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PESQUISA ANALÍTICA BASEADA NA TEORIA GERAL DO RITMO APLICADA ÀS
VARIAÇÕES SOBRE “CONDE CLAROS”
Carlos Kater
O presente texto foi escrito com base em parte das pesquisas
que realizei em associação com o Prof. Pierre Lusson, no âmbito
do “Centre de Poétique Comparée” de Paris, durante os anos 1979
e 1980.
Faço recurso farto e amplo ao trabalho de nossa autoria
intitulado “Rythme et Variations. Analyse Métrique du Conde
Claros de Luis V. de Henestrosa”(1).
O método experimental de análise musical que procuramos
desenvolver – baseado na Teoria Geral do Ritmo – possui
conceituação e operacionalização próprias, embora seu
instrumental se inspire parcialmente em técnicas de outras
naturezas. Isto se compreende na medida em que um dos objetivos
essenciais dessa teoria consiste no estudo das simetrias e
dissimetrias presenciáveis nas diversas linguagens, como Roman
Jakobson já havia verificado na linguística.
O grande desafio colocado aparece então como tentativa de
efetuar uma projeção mais global das relações de
simetria/dissimetria, evidenciadas a partir da resultante final
de um processo elaborado. Afastando-se progressivamente as
referências naturais das unidades próprias da linguagem
estudada, a codificação sucessiva dos jogos de equivalência e
de contraste se propõe como medida de compreensão do conjunto
interativo de todas as dimensões envolvidas no fenômeno musical
em seus diversos níveis de processamento.
A teoria geral do ritmo ou teoria do ritmo abstrato se define
assim como teoria da combinatória seqüencial hierarquizada de
eventos discretos considerados sob o aspecto exclusivo do mesmo
e do diferente, conforme Lusson.
Postula-seque embora existindo a possibilidade de correlacionar
discursos de naturezas distintas – e talvez quem sabe
reconhecendo em última instância estruturas comportamentais
insuspeitadamente mais amplas – tal se dá, não pela busca
obstinada de uma “Ur-estrutura”, mas pela pesquisa de um “modo
de organização específico, autônomo e historicamente
constituído dos textos cujos princípios nos esforçamos em
descortinar o mais claramente possível” (2) .
Para tanto, esse método requisita de forma obrigatória em sua
fase inicial uma pré-análise, levantando os elementos postos em
jogo e seu modo de articulação – como fazem aliás, embora de
forma específica, as abordagens tradicionais –, a fim de
destacar a maior parte, senão a totalidade, dos traços
considerados pertinentes ao texto musical.
Sua análise operativa porém pesquisa justamente os fatos em sua
natureza métrica, a interação resultante do comportamento das
diferentes linhas de pertinência analisadas que, com tratamento
segundo a ótica rítmica, fornecerá uma síntese, uma espécie de
“radiografia” por assim dizer, da peça em sua totalidade.
Visa-se dessa maneira evidenciar, entre outras coisas,
eventuais preponderâncias no complexo de comportamentos e
constatar qual ou quais entre eles exercem maior força de
determinação na estruturação da obra.
Os diversos padrões “rítmicos”(3), gerados ao longo
das fases de análise – dos níveis inferiores ao macro-nível –,
buscam conhecer a obra em variáveis “distâncias focais”. Afora
isso, permitem também comparações métrico-estruturais com
outras obras, do que não nos ocuparemos presentemente.
Importante frisar no entanto que a comunicação aqui apresentada
não tem a pretensão de um estudo definitivo. Isto só poderia
vir a ocorrer desde que um corpus suficientemente amplo de
obras fosse pesquisado.
Esse trabalho persegue delimitadamente dois objetivos. Por um
lado, a aplicação de uma teoria geral do ritmo num domínio
capaz de fazê-La progredir e, por outro, fornecer um espaço
conceitual e um método de análise colocando em evidência as
estruturas formais e combinatórias de uma peça em forma
variação.
Algumas das experiências desenvolvidas com base na tradução de
textos – análise comparativa entre particularidades “métricas”
de um original e sua ou suas traduções –chegaram a produzir
resultados de considerável interesse (4).
Foi justamente a concepção de “tema e variações” enquanto
“original e traduções” que impeliu e alimentou esse trabalho
experimental sobre as “diferencias de Conde Claros”, cujo
aparato conceitual, procedimentos técnicos e resultados serão
descritos.
Ele constitui-se de três partes. Na primeira são expostas
considerações gerais sobre a peça estudada (fonte original,
particularidades musicais, etc.). Na segunda figuram
informações sobre o método analítico adotado. Na parte final, a
mais longa, estão descritas e parcialmente ilustradas as
diversas etapas do processo de análise aplicado ao tema e suas
variações.
O “Livro de Cifra Nova”
As variações sobre “Conde Claros” estudadas aqui são na verdade
muito pouco conhecidas entre nós. Elas provêm do “Livro de
Cifra Nova”, editado por Luis Venegas de Henestrosa, em Alcalá
de Henares, 1557.
Possui originalmente o título:
LIBRO DE CIFRA NUEVA/PARA TECLA, HARPA, Y VIHUELA, EN
EL/qual se enseña brevemente cantar canto llano, y canto de
orga/no, y algunos avisos para contapunto.
O único exemplar conhecido encontra-se na Espanha (Biblioteca
Nacional de Madrid, Raros 594) e serviu portanto como fonte
exclusiva para a edição moderna realizada por Higino Anglés
(5) .
Esse “Libro” de Henestrosa é considerado a primeira publicação
de música espanhola para instrumentos de teclado do século XVI
que se tem notícia (6) , antecedendo em mais de
vinte anos as “Obras de Musica”, do famoso compositor e
organista espanhol Antonio de Cabezón.
Em sua introdução encontram-se informações referentes aos
signos de duração, fórmulas rítmicas, consonâncias e
dissonâncias no contraponto, regras de combinação entre sons,
normas de realização do “contraponto concertato” e tablatura
utilizada nas obras editadas.
É de se assinalar entretanto que a “cifra nova” proclamada por
Henestrosa no título de seu trabalho não é, como poderia dar a
entender, nenhuma criação sua, nem tampouco original. Juan
Bermudo, na Declaración de Instrumentos
Musicales, editada dois anos antes, já fornecia uma
descrição detalhada dessa tablatura, assim como de duas outras,
todas para instrumentos de teclado (7) .
Essa antologia de música instrumental espanhola e também
italiana, contém obras de Francisco Nunes Palero, Garcia
Baptista, Pedro Alberch Vila, Francisco de Soto, Julius da
Modena (que pode ser identificado a Giulio Segni) e Antonio
(muito provavelmente Antonio de Cabezón).
Embora H.Anglés tenha avançado a hipótese de que as
Differencias sobre Conde Claros apresentadas no
Livro sejam de autoria do próprio Henestrosa, nenhum elemento
efetivo permite até o momento sua confirmação. Nesse sentido,
nós a consideramos de autor anônimo.
As variações sobre “Conde Claros”
Alguns dos mais significativos compositores espanhóis do século
XVI escreveram variações sobre o tema de “Conde Claros”,
participando assim na consolidação da tradição desse famoso
romance. Suas origens remontam ao século XIV, quando o canto de
longos poemas, em estâncias de quatro versos, era acompanhado
por um ou – o que parece também provável – mais instrumentos de
cordas pinçadas.
Podemos encontrar variações – “diferencias”, como eram chamadas
na Espanha – nas edições de obras dos seguintes vihuelistas:
Luiz de Narváez,
Los
seys libros Del Delphin de musica (Valladolid,
1538), Alonso Mudarra,
Tres
libros de musica para vihuela (Sevilla, 1546),
Enriquez de Valderrábano,
Silva
de Sirenas (Valladolid, 1547) e Diego Pisador,
Libro
de musica de vihuela (Salamanca, 1552)
(8) .
A popularidade e o sucesso desse tema no entanto ultrapassaram
as fronteiras de origem e seu posterior florescimento pode
também ser constatado na Itália, França e Flandres, nas obras
de Antonio Valente, Guillaume Morlaye e Pierre Phalèse,
respectivamente.
Conde Claros apresenta uma particularidade
jamais observada em peças do gênero: único caso na história do
“romance” cuja melodia só foi empregada como elemento de base
na criação de variações.
A escolha para análise da peça publicada por Henestrosa foi
feita por serem suas variações pouco numerosas e pertencerem à
uma época na qual vemos progressivamente se fixar em
esteriótipos procedimentos primários da técnica de variação.
Esse tema tão simples e breve nos é oferecido, no “Livro de
Cifra Nova”, harmonizado a quatro voze de maneira
llana,
introduzindo um grupo de variações, como podemos notar no
exemplo abaixo.
Ex. I – “Conde Claros”, tema e glosas, recopilado do Livro de
Cifra Nova
Características musicais
Como veio a se tornar usual para as obras em forma variação, a
peça apresentada por Venegas de Henestrosa se inicia pela
exposição do material musical em sua versão mais simples,
seguido das variações(9).
Consideraremos esta exposição como tema, embora sua origem
popular de antiga tradição não permita a distinção segura entre
material original e variantes.
Afora a síncope ocasionada pela antecipação da função de
dominante, o tema é inteiramente métrico. Três elementos
fundamentais o caracterizam:
-
linha melódica da voz superior(“triple”)(10)
-
linha do baixo, de fatura ostinata, suporte das funções
harmônicas
-
estrutura harmônica simples e recorrente (I, IV e V)
Tais particularidades situam “Conde Claros” na categoria dos
ostinatos duplamente determinados – recorrência de padrão
melódico e harmônico –, como a “Folia”, por exemplo
(11) .
Diferentemente da maioria das obras do mesmo gênero, as
variações não são nomeadas “diferencias”, mas aparecem aqui
indicadas como “glosas”. Na música, esse procedimento de
caráter essencialmente improvisatório implica, de forma
corrente, no recurso de diminuição ou divisão.
A identidade entre o processo de variação empregado – uma vez
que esse termo, emprestado da literatura, corresponde a uma
forma expressiva significando genericamente a paráfrase – e a
nomeação indicada nas cinco seções, nos leva, por si só, a
considerar um relativo arcaísmo em sua composição.
De fato, mesmo variações publicadas anteriormente, como as de
Luiz de Narváez editadas em 1538, já demonstravam níveis de
rigor estético e complexidade de construção bastante superiores
a essas de autor anônimo.
A glosa é aplicada nas cinco seções encadeadas, conforme o
seguinte esquema:
|
Seções
|
Voz glosada
|
Valores
|
Compassos
|
|
I
|
T,B,S
|
colcheia
|
1-2;3-4;5-6
|
|
II
|
S
|
semicolcheia
|
1-6
|
|
III
|
S,T
|
semicolcheia
|
1,3,5,6; 2,4
|
|
IV
|
C,B,S
|
semicolcheia
|
1,4,6; 2; 3-5
|
|
V
|
S
|
semicolcheia
|
1-6
|
Uma intenção composicional pode ser observada quanto ao emprego
desse recurso nas diversas vozes. As variações I e IV refletem
seu tratamento em três vozes diferentes, a III em duas e as II
e V em apenas uma.
O teórico Thomas de Sancta Maria, em seu compêndio
Arte de tañer fantasio (12) , chamava
já a atenção para o fato de que as vozes recebessem, sempre que
possível, glosas em intensidades equivalentes, observando ainda
a importância de se buscar imitá-las entre as partes, ao longo
da peça.
Nesses dois sentidos podemos afirmar que as glosas das seções
III e IV são as que refletem maior equilíbrio.
Análise métrica, alguns elementos de informação
Da teoria geral do ritmo utilizada, mencionaremos aqui, de
forma sumária, apenas alguns elementos necessários à exposição
do método analítico e isto num contexto unicamente musical,
restrito ao caso da linha melódica métrica e “colorida”,
própria de uma peça tonal.
Tal linha melódica pode ser definida como uma seqüência de
eventos sonoros de durações desiguais, onde diversos parâmetros
interagem (altura, duração, intensidade, função harmônica,
timbre, etc.).
Associaremos a esta seqüência “concreta” uma outra abstrata,
seu “esqueleto rítmico”. A demarcação deste último – segundo
certos princípios gerais e a forma abstrata dos reagrupamentos
salientados dando lugar a uma combinatória – constituirá a
“análise rítmica” da seqüência original.
Vejamos a seguir algumas noções e definições prévias à
construção do “esqueleto rítmico”.
. Posições
No âmbito limitado da música mensurada no qual nos colocamos,
podemos esquematizar uma seqüência melódica pela sucessão
regular de seus “instantes”. Cada um deles é determinado pelo
lapso de tempo igual ao menor valor pertinente presenciável na
peça, correspondendo assim a uma posição dada.
Cada posição pode ou não ser ocupada por um evento sonoro. Caso
o seja, este pode tanto iniciar-se quanto estender-se numa
posição. Ao evento sonoro que tiver existência apenas numa
única posição chamaremos de elementar. Por comodidade, não
distinguiremos, na maioria dos casos aqui, posições e eventos
elementares.
. Marcações
Consideremos inicialmente os eventos sonoros elementares. Toda
maneira de repartição desses eventos em duas classes exclusivas
– e mais geralmente em
n classes – será chamada procedimento de marcação.
A escolha de cada uma das classes de marcação deve assim
obedecer pertinentemente aos critérios e finalidades propostos
pela análise de uma obra específica.
Uma vez definido um procedimento de marcação, atribuiremos peso
0 ou 1 a cada evento elementar, de onde deduziremos uma linha
de marcação da seqüência sonora.
Por exemplo, se tomarmos a seqüência de eventos elementares de
uma dada linha sonora e os repartirmos em sons pertencentes ao
acorde perfeito da tonalidade de Dó maior, deduziremos a
seguinte linha de marcação:
|
L.S.:
|
Dó
|
Sol
|
Mi
|
Dó
|
Si
|
Dó
|
Ré
|
Mi
|
|
L.M.:
|
1
|
1
|
1
|
1
|
0
|
1
|
0
|
1
|
Devemos observar que a atribuição do peso 1 é arbitrária.
Veremos entretanto, que quando consideramos várias marcações de
uma seqüência sonora, o arbitrário é seriamente limitado por
considerações metodológicas.
Imaginemos agora eventos sonoros ocupando várias posições.
Poderemos então marcar todas aquelas compreendidas pela
enunciação do evento sonoro ou unicamente a primeira (posição
de início).
No âmbito desse estudo, as duas opções forneceram resultados
equivalentes. Consideremos a seqüência sonora abaixo:
A posição sendo definida pela semicolcheia, teremos, em função
das opções de marcação,
seja: 1 1 1 0 1 1 0 0 0 0 1 1 1 1 1 1
seja: 1 0 1 0 1 0 0 0 0 0 1 0 1 0 0 0
Evidentemente, apenas uma linha de marcação não satisfaz às
necessidades de análise, codificando informações insuficientes.
Levando assim em conta um certo número de procedimentos de
marcação reconhecidos como pertinentes pela análise ordinária
de uma seqüência (análise harmônica, melódica, rítmica – no
sentido usual do termo–, etc.), o “esqueleto pré-rítmico” da
seqüência será então a matriz de 0 e 1, formada pelo conjunto
das linhas estabelecidas. As colunas dessa matriz serão
assimiladas às posições ou aos eventos elementares.
Seja por exemplo a seqüência:
Efetuemos as seguintes marcações:
M1 – primeira marcação temporal (1 correspondendo à presença e
0 à ausência de som)
M2 – segunda marcação temporal (1 correspondendo apenas à
iniciação de um som)
M3 – marcação “harmônica” (1 correspondendo às notas do acorde
de Dó maior)
M4 – marcação de “intensidade” (onde 1 corresponde à acentuação
do som).
Considerando ainda a semicolcheia como posição, o esqueleto
pré-rítmico “E” da seqüência será:
M1: 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 0 0 1 1 1 1 1 1 1 1 0 0 1 1
M2: 1 0 0 0 1 0 1 0 1 0 0 0 1 1 1 1 1 1 1 1 0 0 1 0
M3: 0 0 0 0 1 1 0 0 0 0 0 0 1 0 1 1 0 0 0 0 0 0 1 1
M4: 1 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0
Princípios básicos da análise rítmica
De forma bastante simplificada, podemos dizer que a análise
rítmica da seqüência descrita acima é então dada por uma
seqüência parentezada de 0 e 1, associada ao esqueleto
pré-rítmico e qualificada de esqueleto rítmico. Sua obtenção
obedece a vários critérios.
. Sucessão de pesos
Supondo uma escolha coerente de linhas de marcação –
reconhecidas como pertinentes pelas análises “clássicas” –, a
hipótese de que uma posição é tanto mais marcada quanto ela o
for por um maior número de linhas, conduz a atribuir para cada
evento elementar um peso igual à soma (mais geralmente uma
combinação linear) de pesos relativos à cada marcação
utilizada. Portanto, uma seqüência de pesos correspondendo ao
esqueleto pré-rítmico.
Assim obtemos, para o esqueleto anterior, a sucessão de pesos
abaixo:
P: 3 1 1 1 3 2 2 1 3 1 0 0 3 2 4 3 2 2 2 2 0 0 3 2
. Análise métrica
Com base na seqüência de pesos P, já estabelecida, podemos
deduzir uma sucessão de análises mais ou menos finas, segundo a
importância relativa designada aos elementos marcados.
Seja K um peso dado. Uma análise PK – de nível K associada à P
– se obtém dando a cada evento elementar de PK o peso 0,
conforme ele seja igual ou inferior à K ou peso 1, caso
contrário. Se nos limitamos a uma combinatória de agrupamentos
rítmicos referindo-se apenas à concatenação, o conjunto dos PK,
para K variante, é um dado equivalente ao de P. É suficiente de
se restringir a alguns níveis – PK permanecendo invariante
quando K varia num intervalo (hipótese de continuidade e de
coerência das marcações) –, “localizando” então a análise, como
veremos mais abaixo.
. Parentezagem
Uma das hipóteses fundamentais da teoria do ritmo é a de que os
agrupamentos se organizam a partir de eventos elementares de
peso maximal (global ou localizadamente). Quando, como o
faremos aqui, nos limitamos a uma análise métrica (concatenação
de agrupamentos, não ambigüidade de análises, hierarquia
métrica de níveis), os agrupamentos deduzidos de P se obtêm por
parentezagem.
Tal operação consiste no fechamento de um parênteses após todo
peso maximal, completando-se em seguida todos os parênteses
abertos. O mesmo princípio então é repetido no interior dos
agrupamentos já obtidos, sem no entanto efetuar o agrupamento
de um evento elementar e refinando até agrupamentos de extensão
2 e 3. Os casos banais de ambigüidade se resolvem em razão de
marcações suplementares.
Assim, para 0 1 0 1 0 1 0 1 procedemos:
01) 01) 01) 01)
(0 1) (0 1) (0 1) (0 1), etc..
. Localização
Dessa forma então se torna possível localizar uma análise.
Podemos ilustrar isto por meio de um exemplo
esquemático,tendo-se por base a seqüência de pesos:
P: 3 4 3 4 5 2 0 1 0 1 7 2 4 1 0,
resultando, para K=4 e K= 1, respectivamente:
P4: 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0
P1: 1 1 1 1 1 1 0 0 0 0 1 1 1 0 0
As análises deduzidas de P4 e P1 não são satisfatórias, pois a
primeira é muito grosseira e a segunda muito ambígua. Podemos
então solucionar tal inadequação, não passando de P4 a P1, mas,
uma vez parentezado graças a P4, escolhendo um limite diferente
no interior de cada agrupamento.
Se adotarmos K=3,5, K=0,5 e K=2,5 para cada uma, obtemos uma
análise localizada mais satisfatória, ilustrada pelo
“ritmograma” abaixo:
A situação das relações da configuração desses níveis nos
permite interpretá-los como re-arranjos,onde cada um deles é
uma elaboração do precedente.
Para o estudo aqui proposto, as considerações anteriores,
embora um tanto elípticas,nos serão suficientes.
As linhas de marcação utilizadas
Os elementos marcados correspondem à semicolcheia. As marcações
retidas fazem intervir apenas os parâmetros musicais essenciais
e explícitos no texto musical, isto é: determinação temporal,
afinidade e conjuntura melódica, ornamentação, equivalência
harmônica e de alturas.
1. Marcação temporal ou de durações
Distinguiremos aqui duas linhas. Uma corresponde à iniciação ou
não de um som, sendo notado 1 se tal som é atacado sobre o
evento elementar marcado. Outra, à presença ou ausência de som,
sendo indicado peso 1 a todo evento elementar provido de som.
Isoladamente ambas possibilidades podem ser pertinentes,
conforme seja a obra analisada e/ou a especificidade da própria
análise. No caso dessas variações, adotamos uma marcação
temporal global, gerada pela resultante das linhas acima.
Assim, a figura: colcheia, pausa de semicolcheia, semicolcheia,
semínima, será marcada como se segue.
|
Marcação de iniciação:
|
10011000
|
|
Marcação de presença:
|
11011111
|
|
Marcação temporal:
|
21022111
|
(resultante das marcações parciais acima)
2. Marcação de afinidade melódica
Às notas da melodia que mantém intervalos equivalentes à terça,
quinta e oitava em relação à nota fundamental do baixo será
atribuído peso 1.
3. Marcação de conjuntura melódica
Esta linha de marcação é uma versão sumária do tratamento
rítmico das escalas de altura.
Os eventos elementares situados a uma distância inferior ou
igual a um tom do evento elementar que o segue receberão peso
0, caso contrário peso 1.
4. Marcação de ornamentação
Levaremos em conta aqui apenas as figuras de caráter ornamental
“normalizadas” no século XVI e observáveis na peça, ou seja: o
“redoble” e os “quiebros” (reiterado e simples), tanto
ascendentes quanto descendentes.
|
Redoble:
|
|
|
Quiebro reiterado:
|
|
Quiebro simples:
|
Tendo em vista a localizaçã ousual dessas figuras no corpo
melódico, bem como as recomendações de diversos tratadistas da
época – Diego Ortiz em seu
Tratado de Glosas, por exemplo – adotaremos para o
redoble e o quiebro reiterado o peso 1, marcado no primeiro
evento elementar do grupo de notas correspondentes. Para o
quiebro simples, peso 1 no primeiro evento elementar da nota
principal sobre a qual se encerra o ornamento.
No caso de encadeamento de figuras ornamentais, serão feitas
marcações independentes. Quando, ao analisar um grupo complexo,
possamos hesitar entre quiebro ascendente ou descendente,
escolheremos o último pelo seu poder de polarização
superior(13).
Se esta e as demais marcações explicitadas até o momento podem
ser empregáveis na análise de qualquer obra de música tonal
mensurada, as que se seguem são específicas à peça analisada.
5. Marcação de equivalência de alturas
Adotaremos para esta linha de marcação um sistema graduado de
pesos, atribuindo valor 2 ao evento elementar correspondendo ao
uníssono em relação à matriz original. Por sua vez, um evento
elementar que pertença a uma nota do acorde de sua harmonia
será marcado com peso 1. E, finalmente, um evento elementar
pertencente a uma nota estranha ao momento harmônico implicado
terá peso 0.
Evidentemente, a referência melódica adotada aqui é aquela
correspondente à voz homóloga do tema.
6. Marcação de equivalência harmônica
De maneira análoga à anterior, atribuiremos peso 2 ao evento
elementar da variação situado na zona harmônica idêntica àquela
do tema. Caso a zona da variação seja próxima à do tema –
situando-se de maneira equivalente ou substitutiva, como as
funções relativas por exemplo –, receberá peso 1. Os eventos
elementares situados numa zona de função harmônica distante ou
diferente da original terão peso 0.
Importante observar que as mudanças de registro e as alterações
de direção das sucessões melódicas não foram consideradas. As
diferentes estratégias de análise efetuadas demonstraram
resultados diluídos e independentes das marcações precedentes,
o que põe em evidência sua não pertinência para o presente
estudo.
Dedução da seqüência de pesos
Diversas combinações lineares das marcações utilizadas foram
experimentadas. Todas elas dão resultados sensivelmente
equivalentes àquele que se obtém tomando por peso de cada
evento elementar a soma dos valores das seis marcações
empregadas.
Os resultados obtidos estão consignados nas tabelas que se
seguem, assim como nos “Ritmogramas” das glosas (com
contrafundo do tema) e da média “me”. Não apresentaremos aqui
os resultados das operações de parentezagem deduzidas de suas
linhas de peso (notadas: T, I, II, III, IV, V), pois eles nada
mais fazem do que confirmar a análise intuitiva.
O interesse real da linha de pesos para este estudo é colocar
em evidência uma combinatória de agrupamentos rítmicos
identificáveis, como veremos adiante.
Fornecemos nas duas tabelas que se seguem a linha de pesos da
voz do soprano solo e da glosa completa, conforme resultam da
interação das seis marcações utilizadas e acima descritas.
Tabela 1 – Linhas de peso para a voz de soprano solo na seção
temática e nas cinco variações
|
Marcações:/
|
Comp.1
|
Comp.2
|
Comp.3
|
Comp.4
|
Comp.5
|
Comp.6
|
|
Temporal
|
2111 1111
|
2111 1111
|
2111 1111
|
2111 1111
|
2111 2111
|
1111 2111
|
|
Conjuntura
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 1000
|
0000 0000
|
|
Afinidade
|
1111 1111
|
1111 1111
|
1111 1111
|
1111 1111
|
1111 1111
|
1111 1111
|
|
Ornamentação
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
|
Eq.melódica
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
|
Eq.harmônica
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
|
TEMA (Som.):
|
7666 6666
|
7666 6666
|
7666 6666
|
7666 6666
|
7666 8666
|
6666 7666
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Temporal
|
2111 1111
|
2111 1111
|
2111 111
|
2111 1111
|
2111 2121
|
2121 2121
|
|
Conjuntura
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 1000
|
|
Afinidade
|
1111 1111
|
1111 1111
|
1111 1111
|
1111 1111
|
1111 0011
|
1100 0011
|
|
Ornamentação
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
|
Eq.melódica
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
0000 2200
|
1100 0011
|
|
Eq.harmônica
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
0000 0000
|
2222 2222
|
|
VAR. I (Som.):
|
7666 6666
|
7666 6666
|
7666 6666
|
7666 6666
|
3222 4332
|
6543 5355
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Temporal
|
2122 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2122 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
|
Conjuntura
|
0010 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0001
|
|
Afinidade
|
1101 0010
|
1000 1010
|
1010 0100
|
1101 0010
|
1001 1010
|
1010 1011
|
|
Ornamentação
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1000 1000
|
1000 0000
|
1000 1000
|
0010 0000
|
|
Eq.melódica
|
1101 0010
|
1000 1020
|
2010 0100
|
1101 0020
|
2001 1010
|
2000 0002
|
|
Eq.harmônica
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
|
VAR.II (Som.):
|
7556 4464
|
7445 6474
|
8464 5644
|
7546 4474
|
8446 7464
|
7464 5458
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Temporal
|
2222 2222
|
2111 1111
|
2222 2222
|
2111 1111
|
2121 2121
|
2222 2222
|
|
Conjuntura
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
1000 0000
|
0000 0010
|
|
Afinidade
|
1010 1010
|
1111 1111
|
1010 0100
|
1111 1111
|
1100 0011
|
1010 1001
|
|
Ornamentação
|
0000 1000
|
1000 0000
|
0000 1000
|
1000 0000
|
0000 0000
|
1000 1000
|
|
Eq.melódica
|
2010 2020
|
2222 2222
|
2010 0100
|
1111 1111
|
2200 2200
|
1010 1001
|
|
Eq.harmônica
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 0000
|
2222 2222
|
|
VAR.II (Som.):
|
7464 8474
|
8666 6666
|
7464 5644
|
7555 5555
|
8643 4332
|
7464 7456
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Temporal
|
2111 1111
|
2111 1111
|
2222 2222
|
2111 2222
|
2222 2222
|
2111 1111
|
|
Conjuntura
|
0000 0000
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1000 1000
|
0000 0100
|
0000 0000
|
|
Afinidade
|
1111 1111
|
1111 1111
|
1010 0101
|
1111 1010
|
0101 1100
|
1111 1111
|
|
Ornamenação
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
|
Eq.melódica
|
1111 1111
|
2222 2222
|
1020 1001
|
2222 1020
|
0101 1100
|
2222 2222
|
|
Eq.harmônica
|
2222 2222
|
2222 2222
|
1111 1111
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
|
VAR.IV (Som.):
|
6555 5555
|
8666 6666
|
6363 4435
|
8666 7474
|
4646 6744
|
7666 6666
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Temporal
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2121 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
|
Conjuntura
|
1100 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
1000 0000
|
0000 0000
|
0000 0010
|
|
Afinidade
|
1101 0010
|
1010 1010
|
1010 1001
|
1100 1010
|
1010 1001
|
1010 1001
|
|
Ornamentação
|
0000 0000
|
0000 0000
|
1000 0000
|
0000 0000
|
1000 1000
|
1000 1000
|
|
Eq.melódica
|
2201 0010
|
2010 2010
|
1020 1001
|
1101 1010
|
1020 0020
|
1010 1001
|
|
Eq.harmônicao
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 0000
|
2222 2222
|
|
VAR. V (Som.):
|
8846 4464
|
7464 7464
|
7474 6446
|
7544 6464
|
7474 4243
|
7464 7456
|
Somatória geral
|
Comp.l=
|
42 34 32 33
|
33 29 36 29
|
|
Comp.2=
|
44 32 34 33
|
37 32 37 32
|
|
Comp.3=
|
42 27 37 27
|
32 32 27 31
|
|
Comp.4=
|
43 33 31 33
|
34 29 37 29
|
|
Comp.5=
|
37 28 27 27
|
33 25 26 27
|
|
Comp.6=
|
40 29 33 27
|
36 27 32 37
|
Tabela II – Linhas de peso para a glosa
|
Marcações/
|
Comp.1
|
Comp.2
|
Comp.3
|
Comp.4
|
Comp.5
|
Comp.6
|
|
Temporal
|
2121 2121
|
2121 2121
|
2121 2121
|
2121 2121
|
|
|
|
Conjuntura
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
|
|
|
Afinidade
|
1100 1100
|
1100 1100
|
1100 0011
|
1100 1100
|
|
|
|
Ornamentação
|
1000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
|
|
|
Eq.melódica
|
2200 2200
|
2200 1100
|
2200 0011
|
2200 1100
|
|
|
|
Eq.harmônica
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222 2222
|
|
|
|
VAR. I (Som.):
|
8643 7643
|
7643 6443
|
7643 4365
|
7643 6543
|
3222 4332
|
6543 5355
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Temporal
|
2222 2222
|
2222 2222
|
|
|
|
|
|
Conjuntura
|
0000 0000
|
0000 0000
|
|
|
|
|
|
Afinidade
|
1010 1010
|
1010 1010
|
|
|
|
|
|
Ornamentação
|
0000 1000
|
0000 1000
|
|
|
|
|
|
Eq.melódica
|
1020 1010
|
2010 2020
|
|
|
|
|
|
Eq.harmônica
|
2222 2222
|
2222 2222
|
|
|
|
|
|
VAR. I (Som.):
|
7464 8474
|
6474 7464
|
7464 5644
|
7464 8474
|
8643 4332
|
7464 7456
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Temporal
|
2122 2222
|
2122 2222
|
2222
|
2222 2222
|
|
|
|
Conjuntura
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000
|
0000 0000
|
|
|
|
Afinidade
|
1101 0010
|
1101 0010
|
1010
|
1010 1001
|
|
|
|
Ornamentação
|
0000 0000
|
0000 0000
|
1000
|
1000 0000
|
|
|
|
Eq.melódica
|
2202 0010
|
2202 0010
|
2020
|
2020 1001
|
|
|
|
Eq.harmônica
|
2222 2222
|
2222 2222
|
2222
|
2222 2222
|
|
|
|
VAR. I (Som.):
|
7647 4464
|
7647 4464
|
6363 4435
|
8474 7474
|
4646 6744
|
8474 6446
|
Tabela III – Blocos métricos da voz do soprano solo
|
Blocos
|
1 2
|
3 4
|
5 6
|
7 8
|
9 10
|
11 12
|
|
Tema
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1000 1000
|
0000 1000
|
|
Var.I
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1000 desc
|
desc 1011
|
|
Var.II
|
1001 0010
|
1001 1010
|
1010 0100
|
1001 0010
|
1001 1010
|
1010 0001
|
|
Var.III
|
1010 1010
|
1000 0000
|
1010 0100
|
1000 0000
|
desc desc
|
1010 1001
|
|
Var.IV
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1010 0001
|
1000 1010
|
0101 0100
|
1000 0000
|
|
Var. V
|
1101 0010
|
1010 1010
|
1010 1001
|
desc 1010
|
1010 1010
|
1010 1001
|
|
“me”
|
1000 1010
|
1000 1010
|
1010 1101
|
1000 1010
|
1000 1010
|
1010 1011
|
(“desc” equivale à seta descendente, simbolizando fórmulas
fortemente compatíveis com a “1000”.)
Tabela IV – Blocos métricos da glosa segundo as mudanças de
voz.
|
Blocos
|
1 2
|
3 4
|
5 6
|
7 8
|
9 10
|
11 12
|
|
Tema
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1000 1000
|
0000 1000
|
|
Var.I
|
desc desc
|
desc desc
|
desc 0010
|
desc desc
|
1000 desc
|
desc 1011
|
|
Var.II
|
1001 0010
|
1001 1010
|
1010 0100
|
1001 0010
|
1001 1010
|
1010 0001
|
|
Var.III
|
1010 1010
|
1010 1010
|
1010 0100
|
1010 1010
|
desc desc
|
1010 1001
|
|
Var.IV
|
1001 0010
|
1001 0010
|
1010 0001
|
1010 1010
|
0101 0100
|
1010 1001
|
|
Var.V
|
1101 0010
|
1010 1010
|
1010 1001
|
desc 1010
|
1010 1010
|
1010 1001
|
|
“me”
|
1101 1010
|
1000 1010
|
1010 1101
|
1000 1010
|
1000 1000
|
10101001
|
Tabela V – Blocos métricos irregulares evidenciando a síncope
abstrata
|
Blocos
|
1 2
|
3 4
|
5 6
|
7 8
|
9 10
|
11 12
|
Barra:
|
|
Tema
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 0000
|
0000 1000
|
0000 0000
|
2
|
|
Var.I
|
1100 1100
|
1100 1000
|
1100 0011
|
1100 1100
|
0000 0000
|
1100 1011
|
4,5
|
|
1110 1110
|
1110 1110
|
1110 1011
|
1110 1110
|
1000 1110
|
1111 1111
|
3,5
|
|
|
Var.II
|
1000 0000
|
1000 0000
|
1000 0010
|
1000 0000
|
1000 1000
|
1000 0001
|
6,5
|
|
Var.III
|
1010 1010
|
1010 1010
|
1010 1100
|
1010 1010
|
1100 0000
|
1010 1011
|
4,5
|
|
Var.IV
|
1101 0010
|
1101 0010
|
1010 0001
|
1010 1010
|
0101 1100
|
1010 1001
|
4,5
|
|
Var.V
|
1101 0010
|
1010 1010
|
1010 1001
|
1100 1010
|
1010 0000
|
1010 1011
|
4,5
|
“Ritmogramas” das cinco variações e da média resultante
Variação I e Tema (Pesos x Posições)
Variação II e Tema (Pesos x Posições)
“Ritmogramas” das cinco variações e da média resultante
Variação I e Tema (Pesos x Posições)
Variação II e Tema (Pesos x Posições)
Variação III e Tema (Pesos x Posições)
Variação IV e Tema (Pesos x Posições)
Variação V e Tema (Pesos x Posições)
“Me” – Média resultante das cinco variações (Pesos x Posições)
Análise métrica, blocos métricos, nível combinatório
Consideremos a seqüência de pesos “me” (média de pesos do tema
e de suas cinco variações). Segundo os princípios expostos
anteriormente, correspondem-lhe três análises significativas:
29<K<33,25<K<3 e a análise localizada.
Pode-se constatar uma nítida simetria destas em relação aos
eventos elementares 13, 25, 37, bem como em relação aos eventos
elementares 5, 21, etc., embora de maneira menos nítida para
estas últimas (14) .
Isto sugere a existência de uma demarcação formal em grupos de
quatro eventos elementares. Tais grupos, que nomearemos “blocos
métricos” (15) , definem um nível qualificado de
nível combinatório.
. Metricidade de blocos
A fim de estudar as “divisões” do tema, classificaremos os
blocos métricos em função da maior ou menor metricidade que
possuam no âmbito de sua análise abstrata(16):
blocos métricos ao nível combinatório (1000), blocos métricos
subdivididos (1010), blocos métricos complexos (sua linha de
pesos é nitidamente decrescente, simbolizáveis por “seta
descendente”) e blocos sincopados (possuidores de ao menos um
grupo 10 substituído por 01, como 0110).
Observemos que a evidenciação de um nível combinatório nos
permitiu atribuir uma individualidade aos blocos métricos, que
são, eles mesmos, mais ou menos métricos, sincopados ou
complexos ao nível do evento elementar de base.
Sem desenvolver aqui um estudo sistemático da metricidade,
classificaremos os blocos utilizando a análise global
localizada (barra flutuante).
Insistamos no fato de que a análise utilizada faz entrar em
linha de conta todas as marcações e não coincide forçosamente
com aquela que deduziríamos seja apenas da metricidade
“oficial”, seja exclusivamente da marcação temporal.
. Estrutura métrica global do “tema e variações”
Distinguiremos dois casos conforme seja a utilização da voz de
soprano solo ou da glosa no conjunto das vozes. Adaptaremos
evidentemente a classificação métrica dos blocos a cada um
desses dois casos.
A) Voz de soprano solo:
A “Tabela III” nos fornece as análises de blocos (análise
localizada). Tomaremos as três classes:
m = < 0 0 0 0, 1 0 0 0, desc. > (17)
(metricidade ao nível combinatório)
d = < 1 0 1 0, 1 0 0 1 >
(métricos ao nível precedente subdividido ao menos em posição
forte)
v = < todos os outros >
(variados, sincopados)
Deduzimos daí, a um nível médio, a seguinte estrutura:
|
T
|
mmm
|
mmm
|
mmm
|
mmm
|
|
I
|
mmm
|
mmm
|
mmm
|
vvv
|
|
II
|
dvd
|
ddv
|
dvd
|
ddv
|
|
III
|
ddm
|
mdv
|
mmv
|
vdd
|
|
IV
|
mmm
|
mdv
|
mdv
|
vmm
|
|
V
|
vvd
|
ddd
|
vdd
|
ddd
|
|
“me”
|
mdm
|
ddv
|
mdm
|
ddv
|
Tendo sido posta em evidência anteriormente a existência de uma
demarcação por grupos de três blocos métricos, codificaremos
cada um desses grupos de maneira a fazer aparecer o máximo de
regularidade para a macro-estrutura:
a = < mmh, vvv, ddd >
(reagrupamento de três elementos iguais)
b = < mmv, vvd, ... >
(reagrupamento contendo dois elementos semelhantes se
sucedendo)
c = < todos os outros >
Neste nível resulta a seguinte análise, cuja simetria é
evidente apenas para II e V:
|
T
|
a
|
a
|
a
|
a
|
|
I
|
a
|
a
|
a
|
a(18)
|
|
II
|
c
|
b
|
c
|
b
|
|
>III
|
b
|
c
|
b
|
b
|
|
IV
|
a
|
c
|
c
|
b
|
|
V
|
b
|
a
|
b
|
a
|
|
“me”
|
c
|
b
|
c
|
b
|
B) A glosa nas diferentes vozes
Desta vez, a análise de blocos métricos está resumida na
“Tabela IV”. Tomando as mesmas três classes utilizadas em A),
obtemos assim, respectivamente ao nível médio e à
macro-análise, as estruturas abaixo:
|
Nível médio
|
|
T
|
mmm
|
mmm
|
mmm
|
mmm
|
|
I
|
mmm
|
mmv
|
mmm
|
mmv
|
|
II
|
dvd
|
ddv
|
dvd
|
ddv
|
|
III
|
ddd
|
ddv
|
ddm
|
mdd
|
|
IV
|
dvd
|
vdv
|
ddv
|
vdd
|
|
V
|
vvd
|
ddd
|
mdd
|
ddd
|
|
“me”
|
vdm
|
ddv
|
mdm
|
mdd
|
|
Macro-análise
(cuja estrutura é extremamente simétrica)
|
|
T
|
a
|
a
|
a
|
a
|
|
I
|
a
|
b
|
a
|
b
|
|
II
|
c
|
b
|
c
|
b
|
|
III
|
a
|
b
|
b
|
b
|
|
IV
|
c
|
c
|
b
|
b
|
|
V
|
b
|
a
|
b
|
a
|
|
“me”
|
c
|
b
|
c
|
b
|
Se as considerações de simetria permitiram realizar uma
demarcação em grupos de três blocos, coexiste entretanto outra,
em grupos de dois blocos, correspondente à divisão por
compasso. Isto nos dá as seguintes estruturas, obtidas a partir
das análises de A) e B).
|
A) Estrutura hemiólica do soprano solo
|
|
T
|
mm
|
mm
|
mm
|
mm
|
mm
|
mm
|
|
I
|
mm
|
mm
|
mm
|
mm
|
mv
|
vv
|
|
II
|
dv
|
dd
|
dv
|
dv
|
dd
|
dv
|
|
III
|
dd
|
mm
|
dv
|
mm
|
vv
|
mm
|
|
IV
|
mm
|
mm
|
dv
|
md
|
vv
|
mm
|
|
V
|
vv
|
dd
|
dd
|
md
|
dd
|
dd
|
Codificando <mm, dd, vv> = 0 e <mv, dv, md> = 1,
obtemos a análise abaixo:
|
T
|
000
|
000
|
|
I
|
000
|
010
|
|
II
|
101
|
101
|
|
III
|
001
|
000
|
|
IV
|
001
|
100
|
|
V
|
000
|
100
|
que agora re-codificada <00, 11> = A, e <01, 10> =
B, nos dá ao nível superior:
T..............A.......A.......A
I...............A.......A.......B
II..............B.......A.......B
III.............A.......B.......A
IV.............A.......A.......A
V..............A.......B.......A
|
B) Estrutura hemiólica das glosas
|
|
T
|
mm
|
mm
|
mm
|
mm
|
mm
|
mm
|
|
I
|
mm
|
mm
|
mv
|
mm
|
mm
|
mv
|
|
II
|
dv
|
dd
|
dv
|
dv
|
dd
|
dv
|
|
III
|
dd
|
dd
|
dv
|
dd
|
mm
|
dd
|
|
IV
|
dv
|
dv
|
dv
|
dd
|
vv
|
dd
|
|
V
|
vv
|
dd
|
dd
|
md
|
dd
|
dd
|
|
“me”
|
vd
|
md
|
dv
|
md
|
mm
|
dd
|
A um nível superior, simbolizando: a = grupos de dois blocos
idênticos, b = grupos de dois blocos diferentes, obtemos a
análise abaixo, que apresenta tanta simetria quanto a de B).
|
T
|
a
|
a
|
a
|
a
|
a
|
a
|
|
I
|
a
|
a
|
b
|
a
|
a
|
b
|
|
II
|
b
|
a
|
b
|
b
|
a
|
b
|
|
III
|
a
|
a
|
b
|
a
|
a
|
a
|
|
IV
|
b
|
b
|
b
|
a
|
a
|
a
|
|
V
|
a
|
a
|
a
|
b
|
a
|
a
|
|
“me”
|
b
|
b
|
b
|
b
|
a
|
a
|
Vemos assim confirmada a estrutura hemiólica da peça inteira –
e também a todos os níveis –, sendo a continuidade rítmica
assegurada pela negação parcial e métrica da divisão binária
induzida pelo metro do compasso musical (19) .
Valendo-sedo mesmo código utilizado precedentemente, obtemos a
um nível superior:
T..............A.......A.......A
I...............A.......B.......B
II..............B.......A.......B
III.............A.......B.......A
IV.............A.......B.......A
V..............A.......B.......A
“me”........A.......A.......A
Considerações sobre a “'variação”
Tem-se aqui em vista estabelecer um critério permitindo definir
por um lado classes de quase-equivalência para as variações de
um “tema” e por outro, um índice de complexidade propiciando
hierarquizar as variações a partir de seu tema considerado como
de índice 0.
Tomaremos a palavra “variação” no sentido restrito que tem
ainda no século XVI, enquanto técnica, e que está intimamente
associado aos de “ornamento”, “embelecimento”, “diminuição” ou
“glosa”.
Restringindo-se a esse âmbito, colocamo-nos diante da hipótese
onde variar um tema é introduzir notas mais breves no interior
da duração de uma nota do tema, possuindo este a função de
metro para suas variações.
A partir disso tiramos as conseqüências seguintes:
a. As marcações das variações subordinam-se àquelas do tema.
Estas últimas devem então dar um peso (relativamente) constante
às notas “variadas”, correspondendo a uma notado tema.
b. As oscilações da “melodia de pesos” de uma
variação,resultante da subtração da linha de pesos temática,
devem estar associadas à sua própria complexidade.
Por outro lado, uma variação será tanto mais complexa quanto
mais diversificada for sua maneira de utilizar as marcações do
tema (ligadas a procedimentos tais como arpejamento e tantos
mais).
Uma boa análise de um tipo de variação dada deveria então se
verificar pelo fato de que as “melodias de pesos” das
diferentes variações classificar-se-iam em categorias
relativamente distintas.
. Índice de variação
Um índice medianamente satisfatório é fornecido pelo número de
mudanças de 0 a 1 na análise da “melodia de pesos” por uma
posição da barra. Depois, colocando-a em níveis superiores,
máximos, verificamos para suas posições o número de mudanças
ocorridas.
. Índice de complexidade métrica
Os diferentes tipos de “blocos métricos” são referenciados
relativamente à fórmula 1000, que corresponde ao patamar ou
achatamento métrico. Avaliemos portanto a complexidade métrica
de cada variação.
a. Cada bloco métrico terá um peso atribuído:
P (m) = 1, para os “patamares métricos”
P (d) = 2, para os “métricos divididos”
P (v) = 4, para os “variados” (sincopados e setas desc.)
b. Cada figura de três blocos terá como peso a soma dos pesos
de seus componentes, resultando para os grupos presentes:
P (mmm) = 03 P (mmd) = 04 P (ddv) = 08
P (ddd) = 06 P (mmv) = 06 P (vvm) = 09
P (vvv) = 12 P (ddm) = 05 P (vvd) = 10
Obtemos então as seqüências (S) de pesos de complexidade
métrica (p.c.m.), sendo a somatória “E” o peso total da
variação:
|
T
|
03
|
03
|
03
|
03
|
12
|
|
I
|
03
|
03
|
03
|
10
|
19
|
|
II
|
07
|
08
|
07
|
08
|
30
|
|
III
|
05
|
07
|
06
|
08
|
26
|
|
IV
|
03
|
05
|
05
|
06
|
18
|
|
V
|
10
|
06
|
08
|
06
|
30
|
|
“E me”
|
05
|
05
|
05
|
07
|
22
|
A soma total dos p.c.m. para cada variação nos servirá então de
índice de complexidade métrica (i.c.m.).
A partir das seqüências (S) e dos índices, podemos realizar
várias leituras:
a. “E me’ mostra que em média os três tipos de blocos – m, d, v
– são equilibrados (ao nível intermediário, nível combinatório
principal), com o último grupo, marcando, devido à sua maior
complexidade, o fim da variação (isto é estritamente realizado
apenas em I).
b. A identidade das divisões em grupos de 3x4 é representada
não somente pelas propriedades combinatórias observadas acima,
mas também pela complexidade dos agrupamentos. A iambicidade de
II e III se mostra bem marcada.
c. Tema posto à parte, a semelhança de I e IV por um lado, de
II e V por outro, reflete-se bastante nos respectivos i.c.m. A
singularidade de III, de índice intermediário entre aqueles de
I e IV e aqueles de II e V, mostra-se também conforme aos
resultados precedentes.
Vários outros “índices de variações” foram pesquisados. Todos
dão um resultado conforme ao i.c.m. referido. A simetria de
construção em torno da variação pivô III também se reflete lá.
Um estudo interessante consiste em considerar os blocos
métricos definidos por apenas uma marcação e seus i.c.m.
Coloca-se assim em evidência a importância e a função
respectivas de cada linha de marcação.
Resultado mais significativo: a marcação de equivalência
melódica é que melhor define a complexidade dos blocos
métricos. Pode-se considerar que isto se associa ao fato de que
as realizações musicais nestes últimos consistem em
esteriótipos, onde apenas o uso de combinações permite escapar
à pobreza do léxico.
O interesse de um i.c.m. é fraco para uma glosa de poucas
variações. No entanto, para o estudo estatístico de um corpus
importante e de temas comportando numerosas variações, isto
pode permitir conjecturas diacrônicas significativas
(20) .
A síncope musical do tema e suas manifestações
Apenas o tema manifesta uma síncope explícita entre os
compassos 5 e 6. Ela jamais aparece em variações na voz que
realiza a glosa.
Em algumas delas, esses compassos não chegam a apresentar
traços particulares (Vars. II e V), enquanto que em outras,
podemos perceber uma alteração do perfil da glosa na região da
síncope (Vars. I, III e IV).
Entretanto, suas seqüências de peso permitem revelar a
existência de blocos métricos irregulares, embora suas
realizações musicais não o sejam.
Para precisar isto fornecemos uma análise onde a “barra” é
tomada de forma a evidenciar a síncope em cada variação (sendo
que para a Var. I foi necessário utilizar dois valores). O
resultado está resumido na “Tabela dos blocos métricos
irregulares”.
Constatamos a presença de tais blocos métricos excepcionais nas
cinco análises (menos raramente em II que, como já vimos, é a
mais simétrica).
Insistamos no fato de que é através do conjunto de marcações,
do jogo combinado dos parâmetros musicais, que esta
irregularidade de estrutura é colocada em evidência. Assim como
o metro, o ritmo abstrato sobressai numa análise global.
Conclusões formais
Sendo o corpus aqui estudado bastante reduzido (21)
, devemos ser prudentes quanto às conclusões que se podem tirar
do exame das simetrias constatadas. Entretanto, estas últimas
manifestando-se de forma clara e obtidas por um procedimento
regular, deixam pouco espaço para livre interpretação. Com
isso, as estruturas evidenciadas têm pouca chance de serem
vistas como artifício.
Nós examinaremos a situação combinatória considerando como
evento elementar sucessivamente os “blocos métricos” e depois
seus diversos agrupamentos.
. Organização dos blocos métricos
Os blocos métricos foram classificados em:
“métricos”, “métricos subdivididos”, “complexos” e “sincopados”
(respectivamente de tipos: 1000, 1010, “seta desc.” e 0101). A
partir desta classificação obtemos as freqüências de fórmulas
abaixo:
a. Para a voz de soprano solo
|
|
métrica
|
subdiv.
|
complexa
|
sincopada
|
|
T
|
12
|
0
|
0
|
0
|
|
I
|
9
|
0
|
2
|
1
|
|
II
|
0
|
4
|
0
|
8
|
|
III
|
4
|
4
|
2
|
2
|
|
IV
|
7
|
2
|
0
|
3
|
|
V
|
0
|
7
|
1
|
4
|
|
“me”
|
4
|
6
|
0
|
2
|
|
Total
|
32
|
17
|
5
|
18
|
|
|
métrica
|
subdiv.
|
complexa
|
sincopada
|
|
T
|
12
|
0
|
0
|
0
|
|
I
|
1
|
0
|
9
|
2
|
|
II
|
0
|
4
|
0
|
8
|
|
III
|
0
|
8
|
2
|
2
|
|
IV
|
0
|
4
|
0
|
8
|
|
V
|
0
|
7
|
1
|
4
|
|
“me”
|
4
|
5
|
0
|
3
|
|
Total
|
13
|
23
|
12
|
24
|
Para o soprano solo, há equilíbrio entre as fórmulas
subdivididas e sincopadas. A utilização preferencial das
fórmulas métricas por esta voz – 32no total – é evidente.
Para a glosa no conjunto, o equilíbrio se faz entre as fórmulas
métricas e complexas e ainda entre as subdivididas e
sincopadas. Se fizermos abstração ao tema, o número de fórmulas
métricas diminui fortemente, modificando então a repartição
para 1, 23, 12, 24.
Relembremos igualmente que as realizações musicais destas
fórmulas são, em alguns casos, elas próprias esteriótipos
(fragmentos de escalas, ornamentos repertoriados, etc.).
Podemos também classificar as variações segundo o emprego dos
diversos agrupamentos métricos: II e IV utilizam um número
igual de fórmulas idênticas; III e V aparecem como
complementares do tema, na medida em que elas se valem de todas
as fórmulas que não são as métricas estritas.
. Nível intermediário à
macro-nível
O nível intermediário tem por evento elementar os grupos de
três blocos métricos. É essencialmente o nível combinatório.
Três tipos de grupos aí se articulam:
(x x x), reagrupamento de três blocos idênticos;
(x x y), repetição de um mesmo bloco, marcada com bloco
diferente;
(x y z) ou (x z y), três blocos sem repetição imediata. Uma
estrutura hemiólica se põe aí em evidência.
Como já pudemos observar anteriormente, esta estrutura
hemiólica (afora II e V) não é determinada pela voz de soprano
solo. Ela é, ao contrário, muito perceptível na estrutura da
glosa aplicada ao conjunto das vozes.
Por outro lado, as macro-estruturas de II e V são semelhantes à
da média “me”, independentemente da consideração de mudança de
voz da glosa (22) . Isto quer dizer que, o
equilíbrio métrico destas variações é determinado pelo conjunto
dos parâmetros musicais implicados, resultando neste nível uma
clara predominância da estrutura iâmbica.
Observemos que II é nitidamente mais próxima do “me” que V. Ao
contrário, sua estrutura combinatória é muito rica e ambígua. A
sucessão dos blocos métricos: dv dd dv
dv dd dv, admite os seguintes
reagrupamentos nos níveis superiores:
1. “alfa” “beta” “alfa” “beta”, iâmbica;
2. b a b b a b, muito ambígua ao nível superior. A leitura: B A
B’ - onde A = b b, B = b a, B’ = a b – é secundária apenas
graças à presença da grande divisão em duas vezes três
compassos (23) .
. Macro-nível à obra
Para a estrutura glosada, a sucessão (a a a a)(a b a b) (c b c
b) (a b b b) (c c b b) (b a b a) apresenta certas simetrias.
Retenhamos, ao nível da sucessão do tema e de suas variações, a
iambicidade de I, II, IV e V em oposição a III, que desempenha
assim um papel de pivô. A IV, que é iâmbica a um nível
intermediário, é uma transição entre III e V.
A estrutura do soprano solo (a a a a) (a a a b) (c b c b) (b c
a b) (a c c b) (b a b a) apresenta simetrias muito menos
notáveis, confirmando assim o papel rítmico – em oposição ao
métrico – desempenhado pela voz de soprano.
Contrariamente à maior parte dos autores do século XVI, que
glosam utilizando exclusivamente diminuições na voz de soprano,
o anônimo publicado por Henestrosa emprega esse recurso em
todas as vozes, embora privilegiando a de soprano.
Notaremos que a complexidade métrica decorre principalmente a
partir da marcação de equivalência melódica. Assim, o
procedimento de variação utilizado emprega o sistema de alturas
– cujo tema é a referência –, obtendo-se como resultado o jogo
combinatório dos blocos métricos.
Enfim, mesmo se a estrutura hemiólica está presente em quase
todos os níveis, é apenas no nível superior que predomina a
divisão implícita em duas partes iguais, o que põe em evidência
a macro-análise seguinte:
T..............(0 0).......(0 0)
I...............(0 0).......(0 1)
II..............(2 1).......(2 1)
III.............(1 2).......(1 2)
IV.............(0 1).......(1 1)
V..............(1 0).......(1 0)
Conclusão geral
Este estudo, considerado isoladamente na sua aplicação a apenas
uma peça, propõe-se como maquete, servindo a estabelecer um
procedimento de análise para uso sistemático posterior.
Embora esquemático ainda, ele permite evidenciar os tipos de
regularidades globais e hierarquizadas por níveis (não
excluindo em absoluto sua “mistura”, o que sempre dificultou, e
em muito, todos os processos tradicionais de análise musical).
Insistamos entretanto no fato de que essas regularidades – de
caráter abstrato (elas estruturam a obra, mas não são
forçosamente “perceptíveis”) –, fazem intervir o conjunto das
marcações. Nesse jogo de coincidências ou não-coincidências de
todos os parâmetros pertinentes, captamos a coerência formal da
obra.
A síncope do tema, mesmo que completamente difusa, senão
totalmente apagada em certas variações, permanece sempre
presente no plano abstrato: é precisamente na zona que lhe
corresponde que se produzem, nas variações, as variantes dos
blocos métricos complexos ou irregulares (o que é muito bem
posto em evidência nos “Ritmogramas”).
Assim, as variações estudadas são caracterizadas pelo emprego
de fórmulas simples(24), ligadas por um jogo
combinatório de grande riqueza e complexidade, sobre um fundo
de metricidade, no sentido amplo que nós demos a este termo.
Seria interessante estudar, oportunamente, a possível
existência de uma correlação entre esta estrutura e as
exigências da prática instrumental. Isto, em razão do caráter
improvisatório, sem dúvida, ainda tão vivamente conservado
nessa música, que estabelece a transição entre dois domínios
fundamentais da conquista humana na busca constante de sua
expressão.
NOTAS
(1) Ele figura, com versões ligeiramente particulares, em:
KATER, Carlos. “La Forme Variation...”. Paris: 1980, vol. III,
pp. 626-644; e LUSSON, Pierre e KATER, C. “Rythme ET
variations. Analyse métrique du ‘Conde Claros’ de Luis V. de
Henestrosa”, in: Mezura, no. 11, Paris, 1980.
(2) Tradução livre de uma frase de J. Roubaud, in: “La
vieillesse d’Alexandre. Essai sur quelques états récents du
vers français”. Paris: F. Maspero, 1978, p.12.
(3) Ao longo de todo o estudo, o termo “rítmico” se refere
exclusivamente ao sentido adotado pela teoria geral, isto é, em
oposição a “metro”.
(4) Ver entre publicações anteriores do Centro de Poética
Comparada, como “Esquisse d’une théorie de la traduction
poétique” (Mezura no. 4–5), Colloque de Cerisy. Change deforme.
Tomo I, Coleção 10/18, Paris: 1975 e ROUBAUD, J., op.cit..
(5) In: Monumentos de la Musica Española, Barcelona, Instituto
Español de Musicologia, Consejo Superior de Investigaciones
Científicas, 1944, vol. Il – “La musica en la Corte de Carlos
V”, pp. 149–205 (texto). Para comentário e discussão do
trabalho de Henestrosa e publicações do gênero desta época,
ver: KATER, C.. Op.cit., vol.I.
(6) ANGLÉS, H. :La musica en España”, in: História de la Musica
(ed. por J. Wolf). Barcelona: Ed.L abor, 1944, p. 394, nos diz
que o “Libro de cifra nueva” já tinha sido terminado em 1540 e
foi portanto composto antes das primeiras coleções das escolas
neerlandesa e ítalo-neerlandesa, como a edição de Cavazzoni
(1542), de J. Buus (1547) e de Willaert (1549).
(7) BERMUDO, Juan. “Libro llamado Declaración de instrumentos
musicales” (Ossuna, 1555), ed. em fac-símile por S. Kastner,
Kassel, Barenreiter-Verlag, 1957, in: Documenta Musicologica,
I. Reihe, Druckschriften-Faksimiles, XI.
(8) As variações de D. Pisador sobre o romance “Conde Claros” e
o villancico “Guárdame las vacas” estão transcritas em notação
moderna diretamente da tablatura original em: KATER, C.
Op.cit., vol. III, pp. 707-716.
(9) Raríssimos exemplos da literatura musical contrariam esta
regra. Ver, por exemplo: “Instar”, para orquestra, de Vincent
d’Indy, onde a progressão de complexidade aparece tipicamente
subvertida.
(10) O teórico F. Salinas já havia descrito essa melodia, no
seu “De musica libri septem” (ed. emfac-símile por S. Kaster),
in: Documenta Musicologica. Kassel: Barenreiter-Verlag, 1958,
XIII.
(11) Para uma tipologia dos diversos ostinatos e formas
implicando a variação, ver: KATER, C. Op.cit., vol.I, pp.
205-236.
(12) SANCTA MARIA, Tomas de. “Libro llamado Arte de tañer
Fantasia assi para Tecla como para Vihuela, y todo
instrumento...” (Valladolid, 1565). Genève: Minkoff Reprint,
1973.
(13) Para as razões dessa escolha, ver: COSTÈRE, Edmond. “Mort
ou Transfigurations deI’Harmonie”. Paris: PUF, 1962.
(14) Esta simetria está claramente evidente do “Ritmograma” da
média “me”.
(15) Eles são estreitamente ligados à metricidade do tema para
o conjunto das marcações.
(16) Tal classificação é realizada aqui de maneira intuitiva.
Necessita-se ainda realizar um estudo formal e sistemático da
noção de metricidade.
(17) Pode ser igualmente possível de classificar a “seta desc.”
em v.
(18) Ou a’, se precisarmos sua análise.
(19) Não confundir com a fórmula “rítmica” da partitura.
(20) Estudos utilizando um programa redigido em APL foram
feitos por P. Braffort.
(21) Existe um projeto de análise das variações sobre o “Conde
Claros” escritas peIos demais compositores via computador.
(22) Conferir as estruturas das macro-análises já apresentadas.
(23) Senão ela poderá ser lida como bb inserido dentro
de aa inserido dentro de bb.
(24) Entre as fórmulas simples verificamos muitos
“esteriótipos” – fragmentos de escalas, bordaduras, etc. – tais
como figuram nos tratados de Sancta Maria (fol. 59v, em
especial) e de D. Ortiz (pp. 21-23v, em particular). Outras,
por sua vez, aparentam originalidade, como:
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ou
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANGLÉS, Higinio (ed.). “La musica en la Corte de Carlos V”, in:
Monumentos de la Musica Española, vol. Il. Barcelona: Consejo
Superior de Investigaciones Cientificas /Instituto Español de
Musicología, 1944.
ANGLÉS, H. “La musica en España”, in: Historia de la Musica (de
J. Wolf). Barcelona: Ed. Labor, 1944.
BERMUDO, Juan. “Declaración de Instrumentos Musicales”. Ossuna,
1555.
“Colloque de Cerisy. Change de forme”, Tomo I, (Collection
10/18). Paris, 1975.
HENESTROSA, L. Venegas de. “Libro de Cifra Nueva”. Alcalá de
Henares, 1557.
KATER, Carlos. “La Forme Variation dans la musique Espagnole au
XVIème siècle” (tese de doutorado). Paris, 1980, 3
vols.
LUSSON, P. e KATER, C. “Rythme et variations. Analyse métrique
du ‘Conde Claros’ de Luis V. de Henestrosa”, in: Mezura no. 11
(Cahiers de Poétique Comparée, deuxième série), Paris, 1980.
LUSSON, P. e ROUBAUD, J. “Mètre et rythme de I’alexandrin
ordinaire”, in: Langue Française, no. 23, setembro/1974.
“Mezura”, nos. 2, 3, 4–5, 6, 8 e 10 em particular, contendo
estudos de diversos autores. ROUBAUD, J. “La veillesse
d’Alexandre”. Paris: Maspero (Collection Action Poetique),
1978.
SANCTA MARIA, Thomas de. “Libro llamado Arte de tañer
fantasia”. Valladolid, 1565.
Carlos Kater é compositor e musicólogo, com doutorado
pela Universidade de Paris IV –Sorbonne. Desenvolve trabalhos
de pesquisa no CePPeM (Centro Paulistade Pesquisas
Musicais)/“Atravez” e no NAPq (Núcleo de Apoio à Pesquisa) da
Escola de Música da Universidade Federalde Minas Gerais, onde também é professor de Análise Musical e
Metodologia da Música nos cursos de pós-Graduação.
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