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ANÁLISE FORMAL DO QUARTETO DE CORDAS
Nº2 (PRIMEIRO MOVIMENTO), DE G.LIGETI
Rogério Vasconcelos Barbosa
Introdução
Com a dissolução progressiva das características
estruturais da tonalidade clássica na virada do século
XX, notou-se uma revolução nas hierarquias perceptivas.
Como raramente os contrastes tonais entre as seções
eram claros e suficientes para a articulação de uma
forma, tornaram-se necessárias medidas técnicas auxiliares.
Entre as alternativas mais usadas estava um deslocamento
da percepção para uma refïnada organização textural.
Através de um cuidadoso jogo de variações na densidade
e distribuição dos elementos sonoros, criava-se toda
uma escala de contrastes de graus variados, necessária
à estruturação do discurso musical.
Essa transformação na sintaxe musical
tornou obsoletos vários conceitos tradicionais como
o de Tema. Por um lado surgiram obras sem Tema, ditas
Atemáticas. Por outro, onde o Tema sobrevivia, apresentava-se
quase sempre transformado. Muitas vezes o Tema era um
agrupamento de várias idéias diferentes, que eram posteriormente
separadas e desenvolvidas.
As formas se transformaram juntamente
com a mudança da sintaxe, atendendo aos novos problemas
e objetivos. Quando se fala em Sonata no séculoXX, seguramente
se está referindo a algo muito diferente da Sonata Clássica
de Haydn e Mozart. O termo se legitima, entretanto,
em função da permanência de certas características estruturais
em grande parte das Sonatas dos séculos XVIII ao XX.
Dentre essas características se destaca a noção de desenvolvimento
como um processo formal de derivação em seqüência de
estruturas, umas das outras. Esse processo formal se
encontra tanto nas Sonatas clássicas como nas modernas
e contemporâneas. Por exemplo, desvelaremos sua presença
no primeiro movimento do Quarteto de Cordas nº2, de
G.Ligeti, composto em 1968.
Leitura do primeiro movimento como
uma forma do tipo sonata
CaracterísticasGeraisde uma Sonata
a) Dois ou mais temas contrastantes
(embora tenha havido sonatas monotemáticas).
b) O tema se destaca, com clareza,do
contexto e é desenvolvido.
c) O desenvolvimento é um processo
de derivação de estruturas novas a partir de fragmentos
extraídos dos temas. Esses fragmentos sofrem variadas
transformações e são remontados segundo novas ordens.
d) Quase sempre as várias partes da
seção Desenvolvimento(1) organizam-se segundo
uma curva geral de crescendo e adensamento(2).
e) O Desenvolvimento apresenta grandes
contrastes em seu início. Esses contrastes têm como
função gerar as tensões necessárias para deflagraro
grande processo de transformação que levará, com freqüência,
a uma região culminante.
f) A curva geral da forma é Exposição-Desenvolvimento-Reexposição,
havendo constantemente seções secundárias de Introdução,
Transições e Coda.
Notaremos no primeiro movimento do
Quarteto de Ligeti a presença dessas características
acima descritas. Entretanto é importante não esquecer
que, se por um lado isso nos permite ver nesse movimento
uma forma do tipo Sonata, por outro todo o passado aqui
se encontra transformado. É a relação de transformação
do passado que determina, em grande parte, o caráter
expressivo da música.

Ex. I -Contraponto de texturas complexas
em faixas distintas da tessitura, Violinos I e II (compasso
l5) e Violoncelo e Viola (compasso16).
Características da Sonata no primeiro
movimento do Quarteto de Ligeti
A) Presença de dois temas contrastantes
: primeiro tema-compassos 15a22, segundo tema-compassos
23 a 35.
Primeiro Tema
Neste tema ouvem-se duas
texturas extremamente contrastantes em sucessão imediata
(3). A primeira textura (compassos 15 a,
18) é uma irrupção de movimento em gestos fortíssimos.
Esses gestos se alternam entre os violinos e os instrumentos
mais graves, num contraponto de faixas (4), como
pode ser observado no [Ex. I]. Na segunda textura (compassos
19 a 22), um acorde de três sons se expande calmamente
no registro e em densidade, terminando com oito sons.
SegundoTema
Sobre um pedal grave, uma faixa de
movimento contínuo ascende vigorosamente no registro.
Seu ponto mais agudo é pontuado pela apresentação de
uma figura melódica no Violino I.
É interessante observar a preocupação
em reduzir ao máximo as características diferenciadas
do tema: ao invés de um desdobramento da linha melódica,
tão caro à tradição, reduz-se a um diáogo entre duas
figuras (Violino I no compasso 32 e Violoncelo no compasso
35) [Ex. II].
Relação entre os Temas
Os dois temas se contrastam com clareza,
embora tenham vários elementos integradores. Enquanto
o primeiro tema enfatiza a oposição entre a irrupção
do movimento e sua retenção abrupta através da justaposição
de duas texturas contrastantes, o segundo tema visa
justamente a integração dos elementos dinâmicos e estáticos
através de uma superposição na forma de uma faixa contínua
sobre um pedal. É interessante observar que essa faixa
contínua é constituída por uma reorganização das faixas
interrompidas do primeiro tema. A montagem cuidadosa
de vários fragmentos de faixas gera, agora, uma estrutura
menos diferenciada, ou seja, há uma ênfase em sua percepção
como um Processo, como um tipo de movimento. Entretanto,
uma observação cuidadosa revelaria os traços desta montagem
nas pequenas pausas e acentos (5).
B) Todas as demais seções do primeiro
movimento do Quarteto são derivações próximas ou distantes
de elementos dos temas. No entanto, ao contrário dos
temas, apresentam uma maior tendência a se fundir no
fluxo musical. São sentidas mais fortemente como regiões
de transformação.
C) A seção Desenvolvimento desse primeiro
movimento pode ser dividida em duas grandes partes:
compassos 38 a 48 e compassos 49 a 64.
Primeira parte
Os fragmentos que constituíam as faixas
gestuais do primeiro tema são transformados de modo
a se obter uma faixa contínua. Essa faixa surge de dentro
dos acordes que articularam o fim da Exposição.
Descreve um crescendo de sonoridade
até que se afirma com nitidez a partir do compasso 43.
Entre suas característicasgerais se destaca a natureza
ondulante obtida através de variações no registro e
na velocidade.

Ex. II -Diálogo entre as fïguras do
Violino I (comp.32) e Violoncelo (comp.35)
Segunda parte
Esta seção se subdivide claramente
em três fases. A primeira fase (compassos 49 a 52) se
caracteriza, por um contraponto entre as figuras melódicas
do segundo tema (ampliadas na formação de pequenas linhas
melódicas) e os fragmentos gestuais do primeiro tema
(aqui so apresentando em uníssono). A segunda fase (compassos
52 a 60) se caracteriza pelo desdobramento das figuras
do segundo tema em amplas linhas melódicas, que se complementam
na formação de uma textura polifônica. Na sucessão linear
das figuras melódicas, observa-se uma cuidadosa gradação
de quiálteras (embora de maneira menos evidente que
nas faixas do primeiro tema) resultando num tempo flexível,
com rubatos (6). A terceira fase (aproximadamente
compassos 60 a 64) se caracterlza como culminânciade
todo o desenvolvimento. É alcançada gradualmente a partir
de um crescendo geralde dinâmica que se inicia na fase
anterior e se acentua a partir do compasso 60. Além
do nível dinâmico fortíssimo, se caracteriza por uma
elevada densidade de ataques.
D) As duas grandes partes do Desenvolvimento
apresentam características evolutivas. A primeira parte
cresce em densidade com a entrada dos Violinos. Além
disso, as oscilações rítmicas da Viola e do Violoncelo
crescem em âmbito. A segunda parte cresce em dinâmica
e em densidade (apartirdo compasso 60). Sua terceira
fase é sentida como clímax. Essa impressão de culminância
é ainda acentuada pela articulação no compasso 64 com
a súbita aparição de uma textura fortemente contrastante.
E) A seção Desenvolvimento do primeiro
movimentodo Quarteto apresenta contrastes acentuados
em seu início e tende a uma homogeneidade na região
culminante. Observara função articulatória do compasso
48, bem como os fortes contrastes entre elementos dos
primeiro e segundo temas nos compassos 49 a 52 [Ex.
III]. Já na fase final do Desenvolvimento (compassos
60 a 64) encontra-se uma textura homogênea, onde a fusão
dos elementos permite uma grande sonoridade.
F) Esquema Geral da Forma :
As seções principais dessa forma são
Exposição, Desenvolvimento e Reexposição. Essas seções
são claramente articuladas entre si por texturas de
notas longas em um registro extremo agudo.
Como já abordamos anteriormente a
Exposição dos dois temas e o Desenvolvimento, resta-nos
agora comentar sobre a Reexposição.
Reexposição (compassos 69 a71)
Curiosamente nesse Quarteto só se
reexpõe o primeiro tema: apenas um gesto descendente
em uníssono, subitamente retido pelo acorde que agora
se amplia de uma vez (ao invés de progressivamente,
como na Exposição). A Reexposição é um resumo das principais
características do primeiro tema.
As secões secundárias dessa forma
são Introdução, Transições, Coda e Seção de fechamento
da Coda. Com exceção da Coda, todas as seções secundárias
se localizam no registro extremo agudo. Esse fato cria
uma grande unidade entre elas.
Introdução (compassos 01 a 14)

Ex.III Função articulatória do comp.48
e contrastes entre primeiro e segundo temas
As introduções das Sonatas clássicas
tinham como função preparar a atmosfera tonal das peças.
Apresentavam-se com freqüência num andamento lento,
contrastante com o movimento geral Allegro. É lmportante
observar que no decorrer do século XIX houve uma preocupação
crescente em se fundir a Introdução no corpo da obra,
de modo que ela desembocasse na Exposição.
A Introdução do primeiro movimento
do Quarteto nº2 de Ligeti apresenta algumas dessas características.
Após um ataque inicial em pizzicato, se ouve uma nota
sustentada (7) no extremo agudo do Violino
II. Essa nota sustentada se perturba progressivamente
com a aparição de figuras ritmicamente movidas. A freqüênciade
aparecimento dessas figuras cresce, de modo que nos
compassos 13 e 14 já se ouve uma textura muito densa.
O adensamento progressivo cria uma sensaçãode direcionamento
na Introdução, que desemboca no primeiro tema no compasso
15. Se observarmos atentamente os compassos 13 e 14,
constataremos lá a presença das faixas que constituíram
os gestos do primeiro tema em forma embrionária.
Diferentemente das Introduções clássicas
que se davam num tempo constrastante com o resto do
movimento, aqui se observa o contraste principal no
registro.
Transições (compassos 36 a 43 e compassos
64 a 68)
As Transições clássicas tinham como
função separar seções diferentes. Algumas Transições
utilizavam figuras sonoras (fragmentos melódicos, rítmicos,
etc.) dos temas. Outras tinham suas próprias figuras.
O importante era que o material se
organizasse de maneira muito simples de modo facilmente
apreensível pelo ouvido. Este, então, poderia se deter
nosc oloridos tonais modulatórios. Por isso, freqüentemente
as Transições eram compostas apenas com acordes sustentados
em sucessão. Outras vezes, apenas com uma seqüênciade
notas longas, orquestradas em oitavas.
No primeiro movimento do Quarteto
de Ligeti constata-se a presençadas notas longas sustentadas
através das Tansições.
A Transição I (compassos 36 a 43)
inicia-se com um som que é sustentado peloViolino I
desde o fim do compasso 32. Entretanto, esse som apenas
se evidencia após uma filtragem brusca das outras partes
instrumentais no compasso 38 (8).Após uma
sucessão de sons sustentados que evoluem descendentemente
desde o agudo, essa seção se dissolve no interior do
Desenvolvimento. É interessante observar essa articulação
por imbricação das secções Transição I e Desenvolvimento.
A Transição II (compassos 64 a 68)
separa com clarcza o Desenvolvimentoda Reexposição.
Novamente aparecem os sons longos sustentados no agudo,
gerando harmonias.
Coda (compassos 72 a 84)
A natureza particular da Coda a diferencia
das demais seções secundárias. Na verdade, a Coda deste
movimento é melhor compreendida se a considerarmos um
segundo Desenvolvimento(9). Melhor ainda,
se a considerarmos uma continuação do Desenvolvimento,
quo havia sido interrompido pela Reexposição. Realmente,
é evidente a semelhança entre a textura final do Desenvolvimento
(comps. 62 a &) e a textura que inicia a Coda (comp.72).
Ex.IV

Ex. IV -Semelhançasentre a textura
final do Desenvolvimentoe a da Coda
Toda a Coda é uma transformação progressiva
dessa textura homogênea. Já no compasso 75 começa a
se notar um acelerando rítmico, reforçado por um decrescendo
dinâmico, e por um estreitamento do registro em cada
instrumento. Quando o estreitamento atinge o máximo
(compasso79), chega-se ao som único. A repetição rítmica
da nota agora é, sentida mais como um timbre, ou seja,
como um trêmulo de arco. A segunda parte da Coda (comps.79a
84) parte do acorde que finaliza a seção anterior e
prossegue num movimento de estreitamento geral do registro
seguindo a escala cromática: o Violino e Viola descem
enquanto o Violoncelo sobe no registro.
Seção de fechamento da Coda (cps.84-88)
Essa seção deriva-se do fim da Coda.Observar
as proporções rítmicas e a escala cromática. Entretanto
articula-se com clareza devido às modificações na textura
(agora se tem uma única parte rítmica) e no timbre (harmônicos
no registro extremo agudo).
Considerações finais
Essa abordagem analítica do Quarteto
de Ligeti se limita a um domínio macroformal, não se
detendo em questõess microestruturais, como por exemplo
a organização das alturas.
Nos pareceu interessante, de início,
observar o relacionamento das várias seções no todo
da obra. À medida que o desdobramento particular do
discurso sonoro nos suscitava associações sempre crescentes
com outras obras, sentimos a necessidade de tecer uma
teia comparativa. Por isso, em vários momentos, destacamos
as semelhanças entre o Quarteto de Ligeti e o repertório
tradicional europeu. Enfim, por razões de clareza expositiva,
resolvemos partir de uma concepção definida da macroforma
e a descrever, progressivamente, desde suas seções principais
até as secundárias.
NOTAS
(1) Diferenciar desenvolvimento enquanto
processo de elaboração de novas estruturas a partir
de outras, e Desenvolvimento enquanto seção formal de
uma Sonata.
(2) Essa tendência vai se acentuando
historicamente a partir de Beethoven. Nas Sinfonias
de Bruckner essa é uma das características mais constantes.
Uma análise atenta dos Quartetos de Corda de Bartók,
Schoenberg e Berg revelaria os mesmos traços.
(3) Sob esse ângulo, lembra o tema
inicial do Quarteto de Cordas Op.130 de Beethoven (primeiro
movimento).
(4) Cada faixa é obtida pelo movimento
paralelo de dois instrumentos (Vln. I e II ou Vla. e
Vc.). Entretanto o paralelismo se dá com uma certa defasagem,
visando a criação de uma textura complexa: observar
a complementaridade cromática e rítmica (superposição
quiálteras diferentes) dos instrumentos de cada faixa.
Ver [Ex. I].
(5) Essa estnrtura de processo evolutivo
no registro, constituída pela montagem de pequenos fragmentos
no tema, e visando à indicação (valorização) de algum
elemento na forma, já' pode ser vista na Sonata Op.111
de Beethoven (Mov.I, cps.23 a 29). Notar uma diferença
importante: enquanto em Beethoven o processo evolutivo
conduz a uma reapresentação do primeiro tema, em Ligeti
culmina com a apresentação da figura melódica do segundo
tema.
(6) Nesse sentido essa passagem evoca
o caráter, em certos trechos, da música de Alban Berg
(por exemplo: "Concerto de Câmara", cps.287
-298, violino solo)
(7) Observar a presença desse mesmo
signo sonoro no Quarteto de Cordas tra 3, (9) Fato muito
comum em viírias Sonatas de Banók (SegundaParte,comp.0l).
de Beethoven.
(8) Ver essa estrutura "filtro"
em Bruckner (Sinfonia nº.6, primeiro movimento, comp.
275, e quarto movimento, comp.64).
Notas sobre o compositor
Gyorgy Ligeti nasceu a 28 de
maio de 1923 na pequena cidade de Dicsöszentmárom (atualmente
Tîrnaveni), na Romênia. Estudou em Budapeste com Ferenk
Farkas. Saiu da Hungria em 1956, pois considerava que
a política cultural nesse país tornava impossível seu
desenvolvimento pessoal. Emigrou para a Áustria e Alemanha
Ocidental, onde se tornou conhecido nos cursos de Darmstadt.
Rapidamente se firmou no cenário internacional da vanguarda
musical. Entre suas obras importantes estão:"Atmosphères"
para orquestra (1961), ''Volumina''para órgão (1961/62),
''Aventuras" para 3 cantores e 7 instrumentistas
(1962), "Lontano" para orquestra (1967), "Quarteto
de Cordas nº2" (1968), "Concerto de Câmara"
para 13 instrumentos (1969/70), etc...
BIBLIOGRAFIA
LIGETI, G.. "Waldlungen der musikalisachen
form", in: Die Reihe, vol.7, Viene, 1960 (trad.
para o espanhol de Conrado Silva,"Transformaciones
dela forma musical").
LIGETI, G.. "Werkeverzeichnis",
Mainz, B.Schott's Sohne, 1977 (Catálogo Schott sobre
a obra impressa de Ligeti, com referências biográficas).
MOLINO, Jean."Fato musical e
semiologia da música", trad. para o português de
M. Vieira de Carvalho, in: Semiologia da Música, Lisboa,
Vega Ltda..
ROSEN, Charles."Sonata Forms",
'W.'W.Norton& Co. Inc., 1980.
Rogério Vasconcelos Barbosa
nasceu em Belo Horizonte (1962). Iniciou seus estudos
de composição com H.J.Koellreutter e Dante Grela. Atualmente
estuda, na Escola de Música da Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG), sob orientação de Oiliam Lanna.
É professor de Análise Musical na Fundação de Educação
Artística, em Belo Horizonte.
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