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ELEMENTOS PARA A ANÁLISE DA CANÇÃO
POPULAR
Luiz Augusto Tatit
1. A apreensão empírica do ouvinte
Comum alguém dizer que ouviu um samba do Tom Jobim,
um rock dos Titãs ou mais uma canção romântica do Roberto
Carlos. Todas essas designações de gênero denotam a
compreensão global de uma gramática. Significa que o
ouvinte conseguiu integrar inúmeras unidades sonoras
numa seqüência coerente e que identificou a similaridade
de tal seqüência com outras do mesmo paradigma. Sambas,
boleros, rocks, marchas... são ordenações rítmicas gerais
que servem de ponto de partida para uma investigação
mais detalhada da composição popular.
Uma outra forma de apreciação empírica da canção
é a identificação dos estribilhos e dos mecanismos de
reiteração. Este também é um dispositivo de gramática
melódica fundamental para a retenção da memória e para
as faculdades de previsão que esse tipo de linguagem
temporal exige. A reiteração torna significativo o fluxo
inexorável do tempo. Basta um ligeiro apuro musical
do ouvido para se depreender reiterações.
Pouco mais sofisticada é, a captação da tonalidade
musical. No entanto, a sensação de que a melodia está
mais tensa ou menos tensa é um efeito físico que o ouvinte,
antes de compreender, já sente. Não é difícil demonstrar
que as tensões harmônicas obedecem a uma hierarquia
de graus que regulamentam a trajetória da melodia e
que toda vez que a tensão regride, o movimento corresponde
à finalização.
E não é só a tonalidade que assegura a tensão. Toda
inflexão da voz para a região aguda, acrescida de um
prolongamento das durações, desperta tensão pelo próprio
esforço fisiológico da emissão. Constantemente, esta
tensão física corresponde a uma tensão emotiva e o ouvinte
já está habituado a ouvir a voz do cantor em alta freqüência
relatando casos amorosos, onde há alguma perda ou separação
que gera um grau de tensão compatível.
2. A atuação da fala na canção
A partir dessas percepções naturais da gramática
rítmico-melódica, podemos constatar também a presença
menos explícita, mas não menos importante, da linguagem
oral em toda canção popular.
As mesmas consoantes que se transformam em ataques
rítmicos e que, juntamente com os acentos vocálicos,
engendram o gênero musical da canção, essas mesmas consoantes
recortam a realidade tornando-a inteligível e traduzindo-a
em oposições fonológicas, morfológicas e, por fim, sintáxicas
ou narrativas (sujeito/objeto, destinador/destinatário,
persuasão/interpretação, etc.). Daqui surge o conteúdo
lingüístico conhecido como o tema da canção.
As mesmas vogais que estabilizam a curva melódica
numa sonoridade contínua, representando fisicamente
as tensões emotivas, são a base para as inflexões entoativas
da fala. O mesmo percurso melódico que registra a tensão
passional acusa, simultaneamente, uma tensão própria
do discurso oral: ascendência, suspensão e descendência
(distensão) dos tonemas (finalização das frases melódicas
onde se concentra o sentido entoativo).
A fala está presente, portanto, no mesmo campo sonoro
em que atuam a gramática do ritmo fundando os gêneros
e a gramática da freqüência fundando a tonalidade. A
presença da fala é a introdução do timbre vocal como
revelador de um estilo ou de um gesto personalista no
interior da canção. Se o ouvinte chegar a depreender
o gesto entoativo da fala no “fundo” da melodia produzida
pela voz, terá uma compreensão muito maior daquilo que
sente quando ouve uma canção.
3. Melodia e texto
Tudo fica mais claro e mais completo ao se verificar
a interdependência entre a melodia e o texto da canção.
Se a reiteração e as tensões de altura (freqüência)
servem para estruturar a progressão melódica, esses
mesmos recursos podem ser transferidos ao conteúdo,
de modo a construir uma significação compatível. A qualificação
de um personagem (a baiana, a mu-lata, o folião, o jovem
ou o próprio narrador EU) ou de um objeto (o samba,
a dança,o país...) é uma das principais formas de manifestação
da reiteração no texto. A exaltação, a enumeração das
ações de alguém (“O escurinho” ou “Pedro Pedreiro”,
por exemplo) ou a própria construção de um tema homogêneo
(a rotina em “Cotidiano” ou “Você não entende nada”
ou ainda a natureza em “Águas de Março” ou “Refazenda”,
por ex.), funcionam muito bem como espelhamento das
reincidências melódicas. Este tipo de compatibilidade
simples já permite a identificação de inúmeras canções
quase didaticamente construídas: “Falsa Baiana”, “O
que é que a baiana tem”, “Palco”, “Garota de lpanema”,
“Beleza pura”, etc.. Reiteração da melodia e reiteração
do texto correspondem à tematização da canção popular.
A configuração de um estado passional de solidão,
esperança, frustração, ciúme, decepção, indiferença,
etc., ou seja, de um estado interior, psíquico e afetivo,
compatibiliza-se com as tensões decorrentes da ampliação
de freqüência e duração. Como se à tensão psíquica correspondesse
uma tensão acústica e fisiológica de sustentação de
uma vogal pelo intérprete. O prolongamento das durações
torna a canção necessariamente mais lenta e adequada
à introspecção. Afinal, a valorização das vogais neutraliza
parcialmente os estímulos somáticos produzidos pelos
ataques das consoantes. O corpo pode permanecer em repouso,
apenas com um leve compasso garantindo a continuidade
musical. Todas as canções românticas possuem essas características
próprias do processo de passionalização.
E, por fim, a presença da fala também repercute no
texto da canção. Todos os recursos utilizados para presentificar
a relação EU/TU (enunciador/enunciatário) num AQUI/AGORA
contribuem para a construção do gesto oral do cancionista.
Ao ouvirmos “vocativos”, “imperativos”, “demonstrativos”...
temos a impressão mais acentuada de que a melodia é
também uma entoação lingüística e que a canção relata
algo cujas circunstâncias são revividas a cada execução.
O cancioneiro popular traz diversos exemplos como: “Conversa
de Botequim”, “Acorda amor”, “Da maior importância”,
“Você não soube me amar”, “Sinal fechado”... todos inscritos
no processo de figurativização enunciativa. A presença
simultânea da tematização, da passionalização e da figurativização
no mesmo campo sonoro e o revezamento das dominâncias
de um processo sobre outro constituem o projeto geral
de dicção do cancionista. A composição, em si, já propõe
uma dicção que pode ser transformada ou aprimorada pela
interpretação do cantor, pelo arranjo e pela gravação.
Para captarmos as dominâncias, precisamos estar bem
familiarizados com as características específïcas de
cada um dos processos.
Ex. I – Mapeamento de contornos melódicos (“Amarra
o teu arado a uma estrela”, Gilberto Gil)



4. Amostra de análise
A análise de uma breve canção de Gilberto Gil, utilizada
como abertura na novela “O Salvador da Pátria”, talvez
possa dar um exemplo de conduta descritiva visando especialmente
à relação do texto com a melodia [Ex. I](1).
Concebida por compositor de larga experiência no
mercado fonográfico, “Amarra teu arado a uma estrela”(2)
apresenta um perfil melódico extremamente econômico,
na medida justa para a retenção da memória, contendo
apenas os elementos essenciais que caracterizam, com
inteireza, um sentido melódico. Grosso modo, somente
dois desenhos entoativos compõem a seqüência completa
desta canção, separando os três primeiros segmentos
(primeira parte) dos dois últimos (segunda parte).
Primeira Parte:
Apesar de os três segmentos iniciais manterem o mesmo
perfil, somente os dois primeiros são idênticos. O terceiro
já acusa uma transformação no campo de tessitura e no
tratamento instrumental de fundo.
A identidade de perfil pode ter um valor temático
quando essa reiteração melódica ecoa a recorrência de
gestos somáticos ou de elementos sensitivos relatados
no texto ou, ainda, quando a regularidade firmada em
suas acentuações entra em sintonia fisiológica com o
ouvinte. Mas pode também ter um valor figurativo quando
a reincidência dos motivos serve para forjar uma enumeração
entoativa à maneira da linguagem coloquial. Uma apreciação
preliminar da melodia já revela tendências virtuais
da curva antes mesmo da influência decisiva do texto.
a. A desigualdade dos fragmentos que integram cada
segmento melódico tolhe a fluência rítmica da seqüência,
diminuindo a importância de uma eventual adesão corporal
do ouvinte nesta fase [Ex. II].
b. Embora os acentos obedeçam à marcação periódica,
não há ainda aceleração suficiente para que os ataques
consonantais se sobreponham às durações vocálicas.
Ex. II

Ao contrário, são essas que, nos tempos fortes, vão
sendo captadas auditivamente como pontos de referência
para a posterior elevação da freqüência, durante o terceiro
segmento [Ex. III].

c. O realce das vogais, mesmo fora de um prolongamento
expressivo de sua duração, atenua a função dos ataques
(dos recortes) das consoantes, evitando uma excessiva
dinamização do continuum temporal. Emprestando, aqui,
uma noção de Eero Tarasti(3), podomos dizer que a desativação
do tempo musical – basicamente, pela moderação dos recortes
e pela desaceleração do andamento – reflete a atuação
da modalidade do /ser/ sobre o devir melódico, enquanto
o processo inverso de ativação do tempo musical – dentro
de uma tematização stricto sensu – reflete a atuação
da modalidade do /fazer/(4). A modalização do /ser/,
que subjaz à melodia e ao texto ao mesmo tempo, camufla
os estímulos corporais próprios da ação, em proveito
de um estado psíquico propenso à paixão.
Ao longo desses três segmentos iniciais, se observássemos
exclusivamente o perfil melódico, verificaríamos a influência
das duas modalidades mas com progressiva dominância
do /ser/ sobre o /fazer/. De fato, o andamento pausado
da melodia, valorizando as durações e os acentos das
freqüências mais elevadas, sintomatiza a modalização
do /ser/ e cria uma atmosfera propícia à passionalização.
Quando, neste contexto, o perfil do terceiro segmento
desloca-se para o agudo, o quadro passional parece ainda
mais definido no plano emotivo, pois cria-se um foco
de tensão (alta freqüência) fartamente sugestivo para
uma elaboração do texto na mesma orientação. O pico
do primeiro fragmento eleva-se três semitons, enquanto
o do segundo eleva-se cinco, demarcando a fronteira
superior do campo de tessitura [Ex. IV].
Entretanto, a base instrumental, que acompanha a
seqüência desde o início, desfaz essa tendência ao atingir
o limiar do terceiro segmento. A dinâmica incorporada
a partir deste momento imprime na linha melódica uma
nova fisionomia musical. Os acentos, a pulsação e a
periodicidade passam para o primeiro plano evidenciando
um /fazer/ relativamente ofuscado nos segmentos anteriores.
Ao invés de referendar o projeto de passionalização
inscrito na elevação melódica, esse novo tratamento
se impõe como prenúncio de uma tematização ainda mal
configurada. Esta condição, aliás, é própria da continuidade
melódica cujos fragmentos estão sempre duplamente comprometidos,
com o que passou e com o que está por vir. Só o recorte
do texto, como veremos à frente, pode definir de vez
ação do devir melódico.
Ex. IV – Perfil melódico do terceiro segmento

O discreto compromisso com a tematização nos dois
primeiros segmentos e o estreita mento deste laço a
partir do terceiro permitem extrair duas conclusões
a respeito da melodia:
a. A identidade de perfil, nos dois segmentos iniciais,
evidencia um valor figurativo (em nossa fala cotidiana,
repetimos o motivo entoativo ao enumerarmos fatos da
mesma natureza). Nessa perspectiva, cabe observar ainda
o caráter descendente dos tonemas de todos os fragmentos
incluindo os do terceiro segmento, instaurando um contexto
geral de asseveração que vai influir diretamente na
formação da mensagem do texto [Ex. V].
Tal asseveração é ainda reforçada pela aceleração
terminativa dos fragmentos menores, localizados à direita
do diagrama, que funcionam como arremates enunciativos
das respectivas frases anteriores.
b. O terceiro segmento desempenha uma função transformadora
dentro do contexto melódico global da canção. De um
lado o acréscimo de tensão no nível da freqüência sugere
um processo de passionalização. De outro, a dinamização
do acompanhamento de base, na abertura deste segmento,
revitaliza o valor temático que permanecera diluído
nas seqüências anteriores. Afinal, a reiteração do perfil
e a regularidade rítmica já vêm se conformando desde
o início, faltando apenas serem devidamente sublinhadas.
Ex. V Caráter descendente dos tonemas nos dois fragmentos
dos três primeiros segmentos.



A compatibilização da melodia com o texto é notória:
“Se os campos cultivados dest emundo São
duros demais E os solos assolados pela guerra Não
produzem a paz Amarra o teu arado a uma estrela E
aí tu serás O lavrador louco dos astros O camponês
solto nos céus E quanto mais longe da terra Tanto
mais longe de Deus”
Do ponto de vista figurativo, a reiteração da curva
incide sobre a enumeração de elementos de mesma natureza,
os “campos” e os “solos”, enquanto os tonemas descendentes
constatam as condições insatisfatórias em que eles se
encontram: “são duros demais” e “não produzem a paz”.
Tais valores figurativos, entretanto, só serão devidamente
dimensionados na abertura do terceiro segmento, com
a inclusão do imperativo: “amarra”. Este modo verbal
realiza, com plenitude, a vocação entoativa da melodia
de canção, pois que sua aplicação instaura, simultaneamente,
uma relação de comunicação direta (EU/TU) fundada num
AQUI/AGORA incontestável. O imperativo presentifica
o tempo e o espaço enunciativo, exacerbando os efeitos
entoativos (no sentido de que o cantor fala ao mesmo
tempo em que canta) inerentes à melodia vocal. Desempenha,
quase sempre, a função de núcleo da figurativização.
Nessa concepção, o verso “amarra o teu arado a uma
estrela” ocupa o centro nevrálgico da mensagem figurativa,
onde o enunciador emite sua sugestão metafórica como
alternativa para se escapar às coerções deste mundo.
Do ponto de vista passional, a condição deflagradora
é o sentimento de falta determinado pelos traços de
esterilidade (improdutividade) que virtualizam uma possível
busca de fecundidade. A disjunção com os valores positivos,
aqueles que ainda não germinaram em nosso planeta, é
um dos efeitos da modalização do /ser/ sobre o texto.
Assim como a melodia progride de maneira pausada, o
texto vai revelando as carências que estão na base da
expectativa subjetiva. Tudo conflui para a paixão que
deveria se consolidar na elevação de freqüência (tensão
passional) do terceiro segmento. Entretanto, como já
observamos, neste momento surge a intervenção determinante
da base instrumental que se alia diretamente à frase
do texto, extraindo da melodia, não o sentido passional
prefigurado, mas os valores da tematização discretamente
ensaiados nos segmentos iniciais.
Do ponto de vista temático, portanto, a leitura deste
terceiro segmento complementa e expande o viés figurativo,
deixando a passionalização em segundo plano.
“Amarra o teu arado a uma estrela” é uma proposta
de ação ainda que “arado” só se relacione com “estrela”
num plano metafórico. Trata-se de uma solução que interrompe
o quadro passional que vinha se desenhando. Ao invés
de ampliar a tensão psíquica, na mesma proporção do
aumento de freqüência, o enunciador reverte a tendência
propondo uma transformação típica do /fazer/. Com a
ação, cessa a hegemonia da paixão: o sentimento de falta
se converte em projeto de busca (ou, ainda, liqüidação
da falta). Daí então a compatibilidade, aliás muito
freqüente, do texto com o arranjo instrumental. A ação
descritiva no primeiro é solidariamente incentivada
no segundo.
Disso decorre um grande fator de unidade desta canção.
Este terceiro segmento está vinculado à primeira parte
(ou, mais precisamente, aos dois primeiros segmentos)
pela continuidade do perfil melódico, mas já antevê
as diretrizes da segunda parte pelo texto e pelo arranjo
instrumental. Tal intersecção contribui para uma passagem
gradual sem rupturas.
Segunda Parte
A alteração do perfil melódico, a partir do quarto
segmento, faz uma nova concepção seqüencial em relação
às unidades da primeira parte:
a. Os fragmentos são dinamizados com um recorte mais
minucioso do tempo rítmico de cada compasso, acelerando
o andamento.
b. As quatro sub-seqüências (ou fragmentos) dos segmentos
4 e 5 recebem um tratamento bem mais homogêneo que o
da primeira parte. Equivalentes do ponto de vista rítmico
(exceto na região dos tonemas), o sentido reiterativo
da melodia torna-se mais claro e determinante da audição
[Ex. VI].
c. Esses traços suprimem o ritmo pausado da parte
inicial e ampliam consideravelmente a vocação temática
da linha melódica. Não se pode deixar de reconhecer,
contudo, uma dimensão figurativa que permanece nas oposições
dos tonemas [Ex. VII], e mesmo as duas marcas passionais
expressas com lirismo nas durações agudas dos fragmentos
da esquerda [Ex. VIII].
A permanência mais prolongada da voz nessas duas
sílabas preserva uma espécie de seqüela passional, provocada
pela idéia de afastamento (metafórico) da terra. Apesar
de o contexto geral apresentar essa busca da fecundidade
inter-planetária como uma solução, há um fundo, digamos,
dialético, que identifica essa nova aquisição com um
outro tipo de perda (“outras espécies de dor” na versão
da letra não descrita aqui). E tal equação vem formulada
nos versos: “E quanto mais longe da terra/tanto mais
longe de Deus”. Uma vez mais, a tensão de freqüência
representa a tensão de afastamento de um objeto de valor.
No plano figurativo, esta composição adota decididamente
a asseveração. Nos dois primeiros segmentos, por se
tratar das constatações (ou condições) iniciais que
irão deflagrar as situações posteriores. No terceiro
segmento, a asseveração é a voz imperativa que procede
a recomendação ou a proposta de ação. Nos últimos, por
fim, reflete o resultado e a avaliação feita pelo próprio
enunciador. Aqui o comportamento das inflexões segue
o padrão lógico de entoação das frases enunciativas,
em que a primeira seqüência se eleva para valorizar
o aspecto conclusivo da descendência final (cf. Ex.
VII).
Se, no quinto segmento, o tonema final aparece invertido,
é mais por acréscimo que por mudança de sentido. A asseveração
persiste na base harmônica sendo, inclusive, reforçada
pela sétima de dominante que prepara a resolução do
último acorde. O emprego de uma forma tonêmica ascendente
para atingir a tonalidade tem, aqui, um valor temático
no sentido de “chamar” musicalmente os improvisos vocais
onomatopaicos, pronunciados em “uou, uou...” [Ex. IX].
Ex. VI – Sentido reiterativo da melodia.

Ex. VII – Dimensão figurativa nas oposições dos tonemas.

Ex. VIII – Primeiro fragmento (Segmentos 4 e 5).

Ex. IX – Segmento 5.

Finalmente, o texto desta segunda parte só poderia
confirmar os desígnios da melodia. Assim como esta se
cristaliza em quatro temas, agrupados dois a dois no
quarto e no quinto segmentos, o texto engendra a imagem
do camponês-lavrador do espaço sideral, qualificando-a,
igualmente, com quatro motivos de conteúdo: “louco dos
astros”, “solto nos céus”, “longe da terra” e “longe
de Deus”.
A esse processo de engendramento de imagens chamamos
iconização, num sentido talvez mais próximo da semiótica
européia(5) que da americana. Temos iconização toda
vez que aparecem diversos traços para configurar a mesma
imagem, o mesmo objeto, o mesmo personagem ou até o
mesmo sentimento. De qualquer forma, a característica
marcante desse processo é a enumeração lingüística desses
traços que faz ressoar as reiterações dos temas melódicos.
Tudo ocorre como se a canção engendrasse um novo signo,
onde o plano da expressão se define pela recorrência
dos temas melódicos e o plano do conteúdo pela enumeração
dos traços que compõem um ícone integral. Se a melodia
assim concebida mexe diretamente com o nosso corpo pelos
canais auditivo e tátil, o texto atinge nossa mente
por esses mesmos ou por outros canais sensitivos. Nesta
canção, por exemplo, as movimentações descritas na dimensão
espacial evidenciam um apelo visual:
Assim, a dinamização do andamento melódico mais a
equivalência de suas unidades rítmicas para excitar
o processo reiterativo passam a ser o tema musical do
camponês-lavrador impregnando-se de suas características.
Este é o resultado geral da tematização que ocupa, nesta
composição, o primeiro posto na hierarquia das estratégias
persuasivas. De qualquer modo, é pela presença concomitante
e coerente dos outros dois processos (passionalização
e figurativização) preenchendo outras esferas do seu
sentido, que “Amarra o teu arado a uma estrela” integra-sena
economia geral de sua linguagem, renovando, a cada início
de novela (por mais que se exacerbe essa repetição pragmática),
a eficácia da canção popular.
NOTAS
(1) Tenho proposto um mapeamento dos contornos melódicos
a partir da própria letra da canção, como um campo de
referência aos nossos comentários, esperando que o leitor-ouvinte
elabore mentalmente o exemplo. A acentuação natural
das palavras sugere, por si só, um tratamento rítmico
que se define num contexto de familiaridade com a música.
Os espaços entre as linhas determinam as gradações em
semitons, enquanto as linhas mais espessas delimitam
a região de tessitura ocupada pela canção.
(2) Gravação no. 63558912, in: O salvador da pátria,
Som Livre, 1989. Escolhemos, desta canção, o trecho
consagrado pela citada novela da Rede Globo de TV. A
música completa compreende duas versões de texto referentes
à mesma melodia. Nossa escolha se deve: a) à provável
familiaridade do leitor com este trecho, b) à similaridade
dos procedimentos de composição nas duas versões e,
por fim, c) à intenção de não estender demasiadamente
os limites da análise. Transcrevo, aqui, a versão não
considerada:
“Se
os frutos produzidos pela terra
Ainda
não são tão
Doces
e polpudos quanto as peras
Da
tua ilusão
Amarra
o teu arado a uma estrela
E
os tempos darão
Safras
e safras de sonhos
Quilos
e quilos de amor
Noutros
planetas risonhos
Outras
espécies de dor”
(3) “Le rôle du temps dans le discours musical”,
in: Sémiotique en jeu, Paris/Amsterdan/Philadelphia,
Hadès-Benjamins, 1987, p. 127.
(4) Esses verbos modais adotados por Tarasti pertencem
ao discurso da semiótica narratológica que vem sendo
erigida por A.J. Greimas e sua equipe em Paris. O modo
/ser/ corresponde aos estados pré ou pós-narrativos,
em queo sujeito se encontra em conjunção ou disjunção
com seus objetos de valor. O modo /fazer/ corresponde
às ações que transformam esses estados. Daí seu caráter
dinâmico em oposição à condição geralmente estável e
passiva definida pelo /ser/. Tarasti transfere esses
conceitos para o domínio da música erudita. Penso que
sua derivação ganharia um peso ainda maior no terreno
da canção popular, onde melodia e texto são regidos
pelos mesmos princípios.
(5) Cf. GREIMAS, A.J. & COURTÈS, J. Sémiotique
– dictionnaire raisonné de la théorie du langage, Paris,
Hachette, 1979, p. 178.
Composições citadas com seus autores
e data de lançamento
Acorda Amor, Chico Buarque, 1974
Águas de Março, Tom Jobim, 1974
Beleza pura, Caetano Veloso, 1979
Cotidiano, Chico Buarque, 1971
Conversa de botequim, Noel Rosa/Vadico, 1935
Da maior importância, Caetano Veloso, 1973
Falsa baiana, Geraldo Pereira, 1944
Garota de lpanema, Tom Jobim/Vinícius de Morais,
1963
O escurinho, Geraldo Pereira, 1954
O que é que a baiana tem, Dorival Caymmi, 1939
Palco, Gilberto Gil, 1981
Pedro Pedreiro, Chico Buarque, 1966
Refazenda, Gilberto Gil, 1975
Sinal Fechado, Paulinho da Viola, 1969
Você não entende nada, Caetano Veloso, 1971
Você não soube me amar, EvandroMesquita, 1983
Luiz A. Tatit é cancionista compositor do
grupo RUMO e professor no Departamento de Lingüística
da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
da Universidade de São Paulo. Formado em Música pela
ECA/USP e em Letras pela FFLCH/USP, vem se dedicando
aos estudos semióticos e à sua aplicação na canção popular
brasileira. Autor de uma dissertação de Mestrado, Por
uma semiótica da canção popular, e uma tese de Doutorado,
Elementos semióticos para uma tipologia da canção popular
brasileira, ambas nessa linha de pesquisa. Conclui,
no momento, um trabalho de análise de 24 canções significativas
do repertório brasileiro dos anos 30 aos nossos dias:
Composição de canções no Brasil.
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