação à sua disposição habitual numa
partitura. Tento colocar lado a lado as diferentes partes
e verificar seu desenvolvimento contínuo, para ter uma
perspectiva mais clara do todo. Busco aproximar o máximo
possível os elementos. Com essa aproximação torna-se
mais fácil dominar o material da obra.
O ato de transcrever faz com que o cérebro trabalhe.
Ele começa a refletir, a garantir uma boa leitura dos
elementos e uma melhor assimilação do material. Assim
sendo, somos naturalmente levados a refletir sobre os
“porquês” das coisas que tentamos dominar.
O próximo passo, depois da transcrição, é o recuo.
É preciso ter um distanciamento, uma visão panorâmica
para podermos apreender o todo. As vezes, detalhes que
vistos microscopicamente não significavam muito em sua
aparência, vistos de uma certa distância, acabam por
se esclarecer, a ter um sentido.
Recomendo sempre este procedimento aos meus alunos
pois, como ainda são inexperientes, ocorre muitas vezes
que uma dada maneira de ver impede-lhes de imaginar
outra. Eles ficam tão concentrados e preocupados com
um certo detalhe que isso lhes impossibilita de ver
o conjunto. Outros, ao contrário, olham o conjunto em
sua superfície e todos os detalhes acabam por lhes escapar.É
preciso ter um equilíbrio, passar de uma visão a outra
constantemente.
É, enfim, um trabalho de composição. Assim como o
equilíbrio meticuloso dos elementos de linguagem é um
dos trabalhos do compositor, em alguns momentos nos
colocamos em seu lugar, identificando-nos parcialmente
com ele.
CE – Você acha necessário
para um analista conhecer pessoalmente o compositor?
RP – Veja, isto pode ser
em alguns casos uma ajuda, em outros um impedimento.
Ouvir uma obra através da maneira pela qual o autor
a ouve é sem dúvida limitá-la; porém querer voluntariamente
ignorar isto também o é.
Creio que não existe uma receita. Isto é uma questão
de personalidade tanto do analista quanto do compositor.
Há analistas que precisam da presença física do compositor
para se garantir, embora essa garantia seja a meu ver
ilusória. Para outros, no entanto, essa presença seria
um incômodo.
É muito conhecido o fato de que estar muito próximo
do compositor impede a eclosão de nossa imaginação.
Ela fica tão condicionada pela personalidade do compositor
que acabamos por fazer apenas paráfrases, transcrevendo
assim em nossos termos suas próprias idéias.
Diz-se que o ambiente de Wagner não foi muito fértil
em criadores de primeira categoria pois Bayreuth era
um lugar sacralizado. Havia uma maneira de ver e de
pensar que foram mais ou menos decretados pelos comentadores
de Wagner. As pessoas que não tinham acesso direto a
esse meio, que ficaram mais afastadas desse ambiente,
conseguiram ousar e se aprofundar mais em seus trabalhos.
Aprofundar-se é ao mesmo tempo libertar-se da influência
do meio. De novo, tudo é uma questão de equilíbrio.
Às vezes é preciso libertar-se de seus próprios hábitos.
O analista corre o risco de tornar-se uma máquina de
fazer cópias. Você aprende e descobre truques, receitas
para fazer a música soar desta ou daquela maneira e
durante o resto da vida faz uso, aqui e ali, desses
procedimentos que até então lhe ajudaram. Se você puder,
analisando uma obra, imaginar outras possibilidades,
pensar “e se eu tivesse feito isso ao invés daquilo”,
ou “por que encadear isso e não aquilo”, você provavelmente
estaria mais à vontade para criar, para se renovar.
CE – É mais fácil analisar
uma obrado século XVIII, cujo código já conhecemos,
ou uma obra do século XX?
RP – Tudo depende da abordagem
que se pretende. A questão não é a facilidade ou a dificuldade,
a questão é a qualidade da análise.
Há facilidades enganosas. Por conhecermos e dominarmos
o código, cremos que enxergamos tudo, mas às vezes não
conseguimos retirar nada de novo da obra. Esse conhecimento
pode até mesmo esconder seu verdadeiro sentido. Por
exemplo, o sistema tonal durante muito tempo foi um
obstáculo para o conhecimento das músicas anteriores
a Bach. Acreditava-se que tinham o mesmo sistema que
as obras do século XVIII e desse ponto de vista, elas
foram consideradas rudimentares, pouco elaboradas e
sem valor. O que não se enxergava é que elas tinham
um outro sistema, uma outra retórica e uma estética
diferente.
Devemos estar atentos pois por achar que possuímos
a codificação da obra – e que estamos em condições de
resolver todos os mistérios –, suas sutilezas e nuances
significativas podem facilmente nos escapar.
CE – Haveria, em sua opinião,
um repertório básico ao qual o estudante deveria se
dedicar para ter uma sólida formação analítica?
RP – Creio que dificilmente
podemos prescindir de certas obras, pois a formação
acadêmica as exige. São as obras do repertório tradicional.
O principal é que o próprio analista escolha seu repertório,
para que pouco a pouco sua personalidade se defina e
se oriente em direção às suas preferências pessoais.
CE – E do repertório do
século XX, você teria algumas obras a aconselhar?
RP – Isto também é uma
decisão pessoal, não devemos ter um dogma rígido que
nos permita conhecer somente isto ou aquilo.
Há obras que podem ser aconselhadas pois são decisivas
para a estética contemporânea, como por exemplo obras
de Stravinsky, Bartók, Segunda Escola de Viena e Varèse,
para a primeira metade do século.
Em seguida, se consideramos que o serialismo é importante,
há compositores como Boulez, Stockhausen, Nono e Berio.
Se nos interessamos por linhas mais individuais, há
Elliot Carter e Xenakis, por exemplo.
Mas é preciso estarmos atentos às obras que se prestam
melhor à análise. Estas são obras que concentraram em
si as aquisições do século, enquanto que outras demonstram
mais um dado estilo particular.
Eu me dedico à análise de obras da segunda metade
do século XX, o que é também um princípio do “lnstitut
de Recherche et Coordination Acoustique/Musique”, onde
trabalho. Sendo o I.R.C.A.M. um lugar essencialmente
de criação, supõe-se, em princípio, que a análise também
o seja.
Creio que os meios acadêmicos têm o dever de trabalhar
as obras do repertório que já fazem parte do domínio
público. Para mim, trabalhar sobre esse repertório seria
como refazer o mesmo caminho que outros já percorreram
suficientemente bem. Não se pode ignorá-los mas creio,
pessoalmente, que é mais interessante começar justamente
do ponto onde eles pararam. É mais estimulante, mais
instigante...
Como já disse, é uma questão de temperamento, existem
pessoas que preferem redescobrir obras ao invés de se
lançar às novas.
CE – Você acha que haveriam
caminhos ou procedimentos mais prováveis para se analisar
obras do século XX totalmente desconhecidas?
RP – Depende das obras.
Há obras que se prestam e mesmo se oferecem à análise,
como por exemplo, as obras de Messiaen. Elas já estão
quase analisadas por ele no prefácio e o próprio texto
musical contém em seu interior um aspecto pedagógico.
Há obras mais secretas, que são mais elaboradas,
e há outras intermediárias, onde certas passagens são
decifradas facilmente pois liberam, por assim dizer,
sua técnica composicional.
Aí então, e uma vez mais, creio que não existe nenhuma
receita! Cada um lança mão de sua cultura e de sua educação.
São essas as ferramentas que nos ajudam a formar, progressiva
e continuamente, nossa capacidade analítica.
Eu não analisarei amanhã como analisei ontem, pois
já terei ouvido coisas novas, diferentes. Não sei também
se analisarei melhor, pois isso não é uma questão de
progresso mas sim de diferença. O que ganharei de um
lado, talvez poderei ter perdido de outro.
CE – Um analista pode descobrir
coisas que o próprio compositor não percebeu em suas
obras?
RP – Evidentemente! De
fato, é este o nosso trabalho e isso vai mais longe
do que uma simples análise: é aí também que a análise
pode ser uma das etapas do aprendizado da composição.
Ela é uma parte da criação e há análises críticas
que às vezes são mais interessantes que as análises
ditas objetivas, pois são análises voluntariamente subjetivas.
Elas dão antes de tudo um sentido, ao invés de nos mostrar
um objeto congelado, como uma espécie de objeto perfeito,
isolado de todo seu contexto.
É muito conhecida a análise de Boulez sobre a Sagração
da Primavera, onde há evidentemente uma projeção das
preocupações de Boulez sobre Stravinsky. Penso que Stravinsky
seria o primeiro a se surpreender se soubesse do alcance
e do desdobramento de suas idéias, do “fermento” que
se desenvolveu e que gerou uma outra forma de imaginação.
CE – Como você se tornou
um analista?
RP – Por acaso. Sem dúvida
por gosto também, muito embora no início não fosse esse
o objetivo de minha vida. As circunstâncias enfim me
levaram a exercer essa função.
O gosto pela música contemporânea, a música de hoje,
representou sem dúvida um grande papel. Um fato porém,
inteiramente pessoal, me encorajou a perseguir este
objetivo: a comparação do nível da crítica literária
como da crítica musical na França. Eu tive uma dupla
formação, literária e musical, e durante meus estudos
deparei-me naturalmente com a oportunidade de comparar
as duas práticas, constatando que a crítica literária
possuía um nível muito superior, brilhante mesmo.
É preciso dizer que na França dessa época – isto
é, dos anos sessenta – havia uma escola crítico-Iiterária
composta por escritores de grande porte e isto era muito
estimulante. No entanto, chocava-se como mundo analítico-musical
que, mesmo baseado em dados extremamente sólidos, não
se aventurava..., não partia para a criação. Então,
me perguntei por que não seria possível fazer um trabalho
de igual categoria no campo da análise musical, uma
vez que todas as ferramentas e condições necessárias
estavam já presentes. Era preciso acreditar e encarar
a tarefa com muita seriedade.
Pois bem, hoje estou no IRCAM e, como dizia Berlioz,
“por uma fatalidade, tornei-me um crítico”...
CE – Quem são realmente
seus leitores, são os intérpretes, os estudantes, o
público em geral...?
RP – Quando se escreve
algo, escreve-se para um leitor desconhecido, não se
pensa num destinatário em particular. Mas, é preciso
dizer que primeiramente escreve-se para si mesmo, embora
a meta não seja a auto-satisfação e o simples prazer
de ler uma coisa de sua própria autoria. Há uma comunicação
almejada embora não se saiba precisamente com quem e
em que nível essa comunicação se dará.
CE – Haveria um objetivo
pedagógico, crítico no sentido de esclarecer, possibilitar
ou ainda facilitar o acesso do outro a uma obra?
RP – Não posso garantir
que, no meu caso, haja um objetivo facilitador na análise;
às vezes ela pode tornar as coisas mais complicadas
ainda! A meu ver, o objetivo que existe é o de reflexão
sobre a criação atual. Isto pode referir-se a um ouvinte
culto, a um intérprete, a outros analistas desejosos
de refletir sobre seus trabalhos e até a compositores,
principalmente os mais jovens.
Espero que a eles seja de especial utilidade os trabalhos
de análise, pois é sempre grande prazer ver antigos
alunos se tornarem compositores. Isto é um sinal de
vitalidade do curso, que consegue assim estimular ao
invés de amedrontar ou afastar os alunos. Isto encoraja
outros a virem, a criarem um circuito de renascimento
e de criação. Enquanto professores, precisamos observar
esses acontecimentos que se passam em torno de nosso
trabalho e não mera e exclusivamente “dialogar com a
obra em si”.
NOTAS
(1) BOULEZ, Pierre. Penser la musique aujourd’hui.
Mainz: Schott’s Soehne, 1963. Este livro possui tradução
par ao português – de Reginaldo de Carvalho e Mary A.L.
de Barros –: A Música Hoje. (Coleção Debates). São Paulo:
Editora Perspectiva, 1972. Na página 16, da versão brasileira,
figura o trecho mencionado por Piencikowski, que abaixo
reproduzimos em sua íntegra: O autor não passa de um
pretexto, certamente? Michel Butor, no fim de seu ensaio
sobre Baudelaire, responde definitivamente a esta objeção.
“Alguns, escreve, julgarão talvez que, desejando falar
de Baudelaire, só consegui falar de mim mesmo. Seria
melhor certamente dizer que Baudelaire é que falava
de mim. Il parle de vous”. Se interrogarmos com perseverança
ou veemência e convicção, os mestres de uma época precedente,
tornamo-nos seu intermediário para que eles possam dar-nos
sua resposta: eles falam de nós por nós. (Nota CE)
(2) No parágrafo que antecede a citação da nota anterior,
Boulez tece considerações que esclarecem, genericamente,
essa colocação de Piencikowski: ...vamos definir o que
julgamos ser os constituintes indispensáveis de um método
analítico ativo: deve-se partir de uma observação tão
minuciosa e exata quanto possível dos fatos musicais
que nos são propostos; em seguida, deve-se encontrar
um esquema, um alei de organização interna que dê conta,
com o máximo de coerência, destes fatos; vem, enfim,
a interpretação das leis de composição deduzidas dessa
aplicação particular. Todas estas etapas são necessárias;
seria entregar-se a um trabalho de técnico inteiramente
secundário não prosseguir até a etapa capital: a interpretação
das estruturas; a partir daí, e daí somente, poderemos
nos certificar de que a obra foi assimilada e compreendida.
Seria uma ilusão, por incidência, querer procurar aí
apenas cauções, uma justificativa – em si inútil. (Nota
CE)
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