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DIFERENÇA E REPETIÇÃO: A POLIFONIA
SIMULADA NA “SEQUENZA VII” PARA OBOÉ, DE LUCIANO BERIO
Silvio Ferraz
Introdução
As Sequenzas para instrumento solo do compositor
Luciano Berio compõem sem dúvida um ponto de referência
fundamental para a escrita instrumental contemporânea.
Numa série de dez peças, aparentemente escritas espontaneamente,
de improviso, o compositor encerra uma análise bastante
pertinente da história da composição para instrumento
solo na música ocidental. Nessas peças a linguagem virtuosística
é claramente revisitada.
Dotando cada uma dessas peças de uma pulsação de
acontecimentos quase ininterrupta, procedimentos os
mais diversos perseguem o jogo esquecido da tensão e
do relaxamento tonais. Nasce daí o aspecto orgânico
quase fisiológico dessas peças, onde aflora a constante
alternância entre equilíbrio e desequilíbrio, espera
e resoIução.
Bach–Berio: Partitas, Suites-Sequenzas.
O intuito polifônico
Entre os diversos fatores que orientaram o compositor
Luciano Berio ao compor as suas Sequenzas está sem dúvida
a intenção de desenvolver polifonicamente procedimentos
aparentemente monódicos(1).
O seu “ideal” eram as melodias polifônicas de Bach(2),
onde com o uso de instrumentos, ou mesmo de discursos
monódicos, simularia então uma textura polifônica.
Para a realização deste intuito as respostas estavam
justamente no “ideal” de Berio.
Nas obras de Bach, mais precisamente em suas Partitas
para violino solo e Suites para violoncelo, a textura
de “melodias polifônicas” é bastante clara.
Nessas peças, as melodias são facilmente identificáveis.
Funcionalmente apresentam-se com as mesmas características
dos contrapontos realizados em peças para conjuntos
instrumentais polifônicos. Distribuídas em regiões específicas
e delimitadas da tessitura, as diversas vozes dividem-se
em sujeitos, respostas, contrapontos, base harmônica,
etc. De forma não restritiva, mas determinante, ao grave
cabe a função de qualificar harmonicamente a peça e
ao agudo e médio sua condução melódica linear.
Assim, dentro dos padrões melódicos e harmônicos
do Barroco, Bach garante a legitimidade de suas “melodias
polifônicas” de forma bastante particular sem no entanto
fugir a uma linguagem coletiva e pertinente à sua época.
Organicidade não tonal
Berio não dispõe dos artifícios de Bach. Distante
de uma composição musical de tradição tonal, suas obras
dispõem de um universo referencial que a princípio é
a própria obra.
Cada nota é trabalhada enquanto ícone da própria
composição, uma auto-referência constante. O compositor
articula-se numa linguagem harmônica e melódica praticamente
individual, onde os elementos subjetivos são sempre
objetivados, de forma que para cada componente da peça
existe uma razão estrutural e formal determinante.
O compositor garante a audição de suas poli-melodias
tornando claros aqueles elementos que participam do
conjunto de forças que dá movimento à peça.
Mesmo estando ligada a uma linguagem composicional
onde a forma e a estrutura são condições fundamentais
para a análise, a compreensão de sua dinamicidade polifônica
está voltada para uma vivificação do orgânico. As análises
formal e estrutural não são pertinentes à compreensão
desse movimento interno à peça.
De alguma maneira, Berio faz uso de uma linguagem
coletiva e comum à sua cultura. Assim como Bach, capta
os artifícios necessários para garantir às suas Sequenzas
características polifônicas, especialmente naquelas
escritas para instrumentos monódicos.
Diferença e repetição
Num artigo de 1961 intitulado “Forme”, Berio nota
que:
“'...o ouvinte encontra, /.../ na contemplação de
ordem linguística, uma confirmação da harmonia geral
legitimada por uma linguagem comum, mas não escuta a
forma. A ‘formation de la forme’ /.../ não é jamais
levada em conta, ao invés disso, percebe apenas os artifícios
do suporte formal – consonância/dissonância, tensão/relaxamento,
espera/resolução – tornando cada vez mais agudo o desejo
de um falso equilíbrio”(3).
Dada tal compreensão da percepção que o texto de
Berio apresenta, pode-se acreditar na pertinência de
uma análise das Sequenzas sem abordar a forma musical.
As dualidades relatadas enquanto “artifícios do suporte
formal” praticamente remetem à noção primeira de diferença
e repetição. Daí o desejo do equilíbrio (a repetição:
a associação de elementos) e sua frustração (diferenças:
a intensidade com que novos eventos aparecem)(4).
Para além de um nivelamento cultural da percepção,
a diferença e a repetição qualificam enfim a própria
noção de referência. Assim, na obra de Berio, o que
antes era qualidade da percepção humana transmuta-se
em fundamento da composição musical. Distante do sistema
de referências tonal (suas estruturas harmônicas, melódicas
e formais), as Sequenzas têm na diferença e na repetição
o seu elemento orgânico, e no “desejo de um falso equilíbrio”
o ponto de apoio necessário para gerar a sensação de
suas “polifonias”.
Sequenza VII
A Sequenza VII per oboe ilustra claramente esses
procedimentos. A diferença e a repetição de seus elementos
sonoros e musicais são constantes e fundamentam as próprias
características da peça como: o jogo entre contínuo
e descontínuo; a impressão de uma tensão crescente na
peça; a textura em processo de criação e recriação;
a sensação polifônica intencionada pelo compositor.
A repetição
Essa Sequenza é introduzida por uma nota referência,
o Si natural, que se repete ao longo da peça [Ex. I].
A cada repetição esta nota se atualiza em pequenas desigualdades
dada suas relações com os diversos momentos sonoros
que a peça desenrola.
Com novas repetições as diferenças se multiplicam.
Eventos singulares variáveis contrapõem-se constantemente
à nota inicial que, por sua vez, também se eleva à condição
de evento musical, o único evento constante da peça
[Ex. II].
Constituem-se então as referências para a escuta
polifônica que se constrói.

Ex. I – Compassos 2, 3 e 4 (linha
1). Como uso de ataques e intensidades diferentes, obtém-se,
numa mesma altura, o princípio elementar para simular
uma textura polifônica.

Ex. II – Dois exemplos de simulação polifônica onde
o Si natural desempenha o papel de evento constante:
a) compassos 3 e 4 (linha 12); b) compassos 8, 9 e 10
(linha 8)
A escuta polifônica
Na busca do “falso equilíbrio” o ouvinte se vê diante
de uma linha praticamente fragmentada e descontínua.
No jogo constante de diferenças e repetições cada elemento
torna-se múltiplo. Compõem-se então eventos os mais
diversos. A linearidade dos acontecimentos é evitada
e assim as possíveis melodias se embaralham. As repetições
(nível associativo) e as diferenças (contraposição de
eventos) tanto evidenciam quanto ocultam linhas melódicas
aparentemente intercaladas [Ex. IIIa]. Persegui-las
torna-se quase que frustrante, ou melhor, torna-se uma
rica experiência de múltiplas escolhas onde o que se
busca é sempre evitado [Ex. IIIb].

Ex. IIIa e b – Duas interpretações
do jogo polifônico de um mesmo momento (compassos 4
a 6, linha 10). Note-se que o único evento idêntico,
nos dois exemplos, é o do Si natural reiterado (evento
a).
A maneira com que aparecem os elementos quase sempre
constantes, tanto isola quanto liga fragmentos de eventos
os mais diversos.
A presença de Bach é patente. Porém, se nas Partitas
e Suites de Bach, os elementos sonoros estão um em função
do outro, na Sequenza VII eles apenas se contrapõem.
O que era em Bach uma soma de elementos musicais torna-se
em Berio uma multiplicação de eventos.
Como foi visto antes, a similaridade textural dos
elementos sonoros empregados na peça de Berio abre à
escuta a possibilidade de que sejam encadeados ou não
em eventos diversos. Cada pequeno grupo de notas torna-se
significativo qualificando-se em evento. O contraste
intenso e os momentos geralmente curtos afastam gradativamente
a possibilidade de grandes linhas melódicas intercaladas.
Proliferam então microcosmos que se intensificam num
grande crescendo, conduzindo a peça para um ponto em
que cada nota, isolada, torna-se um evento. Eventos
singulares em meio ao intenso jogo de contrastes que
caracteriza a peça [Ex. IV]. Surge daí a possibilidade
de se obter uma sensação polifônica. Da tentativa de
ligar, organizar os eventos; da necessidade de equivaler
ou diferenciar esses padrões (“patterns”) sonoros, aflora
a “melodia polifônica” de Berio.

Ex. IV – Exemplo de um dos momentos
em que cada nota pode ser considerada enquanto evento
singular incompleto (compassos 4 e 5, linha 13).
Contrastes
Na Sequenza VII a tessitura, as formas de ataque,
a tensão musical, são trabalhadas de maneira a sempre
evidenciar os eventos como tais [Ex.V]. Diverso do uso
que Bach fez desses parâmetros em suas peças, aqui não
se reservam uma ou outra região da tessitura, formas
de ataque ou envelopes dinâmicos a alguns poucos eventos
lineares.
Excetuando-se o Si natural com que se inicia a peça,
nenhum outro elemento é apresentado como uma das vozes
de um contraponto, digamos, Bachiano. Os eventos caracterizam-se
apenas por suas diferenças. De cada nova repetição nascem
novas diferenças sendo possível, ao longo da peça, associar
os mais diversos eventos ou elementos sonoros num contraponto
polifônico simulado. Os parâmetros citados são articulados
sempre de modo a gerar o contraste, a quebrar a continuidade
dos eventos, de maneira que o número destes se multiplique
no jogo de diferenças e repetições que permeiam a peça.
Não se tem aqui a ilusão de eventos intercalados.
Como já foi dito, estes aparecem isolados, ligados por
pura falta de ligação, o que dá também a sensação de
uma tensão crescente a quem ouve a peça.

Ex. V – a) Eventos qualificados por
diferenças de intensidades e forma de ataques (compassos
6 a 9, linha 1). b) Eventos qualificados por regiões
de tessitura (compassos 4 a 6, linha 10).
Contração e expansão
Resultado da diferença e da repetição de sons e patterns
sonoros, a instabilidade dos eventos é constante. A
todo instante o equilíbrio é rompido não só por contrastes
bruscos como também pela contração e expansão do tempo
musical. O jogo polifônico dos eventos intensifica-se
e estes se multiplicam rapidamente.
Sem um desenvolvimento linear patente a peça apresenta
eventos ora extremamente breves, ora amplos [Ex. VI].
Não se encontra em nenhum momento um ponto de equilíbrio,
uma linha de desenvolvimento previsível. Os eventos
são sempre instáveis. Se em algum momento propõem um
desenvolvimento próprio logo este é interrompido, reiniciando-se
o jogo de contrastes [Ex. VII].

Ex. VI – a) Pequenas passagens contrapostas
ao Si natural (compassos 10 a 14, linha 9). b) Contraponto
amplo de um evento com o Si natural (compassos 9 a 11,
linha 4).

Ex. VII – Dois exemplos de contrapontos
bruscamente interrompidos: a) compassos 3 a 4, linha
12; b) compassos 1 e 2, linha 9.
Textura e material sonoro
Ao longo da peça são repetidos um número limitado
de sons, padrões melódicos (“patterns”) e articulações.
A textura geral é própria à repetição e reiteração de
sons. Mas a riqueza de possibilidades desses poucos
elementos dá à peça o seu próprio desenvolvimento. A
repetição de um material sonoro rico de possibilidades
de variação autentica sua multiplicidade imanente. A
cada repetição afloram as desigualdades. Atesta-se a
intensidade do diferente em novos eventos e nasce a
“polifonia simulada”.
Garante-se assim não só a unidade estrutural e textural
da peça como também o seu desenvolvimento, a sua multiplicação
numa estrutura formal sempre em criação e recriação.
Traduzindo-se numa textura em constante transformação,
onde com o mínimo de elementos sonoros, com uma textura
sempre similar, o som e os se multiplicam e a polifonia
aflora.
Conclusão
A diferença e a repetição fundamentam assim a escuta.
A polifonia nasce do contraste e da associação de sons
entre si. A peça forja sua organicidade sem apelar para
os padrões orgânicos pré-estabelecidos pela tradição
seja essa tonal ou modal. Berio cria uma obra onde diversos
níveis de tensão, equilíbrio, instabilidade, surgem
da repetição de um único som, ou melhor, de uma única
textura sonora.
Sem se opôr à natureza da percepção e compreensão
humanas, a Sequenza VII per oboe amplia o conceito de
composição instrumental. Revela à música de nosso século,
à arte em geral, uma linguagem estabelecida antes de
mais nada no próprio ser humano e sua existência.
NOTAS
(1) Ver: ALBÈRA, P. “Introduction aux neuf Sequenzas”,
pp. 90-122.
(2) Ver: DALMONTE, R. Luciano Berio.
(3) Ver: BERIO, L. “Forme” (trd. franc.), pp. 36-40.
(4) Ver: DELEUZE, G. Nietzsche et Ia philosophie.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALBÈRA, Philippe. “Introduction aux neuf sequenzas”,
in: Contrechamps no. 1, Lausanne, Editions l’Age d’Homme,
1983, pp. 90-122.
BERIO, Luciano. “Forme”, in: The modern Composers
and his work (Toronto, JBK, 1961); trad. franc., in:
Contrechamps no. 1, Lausanne, Eds. l’Age d’Homme, 1983,
pp. 36-40.
DALMONTE, Rossana. Luciano Berio, Paris, J.C. Lattés,
1983.
DELEUZE, Gilles. Logique du sens (Paris, Ed. Minuit,
1969); trad. bras., Lógica dos sentidos, (“Coleção Debates”),
São Paulo, Ed. Perspectiva, 1974.
DELEUZE, Gilles. Nietzsche et la philosophie, Paris,
PUF, 1962.
Silvio Ferraz (1959) estudou composição com
Willy Correa de Oliveira e Gilberto Mendes. Formado
em Música pela Universidade de São Paulo (USP), atualmente
é bolsista da FAPESP para realização de mestrado em
composição. Vem atuando como compositor desde 1978,
tendo organizado em 1980 o “Io Encontro de Jovens Compositores”,
junto ao Departamento de Música da Escola de Comunicações
e Artes da USP.
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